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21 de julho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

Na exposição que vos acabo de fazer, dei-vos a entender que a mais perfeita participação deste divino mistério é a Comunhão sacramental.
Sabeis, porém, que a Comunhão supõe o Sacrifício. Eis por que, pela assistência ao Sacrifício da Missa, nos associamos já ao mistério do altar.
Daríamos tudo para ter estado ao pé da cruz com a Virgem, S . João e Madalena. Ora a oblação do altar reproduz e renova a imolação do Calvário para perpetuar a sua recordação e nos aplicar os seus frutos.
Durante a Missa devemos unir-nos a Cristo, mas a Cristo imolado. Ele é, no altar, o Agnus tamquam occisus - «o Cordeiro oferecido como vítima» - e é ao Seu sacrifício que Jesus nos quer associar. Vede depois da consagração. O sacerdote, apoiando as mãos juntas no altar (gesto que significa, a união do sacerdote e de todos os fiéis com o sacrifício de Cristo ), faz esta oração; «Nós Vos suplicamos, Deus todo-poderoso, que ordeneis que todas estas coisas sejam levadas ao Vosso altar sublime, à presença da Vossa divina Majestade».
A Igreja põe aqui em relação dois altares; o da terra e o do céu; não porque no santuário dos céus
haja um altar material; mas é que a Igreja quer indicar que há só um sacrifício: a imolação que misticamente se realiza na terra é uma só com a oblação que Jesus Cristo, nosso Pontífice, faz de Si mesmo no seio do Pai, a quem oferece por nós as satisfações da Sua Paixão.
«Estas coisas, diz Bossuet, são na verdade o corpo e o sangue de Jesus, mas são este corpo e este sangue com todos nós, com nossos votos e orações; e tudo isto junto forma uma mesma oblação».
Assim, neste momento solene, somos introduzidos ad interiora velaminís - no santuário da Divindade -,  mas somo-lo por Jesus e com Ele; e ali, diante da Majestade infinita, na presença de toda a corte celestial, somos apresentados com Cristo ao Pai para que o Pai «nos cumule de todas as graças e bênçãos celestes »: Omni benedictione caelesti et gratia repleamur.
Oh! Se a nossa fé fosse viva, com que respeito assistiríamos a este Santo Sacrifício! Com que cuidado procuraríamos purificar-nos de qualquer mancha, a fim de sermos menos indignos de entrar, após o nosso chefe, no Santo dos Santos, para ali sermos, com Cristo, « hóstia viva»! Como muito bem diz S. Gregório, Jesus Cristo só será nossa hóstia quando nos oferecermos a nós mesmos, para participarmos, pela nossa generosidade e pelos nossos sacrifícios, na Sua vida de imolação: « Tunc ergo vere pro nobis hostia erit Deo, cum nos ipsos hostiam fecerimus» .
O sacrifício eucarístico dá-nos o Sacramento. Só unindo-nos à Vítima é que participamos perfeitamente do Sacrifício. Na oração que vos acabo de explicar, a Igreja pede que sejamos «cheios de toda a graça e bênção celeste», mas com a condição de «nos associarmos a este sacrifício, recebendo o Corpo e o Sangue " de Jesus: Quotquot ex ac altaris participatione sacrosanctum Filíi tui corpus et sanguinem sumpserimus.
Portanto, só pela Comunhão é que penetramos perfeitamente nos pensamentos de Jesus, realizamos inteiramente os desejos do Seu coração ao instituir a Eucaristia: «Tomai e comei»; «se não comerdes a carne do Filho do Homem, não tereis a vida em vós». A Comunhão é o primeiro dos deveres eucarísticos.
Mas aproximemo-nos deste banquete eucarístico com as melhores disposições. Sabeis muito bem que
este divino Sacramento produz os seus frutos na alma que o recebe em estado de graça e com reta intenção. Mas sabeis também que a abundância dos seus frutos é proporcional ao grau de fervor de cada um.
Já vos expliquei largamente noutro lugar, como estas disposições se reduzem à fé, confiança e abandono de nós mesmos a Cristo e aos membros do Seu corpo místico. Não vou agora repetir o que já ficou dito.
Há, todavia, uma disposição a que me quero referir aqui, porque nos é indicada pela própria Igreja na oração do SS. Sacramento; é a veneração: «Dai-nos, Senhor, uma tal veneração pelos sagrados mistérios do Vosso Corpo e Sangue, que possamos sentir constantemente em nós os frutos da Vossa Redenção»: Ita nos corporis et sanguinis tui sacra mysteria VENERARI, ut redemptionís tuae fructum in nobis jugiter sentiamus.
A Igreja pede que «veneremos» Jesus Cristo na Eucaristia. E qual a razão? É dupla.
Primeiramente, porque Jesus Cristo é Deus.
