8 de maio de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 20

O Símbolo dos Apóstolos

Duodécimo artigo: Creio na vida eterna

1. Devemos ver neste artigo que depois desta vida há-de haver outra vida que há-de durar para sempre, os bons com a glória eterna no Céu, e os maus com as penas eternas no Inferno.
2. Sabemos que há-de haver outra vida depois desta, porque Deus no-lo revelou, e que uma outra vida é necessária para o prêmio dos bons e o castigo dos maus.

O Céu

3. O Céu ou paraíso é um lugar de delícias, no qual os Anjos e os Santos gozam duma felicidade eterna e perfeita pela vista e posse de Deus.
4. Os que vão para o Céu são aqueles que, tendo morrido em estado de Graça, satisfizeram inteiramente a justiça de Deus.
5. Nem todos os bem-aventurados gozarão do mesmo prêmio; todos verão a Deus, mas a felicitado será em proporção dos seus merecimentos.
6. Sabemos que os santos veem Deus no Céu, pelas palavras de Nosso Senhor dizendo: “Bem-aventurados os de coração puro, porque verão a Deus.”
7. A felicidade dos Céus é tão grande, que não podemos compreendê-la na Terra, onde nada pode dar-nos uma ideia do que é o Céu. São Paulo diz: “Os olhos do homem não viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais veio ao coração do homem o que Deus tem preparado para aqueles que O amam.”
8. A felicidade eterna consiste, dizem os santos Padres, na ausência do todo o mal e na posse de todo o bem. No que diz respeito ao mal, lemos no Apocalipse (XXI,4) de São João: “Os bem-aventurados não terão fome nem sede jamais, nem cairá sobre eles o sol nem ardor algum. Deus enxugar-lhes-á todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte, nem mais choro, nem mais gritos, nem mais dor, porque as primeiras coisas são passadas.” No que diz respeito aos bens, a glória dos escolhidos será imensa, possuirão ao mesmo tempo todos os gozos, todas as delícias, porque possuirão a Deus, fonte da infinita felicidade.
9. Atualmente, os santos estão no Céu só em alma; os seus corpos entrarão ali senão depois da Ressurreição e do Juízo Final.
10. Os bem-aventurados hão-de contemplar Deus eternamente, e esse dom, o mais excelente e admirável de todos, torná-los-á participantes da natureza mesmo de Deus e dar-lhes-á a posse completa e definitiva da verdadeira felicidade.

Explicação da gravura

11. Esta gravura representa o Céu. Ao centro estão as três Pessoas divinas assentadas num triângulo sobre um trono de glória, cercado pelos anjos. Muitos deles tocam instrumentos diversos, outros queimam incenso em turíbulos. A Virgem Santíssima, sua Rainha, está à frente deles, à direita de Jesus Cristo seu filho e num trono inferior ao trono de Deus mas superior a tudo o que não é Deus.
12. No segundo plano, figuram, à direita, São João Baptista, Moisés, David, Abraão e outros santos do Antigo Testamento; à esquerda, São José, São Pedro e os outros Apóstolos, um Evangelista com um livro, e muitos santos do Novo Testamento.
13. No terceiro plano veem-se outros santos, entre os quais alguns mártires, com Santo Estevão; santos Pontífices, um santo Rei, virgens santas e mártires, como Santa Cecília e Santa Catarina e santas mulheres, como Santa Maria Madalena.
14. Santo Estevão segura na mão uma pedra, porque sofreu o martírio do apedrejamento.
15. Santa Cecília tem uma harpa, porque cantava louvores a Deus ao som dos instrumentos musicais.
16. Santa Catarina tem aos pés uma roda quebrada, porque a condenaram à morte por meio de uma roda armada de instrumentos cortantes, mas a roda quebrou-se, mal a puseram em movimento.

17. Santa Maria Madalena segura um vaso, porque derramou um dia sobre a cabeça de Nosso Senhor um vaso cheio de precioso perfume.

