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1 de maio de 2009

São Francisco de Assis

Fonte:
São Francisco de Assis
Escritos e biografias de São Francisco de Assis
Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano
9ª Edição
Editora Vozes e FFB
Petrópolis 2000


SÃO FRANCISCO DE ASSIS

O CÂNTICO DO IRMÃO SOL

Quase moribundo, compôs São Francisco o Cântico das criaturas. Até ao fim da vida queria ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus. No outono de 1225, enfraquecido pelos estigmas e enfermidades, ele se retirou para São Damião. Quase cego, sozinho numa cabana de palha, em estado febril e atormentado pelos ratos, deixou para a humanidade este canto de amor ao Pai de toda a criação. A penúltima estrofe, que exalta o perdão e a paz, foi composta em julho de 1226, no palácio episcopal de Assis, para pôr fim a uma desavença entre o bispo e o prefeito da cidade. Estes poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. A última estrofe, que acolhe a morte, foi composta no começo de outubro de 1226. A oração do santo diante do crucifixo de São Damião e o Cântico do sol são as únicas obras de São Francisco escritas em italiano antigo e, por isso, são dos mais importantes documentos literários da linguagem popular. Foi nesta língua que ele certamente ditou a maioria e seus escritos, antes que os irmãos versados em letras os traduzissem para a língua comum da época, o latim.


Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.

Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.

Bem aventurados os que as sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.


BILHETE PARA FREI LEÃO

Este documento, também do próprio punho de São Francisco, guarda-se como preciosa relíquia no Sacro Convento de Assis. Contém louvores a Deus e a conhecida benção para Frei Leão. Data: outono de 1224.

a. Louvores a Deus

Vós sois o santo Senhor e Deus único, que operais maravilhas (Sl 76,15).
Vós sois o Forte.
Vós sois o Grande.
Vós sois o Altíssimo.
Vós sois o Rei onipotente, santo Pai, Rei do céu e da terra.
Vós sois o Trino e Uno, Senhor e Deus, Bem universal.
Vós sois o Bem, o Bem universal, o sumo Bem, Senhor e Deus, vivo e verdadeiro.
Vós sois a delícia do amor.
Vós sois a Sabedoria.
Vós sois a Humildade.
Vós sois a Paciência.
Vós sois a Segurança.
Vós sois o Descanso.
Vós sois a Alegria e o Júbilo.
Vós sois a Justiça e a Temperança.
Vós sois a plenitude da Riqueza.
[Vós sois a Beleza.
Vós sois a Mansidão.
Vós sois o Protetor.
Vós sois o Guarda e o Defensor.
Vós sois a Fortaleza.
Vós sois o Alívio.
Vós sois nossa Esperança.
Vós sois nossa Fé.
Vós sois nossa inefável Doçura.
Vós sois nossa eterna Vida, ó grande e maravilhoso Deus, Senhor onipotente, misericordioso Redentor].

Obs: O trecho entre colchetes ficou ilegível no documento original, mas consta na presente formulação em todos os manuscritos antigos.

b. Benção a Frei Leão

No verso da mesma folha se lê:

“O Senhor te abençoe e te proteja.
Mostre-te a sua face e se compadeça de ti.
Volva a ti o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6,24-26).
Frei Leão, T o Senhor te abençoe.

Acima destas palavras Frei Leão escreveu a tinta vermelha:

Dois anos antes da sua morte passou o bem-aventurado Francisco a Quaresma no Monte Alverne, em honra da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, e do bem-aventurado São Miguel Arcanjo, desde a festa da Assunção da Santa Virgem Maria até a festa de São Miguel em setembro. E fez-se sentir sobre ele a mão do Senhor: depois duma visão e colóquio com um Serafim, e depois da impressão dos estigmas de Cristo no seu corpo, compôs ele estes Louvores e os escreveu de próprio punho no verso desta folha, rendendo graças ao Senhor pelo benefício recebido.

Depois da palavra “pacem” (paz) a mesma mão escreveu:
O bem-aventurado Francisco escreveu esta benção de próprio punho para mim, Frei Leão.

Sob o sinal do T encontra-se um desenho feito a tinta (uma cabeça?) quase indecifrável hoje em dia. Frei Leão escreveu a respeito desse sinal:
Igualmente desenhou ele de próprio punho este sinal T com a cabeça.

A expressão signum tau cum capite (verbalmente “o sinal Tau com a cabeça”) dificulta um tanto a explicação devido à múltipla significação do vocábulo caput (cabeça, cabeçalho, capítulo), pois o único desenho correspondente feito ao pé da trave vertical do sinal Tau já não é reconhecível com clareza. Houve em conseqüência as mais variadas tentativas de interpretação. Poder-se-ia, no entanto, tratar do desenho duma verdadeira cabeça, de cuja fronte erigia o sinal Tau. Resultaria daí uma alusão muito profunda às palavras do Apocalipse: “Não façais mal à terra nem ao mar nem às árvores, até que tenhamos selado em suas frontes os servos de nosso Deus” (7,3). Ora, o sinal Tau foi muitas vezes interpretado como esse “selo” dos eleitos, porquanto se lê em Ez 9,6: “Cuidado para não tocar em ninguém que esteja assinalado com o sinal Tau”. Pode-se concluir de 3C 3 e 159 que S. Francisco considerava esse sinal como as armas dos frades menores. Pode-se dizer o mesmo com relação à Legenda Maior de S. Boaventura, De miraculis, § 10, n. 7. E as iluminuras medievais comprovam que se gostava muito de fazer surgir da fronte, em tamanho acima do normal, o sinal dos eleitos.

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