A Igreja fala de «sagrados mistérios ». A palavra, «mistérios» indica que sob as espécies eucarísticas se oculta uma realidade; ao acrescentar «sagrados», dá-nos a entender que esta realidade é santa e divina. Com efeito, Aquele que se oculta na Eucaristia é Aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, é o Ser infinito. o Todo poderoso, o princípio de todas as coisas. Se Nosso Senhor nos aparecesse no esplendor da Sua glória, a nossa vista não poderia suportar aquele esplendor. Para se dar a nós, oculta-se, não sob a fraqueza duma carne passível, como no mistério da Incarnação, mas sob as espécies do pão e do vinho. Digamos-Lhe: « Senhor Jesus, por amor de nós, para nos atrairdes a Vós, para Vos tornardes nosso alimento, velais a Vossa Majestade. Mas nada perdeis das nossas homenagens. Quanto mais ocultais a Vossa Divindade, mais queremos adorar-Vos, prostrar-nos diante de Vós com respeito e amor ».
Adoro te devote, latem; Deitas,
Quae sub his figuris vere latitas.
A segunda razão é que Jesus Cristo se humilhou e entregou por nós.
A Igreja lembra-nos que «este admirável Sacramento é o memorial por excelência da Paixão de Jesus
 Cristo». Ora, durante a Sua santa Paixão, Jesus Cristo sofreu humilhações inauditas e ignomínias sem nome.
Mas, diz S. Paulo, por isso mesmo que Jesus Cristo se aniquilou e desceu a tais humilhações, o Pai O exaltou e Lhe deu um nome acima de todo o nome, a fim de que diante d'Ele se dobrasse todo o joelho e toda a língua proclamasse que Jesus Cristo, Filho de Deus, reina para sempre na glória do Pai.
Aprofundemos este pensamento do Eterno Pai que o Apóstolo nos revela. Quanto mais Cristo se humilhou e aniquilou, mais devemos nós, como o Pai, exaltá-Lo neste Sacramento que nos recorda a Sua Paixão; mais Lhe devemos prestar as nossas homenagens. Exigem-no a justiça e o amor.
E afinal de contas, não foi «por nós» que se entregou? Propter nos et propter nostram salutem. Se sofreu, foi por amor de mim; se a Sua alma santíssima foi invadida pela tristeza, pelo tédio e pelo pavor, foi por amor de mim; se suportou tantas injúrias da parte duma soldadesca grosseira, foi por amor de mim; se foi flagelado e coroado de espinhos, se morreu no meio de indizíveis tormentos, foi por amor de mim, para me atrair a Si: Dilexit me et tradidit semetípsum pro me. Nunca nos esqueçamos de que cada um dos episódios dolorosos da Paixão foi antecipadamente disposto pela
Sabedoria e aceite pelo Amor para nossa salvação.
Cristo Jesus, realmente presente no altar, eu me prostro aos Vossos pés. Seja-Vos prestada toda a adoração no Sacramento que quisestes deixar-nos na véspera da Vossa Paixão, como prova do excesso do Vosso amor!
Daremos ainda provas desta «veneração", visitando Jesus no tabernáculo. Realmente, não seria faltar ao respeito abandonar este hóspede divino que está à nossa espera? Ali está, realmente presente, Aquele que estava presente no presépio, em Nazaré, nas montanhas da Judeia, no Cenáculo, na cruz. É Aquele mesmo Jesus que dizia à Samaritana: «Se conhecesses o dom de Deus! Tu, que tens sede de luz, de paz, de alegria, de ventura, se soubesses quem sou, pedir-me-ias água viva . . . aquela água da graça divina que se torna uma fonte a jorrar incessantemente para a vida eterna.».
Ali está, realmente presente, Aquele que disse: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida . . . Aquele que me segue não caminha nas trevas . . .  Ninguém vai ao Pai senão por mim . . . Eu sou a vida, vós os ramos; aquele que permanece em mim e eu nele, esse dará frutos, pois sem mim nada podeis fazer... Não rejeito aquele que vem a mim . . . Vinde a mim, todos vós que es tais sobrecarregados e eu vos aliviarei . . . As vossas almas só em mim acharão repouso .. . »
Ali está o mesmo Cristo que curava os leprosos, acalmava as ondas em fúria e prometia ao bom ladrão um lugar no Seu reino. Ali encontramos o nosso Salvador, o nosso amigo, o nosso irmão mais velho, na plenitude da Sua omnipotência divina, na virtude sempre fecunda dos Seus mistérios, com a infinita superabundância dos Seus merecimentos e a inefável misericórdia do Seu amor.
Ali nos espera, no Seu tabernáculo, não só para receber as nossas homenagens, mas também para nos
comunicar as Suas graças. Se a nossa fé na Sua palavra não é um sentimento vão, iremos até junto d'Ele, pôr a nossa alma no aconchego da Sua santíssima Humanidade. Tende a certeza de que, como outrora, «d'Ele sairá uma virtude» que nos encherá de luz, de paz e de alegria.
Só na medida em que esta atitude de respeito e veneração penetrar profundamente nas nossas almas, poderemos esperar «participar sempre do fruto da Redenção de Jesus». É preciso que esta veneração seja tal que nos faça atingir o dom divino na sua maior plenitude: ITA venerari UT fructum jugiter sentiamus.

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