7 de maio de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 19

O Símbolo dos Apóstolos

Undécimo artigo: Creio na Ressurreição da carne

1. Este artigo ensina-nos que, no Fim do Mundo, todos os homens hão-de ressucitar tomando cada um o mesmo corpo que dantes tinha
2. Isso é possível pela omnipotência divina, à qual nada é impossível.
3. Dizemos “Ressurreição da carne” e não do homem todo, para denotar que a alma não morre, mas só o corpo, e por isso deve ressurgir somente a carne.
4. Os corpos hão-de ressucitar para terem parte no prémio ou na pena, já que tiveram parte no bem e no mal durante a vida.
5. Todos os homens ressuscitarão, tanto os bons como os maus, mas com esta diferença: que os escolhidos terão os dotes dos corpos gloriosos, e não assim os condenados.
6. Os dotes dos corpos gloriosos são: a impassibilidade, que é a isenção de toda a dor e miséria; a claridade, que é o resplendor da alma redundando o corpo; a agilidade, que é a isenção do peso que hoje subjuga o corpo; a subtileza que designa a perfeita submissão do corpo ao comando da alma.
7. Os corpos dos condenados não terão esses dotes e serão susceptíveis de toda a espécie de sofrimentos.
8. A Ressurreição será no Fim do Mundo, antes do Juízo Final. Ouvida a sentença do Juízo Final, os ressuscitados hão-de ficar no mesmo lugar onde Deus os puser, os bons na bem-aventurança eterna em companhia de Jesus Cristo e dos Anjos: os condenados, no inferno para sempre em companhia dos demônios.
9. Milagre de Jesus ressuscitando Lázaro, no Evangelho de São João: "Tendo, pois, ouvido que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. Depois disto, disse aos seus discípulos: "Voltemos para a Judéia". Os discípulos disseram-Lhe: "Mestre, ainda há pouco os judeus Te quiseram apedrejar, e Tu vais novamente para lá?" Jesus respondeu: "Não são doze as horas do dia? Aquele que caminhar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; porém, o que andar de noite tropeça, porque lhe falta a luz." Assim falou, e depois disse-lhes: "Nosso amigo, Lázaro, dorme; mas vou despertá-lo". Os seus discípulos disseram-Lhe: "Senhor, se ele dorme, também se há de levantar." Mas Jesus falava da sua morte; e eles julgavam que falava do repouso do sono. Jesus disse-lhes então claramente: "Lázaro morreu, e Eu, por vossa causa, estou contente por não ter estado lá, para que acrediteis; mas vamos ter com ele." Tomé, chamado Dídimo, disse então aos outros discípulos: "Vamos nós também, para morrer com ele". Chegou Jesus e encontrou-o já há quatro dias no sepulcro. Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios (três kilómetros). Muitos judeus tinham ido ter com Marta e Maria, para as consolarem pela morte de seu irmão. Marta, pois, logo que ouviu que vinha Jesus, saiu-Lhe ao encontro; e Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: "Senhor, se estivesses cá, meu irmão não teria morrido. Mas também sei agora que tudo que pedires a Deus, Deus To concederá." Jesus disse-lhe: "Teu irmão há de ressuscitar."Marta disse-Lhe: "Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia." Jesus disse-lhe: "Eu sou a Ressurreição e a Vida.; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente. Crês nisto?" Ela respondeu: "Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vieste a este mundo." Dito isto, retirou-se e foi chamar em segredo sua irmã Maria, dizendo: "O Mestre está cá e chama-te". Ela, logo que ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele. Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta tinha ido ao seu encontro. Então, os judeus que estavam com ela em casa e a consolavam, vendo que Maria tinha se levantado tão depressa e tinha saído, seguiram-na, julgando que ia chorar ao sepulcro. Maria, porém, tendo chegado onde Jesus estava, logo que o viu, lançou- se aos seus pés e disse-Lhe: "Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido." Jesus, vendo-a chorar, a ela e aos judeus que tinham ido com ela, comoveu-Se profundamente e emocionou-Se; depois perguntou: "Onde o pusestes?" Eles responderam: "Senhor, vem ver." Jesus chorou. Os judeus, por isso, disseram: "Vede como Ele o amava". Porém, alguns deles disseram: "Este, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que este não morresse?" Jesus, pois, novamente emocionado no seu interior, foi ao sepulcro. Era este uma gruta com uma pedra colocada à entrada. Jesus disse: "Tirai a pedra". Marta, irmã do defunto, disse-Lhe: "Senhor, ele já cheira mal, porque está aí há quatro dias." Jesus disse-lhe: "Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?" Tiraram, pois, a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: "Pai, dou-Te graças por me teres ouvido. Eu bem sabia que me ouves sempre, mas falei assim por causa do povo que está em volta de Mim, para que acreditem que Tu me enviaste." Tendo dito estas palavras, bradou em voz forte: "Lázaro, sai para fora!" E saiu o que estivera morto, ligado de pés e mãos, com as ataduras, e o seu rosto envolto num sudário. Jesus disse-lhes: "Desligai-o e deixai-o ir". Então, muitos dos judeus que tinham ido visitar Maria e Marta, vendo o que Jesus fizera, acreditaram n'Ele.” (S. João XI, 1-46) 

