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14 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

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 A graça que o Verbo Incarnado nos mereceu, suportando a tentação, foi a força de vencermos o demônio, de sairmos vitoriosos da luta que necessariamente temos de sustentar, antes de sermos admitidos ao gozo da vida divina na bem aventurança celeste. Jesus Cristo obteve que aqueles que estão unidos a Ele participassem - e participam na própria medida da sua união com Ele - da Sua impecabilidade. 
Tocamos aqui no âmago do mistério.
 Vemos no Evangelho que Jesus Cristo era impecável, impassível, inacessível à menor imperfeição. Mas qual é a fonte desta invulnerabilidade moral?
 A razão fundamental é ser Ele o próprio Filho de Deus; como segunda pessoa da Santíssima Trindade, é a santidade infinita e não pode sucumbir ao mal.
Todavia, se examinarmos a Humanidade de Jesus em si mesma, veremos que ela é criada como a nossa, semelhante à nossa; a união com a Divindade não lhe tirou aquelas fraquezas que são compatíveis com a qualidade de Filho de Deus. Jesus Cristo padece fome, sede; a fadiga acabrunha-o;  o sono Lhe cerra as pálpebras; o medo, a tristeza, o tédio invadem-Lhe verdadeiramente a alma; e, no entanto, não há n'Ele a menor sombra de imperfeição. Logo, se a Humanidade de Jesus, como tal, goza da impecabilidade, é porque está maravilhosamente corroborada no bem. Ora qual foi o meio de que se serviu Deus para tornar a santa alma de Jesus inacessível ao mal moral, ao pecado, para afirmar na impecabilidade?
  Foi fazê-la «habitar sob a proteção do Altíssimo »: In adjutorio Altissimi; ou, segundo os termos mais significativos do texto original, « In sanctuario secreto divinitatis». E qual é este asilo, este santuário? - É a visão beatífica.
 Como sabeis, a visão beatífica é a contemplação bem aventurada de Deus, tal qual é em Si mesmo. Aquele a quem tal graça é concedida não pode desprender-se de Deus, porque vê que Deus é o soberano Bem e que nenhum bem particular, por maior que seja, Lhe pode ser comparado. Portanto, o pecado - que consiste em se afastar de Deus para se apegar a um bem que se encontra em si ou na criatura - torna-se radicalmente impossível. Neste bem aventurado estado, em que a inteligência contempla a própria Verdade, não há lugar para ignorância, ilusão ou erro de espécie alguma; e a vontade, presa ao Bem absoluto que encerra em si a plenitude de todo o bem, não conhece hesitações nem desfalecimentos. A alma que atinge tal altura encontra-se, segundo a linguagem teológica, perfeitamente « confirmada na graça >>. 
Esta confirmação na graça é uma consequência da predestinação; comporta diferentes graus proporcionados à perfeição e à medida desta predestinação.
 A Humanidade de Jesus foi predestinada para ser unida ao Verbo eterno; por isso, desde o primeiro instante da sua existência, a alma de Cristo possui, como privilégio resultante desta união, como atributo << conatural », a visão beatífica; ela é confirmada em graça, no grau mais elevado, isto é, na impecabilidade essencial e absoluta. Eis porque ouvimos Nosso Senhor, Chefe de todos os predestinados, desafiar assim os judeus: <
 Na terra, não nos é dado ainda habitar permanentemente nesse << asilo da Divindade ». Mas o que é que para nós substitui neste mundo a visão beatífica? A fé. Pela fé temos Deus sempre presente: Per fidem enim ambulamus; esta fé a cuja luz caminhamos é a fonte da nossa união com Jesus e a raiz da nossa perfeição: Ambula coram me, et esto perfectus. Na medida em que, pela fé, vivermos na contemplação de Deus e permanecermos unidos a Jesus Cristo, nessa mesma medida nos tornaremos invulneráveis à tentação. 
