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6 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

Sabeis que Deus estabelecera como Precursor, encarregado de anunciar aos judeus a vinda do Verbo Incarnado, a João, filho de Zacarias e de Isabel.
 Depois duma existência toda de austeridade, impelido por inspiração divina, João começara, aos trinta anos, a pregar nas margens do Jordão. O seu ensino resumia-se todo nestas palavras: «Fazei penitência, pois se aproxima o reino de Deus». As suas insistentes exortações, juntava o batismo no rio, a fim de mostrar assim ao auditório a necessidade de purificar as almas para as tornar menos indignas da vinda do Salvador. Este batismo só era concedido aos que, reconhecendo-se pecadores, confessavam as suas faltas.
 Ora um dia em que o Precursor administrava <
Quando a alma piedosa se detém a pensar que Aquele que assim se proclama pecador e voluntariamente se apresenta para receber um batismo de penitência é a segunda pessoa da Santíssima  Trindade, diante de Quem os Anjos velam a face e cantam: «Santo, santo, santo», - fica assombrada com tão prodigioso aniquilamento.
 Diz-nos o Apóstolo que Jesus Cristo é «santo, inocente, sem mácula, separado dos pecadores», e eis que o próprio Jesus se apresenta como um culpado, a pedir o batismo da remissão dos pecados! Que mistério é este? 
É que, em todos os Seus estados, o Verbo Incarnado desempenha duplo papel: o de Filho de Deus, em virtude da Sua eterna geração, e o de chefe duma raça pecadora, de quem possui a natureza e à qual vem resgatar.
 Como filho de Deus, pode pretender sentar-se à direita do Pai e aí fruir a glória a que tem direito nos esplendores do céu.
 Mas, como chefe da humanidade decaída, tendo revestido uma carne, culpada na raça, embora puríssima n,Ele -In similitudinem carnis peccati, - não poderá entrar no céu à frente desse corpo mistico, senão depois de ter passado pelas humilhações da Sua vida e sofrimentos da Sua Paixão: Nonne haec oportuit pati Christum, et ita intrare in gloriam suam?.
Possuindo, diz S. Paulo, a natureza divina, Jesus Cristo não pensava cometer injustiça alguma declarando-se igual a Deus em perfeição; mas, por nós, para nossa salvação, desceu a abismos de humilhação; e, por este motivo, o Pai exaltou-O, dando-Lhe este nome de Jesus que encerra a nossa Redenção. Ao exaltar o Seu Filho, «O Pai eleva-nos com Ele ao mais alto dos céus»: Consedere facit nos in caelestibus. É realmente para nos preceder que Jesus Cristo entra no céu: Ubi praecursor pro nobis introivit Jesus. 
Todavia, não entrará lá sem primeiro saldar com o Seu sangue a nossa dívida para com a justiça divina: Per proprium sanguinem introivít ... in sancta, aeterna redemptione inventa. 
É que, de fato, Jesus Cristo vem para nos libertar da escravidão do demônio, em cujo poder a humanidade caíra em consequência do pecado: Qui facit peccatum, servus est peccati; vem para nos salvar dos suplícios eternos que Satanás tinha o poder de nos infligir, como ministro da justiça divina: Ne forte tradat te judici, et judex tradat te ministro.
 Ora o Verbo Incarnado, Homem-Deus, não reali­zará esta Redenção, senão tomando voluntariamente o nosso lugar de pecadores e tornando-se solidário com o nosso pecado, a ponto, diz S. Paulo, de Deus o constituir como um pecado vivo: Eum qui non noverat peccatum, pro nobis peccatum fecit. Se toma sobre Si as nossas iniquidades, terá de suportar também os nossos castigos; deverá, portanto, so­frer aniquilamentos e humilhações sem conta.
 Tal é o decreto eterno.
 Compreendeis agora porque, logo ao princípio da Sua vida pública, no momento de inaugurar de um modo manifesto a Sua missão redentora, Jesus se submete a um ato de profunda humildade, a um rito que O colocava entre os pecadores.
 Ora vede, quando João, esclarecido do alto, reconhece n'Aquele que se apresenta o Filho de Deus, Aquele de quem havia dito: <
Qual é esta justiça? São as humilhações da adorável Humanidade de Jesus que, prestando uma homenagem suprema à Santidade Infinita, saldam completamente todas as nossas dívidas para com a justiça divina. Jesus, justo e inocente, toma o lugar de toda a raça pecadora: ]ustus pro injustis; e, por Sua imolação, torna-se o «Cordeiro de Deus que apaga os pecados do mundo», a «propiciação por todos os crimes da terra». É assim que Ele <
Ao meditarmos estas profundas palavras de Jesus, humilhemo-nos com Ele; reconheçamos a nossa qualidade de pecadores; e, principalmente, renovemos a renúncia ao pecado que marcou o nosso batismo. 
 O Precursor anunciava este batismo, que devia ser superior ao dele, porque seria estabelecido pelo próprio Jesus Cristo: <
Renovemos, pois, muitas vezes a nossa renúncia ao pecado. Sabeis que o caráter do batismo permanece indelével no fundo da nossa alma e, quando reiteramos as promessas feitas na hora da nossa iniciação, uma virtude nova jorra da graça batismal para fortalecer o nosso poder de resistência a tudo o que leva ao pecado, às sugestões do demônio, às seduções do mundo e dos sentidos. Só assim poderemos salvaguardar em nós a vida da graça.
 Deste modo ainda testemunhamos a Jesus Cristo o nosso vivo reconhecimento. <

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