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20 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.


No batismo de Jesus, que marca o início da Sua vida pública, ouvimos o Pai proclamar Jesus Cristo « Seu Filho muito amado ».
O ensinamento de Jesus, durante os três anos do Seu ministério exterior junto das almas, não é mais do que um incessante comentário daquele testemunho. Vamos ver Jesus Cristo manifestar-se em Seus atos e palavras, não como Filho adotivo de Deus, como um eleito escolhido para desempenhar uma missão especial junto do seu povo (como eram os simples profetas) mas como o próprio Filho de Deus, Filho por natureza, que possui, por conseguinte, as prerrogativas divinas, os direitos absolutos do Ser soberano, e reclama de nós a fé na Divindade da Sua obra e da Sua pessoa. 
Quando lemos o Evangelho, vemos que Jesus Cristo fala e opera, não somente como homem, semelhante a nós, mas também como Deus, elevado acima de todas as criaturas. 
Ora vede. Diz-se maior do que Jonas, Salomão, Moisés. Se, enquanto homem, por seu nascimento de Maria, é Filho de David, é também  «  o Seu Senhor, sentado à direita de Deus», de cujo poder eterno e glória infinita compartilha.
 Por isso se declara o supremo Legislador, pelo mesmo título que Deus. Assim como Deus deu a lei a Moisés, assim Ele estabelece o código do Evangelho. «Deus disse aos antigos ..... E eu digo-vos ... ».  É a fórmula que se repete em todo o sermão da montanha. Mostra-se por tal forma o senhor da lei, que a derroga por autoridade própria, quando lhe apraz, com inteira independência, como sendo Aquele que a instituiu e dela é o Senhor soberano.
 Este poder não tem limites. Jesus perdoa os pecados, privilégio que só a Deus pertence, visto que o pecado só a Deus ofende.  « Tem confiança, os teus pecados te são perdoados», diz a um paralítico que Lhe apresentam. Os fariseus, escandalizados por ouvirem um homem falar assim, murmuram entre si:  «Quem pode perdoar os pecados senão Deus » ? Mas Jesus lê-lhes nos corações os pensamentos secretos: e, para provar aos que Lho contestam que possuí este poder divino, não por delegação, mas por titulo próprio e pessoal, opera logo um milagre.  « Para que saibais que o Filho do homem tem o poder de perdoar os pecados, levanta-te, diz ao paralitico, pega a tua cama e anda.»
Este exemplo é característico. Jesus Cristo opera os milagres por Sua autoridade própria, por Si mesmo. Excetuando a ressurreição de Lázaro, em que pede antes ao Pai que o prodígio que vai realizar alumie as inteligências das testemunhas, nunca hora antes de manifestar o Seu poder, como faziam os profetas; mas, com uma palavra, um gesto, um simples ato da Sua vontade, cura os coxos, faz andar os paralíticos, multiplica os pães, acalma a fúria das ondas, expulsa os demônios, ressuscita os mortos.

