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10 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Logo depois do batismo, conta-nos o Evangelho que Jesus foi levado ao deserto pelo Espirito. Os escritores sagrados empregam várias expressões para significar esta ação do Espírito Santo. Jesus foi "conduzido", diz S. Mateus; foi "impelido", explica S. Lucas; foi "levado", segundo S. Marcos. Que poderá indicar esta variedade de termos, senão a veemência da ação interior do Espírito Santo sobre a alma de Jesus Cristo? E com que fim é assim impelido para o deserto? Ut tentaretur a diabolo: "para ali ser tentado pelo demônio". É o próprio testemunho do Evangelho.
 Coisa estranha esta! Acaba o Pai de proclamar que Jesus é o Seu Filho muito amado, o objeto das Suas complacências; sobre Ele repousa o Espírito de amor; e eis que «imediatamente» - statim - esse Espírito O leva para o deserto para ali ser exposto às sugestões do demônio. Que mistério! Que poderá significar tão extraordinário episódio na vida de Cristo? Porque procede assim no início da Sua vida pública?
Para bem compreendermos a profundeza deste mistério e antes de expormos o relato evangélico, devemos, em primeiro lugar, recordar o papel que a tentação desempenha na nossa vida espiritual.
 As perfeições divinas exigem que a criatura racional e livre seja submetida a uma provação, antes de ser admitida ao gozo da futura beatitude. É mister que esta criatura seja posta em face de Deus e diante da provação e que, livremente, renuncie à própria satisfação para reconhecer a soberania de Deus e obedecer à Sua lei. A santidade e a justiça divina reclamam esta homenagem.
 Esta escolha, gloriosa para o Ser Infinito, é para nós o fundamento do mérito que o Senhor recompensa com a bem aventurança celeste. O Concilio de Trento definiu que é Deus quem nos salva, de tal modo, porém, que a salvação é, ao mesmo tempo, dom da misericórdia divina e recompensa dos nossos merecimentos. A vida eterna será a nossa recompensa, porque, tendo de escolher, repelimos a tentação para seguirmos a Deus; submetidos à provação, suportamo-la, a fim de permanecermos fiéis à vontade divina. O ouro purifica-se no cadinho; a constância no meio da tentação revela uma alma digna de Deus.
 Tal é a nobre condição de toda a criatura livre. 
Foram os Anjos os primeiros a ser submetidos à provação. Embora ignoremos em que tenha consistido esta provação, sabemos, contudo, que a sua natureza correspondeu ao modo de ser angélico.
 Sabeis que os Anjos são criaturas exclusivamente espirituais; os seus atos não são, como os nossos, medidos pelo tempo; mais ainda, possuem um poder, uma envergadura, uma profundeza, que nenhum ato humano pode atingir. Puros espíritos não raciocinam. Em nós, a extrema mobilidade da nossa imaginação, faculdade sensitiva ligada ao organismo corporal, apresenta à nossa escolha múltiplos bens particulares, cuja variedade retarda a ação da nossa inteligência e da nossa vontade; passamos dum bem a outro bem, voltando ao que a princípio havíamos decidido rejeitar. Não se dá o mesmo com o Anjo; nele, natureza inteiramente espiritual, não há lugar para a hesitação; os atos da inteligência e da vontade revestem um caráter de plenitude, de fixidez, de irrevogabilidade que lhes confere uma força incomparável. 
Nenhuma existência humana, por mais prolongada que seja, poderá atingir, pelo conjunto das suas aspirações, o poder, a intensidade do ato único pelo qual os Anjos devem ter fixado a sua escolha no meio da provação.
 Por isso mesmo a fidelidade dos Anjos bons foi tão agradável a Deus; por isso mesmo também o pecado de revolta dos espíritos rebeldes possui uma gravidade que não podemos avaliar e de que somos incapazes. A penetração do conhecimento que lhes permitiu agir em plena luz, deu a esse pecado único tal malícia, que a justiça divina teve de o punir com uma sentença imediata de eterna condenação.
 Para nós, a aceitação da provação, a resistência à tentação envolvem toda a nossa existência neste mundo; a luta contra as seduções corruptoras, a paciência nas contradições queridas ou permitidas pela Providência, são coisa de todos os dias: Militia est vita hominis super terram. 
Mas é também todos os dias ocasião magnífica de fidelidade constante a Deus. Uma alma que, desde a hora em que adquire consciência dos seus atos até ao instante em que se separa do corpo, nunca houvesse cometido uma falta deliberada; que, colocada entre Deus e as solicitações suscetíveis de a afastar d'Ele, houvesse livremente optado sempre pela vontade divina, - daria a Deus uma glória imensa. E por quê? Porque, em todos os seus atos, essa alma proclamaria que só Deus era o seu Senhor. <
O primeiro homem foi submetido à provação. Vacilou, caiu, preferiu a criatura e a sua própria satisfação a Deus. Deste modo, arrastou toda a raça humana na sua rebelião, na sua queda e no seu castigo.
 Por este motivo, foi necessário que o segundo Adão, que representava todos os predestinados, procedesse de forma contrária. Na Sua adorável Sabedoria, quis Deus Pai que Jesus Cristo, nosso Chefe e nosso modelo, fosse colocado em face da tentação e, por Sua livre escolha, dela saísse vitorioso, a fim de nos ensinar a vencer. É uma das razões deste mistério.
 Há outra razão, mais transcendente, que liga intimamente este mistério ao do batismo.
 De fato, que dizia Jesus ao Precursor quando este se recusava a desempenhar o seu ministério de penitência para com Ele? «Consente por agora, porque é necessário cumprirmos assim toda a justiça>. - Esta justiça, como já vimos, consistia, para Jesus, em suportar todas as expiações decretadas pelo Pai para a redenção do gênero humano. Dare animam suam redemptionem pro multis. Desde o pecado de Adão, a raça humana é escrava de Satanás, e é das mãos do príncipe das trevas que Jesus a deve salvar; foi «para destruir o reino do demônio que Ele apareceu na terra»; In hoc apparuit Filius Dei, ut dissolvat opera diaboli. - É por isso que, depois de ter recebido o batismo, em que é apontado como «o Cordeiro de Deus que vem tirar o pecado do mundo» e arrancar todo o rebanho ao poder do demônio, o Verbo Incarnado entra em luta com - «o príncipe deste mundo»; é por isso que o Espírito Santo O leva imediatamente para o deserto, como se fazia outrora com o bode expiatório, carregado de todos os pecados do povo: Ut tentaretur a diabolo. 

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