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20 de março de 2018

Sermão para o Domingo da Sexagésima – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 15: O Cânon Romano VIII – Nobis Quoque peccatoribus e doxologia


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Nesse domingo da Sexagésima, continuemos a tratar do sentido espiritual das cerimônias da Missa no Rito Romano Tradicional. Chegamos agora ao final do Cânon Romano, esse profundíssimo tesouro da tradição católica, expressão perfeita da fé católica e obra sublime de espiritualidade católica. O padre, tendo pedido pelos fiéis defuntos no Memento dos mortos, volta-se agora para si mesmo e para os fiéis, para pedir a misericórdia de Deus, mostrando mais uma vez que a Santa Missa, de fato, nos obtém a misericórdia divina.
O sacerdote reza, então, o Nobis quoque peccatoribus. Assim começa a oração: A nós também, pecadores, vossos servos, esperando na multidão de vossas misericórdias, dignai-vos conceder alguma parte e sociedade com vossos santos apóstolos e mártires. As três palavras, Nobis quoque pecatoribus (A nós também, pecadores), o padre diz elevando um pouco a voz. São as únicas palavras do Cânon Romano ditas em voz um pouco mais alta, todo o resto sendo dito em voz baixa. Portanto, as únicas palavras do Cânon ditas em voz alta são para reconhecer que somos pecadores. O Padre reconhece em primeiro lugar os seus próprios pecados. E,1 junto com seus pecados pessoais, reconhece também o pecado dos fiéis.
Devemos assinalar aqui essa consciência do pecado que permeia todo a Santa Missa no Rito Romano Tradicional. Com muita frequência o padre reconhece os seus pecados e os pecados do povo. E, ao fazer isso, invoca a misericórdia de Deus, pedindo perdão pelas suas faltas e de todos os fiéis. Essa consciência do pecado muito bem expressa e manifesta no Rito Tradicional da Missa é algo muito importante para a nossa vida espiritual. Aquele que diz não ter pecados é mentiroso, nos diz São João. É importante para a vida espiritual porque o primeiro passo para nos convertemos a Deus é que reconheçamos os nossos pecados, para podermos evitá-los, deixá-los completamente. O Rito Tradicional da Missa reconhece muito bem que somos pecadores. Para citar alguns exemplos desse reconhecimento. No início da Missa, o padre diz o seu confiteor primeiro e sozinho para reconhecer os seus pecados veniais. Os fiéis recitam o confiteor em seguida. O Padre implora o perdão de seus pecados nas duas orações que faz em silêncio ao subir ao altar após as orações ao pé do altar. O Padre invoca nove vezes a misericórdia da Santíssima Trindade no Kyrie. No ofertório da hóstia, o padre reconhece que é um servo indigno e oferece o sacrifício pelos inumeráveis pecados, ofensas e negligências. Implora a clemência de Deus no ofertório do cálice. Essas três palavras ditas em voz alta no Cânon Nobis quoque peccatoribus. Antes da comunhão, os fiéis recitam novamente o confiteor e três vezes o Domine non sum dignus. Portanto, reconhecemos abundantemente os nossos pecados na Missa Tridentina. Reconhecemos para pedir perdão a deus e com o propósito de abandoná-los efetivamente. Infelizmente, no rito novo da Missa, várias dessas orações desapareceram ou foram bem atenuadas. No rito novo, tem-se apenas um confiteor no início da Missa (quando se tem o confiteor no ato penitencial), há apenas seis vezes o Kyrie. As orações que o padre recita subindo ao altar não existem mais. As orações do ofertório foram completamente alteradas. O Nobis quoque peccatoribus só está presente na oração eucarística I do rito novo, que é raramente utilizada e fica diluída porque todas as orações são ditas em voz alta. O Domine non sum dignus é dito apenas uma vez. Isso apenas para citar alguns pontos. O rito romano tradicional nos traz essa consciência do pecado acompanhada do pedido de misericórdia. Seríamos levados ao desespero se reconhecêssemos nossos pecados e não invocássemos a misericórdia de Deus. Seríamos levados à presunção de nos salvarmos sem abandonar os nossos pecados, se invocássemos a misericórdia de Deus sem reconhecer nossas faltas.
Com um pouco de bom senso, podemos perceber que vivemos em uma sociedade que não tem mais a mínima consciência do pecado, é a cultura da indiferença ao pecado. Não há mais certo e errado, virtude e vício, pecado e boas obras. Essa cultura da indiferença quanto ao pecado vem do fato de que o rito dominante em nossa sociedade não exprime mais tão bem o fato de que somos pecadores. O rito novo da Missa, infelizmente, atenuou muito essa consciência do pecado, influenciando assim a nossa cultura. Lembremo-nos que cultura vem do latim cultus, pois a cultura de uma sociedade é formada principalmente a partir do culto dominante na sociedade. Se o culto, se a Missa diminui muito a expressão do fato de que somos pecadores, a cultura será de indiferença ao pecado. E assim vivemos nessa cultura já faz praticamente 50 anos.
Consideremos, caros católicos, como essa oração do Nobis quoque peccatoribus é também humilde. O Padre ousa pedir somente alguma parte e sociedade com os santos e mártires. Reconhecendo-se pecador, mas confiando na abundância da misericórdia, pede ao menos alguma parte, ainda que ocupe a menor posição entre os santos.