Neste mundo, encontram-se almas já por tal modo unidas a Jesus Cristo, possuidoras duma fé tão grande, que são logo confirmadas em graça. Assim, a Santíssima Virgem foi, por privilégio único, predestinada a ser isenta de todo o pecado, mesmo do pecado original: Tota pulchra es, Maria, et macula originalis non est in te. S. João, o Precursor, foi santificado no seio materno, e os Padres da Igreja ensinam-nos que ele foi confirmado na graça divina; o mesmo sucedeu com os Apóstolos, depois de receberem o dom do Espírito Santo no dia do Pentecostes.
 A todos dá Deus uma parte desta confirmação em graça, parte correspondente, como disse, à nossa vida de fé. Uma alma que, pela fé, vive habitualmente na contemplação divina bebe de contínuo nessa fonte de vida: Quoniam apud te est fons vitae; participa da união de Jesus Cristo com o Pai -Ego in eis, et tu in me - e, por conseguinte, do amor que o Pai tem ao Seu Filho Jesus: Ut dilectio qua dilexisti me in ipsis sit, et ego in ipsis.
 Por isso, o Senhor tem para com esta alma verdadeiras complacências; protege-a, torna-a, pouco a pouco, invulnerável. Poderão atacá-la todos os inimigos; «cairão mil à sua esquerda, dez mil à sua direita, nada a atingirá»; calcará aos pés os demônios; pode o universo inteiro sublevar-se em volta dela, desencadear-se contra ela; dirá a Deus: «Sois o meu protetor e o meu refúgio, e o Senhor a libertatá de todas as ciladas e de todos os perigos>>: Quoniam in me speravit liberabo eum. 
A lgteja, que tanta solicitude dispensa a seus filhos, que conhece a quantos perigos estão expostos, que sabe, por outro lado, as poderosas graças de vida que nos trazem os mistérios do Verbo Incarnado e a nossa união com Ele, recorda-nos todos os anos, no princípio da Quaresma, o mistério da tentação de Jesus. Quer que, a exemplo do Mestre, vivamos durante quarenta dias em espírito de penitência, no retiro, na solidão e na oração.
 Para nos ajudar a bem passar este tempo, para despertar em nossos corações os sentimentos que os devem animar, dá-nos a ler, no princípio desta santa quarentena, a narração do jejum, da tentação e do triunfo de Jesus Cristo.
 Ao mesmo tempo, põe em nossos lábios todo o salmo XC, que começa pelas palavras que vos acabo de explicar: «Aquele que habita no seio da Divindade permanecerá sob a proteção do Deus do céu ». É por excelência o salmo da confiança no meio da luta, da provação e da tentação.
 As magníficas promessas que nele se encerram aplicam-se em primeiro lugar a Jesus Cristo e depois a todos os membros do Seu Corpo Místico, na medida da vida da graça e fé que possuem.
 Por tal motivo, a Igreja não se contenta com no-lo fazer ler, por inteiro, na Missa do primeiro Domingo da Quaresma; extrai dele ainda para o seu Ofício canônico versículos que nos faz recitar todos os dias deste longo período, afim de colocar incessantemente diante dos nossos olhos as atenções do Pai celeste. « Ordenou a Seus Anjos que te guardassem em todos os teus caminhos»: Angelis suis (Deus) mandavit de te: ut custodiant te in omnibus viis tuis. «É Ele quem liberta a minha alma da rede do passarinheiro e da palavra amarga que abate>>: lpse liberavít me de laqueo venantium et a verbo aspero. «Cobrir-te-á  com as suas asas, e n'Ele encontrarás um refúgio cheio de esperança»: Scuto circumdabit te veritas ejus; non timebis a timore nucturno.
 Quanta confiança não despertam na alma semelhantes promessa diariamente repetidas! Que segurança lhe não infundem para trilhar o caminho da salvação -  Ecce nunc dies salutís -, por mais rodeada que esteja de ciladas e de inimigos! Deus está com ela; e, « se Deus está conosco, diz S. Paulo, que poderão aqueles que estão contra nós? ». Porque, acrescenta «nunca o Senhor permitirá que sejamos tentados ou experimentados além das nossas forças; antes nos protegerá e, pela sua proteção, fará com que vençamos a provação, resistamos à tentação e mostremos a nossa fidelidade, fonte de merecimentos e de glória: Cum tentatione praventum .

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