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13 de janeiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

Se examinarmos agora algumas circunstâncias da narração evangélica, veremos quão rico de ensinamentos é este mistério.
 Disse-vos que os Magos, em Belém, representavam os gentios na vocação à luz do Evangelho. O procedimento dos Magos indica-nos as características que deve ter a nossa fé.
 O que se nota, em primeiro lugar, é a generosa fidelidade desta fé. Vede: a estrela aparece aos Magos. Qualquer que fosse o seu país de origem -.Pérsia, Caldeia, Arábia ou Índia, - segundo a tradição, os Magos pertenciam a uma casta sacerdotal e entregavam-se ao estudo dos astros. É mais que provável que não ignorassem a revelação feita aos judeus dum rei que seria o seu libertador e senhor do mundo. O profeta Daniel, que predissera a época da Sua vinda, estivera em relação com os Magos; pode ser até que eles não desconhecessem a profecia de Balaão, de que «uma estrela se levantaria em Jacob». Seja como for, eis que uma estrela maravilhosa lhes aparece. O seu brilho extraordinário, ferindo-lhes os olhos, chama a atenção deles e, ao mesmo tempo, uma graça interior de iluminação esclarece as suas almas; esta graça fazia-lhes pressentir a pessoa e as prerrogativas d' Aquele cujo nascimento o astro anunciava; a estrela inspirava - lhes que O fossem procurar para Lhe tributarem as suas homenagens. 
É admirável a fidelidade dos Magos à inspiração da graça. A dúvida não lhes perturba sequer o espírito; sem raciocinarem, tratam da execução imediata dos seus desígnios. A indiferença ou o cepticismo dos que os cercam, o desaparecimento da estrela, as dificuldades inerentes a uma expedição daquele gênero, a distância e os perigos do caminho, nada os demove. Obedeceram sem demora e com constância ao chamamento divino. « Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos»;  partimos logo que ela se nos mostrou. 
Quer se trate de vocação à fé, quer dum apelo à perfeição, os Magos são nisto o nosso modelo. Há, com efeito, para toda a alma fiel uma vocação à santidade: Sancti estote quia ego sanctus sum: «Sede santos, porque eu sou santo». Assegura-nos o Apóstolo S. Paulo que, desde toda a eternidade, existe para nós um decreto divino, cheio de amor, que contém este convite: Elegit nos ante mundi constitutionem, ut essemus sancti et immaculati in conspectu ejus. E «para aqueles que Ele assim chama à santidade, Deus tudo faz convergir para o bem »: lis qui secundum propositum vocati sunt sancti. A manifestação desta vocação é para cada um de nós a sua estrela. Reveste variadas formas, segundo os desígnios de Deus, o nosso carácter, as circunstâncias em que vivemos, os acontecimentos em que estamos envolvidos; mas brilha na alma de cada um em particular. 
E qual foi o fim deste chamamento? Para nós, como para os Magos, levar-nos a Jesus. O Pai celeste faz brilhar a estrela em nós, pois, é o próprio Jesus Cristo quem o diz, «ninguém vem a mim, se meu Pai que me enviou o não atrair»: Nemo potest venire ad me, nisi Pater qui misit me, traxerit eum .
 Se ouvirmos com fidelidade o apelo divino, se seguirmos generosamente para a frente com os olhos postos na estrela, chegaremos até Jesus Cristo que é a vida das nossas almas. E, quaisquer que sejam os nossos pecados, as nossas faltas, as nossas misérias, Jesus acolher-nos-á com bondade. Assim o prometeu: «Todos aqueles que o meu Pai atrai a mim virão a mim, e aquele que vier a mim, Eu não o repelirei»: Omne, quod dat mihi Pater, ad me veniet: et eum qui venit ad me non ejiciam foras.
 O Pai atraiu aos pés de Jesus Madalena, a pecadora pública. E Madalena, seguindo imediatamente, com fé generosa, o raio divino da estrela que brilhava em sua alma miserável, precipita-se numa sala de festim para manifestar a Jesus Cristo a sua fé, o seu arrependimento e o seu amor. Madalena seguiu a estrela e esta guiou Madalena ao Salvador: «Os teus pecados te são perdoados, a tua fé te salvou, vai em paz». Et eum qui venit ad me non ejiciam foras. 
A vida dos Santos e a experiência das almas mostram que há, muitas vezes, em nossa existência sobrenatural, momentos decisivos, dos quais depende todo o valor da nossa vida interior e até a nossa própria eternidade.
 Vede Saulo a caminho de Damasco. É um inimigo, um perseguidor dos cristãos, Spirans minarum, «só respira e profere ameaças» contra tudo o que traz este nome. Mas eis que se faz ouvir a voz de Jesus. Esta voz é para ele a estrela, o apelo divino. Saulo ouve o apelo e segue a estrela: «Senhor, que quereis que eu faça? » Que presteza e que generosidade! Por isso, desde aquele momento, tornado «vaso de eleição», só viverá para Jesus Cristo.
 Vede, pelo contrário, aquele jovem cheio de boa vontade, coração reto e sincero, que se apresenta a Jesus e Lhe pergunta o que deve fazer para possuir a vida eterna. «Observa os mandamentos», responde o nosso divino Salvador. «Mestre, observo-os desde a infância. Que me falta ainda? » Então, diz o Evangelho, «Jesus, tendo olhado para ele, amou-o»: Jesus autem intuitus eum dilexit eum. Este olhar cheio de amor era a estrela. E logo se manifesta: « Falta-te uma coisa; se queres ser perfeito, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue -me». Mas o jovem não seguiu a estrela. «Aflito com a palavra de Jesus, abandonou-O, cheio de tristeza, porque possuía muitos bens». Alguns comentadores vêem nas palavras que Nosso Senhor pronunciou a seguir - «Como é difícil aos ricos entrar no reino de Deus» - a predição da perda daquela alma. Assim que, ou se trate do apelo à fé ou à santidade, só encontraremos Jesus Cristo e a vida de que é fonte, se prestarmos atenção à graça e perseverarmos fiéis em buscar a união divina.
 O Pai celeste chama-nos para Seu Filho pela inspiração da graça; mas quer que, como os Magos, assim que resplandecer a estrela em nosso coração, abandonemos tudo imediatamente: os nossos pecados, as ocasiões de pecar, os maus hábitos, as infidelidades, as imperfeições, os laços que nos prendem à criatura; quer que, não fazendo caso algum das críticas e da opinião dos homens ou das dificuldades da obra imposta, nos ponhamos no mesmo instante a procurar Jesus, quer O tenhamos perdido pelo pecado mortal, quer, possuindo-O já em nós pela graça santificante, sejamos chamados a uma união mais estreita e mais íntima com Ele.
 Vidimus stellam: «Senhor, eu vi a Vossa estrela e venho a Vós: que quereis que eu faça? » 

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