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18 de junho de 2015

A Esmola - Padre André Beltrami

CAPITULO IV
O OURO E' TERRA BRILHANTE

Afinal de contas, que é esse ouro ao qual tanto nos afeiçoamos, ao ponto de nos esquecermos das necessidades da alma? E' um pouco de terra brilhante, lodo reluzente, um metal que Deus escondeu no seio das rochas e nas entranhas dos montes, e que os rios levam ao mar com a areia e os cascalhos.
O ouro não serve para alimento, nem remédio; e para nós são mais uteis e preciosos o trigo da campina, a lenha do bosque, o carvão mineral. Referem as fábulas que um rei da antiguidade andava tão apaixonado pelo ouro que pediu com insistência aos deuses lhe concedessem o favor de transformar em ouro tudo o que tocasse. Por desgraça foi ouvido. Ébrio de alegria deu ordens para que se sacrificasse em agradecimento aos deuses. A sua alegria, porém., foi breve e converteu- se para logo em amargo desengano, em profundo desespero. Ele transformara em ouro brilhante o paço e os móveis, tudo em roda dele luzia daquele  metal que tanto amava. Chegou a hora da refeição e pôs-se á mesa. Apenas tocava uma iguaria ou bebida, elas se transformavam em ouro, pelo que não pode mais comer, nem beber. Só então caiu em si o infeliz rei e maldisse seu amor desordenado ao vil metal; mas, era tarde.Morreu dias após, consumido pela fome e pela sede. Conta-se também de um avaro que juntara muito dinheiro, e de medo dos ladrões tinha-o escondido no fundo dum subterrâneo fechado por uma grande porta de ferro. Todo dia, ele descia sozinho para ver e contar seu tesouro levando sempre novo dinheiro, que  sabia ganhar, trabalhando assiduamente e comendo mal. Entrando no subterraneo tinha sempre o cuidado de tira a chave da fechadura e levá-la consigo, porque a porta, uma vez fechada, não se abria senão com a chave. Um dia, porém., que tinha ganho mais  que de costume, ébrio de alegria, abriu a porta e a fechou para sempre. Contou o seu tesouro, como sabia fazer, ajuntou os novos ganhos e, ao ver tanto dinheiro, exultou de alegria, julgando-se o mais feliz dos mortais. Mas, ai!  Dirigindo-se para a porta, percebe que a chave foi esquecida fora e que a saída está irrevogavelmente fechada. Que fazer? Pedir socorro? O subterrâneo é fundo e isolado e nenhuma voz pode ser ouvida. Arrombar a porta? E' de ferro, e dez homens o não fariam. O infeliz avarento cavara a sua sepultura e nela se fechara para sempre. Teria com certeza dado todo aquele ouro por uma fatia de pão ou para ser posto em liberdade; mas só ele conhecia o esconderijo de sua riqueza. Depois de alguns dias os vizinhos, tendo ido á procura dele, revistaram toda a casa, desceram ao subterrâneo e o encontraram cadáver com sinais de desespero no rosto e com as mãos apertando moedas de ouro ... Portanto, o ouro considerado em si mesmo não tem nenhuma utilidade e deixar-vos-ia perecer de fome. Se o considerarmos como metal, não é certamente o mais útil, pois o homem encontra  mais vantagens no ferro, no cobre e no zinco. A única propriedade que tanto o recomenda é a grande maleabilidade, pela qual pode ser reduzido afolhas subtilíssimas. Porque, é o ouro tão estimado e procurado? Unicamente porque os homens convieram que se representassem os valores pela sua raridade. Suponhamos que um dia fossem descobertas em quantidade desmesurada camadas de ouro nas entranhas da terra; o ouro perderia a cotação e os homens iriam procurar outro objeto mais raro para significar e representar os valores das coisas. Quando os espanhóis se atiraram sobre o Novo Mundo, viram com espanto que os selvagens não apreciavam o ouro, a prata, as pedras preciosas, porque os havia em abastança. Quando, porém, os americanos-viram que os europeus iam com avidez á cata de ouro e expunham-se a perigos e fadigas afim de o conseguir, também eles começaram a julgá-lo coisa preciosa. Antes da descoberta do novo continente o ouro tinha mais valor, porque mais escasso; ao depois, tornou-se menos precioso pelas muitas minas descobertas. Eis, pois, o motivo porque tanto amamos o ouro: representa os valores e com ele podemos procurar comodidades da vida e os prazeres terrenos; mas é sempre. terra, lodo. Como são estultos os avaros que amam o dinheiro e ajuntam ouro unicamente pelo prazer de vê-lo em suas mãos, fazendo grandes penitências e mortificações para economizar. Não são menos estultos aqueles homens que amam desordenadamente o ouro, para viver vida cômoda. Mas, a vida do homem é tão breve, e o que não vale para a vida futura é vaidade e estultícia. Prudentes são os que com o ouro e as riquezas terrenas compram, por meio da esmola, os bens eternos do céu. O ouro é terra brilhante, vil metal; mas Deus em sua bondade permite-nos trocá-lo com as riquezas imperecíveis do paraíso. Pensemos seriamente nisto; invés de amar um pouco de terra vistosa, sirva-mo-nos dela para merecer graças e favores que nos levam á santidade. Os pobres devem ser os vossos maiores amigos, porquanto serão os vossos defensores no dia do juízo e perorarão a vossa causa, apresentando á justiça divina o bem que lhes temos feito. Mas, ai de nós se lhes fechamos a porta e lhes negamos auxilio. Teremos a mesma sorte do rico epulão e pagaremos no inferno a truculência usada para com os nossos irmãos.

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