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24 de março de 2018

Sermão para o Domingo da Quinquagésima – Pe Daniel P Pinheiro

[Sermão] Quaresma: Combate ao defeito dominante


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave-Maria…
 “Se não tiver a caridade, nada sou.” (I Cor, 13)
Caros católicos, três dias somente nos separam do começo da Quaresma. A Santa Igreja continua a nos preparar e a nos dispor, pela Sagrada Liturgia, a uma Quaresma que possa dar frutos eternos. Para tanto, a Igreja nos apresenta o sublime elogio da caridade na Epístola de São Paulo e nos apresenta, no Evangelho, o anúncio da paixão e a cura de um cego. Mas como essas três coisas nos preparam de maneira perfeita para a Quaresma, pois não parece haver muita conexão entre elas?
Para compreender o que a Igreja quer nos ensinar, devemos, antes de tudo, considerar bem a finalidade da Quaresma. A Quaresma são quarenta dias de conversão, quarenta dias para que possamos morrer para o pecado com Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de ressuscitar com Ele para a vida da graça. Para fazer isso, precisamos da penitência, pela qual, com verdadeira dor e detestação de nossos pecados, satisfazemos pelas ofensas feitas a Deus. Todavia, a penitência sozinha não serve para nada, se ela não é inspirada pela caridade, quer dizer, ela não serve para nada se ela não é feita em união com Deus ou tendo em vista essa união com Deus, essa amizade com Deus. E isso porque a melhor das ações não tem valor algum para a salvação, se ela não é acompanhada da caridade ou se ela não tem por fim a caridade. Além disso, como somos fracos e inconstantes, e como sem Deus nada podemos fazer, devemos pedir a Deus, pela oração, que nossas penitências acompanhadas da caridade sejam agradáveis aos seus olhos.
Dessa forma, caros católicos, podemos compreender porque a Igreja escolheu estas passagens da Sagrada Escritura para o Domingo que precede a Quaresma. A Igreja anuncia a Cruz, para que satisfaçamos pelos nossos inumeráveis pecados pela penitência. Ela faz o elogio da caridade porque sem a caridade nada tem valor, dado que só a caridade ordena tudo a Deus. E, finalmente, ela nos apresenta a cura do cego, na qual encontramos um modelo de oração: “Filho de David, tende piedade de mim.” Assim, não podemos fazer uma penitência sincera sem ter por finalidade a união com Deus. E, ao mesmo tempo, não podemos estar verdadeiramente unidos a Deus se recusamos carregar a nossa própria cruz, quer dizer, se recusamos fazer penitência. A cruz e a caridade são inseparáveis nessa Terra. Todavia, nem a caridade nem a cruz podem existir sem a oração, pois sem Deus nada podemos fazer. É preciso fazer penitência não para se orgulhar, não para se mostrar aos outros, mas para recobrar ou aumentar a nossa amizade com Deus, pedindo-lhe, pela oração, essa amizade. Durante a Quaresma, a união da penitência, da oração e da caridade é indispensável, e mesmo durante a vida inteira. Uma Quaresma sem um desses três elementos seria uma Quaresma infrutífera, que não conduziria a uma união profunda e duradoura com Deus, união que é, justamente, o objetivo da Quaresma. É por isso que, tradicionalmente, a Igreja recomenda esforços nesses três campos durante a Quaresma: oração, penitência e caridade. 1) Oração. Podemos pensar em algumas práticas concretas. Por exemplo, rezar o terço todos os dias (se ainda não faço), ou fazer uma boa leitura espiritual sólida e segura (se ainda não faço), ou fazer meditação católica todos os dias, tirando alguns minutos para pensar nas verdades eternas (se ainda não faço), ou rezar a via-sacra alguns dias da semana (definir os dias), ou rezar a coroa das dores de Nossa Senhora. 2) Penitência. Por exemplo, pode ser algo relacionado à comida, mas pode ser também com relação à internet, a redes sociais, a whatsapp, todas essas coisas que, de modo geral, nos atrapalham bastante na vida espiritual, se não são muito bem reguladas, o que é bem difícil de fazer. Pode ser também com relação a assistir futebol (esporte em geral) ou ver notícias disso para os homens, o que faz perder um tempo imenso com futilidade. Para as mulheres, deixar, por exemplo, de buscar informações fúteis sobre outras pessoas na internet e fora dela. E são coisas que podem durar depois da Quaresma e mesmo devem durar depois da Quaresma. 3) A caridade para com o próximo. Sobretudo no seio da família. Fazer algum bem material ou espiritual ao próximo, ter mais paciência com o próximo (marido com esposa e vice-versa, os pais com os filhos e assim por diante), evitar falar mal do próximo, rezar por pessoas específicas e com maior intensidade, rezar por quem nos fez algum mal.
