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31 de março de 2021

Histórias das Cruzadas - Livro Primeiro - Origem e Progresso do Espírito das Cruzadas 22

Enquanto os turcos, sob as ordens de Toutousch e de Ortock desolavam a Síria e a Palestina, outras tribos dessa nação comandadas por Solimão, sobrinho de Maleck-Schah tinham, penetrado na Ásia Menor. Tinham se apoderado de todas as províncias que os peregrinos do Ocidente atravessavam, para chegar a Jerusalérn. Essas regiões, onde os Apóstolos do Evangelho tinham começado a fazer ouvir a sua voz, onde a religião cristã tinha lançado seus primeiros clarões, a maior parte das cidades gregas cujos nomes se tinham gloriosamente misturado aos anais da Igreja nascente, tinham sofrido o jugo dos infiéis. O estandarte do profeta de Meca, estava desfraldado nos muros de Edessa, de lcônio, de Tarso, de Antioquia. Nicéia tinha se tornado a sede de um império muçulmano; insultava-se a divindade de Jesus Cristo naquela cidade, onde o primeiro Concílio Ecumênico o tinha declarado artigo de fé. O pudor das virgens tinha sido imolado à brutalidade dos vencedores. Milhares de crianças haviam sido circuncidadas. Em toda a parte o Corão substituía as leis da Grécia e do Evangelho. As tendas negras ou brancas dos turcos cobriam as planícies e os montes da Bitínia e da Capadócia e seus rebanhos erravam por entre as ruínas dos mosteiros e das igrejas.

Jamais os gregos haviam tido inimigos tão cruéis e mais temíveis que os turcos. Enquanto a corte de Alp-Arslan e de Maleck-Schah ostentava a magnificência e recolhia o brilho dos antigos persas todo o resto da nação era bárbara e conservava, no meio dos povos vencidos, os costumes ferozes e selvagens da Tartária. Os filhos de Seldjouc preferiam viver nas tendas do que nas cidades, alimentavam-se com o leite dos seus rebanhos e não queriam saber da agricultura e do comércio, persuadidos de que a guerra devia prover a todas as suas necessidades. Para eles a pátria era o lugar onde suas armas triunfavam, eram todos os lugares que lhes forneciam abundantes pastagens. Quando se moviam de um país para outro, todos os da mesma família caminhavam juntos; levavam consigo tudo o que estimavam, tudo o que possuíam. Uma vida sempre errante, de frequentes questões que surgiam entre bandos rivais, mantinha seu espírito militar. Todo guerreiro tinha seu nome escrito num dardo e jurava faze-lo respeitar pelos inimigos. Os turcos mostravam, tanto ardor pelo combate que era suficiente a um chefe mandar sua flecha ou seu arco aos de sua tribo, para chamá-los à guerra. Eles suportavam a fome, a sede e o cansaço com uma paciência que os tornava invencíveis. O Oriente não tinha povo algum que os sobrepujasse na arte de guiar um cavalo e de atirar um dardo; nada igualava à impetuosidade de seu ataque. Temíveis mesmo na fuga, mostravam-se implacáveis na vitória. Não eram impelidos em suas expedições, nem pela glória, nem pela honra, mas pelo amor à destruição e ao saque.

A notícia de suas invasões havia ecoado por todos os povoados que existiam além do Cáucaso e do mar Cáspio; novas emigrações vinham todos os dias fortificar seus exércitos. Como eles eram dóceis na guerra, turbulentos e rebeldes na paz, os chefes os conduziam sem cessar a novos combates. Maleck-Schah, para se desembaraçar de seus lugar-tenentes, muito mais do que para recompensá-los, tinha-lhes permitido conquistar as terras dos gregos e dos egípcios. Organizaram facilmente exércitos aos quais prometiam os despojos dos inimigos do Profeta e de seu vigário legítimo. Todos os que não tinham tomado parte na divisão dos despojos das guerras precedentes, acorriam em massa sob suas batideiras, e as riquezas da Grécia foram logo presa dos cavaleiros turcos, que haviam saído de seus desertos com um feltro de lã e um estribo de madeira. De todos os bandos sujeitos à dinastia de Seldjouc, os que invadiram a Síria e a Ásia Menor eram os mais pobres, os mais grosseiros e os mais intrépidos.

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