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24 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

 Se Jesus Cristo revela ao mundo o dogma da Sua Filiação eterna, é pela Sua Humanidade que
 nos manifesta as perfeições da Sua natureza divina. Conquanto seja o verdadeiro Filho de Deus, compraz-se em se dizer «o Filho do homem»; dá-se este título, mesmo nas ocasiões mais solenes em que reivindica com mais autoridade as prerrogativas do Ser divino.
Com efeito, cada vez que nos achamos em contacto com Ele, estamos em presença deste mistério sublime: a união de duas naturezas, divina e humana, numa só e mesma pessoa, sem mistura nem confusão das naturezas, sem divisão da pessoa.
 É o mistério inicial, que devemos ter sempre diante dos olhos, quando contemplamos Nosso Senhor. Cada um dos Seus mistérios põe em relevo ou a unidade da Sua pessoa adorável ou a verdade da Sua natureza divina ou a atividade da Sua condição humana. 
Um dos aspectos mais profundos e mais tocantes da economia da Incarnação é a manifestação das perfeições divinas feitas aos homens pela natureza humana. Os atributos de Deus, as Suas eternas perfeições são para nós incompreensíveis neste mundo; ultrapassam a nossa ciência. Mas, fazendo-se homem, o Verbo Incarnado descobre aos espíritos mais simples, pelas palavras caídas dos seus lábios humanos, as perfeições inacessíveis da Divindade. Tornando-as perceptíveis às nossas almas por meio de ações sensíveis, arrebata-nos e atrai-nos a Si: Ut dum visibiliter Deum cognoscimus, per hunc invisibilium amorem rapiamur.
É sobretudo durante a vida pública de Jesus que se manifesta e realiza esta economia cheia de sabedoria e de misericórdia.
 De todas as perfeições divinas é, sem dúvida, o amor que o Verbo Incarnado mais se compraz em nos revelar.
 O coração humano precisa dum amor  tangível que lhe faça entrever o amor infinito, muito mais profundo, mas que excede todo o conhecimento. Realmente, nada seduz tanto o nosso pobre coração, como contemplar N. S. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a traduzir a eterna bondade em gestos humanos. Quando O vemos derramar profusamente, em redor de Si, inesgotáveis tesouros de compaixão, inexauríveis riquezas de misericórdia, podemos conceber um pouquinho da infinidade desse oceano da bondade divina, onde para nós vai haurir a santa Humanidade de Jesus. Consideremos alguns passos característicos. Veremos com que condescendência, por vezes assombrosa, o nosso Salvador se curva para as misérias humanas de toda a espécie, incluindo o pecado. E nunca esqueçais que, mesmo então, quando se inclina para nós, continua a ser o próprio Filho de Deus, Deus em pessoa, o Ser Todo poderoso, a Sabedoria infinita que, fixando as coisas na verdade, nada executa que não seja soberanamente perfeito. Naturalmente, isto dá às palavras de bondade que profere, aos atos de misericórdia que pratica, um valor inestimável que os realça infinitamente, e sobretudo é o que mais cativa as nossas almas, manifestando-nos os profundos encantos do Coração de Jesus Cristo, do nosso Deus. 
Conheceis o primeiro milagre da vida pública de Jesus: a água convertida em vinho nas bodas de Caná, a pedido de Sua Mãe. Para os nossos corações humanos, que revelação inesperada das ternuras e delicadezas divinas! Ascetas austeros escandalizam-se ao verem pedir ou fazer um milagre para encobrir a indigência de parentes pobres num banquete de núpcias. E, no entanto, nem a Virgem hesitou em o solicitar nem Jesus Cristo em o fazer. Jesus deixa-se comover pelo embaraço em que se vai achar, publicamente, aquela pobre gente; e, para o impedir, opera um grande prodígio. E o que o Seu Coração nos revela aqui de bondade humana e de humilde condescendência é apenas a manifestação exterior duma bondade mais elevada, da bondade divina, de que aquela deriva. Porque tudo o que faz o Filho, fá-lo também o Pai.