A oração do Nobis quoque peccatoribus continua citando 15 mártires, 8 homens e 7 mulheres. Todos esses mártires eram objeto de grande devoção em Roma. O João aqui mencionado é São João Batista. Em seguida, Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir propriamente dito. Matias é o escolhido para substituir Judas Iscariotes, o traidor. São Barnabé, companheiro de São Paulo no apostolado. Santo Inácio de Antioquia, discípulo de São João e segundo sucessor de São Pedro na Sé de Antioquia. Santo Alexandre I, papa e mártir. São Marcelino, padre e São Pedro, exorcista, martirizados sob Diocleciano. Santa Felicidade e Santa Perpétua, mártires de Cartago. Santa Ágata e Santa Cecília, mártires da Sicília. Santa Inês, muito jovem mártir romana, bem como Santa Cecília, que converteu seu marido e seu cunhado a Cristo. Santa Anastásia, viúva e mártir romana.
E conclui a oração pedindo que Deus nos admita no consórcio na comunhão desses santos e de todos os santos não considerando os nossos méritos, mas a sua indulgência. Belíssima oração a do Nobis quoque peccatoribus que se conclui com as palavras “por Cristo, Senhor Nosso” sem o amém.
Em seguida o Padre lembra que é por Cristo que Deus cria todas as coisas, as santifica, vivifica e abençoa para a nossa utilidade. A oração pode ter um caráter geral, mas especificamente se refereàs espécies consagradas. Ela se refere ao pão e ao vinho, criaturas de Deus, e que se transformaram no corpo e no sangue de Cristo em virtude sua obra de redenção. O sinal da cruz é feito três vezes, para nos lembrar que é pela cruz de Cristo que temos a Missa, que é pela cruz de Cristo que o pão e o vinho se transformaram em seu corpo e em seu sangue durante a Missa. Nosso Senhor Santifica o pão e o vinho usados na Missa separando-os do uso profano. Ele os vivifica pela consagração, fazendo deles Seu Corpo e seu Sangue, que têm a vida, que são fonte da vida sobrenatural. Ele os abençoa, pois uma vez que foram transubstanciados no corpo e sangue de Cristo são fonte de toda a bênção celeste. Assim, a santificação significa a preparação do sacrifício da Missa pela separação do pão e do vinho. A vivificação é a transubstanciação que ocorre na consagração. A bênção é a abundância de bênção que deriva do Corpo e do Sangue de Cristo.
Finalmente, chegamos à conclusão do Cânon Romano, com a doxologia. Por Ele, com Ele e nEle, a Vós, Deus Pai onipotente, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória. Por Ele: devemos sempre passar por Cristo, é Ele o único caminho. Devemos, então, fazer tudo por Cristo. Todavia, não basta fazer as coisas por meio de Cristo, é preciso fazer com Ele, em união profunda com Nosso Senhor, sendo nós membros de seu Corpo Místico.  E devemos ir além fazendo tudo nEle, nos identificando a Ele em um mesmo querer e em um mesmo não querer, de forma que já seja Cristo que viva em nós, como diz São Paulo. Essas palavras nos mostram que podemos dar honra e glória a Deus somente por meio de Cristo, unidos a Ele. Não há outro caminho possível para agradar a Deus.
Ao dizer per ipsum, et cum ipso et in ipso, o padre faz três vezes o sinal da cruz com a hóstia sobre o cálice, quase unindo o Corpo e o sangue de Cristo, pois se fala dEle aqui. Ao citar Deus Pai e o Espírito Santo, o padre faz duas vezes o sinal da cruz fora do cálice, entre o cálice e o seu próprio corpo. Finalmente, faz a pequena elevação, elevando um pouco sobre o altar a hóstia e o cálice, mostrando que é Cristo que é oferecido à Deus, que é Cristo que dá toda honra e toda glória a Deus.
O Padre conclui em voz alta com as palavras: per omnia saecula saeculorum, por todos os séculos dos séculos. De fato, a honra e a glória que Cristo dá a Deus é eterna, sem fim. A glória que todo homem deu, dá ou dará a Deus, é por Cristo, com Cristo e em Cristo. O Padre fala essas palavras em voz alta, assinalando a conclusão do Cânon Romano e para que os fiéis possam dar a sua adesão a tudo o que ocorreu respondendo “Amém”. É a confissão de fé em tudo o que acabou de acontecer sobre o altar, ou seja, os fiéis reconhecem efetivamente que o sacrifício de Cristo foi renovado sobre o altar. É a adesão de alma a todas as orações recitadas pelo padre. É a manifestação do desejo de se oferecer a si mesmo com Cristo.
Caros católicos, tenhamos um grande amor pelo Cânon Romano, formado por Cristo nos primeiros séculos de sua Igreja. O Cânon tão venerável, com praticamente 1500 anos. Quantos santos assim se santificaram, com essas orações que exalam a sã doutrina da Igreja de Cristo e perfeita espiritualidade católica. Unamo-nos com toda nossa alma a essas orações do Cânon quando o padre as recita durante a Santa Missa.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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