 Enfim, é tão grande o seu poder, que virá sobre as nuvens julgar todas as criaturas. «Foi-Lhe dado pelo Pai todo o poder no céu e na terra ». Como o Pai, promete «a vida eterna àqueles que O seguirem ».
 Estas palavras e ações mostram-nos  Jesus igual a Deus, participante do poder supremo da Divindade, das Suas prerrogativas essenciais, da Sua dignidade infinita. 
Possuímos testemunhos mais explícitos ainda.
 Conheceis o episódio em que Pedro confessa a sua fé na Divindade do Mestre. « Bem aventurado és tu, Simão, filho de  Jonas» - diz-lhe Jesus logo a seguir -, porque «não foi pelas tuas próprias luzes naturais que chegaste a este conhecimento da minha Divindade, mas foi o meu Pai celeste quem te revelou ». E, para salientar a grandeza deste ato de fé, o Salvador promete a Pedro fazer dele o fundamento da sua Igreja.
 No momento da Paixão, diante dos Seus juízes, Nosso Senhor proclama, com mais autoridade ainda, a Sua Divindade. Na sua qualidade de presidente do supremo conselho, Caifás diz ao Salvador: « Eu te conjuro, em nome de Deus vivo, que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus vivo »! «Tu o disseste, respondeu Jesus; e vereis o Filho do homem, sentado à direita do Deus Todo poderoso, vir sobre as nuvens do céu ». Sabeis que o «sentar-se à direita de Deus » era considerado pelos judeus como prerrogativa divina, e usurpar esta prerrogativa constituía uma blasfêmia que importava a pena de morte. Foi por isso que, apenas Caifás ouviu a resposta de Jesus, rasgou as vestes em sinal de protesto e exclamou: « Blasfemou; que mais necessidade temos de testemunhas »? E todos responderam: « É réu de morte ». E Jesus Cristo preferiu aceitar a condenação a retratar-se. 
É principalmente no Evangelho de S. João que encontramos nos lábios de Jesus testemunhos que estabelecem tal união entre Ele e o Pai, que só se pode explicar pela natureza divina, natureza que possui de modo indivisível com o Pai e o seu comum Espírito.
 Deveis notar que Nosso Senhor Jesus Cristo, exceto quando ensina os discípulos a orar, nunca diz: « Pai nosso »; diz sempre: «o Pai, o meu Pai »; e, dirigindo-se aos discípulos: «o vosso Pai ». Nosso Senhor tem todo o cuidado em frisar a diferença essencial que existe, neste ponto, entre Ele e os outros homens: Ele é Filho de Deus por natureza, os outros são-no apenas por adoção.
 Por isso, tem com o Pai relações pessoais de caráter único, que não podem derivar senão da Sua origem divina.
 Um dia dizia diante dos discípulos: « Graças te dou, ó Pai, por teres ocultado estas coisas aos sábios e as teres revelado aos humildes. Assim é, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi dado por meu Pai. E ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar ». Por estas palavras, o Verbo Incarnado indica-nos claramente que entre Ele e o Pai há perfeita igualdade de conhecimento, incompreensível para nós. Este Filho, que é Jesus, é tão grande, e tão inefável a Sua filiação, que só o Pai, que é Deus, O pode conhecer; o Pai é de tal majestade, a Sua paternidade é um mistério tão sublime, que só o Filho pode saber o que é o Pai; este conhecimento excede a tal ponto toda a ciência criada, que homem algum pode participar dele, a não ser que lhe seja comunicado por revelação. 
Vedes como Nosso Senhor afirma a Sua união divina com o Pai. Esta união, porém,  não se limita ao conhecimento; estende-se a todas as operações realizadas fora da Divindade. 
Jesus cura um paralítico, e manda-lhe pegar na cama e andar. Era dia de descanso. Logo os judeus, escandalizados, censuram o Salvador por não observar o sábado. E que responde Nosso Senhor ? Para lhes mostrar que é, pelo mesmo título que o Pai, Senhor supremo da lei, responde aos fariseus: 
« O meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho como Ele e com Ele ». Os ouvintes compreendem tão bem com estas palavras Ele proclamar-se Deus, que O procuram matar; porque, «não satisfeito com violar o sábado, diz que Deus é seu Pai, fazendo-se assim igual a Ele ». Nosso Senhor não só não os contradiz, como ainda confirma aquela interpretação: « Em verdade vos digo, o Filho nada pode fazer por Si mesmo, mas só o que vê fazer ao Pai; e tudo o que faz o Pai, fá-lo igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho e mostra- Lhe tudo o que faz ... ». Lede no Evangelho a continuação e o comentário destas palavras; vereis com que autoridade Jesus Cristo se proclama em tudo igual ao Pai, Deus com Ele e como Ele. 
Todo o discurso depois da Ceia e toda a oração sacerdotal de Jesus naquele momento solene estão cheios de afirmações destas, que mostram que Ele é o próprio Filho de Deus, que tem a mesma natureza divina, possui os mesmos direitos soberanos, desfruta da mesma glória eterna: Ego et Pater unum sumus. 

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