 Passado pouco tempo, na sinagoga de Nazaré, Jesus toma de Isaías, fazendo-o Seu, o programa da Sua obra de amor: «O espírito do Senhor está sobre mim, consagrou-me com Sua unção para levar aos pobres a boa nova; enviou-me a curar aqueles que têm o coração alanceado, a anunciar aos cativos a sua libertação, a dar vista aos cegos, a libertar os oprimidos e a publicar o ano da salvação divina». 
«O que acabais de ouvir, acrescentava Jesus, começa hoje mesmo a realizar-se». 
E, de fato, o Salvador revelava-se a todos, desde logo, como «um Rei cheio de mansidão e bondade». Ser-me-ia preciso citar todas as páginas do Evangelho, se quisesse mostrar-vos como a miséria, a fraqueza, a enfermidade, o sofrimento têm o condão de O comover, e de modo tão irresistível que nada lhes pode recusar. S. Lucas tem o cuidado de notar que Jesus é «movido de compaixão»; Misericórdia motus. Apresentam-se diante d'Ele os cegos, os surdo-mudos, os paralíticos, os leprosos; e o Evangelho diz-nos que «os curava a todos»: Sanabat omnes.
 A todos acolhe com incansável mansidão; deixa-se incessantemente empurrar, assediar por todos os lados, mesmo depois do sol posto; e de tal forma que, um dia, nem sequer tempo teve para comer. Doutra vez, nas margens do lago de Tiberíades, é obrigado a entrar numa barca para se livrar da multidão e poder distribuir assim a palavra divina com mais liberdade. Noutra ocasião, de tal modo se enche a casa em que se encontra que, para fazer chegar à Sua presença um paralítico deitado na cama, o único recurso foi descer o doente pela abertura feita no telhado.
 Os Apóstolos, esses mostravam-se muitas vezes impacientes; mas o divino Mestre aproveitava essas ocasiões para lhes mostrar a Sua bondade. Um dia, querem afastar d'Ele as crianças que Lhe apresentam e que eles julgam importunas. «Deixai estas crianças, diz-lhes Jesus, e não as estorveis de vir a mim; pois delas é o reino dos céus». E parava a abençoá-las. Noutra ocasião, os discípulos, irritados por O não terem recebido numa cidade de Samaria, «insistem com Ele para que deixe o fogo do céu descer sobre os habitantes e consumi-los »; Domine, vis dicimus ut ignis descendat de caelo? E Jesus logo os repreende: Et conversus increpavit illos;  «Não sabeis de que espírito sois! O filho do homem não veio ao mundo para perder homens, mas para os salvar».
 E a prova disto é chegar a operar milagres para ressuscitar os mortos. Em Naim, encontra uma pobre viúva, desfeita em lágrimas, a acompanhar os restos mortais do seu filho único. Jesus vê as suas lágrimas; o Seu Coração profundamente comovido não pode sofrer tão intensa dor: « Mulher, não chores»! Noli flere. E imediatamente ordena à morte que abandone a sua presa:  « Mancebo, eu to ordeno, levanta-te»! O mancebo levanta-se, e Jesus entrega-o à mãe.
Todas estas manifestações da misericórdia e bondade de Jesus, que nos revelam os sentimentos do Seu Coração humano, tocam as mais profundas fibras do nosso ser; revelam-nos, de modo palpável, o amor infinito do nosso Deus. Quando vemos Jesus Cristo chorar junto do túmulo de Lázaro e ouvimos os judeus, testemunhas do fato, dizer uns para os outros: «Vede como o amava», os nossos corações compreendem esta linguagem silenciosa das lágrimas humanas de Jesus, e penetramos no santuário do amor eterno que elas revelam: Qui videt me, videt et Patrem.
 Mas como este procedimento de Jesus Cristo condena o nosso egoismo, a nossa dureza, a nossa frieza de coração, a nossa indiferença, a nossa impaciência, os nossos ressentimentos para com o próximo! ... Esquecemos tantas vezes as palavras do Salvador: «Todas as vezes que usastes de misericórdia para com o mais pequenino dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes».
 Ó Jesus, que dissestes: « Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração», fazei os nossos corações semelhantes ao Vosso. Que, a exemplo Vosso, sejamos misericordiosos, «a fim de alcançarmos misericórdia», e, sobretudo, a fim de que, imitando-Vos, nos tornemos « semelhantes ao nosso Pai dos céus!»

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