Não devemos escolher várias coisas em cada campo, pois terminaremos fazendo mal feito ou não fazendo. Devemos escolher algo bem determinado e concreto em cada uma dessas frentes. E combater seriamente todo pecado, sobretudo o que mais nos atrapalha na união com Deus.
E que se façam os propósitos por amor a Deus, para avançar na santidade, na virtude e também em reparação pelos nossos pecados. O melhor seria escolher práticas que possam nos ajudar de maneira mais duradoura no caminho da santidade. Que não sejam práticas com consequências que durem somente os poucos dias da Quaresma.  Assim, receberemos graças abundantes na Quaresma, na Páscoa e ao longo da vida. Lembrando, porém, que as resoluções de Quaresma não obrigam, por si, sob pena de pecado.
Gostaria, porém, de dar uma sugestão, caros católicos, de resolução para essa Quaresma. Sugestão de uma resolução que une muito bem esses três elementos de que acabamos de falar. Trata-se do combate de cada um contra seu defeito dominante. Não pode haver melhor resolução que essa. Penitência, oração e caridade devem se unir no combate ao nosso defeito dominante.
O demônio, inimigo do homem, é como um leão que ruge ao nosso redor, procurando nos devorar. Com muita inteligência, ele busca, precisamente, nos atacar em nosso ponto fraco. Assim, ele faz a ronda para examinar todas as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, e é no ponto em que nos encontra mais fraco que ele nos ataca e tenta nos abater. Como um bom chefe de guerra, ele sabe que uma vez tomado o ponto mais fraco de nossa alma, o menos virtuoso, ele vai se tornar o mestre de todo o resto. Esse ponto mais desprovido de virtude, o mais arruinado pelas nossas más inclinações é justamente o nosso defeito dominante, que é também a raiz, a causa de muitos outros pecados que cometemos. Esse defeito dominante pode ser muito diverso segundo cada pessoa: o orgulho, a vaidade, o medo do sofrimento, a sensualidade, a impureza, o apego ao que nos agrada, a falta de modéstia, o respeito humano, o apego aos bens desse mundo, o apego às honras ou à glória desse mundo. Ele pode ser a loquacidade, que é o falar muito ou o falar sem pensar; pode ser a preguiça (que pode levar à dificuldade para cumprir horários), a preguiça espiritual (que leva a omitir as orações, por exemplo), a falta de espírito sobrenatural, a falta de esperança, a inconstância, o espírito mundano, a ira, etc. Alguém dirá: “Padre, não tenho nem um só desses defeitos.” Ao que se responde: “Seu defeito é o orgulho ou a falta de conhecimento de si.” Outro dirá: “Padre, tenho muitos desses defeitos ou todos esses defeitos.” Ao que se responde: “Certo, mas é preciso descobrir qual é o dominante, aquele que é a raiz dos outros.” Muitas vezes, nosso combate não dá fruto porque combatemos apenas os defeitos superficiais mais aparentes e não a o defeito que causa os outros. Passamos anos e anos sem progredir muito porque não combatemos o inimigo principal a ser combatido. Às vezes, por ignorância. Às vezes por que nos recusamos a querer combater realmente aquele pecado, que no fundo é nosso pecado de estimação. É como tratar somente os sintomas de uma doença grave sem tratar a causa da doença. Esse tratamento dos sintomas sem tratar a doença nos levará à morte. Não combater o defeito dominante nos levará, quase certamente à morte espiritual.
