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2 de abril de 2021

Histórias das Cruzadas - Livro Primeiro - Origem e Progresso do Espírito das Cruzadas 23

No excesso de sua miséria, os gregos das províncias conquistadas mal ousavam levantar suas vistas para os soberanos de Bizâncio que não tinham tido a coragem de os defender e que não lhes queixavam
nenhuma esperança de ver terminarem seus males. O império grego precipitava-se para a ruína no meio
das revoluções e das guerras civis. Desde o reinado de Heráclio, Constantinopla tinha visto onze de seus imperadores postos à morte em seus mesmos palácios. Seis dos senhores do mundo tinham terminado seus dias na obscuridade dos claustros; vários tinham sido mutilados, privados da vista, mandados ao exílio; a púrpura, amesquinhada por tantas revoluções só adornava maus príncipes ou homens sem caráter, nem virtudes. Eles só se ocupavam de sua conservação pessoal e dividiam o poder com os cúmplices de seus crimes, que eles temiam sem cessar; muitas vezes mesmo sacrificavam cidades e províncias, para comprar aos inimigos alguns momentos de segurança e pareciam nada ter a pedir à fortuna, se não que o império durasse tanto quanto sua própria vida.

Uma rápida decadência fazia-se sentir por toda a parte. Nas dissertações e discussões teológicas os gregos tinham perdido o verdadeiro espírito do Evangelho e entre eles, tudo, até a religião, estava corrompido. Uma hipocrisia universal, diz Montesquieu, abatia a coragem e entorpecia o Império. Todas as virtudes que animam o patriotismo tinham desaparecido; a astúcia e a perfídia, o fingimento e
a duplicidade eram decorados com o nome de politica e recebiam os mesmos elogios que o valor; os gregos achavam tão glorioso enganar seus inimigos como vencê-los. Seus soldados faziam-se seguir na
guerra por carros leves que levavam suas armas. Eles tinham aperfeiçoado todas as máquinas que podem suprir à bravura nos cercos e nas batalhas. Seus exércitos possuíam um grande aparato militar, mas sentiam falta de combatentes. Os gregos só haviam conservado de seus antepassados um caráter turbulento e sedicioso, que se misturava com seus costumes efeminados e que sobressaía principalmente no meio dos perigos de sua pátria. A discórdia agitava continuamente o exército e o povo, disputava-se ainda encarniçadamente um Império ameaçado de todos os lados e cuja defesa era deixada aos bárbaros. O Império grego primeiramente tinha sido ameaçado pelos discípulos de Maomé; a conquista de Constantinopla era para os árabes como uma das promessas do Corão; desde os primeiros tempos da Héjira, a Síria, o Egito, e várias províncias caíram em poder dos novos conquistadores; mais tarde os sequazes do Profeta passaram a cadeia do Tauro e espalharam-se pela Ásia Menor sem que houvesse agitação na capital do Império. Desde então foi fácil ver que Constantinopla jamais se tornaria uma barreira contra o Islamismo e que seria um dia a porta por onde os defensores do Corão penetrariam na Europa cristã. Houve sucessores de Constantino que tentaram reter o progresso dos muçulmanos; jamais, porém, foram secundados por seus povos e vários morreram vitimas de seu patriotismo.

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