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17 de maio de 2015

Sermão para o 5º Domingo depois da Páscoa – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A oração pública da Igreja e a oração privada


Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito santo. Amém.
Ave Maria…
“Em verdade, em verdade vos digo que, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará.”
Nosso Senhor nos fala hoje, no Evangelho, da oração e da necessidade dela para podermos alcançar as graças de que precisamos, para podermos ser, como nos diz São Thiago na Epístola, realizadores da Palavra de Deus, para podermos praticar a religião pura e sem mácula.
 De modo geral, podemos afirmar que existem dois tipos de oração. A oração litúrgica, ou oração pública da Igreja, e a oração privada ou particular. A oração litúrgica ou oração pública da Igreja é a oração oficial da Igreja, é a oração em que intervém todo o corpo místico de Cristo com a sua divina Cabeça, isto é, com Jesus Cristo como chefe. Ela é realizada pelo ministro da Igreja, constituído para isso. Essa oração litúrgica será considerada pública ainda que o sacerdote a realize sozinho, pois ele o faz enquanto ministro da Igreja e representando os seus membros. A oração privada é aquela que faz o simples fiel, ainda que seja na Igreja e acompanhando de outras pessoas, e também a oração que faz o sacerdote quando reza em nome próprio ou quando faz suas devoções particulares.
Na oração pública da Igreja, se destaca, em primeiro lugar, o Santo Sacrifício da Missa, que Jesus realiza sobre os nossos altares por meio dos padres. Destacam-se, também, os outros sacramentos, que operam a nossa redenção. Merece particular destaque também a recitação do Breviário pelos sacerdotes e religiosos. Como já tivemos oportunidade de mencionar, no Breviário se recitam os 150 salmos na semana, além de inúmeras outras orações em honra de Deus e dos santos. Tradicionalmente, inclusive, o sacerdote tem a obrigação de rezar quotidianamente o Breviário, mas não a Missa, embora todo padre consciente de seus deveres deva celebrar quotidianamente a Missa.
 Objetivamente, nenhuma outra oração tem a força e a eficácia santificadora da oração litúrgica. Para julgar o valor objetivo de uma coisa devemos considerar o quanto de glória ela dá a Deus, já que Deus criou todas as coisas para a sua glória, para manifestar as suas perfeições, para ser mais conhecido, amado e servido. Assim, quanto mais uma coisa manifestar a glória de Deus, quanto mais uma coisa fizer Deus conhecido, amado e servido, melhor ela será. E esse é o único critério realmente verdadeiro para se julgar a bondade de uma coisa: o quanto de glória ela dá a Deus.
A partir desse critério podemos afirmar que a oração litúrgica, a oração pública da Igreja é a mais agradável a Deus, a mais perfeita, a mais eficaz. Primeiro, porque é a Igreja que reza, Igreja que é santa, que é a Esposa Imaculada Cristo. Segundo, pela excelência das próprias fórmulas litúrgicas, formadas ao longo dos séculos sob a guia do Espírito Santo, compondo um verdadeiro tesouro de espiritualidade e de doutrina. Terceiro, porque a oração da Igreja sobe sempre a Deus Pai por meio de Jesus Cristo, ainda que implicitamente. E finalmente, mas não menos importante, é o próprio Cristo que reza na oração litúrgica, na oração pública da Igreja, já que a Igreja é o corpo místico de Cristo. Assim, a pessoa que reza é a mais perfeita e as orações são as mais perfeitas. Está claro, então, que a oração litúrgica agrada imensamente a Deus e que ela é extremamente eficaz.
Todavia, para que ela seja eficaz para nós, devemos participar da liturgia em verdadeira união com Nosso Senhor Jesus Cristo e em união com toda a Igreja militante (nós aqui na terra), triunfante (anjos e santos no céu) e padecente (almas do purgatório). Devemos participar dignamente, com atenção e devoção. E devemos nos preparar bem para a liturgia da Igreja, em particular para a Santa Missa, buscando o arrependimento de nossos pecados, fazendo atos de fé, de esperança e de caridade. Para isso, convém chegar um pouco antes à Igreja, para se preparar devidamente. A verdadeira participação ativa na liturgia não é uma participação meramente física, de falar, de gesticular, de balançar folheto. A verdadeira participação na liturgia é unir-se a ela procurando ter as mesmas disposições de Jesus Cristo. Assim, na Missa, a participação mais profunda é aquela em que a pessoa se une realmente ao sacrifício de Cristo renovado pelo sacerdote, para oferecê-lo à Santíssima Trindade em união com a sua própria vida. Junto com o sacrifício de Cristo, devemos oferecer o sacrifício da nossa própria vida, entregando-a inteiramente a Ele, com todas as nossas alegrias e consolos, com todas as nossas angústias e cruzes. A participação verdadeiramente ativa na Missa é uma participação espiritual. E mesmo os pais que devem cuidar dos filhos durante a Missa e que aparentemente não conseguem se concentrar tanto nela, podem ter uma participação frutuosa, oferecendo a Deus, justamente, esses cuidados, unidos ao sacrifício de Cristo.
A liturgia da Igreja é a fonte de onde corre a água viva que alimenta a nossa vida espiritual. Se a água não é perfeitamente límpida, haverá prejuízo para a vida espiritual dos homens. Daí a importância de uma liturgia límpida, na espiritualidade e na doutrina. E se a fonte é límpida, mas não vamos até ela ou vamos até ela com um recipiente muito pequeno, também não avançaremos no amor a Deus. Devemos, então, amar a liturgia católica e devemos nos dispor bem – do modo que já mencionamos – para receber bem as graças abundantes que ela nos proporciona.  Mesmo a nossa vida de oração particular deve encontrar a sua raiz, a sua fonte, na liturgia da Igreja. Se não encontrar na liturgia a sua fonte, nossa vida de oração tende a secar rapidamente. Isto é, se não nos unimos bem à liturgia da Igreja, é toda a nossa vida espiritual que começará a desmoronar.
Dada a excelência da oração litúrgica, alguns poderiam ser tentados a menosprezar a importância da oração privada. Seria um erro grave. Não existe oposição entre oração litúrgica e oração privada, mas necessária complementaridade. As duas procedem de Deus. Não pode haver, portanto, oposição. Elas devem andar lado a lado, a fim de influenciarem-se mutuamente e aumentar o grau de eficácia que cada uma delas tem. Como vimos, a oração litúrgica alimenta a nossa oração individual e a oração privada nos dispõe bem para a oração litúrgica. Muitas vezes recebemos com certa frequência os sacramentos, recebemos com frequência a eucaristia e a confissão, mas não avançamos como era de se esperar no amor a Deus. Por que não avançamos? Porque muitas vezes nos falta a oração individual que nos dispõe melhor para as graças dos sacramentos e nos falta a oração individual para prolongar os frutos do sacramento, por exemplo, com a devida ação de graças após a Santa Missa. Muitas vezes, a família vem junta para a Missa, mas não reza unida em casa, impedindo também frutos mais abundantes. Rezem em família. De quase nada adiantará a liturgia, se não fazemos nossas orações individuais. Não nos deixemos esmagar pelas atividades do dia-a-dia, por mais importantes que sejam.
 E essas orações privadas, ainda que ditas na maior solidão, são úteis não só para a alma que as reza, mas são úteis para todo a Igreja, em virtude da comunhão dos santos.
Portanto, caros católicos, devemos rezar e rezar muito, unindo a oração da Igreja às nossas orações individuais, deixando que elas se complementem e aumentem a eficácia uma da outra. Como tão bem nos diz Santo Afonso: quem reza se salva, quem não reza se condena.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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