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22 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

Se agora formos a inquirir a razão por que Jesus Cristo atesta a Sua Divindade, vemos que é para firmar a nossa fé.
 É uma verdade que já conheceis; mas é tão importante, que não devemos cessar de a contemplar, pois toda a nossa vida sobrenatural e toda a nossa santidade tem por base a fé, e a nossa fé baseia- se nos testemunhos que demonstram a Divindade do Salvador. 
S. Paulo exorta-nos a «considerar Nosso Senhor como o Apóstolo e o Pontífice da nossa fé» : Considerate apostolum et pontificem confessionis nostrae Jesum. «Apóstolo» quer dizer enviado para cumprir uma missão; e S. Paulo diz que Jesus é o Apóstolo da nossa fé. Como assim?
 O Verbo Incarnado é, segundo a expressão da Igreja, Magní consilii angelus -«o Enviado do supremo conselho» - que permanece nos esplendores da Divindade. E para que é enviado? Para revelar ao mundo «o mistério oculto em Deus desde séculos», o mistério da salvação do mundo por um Homem Deus. «É esta a verdade fundamental de que Jesus Cristo deve dar testemunho»: Ego in hoc natus sum et ad hoc veni in mundum, UT testimonium perhibeam verítati.
 A grande missão de Jesus, sobretudo durante a Sua vida pública, é, portanto, manifestar a Sua Divindade ao mundo: lpse enarravit. Todos os Seus ensinamentos, todos os Seus atos, todos os Seus milagres, têm por fim consolidá-la no espírito dos Seus ouvintes. Vede, por exemplo, junto do túmulo de Lázaro. Antes de ressuscitar o amigo, Jesus Cristo levanta os olhos ao céu: «Pai, diz Ele, graças te dou por me teres atendido; mas digo isto por causa da multidão que me rodeia, para que eles creiam que foste tu que me enviaste»: Ut credant quia tu me misisti.
 É certo que Nosso Senhor só aos poucos vai insinuando esta verdade. Para não ir diretamente de encontro às ideias monoteístas dos judeus, não se revela senão gradualmente. Mas, com uma sabedoria admirável, faz convergir tudo para esta manifestação da Sua filiação divina. No fim da Sua vida, quando os espíritos retos estão já suficientemente preparados, não hesita em confessar a Sua Divindade diante dos juízes, com risco da própria vida. Jesus é o rei dos mártires, de todos aqueles que, pela efusão do próprio sangue, professaram a fé na Sua Divindade; foi Ele quem primeiro foi entregue e imolado por se ter proclamado o Filho único de Deus.
 Na Sua última prece, dá, para assim dizer, contas ao Pai da Sua missão, e resume tudo nestas palavras: «Pai, cumpri a missão que me havias confiado». E qual foi o fruto dela? «E os meus discípulos, por sua vez, aceitaram o meu testemunho: ficaram a conhecer que eu saí de ti, acreditaram que tu me enviaste».
Eis porque a fé na Divindade do Seu Filho é, segundo a própria palavra de Jesus, a obra por excelência, que Deus reclama de nós: Hoc est opus Dei, ut credatis in eum quem misit ille. 
É esta fé que cura numerosos doentes: Secundum fidem vestram fiat vobis; que perdoa os pecados à Madalena: Fídes tua te salvam fecit, vade in pace. É por ela que Pedro merece ser escolhido para fundamento indestrutível da Igreja; é ela que torna os Apóstolos agradáveis ao Pai e faz deles o objeto do Seu amor: Patet amat vos, quia vos me amastis et credidistis.
 É ainda por esta fé que «nascemos filhos de Deus»: His qui credunt in nomine ejus; é ela que faz «brotar em nossos corações as fontes divinas da graça do Espírito Santo»: Qui credit in me, flumina de ventre ejus fluent aquae vivae; que «dissipa as trevas da morte»: Veni ut omnis qui credit in me in tenebris non maneat; que «nos proporciona a vida divina, pois Deus amou o mundo, a ponto de lhe dar o Seu Filho único, para que todos os que n'Ele crerem não pereçam, mas tenham a vida eterna» : Ut omnis qui credit in ipsum non pereat, sed habeat vitam aeternam.
 É por não terem esta fé que os inimigos de Jesus hão de perecer: «Se eu não tivesse vindo e não lhes houvesse falado, não teriam pecado; mas agora o seu pecado não tem desculpa»: e é por isso que «aquele que não crê em Jesus, Filho único de Deus, está desde já julgado e condenado »: Qui autem non credit, jam judicatus est; quia non credit in nomine Unigeniti Filii Dei. 
Já vedes como tudo se resume na fé em Jesus Cristo, Filho eterno de Deus; esta constitui a base de toda a nossa vida espiritual, a raiz profunda de toda a justificação, a condição essencial de todo o progresso, o meio certo de chegar aos cimos da santidade.
 Prostremo-nos aos pés de Jesus e digamos-Lhe: Jesus Cristo, Verbo Incarnado, descido do céu «para nos revelar os segredos que, como Filho único de Deus, contemplais sempre no seio do Pai», creio e confesso que «sois Deus como Ele, igual a Ele»; creio em Vós; creio «nas Vossas obras»; creio na Vossa pessoa; «creio que saístes de Deus»; que «sois um com o Pai», que «aquele que Vos vê, O vê a Ele»; creio que sois «a ressurreição e a vida». Isto creio e, crendo-o, adoro-Vos e consagro ao Vosso serviço todo o meu ser, toda a minha atividade, toda a minha vida. Creio em Vós, Cristo Jesus, mas aumentai a minha fé! Credo, Domine, sed adjuva incredulitatem meam!

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