18 de agosto de 2013

DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

Os dez leprosos e o pecado de ingratidão

Non est inventus qui rediret, et daret gloriam Deo, nisi hic alienigena — “Não se achou quem voltasse e viesse dar glória a Deus, senão só este estrangeiro”. (Luc. 17, 18).

Sumário. Para curar os leprosos de que fala o Evangelho, Jesus apenas fez uso de um ato da sua vontade, e todavia desagrada-Lhe tanto a sua ingratidão, que não se conteve de os censurar. Quanto mais não Lhe deverá, portanto, desagradar a ingratidão de tantos cristãos, visto que, para os curar da lepra do pecado, desceu do céu à terra e derramou todo o seu preciosíssimo sangue!... Se no passado também temos sido ingratos para com o Senhor, sejamos-lhe agradecidos ao menos de hoje em diante, lembrando-nos de que a gratidão é uma fonte de novos benefícios!

I. O pecado de ingratidão é um monstro tão hediondo, que desagrada também aos homens, os quais, tendo feito algum beneficio que não é retribuído ao menos pela gratidão, sentem uma mágoa mais insuportável do que qualquer outro sofrimento corporal. — Quanto mais, porém, este monstro desagrada a Deus, bem o demonstra o Evangelho de hoje.

Refere São Lucas que “entrando Jesus em uma aldeia, saíram-Lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e levantaram a voz dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós. E Jesus, logo que os viu, disse: Ide, mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, enquanto iam, ficaram limpos. Mas um deles, quando se viu limpo, voltou atrás, engrandecendo a Deus em alta voz; e prostrou-se por terra aos pés de Jesus, dando-Lhe graças; e este era um Samaritano. E Jesus disse: Porventura não foram dez os curados? Onde estão os outros nove? Não se achou quem voltasse e viesse dar glória a Deus, senão só este estrangeiro”.

Meu irmão, façamos aqui uma consideração: para curar os dez leprosos Jesus Cristo fez apenas uso de um ato de sua vontade, e todavia a ingratidão daqueles homens desagradou-Lhe a ponto de não a querer deixar passar sem censura. Quanto mais não lhe deverá, pois, desagradar a ingratidão de tantos cristãos, visto que, para os limpar da lepra do pecado, quis Jesus aniquilar-se a si mesmo, tomando a forma de escravo (1); quis ser obediente até a morte de cruz (2); quis, enfim, derramar o seu preciosíssimo sangue até à última gota. Lavit nos in sanguine suo (3) — “Ele nos lavou em seu sangue”. — Saibamos que, conforme a revelação feita à Venerável Águeda da Cruz, a previsão de tão monstruosa ingratidão começou a atormentar nosso Senhor desde o seio de Maria e que o acompanhou durante a sua vida toda até ao último suspiro.

II. Se a ingratidão é um vício tão abominável e tão odioso a Jesus Cristo, a gratidão é, ao contrário, uma virtude extremamente agradável ao seu divino Coração. Pelo que escreveu Santo Agostinho: “Não podemos pensar, dizer nem escrever coisa melhor e mais agradável a Deus do que estas palavras: Deo gratias! — Graças a Deus!” O mesmo disse São João Crisóstomo, que acrescenta que “não há guarda melhor dos benefícios recebidos, do que o lembrar-se deles e agradecê-los. Não há coisa mais agradável a Deus do que uma alma grata; porque pelos inúmeros benefícios de que Deus nos cumula todos os dias, não nos pede outra coisa, senão que lhas agradeçamos.”

Mais: a gratidão nos abre os canais da divina misericórdia, para recebermos sempre novos e maiores dons. — Afiança-nos isso o Evangelho de hoje; porque o leproso que voltou para dar graças a Jesus Cristo, além da saúde do corpo, recebeu também a da alma, visto que, conforme explicam os intérpretes, foi então iluminado acerca da divindade de Jesus e feito em seguida seu discípulo e propagador da religião de Cristo, realizando muitos milagres em seu nome; Lides tua te salvum fecit (4) — “Tua fé te salvou”.

Longe, portanto, de imitarmos os nove leprosos ingratos, imitemos antes o Samaritano agradecido. Voltemos atrás, com nosso pensamento, para enumerar os benefícios recebidos de Deus e considerando a ingratidão com que lhes havemos correspondido, prostremo-nos a seus pés, enaltecendo-O em alta voz, rendendo-Lhe graças, e peçamos-lhe humildemente perdão.

Ó meu Redentor amabilíssimo, graças Vos dou e quereria morrer de dor ao pensar que Vos ofendi tanto, a Vós que sois a bondade infinita, que me enriquecestes de tantos dons e chegastes a fazer de vosso sangue um banho salutar para me limpar da lepra nojenta do pecado. Meu amor, perdoai-me, vinde tomar posse do meu coração e nunca mais Vos afasteis dele. Amo-Vos, e cada vez que disso me lembrar, prometo fazer atos de amor para compensar as minhas ingratidões para convosco. Ajudai-me para que Vos seja fiel. “Aumentai sempre em mim a fé, esperança e caridade, e fazei que ame o que mandais, para que mereça alcançar o que prometeis”. (5) Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.

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1. Phil. 2, 7.
2. Phil. 2, 8.
3. Apoc. 1, 5.
4. Marc. 10, 52.
5. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 40-43.)

2 comentários:

  1. Desimo terceiro DOmingo depois do PentecosteS? A gente naum ta no 20 Domingo Tempo Comum?

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    1. As publicações seguem a forma Extraordinária do Rito Romano. É a liturgia da Igreja Católica em uso antes da reforma do Concílio Vaticano II. Inclui a missa, os sacramentos, vários ritos de bençãos e mais. A Missa é as vezes chamada de Missa “Tridentina” porque “Tridentino” se refere ao Concílio de Trento (1545-1563), que unificou a prática litúrgica na Igreja Ocidental. O Papa São Pio V alcançou esta meta em 1570 quando emitiu a restauração do Missal Romano após o Concilio. A Missa Tridentina foi baseada nas mais antigas e veneráveis fontes litúrgicas Ocidentais. São Pio V decretou na Bula Papal conhecida como Quo Primum que seu único rito de Missa fosse usado por todos na Santa Igreja. No entanto, exceções foram feitas para os ritos que tinham estado em uso contínuo por pelo menos 200 anos. Por que o Latim? O latim continua sendo a língua oficial da Igreja Católica Romana e tem sido usado como a língua litúrgica no Ocidente desde o século III. A natureza imutável do latim tem conservado a doutrina ortodoxa da Missa, que nos foi herdada dos pais da Santa Igreja. O uso do latim na Missa e em documentos oficiais da Igreja tem sido fundamental em apoiar a universalidade e unidade da Igreja. O papa Bento XVI indicou o uso de latim e o canto Gregoriano na liturgia na sua Exortação Papal de 2007 sobre a Eucaristia Sacramentum Caritatis. Embora a Missa Tradicional seja dita ou cantada em latim, a maioria dos fiéis que participam na liturgia usam seus próprios livros de oração (missais), que contém o texto em latim acompanhado por sua tradução no vernáculo. As regras que explicam como tal participação deve ocorrer estão na encíclica Mediador Dei do Papa São Pio XII, par. 106.

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