É fácil ver a importância de combater nosso defeito dominante. E isso por duas razões principais. Primeiramente, porque é do defeito dominante que nos vêm os maiores perigos para a nossa alma e as mais graves ocasiões de pecado para nós. Como dissemos, ele é a raiz para vários outros pecados. Segundo, podemos ver a importância de combater o defeito dominante pelo fato de que, uma vez vencido o inimigo mais terrível, os inimigos mais fracos serão facilmente derrotados por nossa alma, que se tornou mais forte em razão da primeira vitória contra o mais temível inimigo. Devemos agir como o rei da Síria na guerra contra Israel. A Sagrada Escritura nos conta que esse rei ordenou aos seus soldados que combatessem unicamente contra o rei de Israel, prometendo que a morte do rei inimigo daria uma vitória fácil sobre o resto do exército israelita. Foi exatamente o que aconteceu: tendo morrido o rei de Israel, todo o exército cedeu e a guerra terminou imediatamente. De maneira semelhante, será muito mais fácil vencer nossos outros defeitos quando tivermos vencido o nosso defeito dominante.
Para que sejamos vitoriosos nesse combate, é preciso, todavia, seguir o conselho da Igreja. A vitória sobre o nosso defeito dominante não ocorre sem os sofrimentos, sem as cruzes, sem as privações. É impossível vencê-lo sem a mortificação. A Igreja fala da paixão e da cruz no Evangelho de hoje, para nós lembrar disso.  Do mesmo modo, sem a oração – sem muita oração – é igualmente impossível vencê-lo e até mesmo começar o combate, pois é Deus que nos dá a força para combater e é Deus que nos dá, em última instância, a vitória. Sem Deus, mais uma vez, nada podemos fazer. A Igreja dá o exemplo da súplica do cego na liturgia de hoje. Finalmente, é a caridade, a vontade de servir Deus, infinitamente bom e amável, que deve nos animar e nos dispor ao combate. A Igreja nos fala na liturgia de hoje da caridade. São a cruz e a oração simples – mas eficaz – do cego que nos são lembradas pelo Evangelho. É a caridade – absolutamente necessária – que nos lembra São Paulo no sublime elogio da caridade. Mas para não se enganar a respeito de seu próprio defeito dominante, é necessário pedir o auxílio de Deus, para que Ele mostre qual é esse defeito. Convém muitíssimo nesse propósito pedir o auxílio de Nossa Senhora das Dores, pois sob esse título Ela revela os corações dos homens. Convém também pedir conselho a um Padre que conheça mais profundamente a sua alma.
Se, conseguirmos vencer, caros católicos, ou ao menos começar uma batalha séria contra nosso vício dominante, o caminho da santidade estará bem traçado, pois dessa forma cortamos o mal pela raiz, cortamos o mal em sua causa e evitaremos muitos frutos ruins, que são os pecados. Com essa má árvore cortada, poderemos praticar com facilidade e alegria a virtude e o bem, avançando no caminho da perfeição. Não devemos nos iludir para não desanimarmos nesse combate contra o nosso defeito dominante. Não venceremos nosso defeito em quarenta dias. Defeito que é, muitas vezes, decorrente do nosso temperamento e reforçado pelas nossas ações ao longo de tantos anos. Para vencê-lo será preciso a graça, muito esforço e um bom tempo. Tomemos como exemplo São Francisco de Sales, de quem se diz que passou praticamente toda a sua vida combatendo o pecado da ira. Combatamos, portanto, firmemente e Deus nos dará a vitória.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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