6 de maio de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 18

O Símbolo dos Apóstolos

Décimo artigo : Creio na remissão dos pecados

1. Cremos por este artigo : 1º que podemos alcançar de Deus a remissão dos nossos pecados; 2º que Jesus Cristo deixou à sua Igreja o remédio para perdoar todo tipo de pecado.
2. Podemos alcançar o perdão de todos os pecados, por muito graves e enormes que sejam.
3. Deus perdoa os pecados por meio dos ministros da Igreja a quem Jesus Cristo conferiu esse poder. Esses ministros são os bispos e os sacerdotes.
4. Recebemos o perdão dos pecados principalmente pelos sacramentos do Batismo e da Penitência. O pecado original é-nos perdoado pelo Batismo e os pecados mortais pelo sacramento da Penitência e também pela contrição perfeita acompanhada do voto de nos confessarmos.
5. Os pecados veniais podem ser perdoados sem ministério exterior da Igreja; além dos sacramentos, as orações, as esmolas e outras boas obras podem obter a remissão deles.
6. Os pecados são perdoados pelos merecimentos de Jesus Cristo.
7. O Benefício da Remissão dos pecados é uma obra não inferior à criação do mundo, e ao ressuscitar dos mortos.
8. Só Deus é que pode perdoar os pecados. Sendo Jesus Cristo Deus, tinha também aquele poder; tinha-o também como homem, porque a natureza humana estava unida n’Ele à divindade, e vemos no Evangelho que usou muitas vezes daquele poder. Como primeiro exemplo está a cura do paralítico. “Um dia entrou Jesus outra vez em Cafarnaum, e soube-se que Ele estava em casa, juntou-se muita gente, de modo que não se cabia, nem mesmo à porta. Nisto chegaram alguns conduzindo um paralítico que era transportado por quatro homens. Como não pudessem levá-lo junto d’Ele por causa da multidão, descobriram o teto na parte debaixo do qual estava Jesus e, tendo feito uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Vendo a Fé daqueles homens, disse ao paralítico : “São te perdoados os pecados”. Estavam sentados ali alguns escribas que diziam nos seus corações : “como é que Ele fala assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?” Jesus conhecendo logo no Seu espírito que eles pensavam desta maneira dentro de si disse-lhes: “Por que pensais isto nos vossos corações? O que é mais fácil dizer ao paralítico: São-te perdoados os pecados ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar os pecados, - disse ao paralítico -: “Eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”. Imediatamente ele se levantou e, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, de maneira que se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: “Nunca vimos coisa semelhante”.” (Marcos II, 3-13)
9. Na sua infinita bondade, Nosso Senhor comunicou esse poder a São Pedro, e de seguida, no mesmo dia da sua ressurreição, a todos os Apóstolos e por eles a todos os seus sucessores legítimos. “Tendo chegado à região de Cesareia de Filipe, Jesus interrogou os seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” E eles responderam: “Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas”. Jesus disse-lhes: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Respondendo Simão Pedro, disse: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo”. Respondendo Jesus, disse-lhe: “Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas meu Pai que está nos Céus. E Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela, Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligardes sobre a terra será ligado também nos Céus e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado também nos Céus”.” (Mateus XVI, 13-19). “Chegada a tarde daquele mesmo dia (da ressurreição) e estando fechadas as portas da casa onde os discípulos estavam juntos, por medo dos Judeus, foi Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se muito ao ver o Senhor. Ele disse-lhes novamente: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também vos envio a vós”. Tendo dito estas palavras soprou sobre eles, e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os reterdes, ser-lhes-ão retidos”.” (João XX, 19-23).

Explicação da gravura

10. A gravura representa São Pedro recebendo de Nosso Senhor as chaves, com o poder de fechar e de abrir, de ligar e de desligar, isto é de perdoar ou não os pecados.

5 de maio de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 17

O Símbolo dos Apóstolos

9º artigo (continuação) : Na Comunhão dos Santos

1. Estas palavras, “Creio na Comunhão dos Santos”, significam que os bens espirituais da Igreja são comuns a todos os seus membros de uma mesma família ou de um mesmo corpo.
2. A palavra “comunhão” quer dizer aqui comunidade. Assim, como há comunidade de bens entre todos os membros de uma mesma família, assim também, há na Igreja comunidade de bens espirituais entre todos aqueles que a compõem.
3. Dá-se o nome de “Santos”, não só aos bem-aventurados que estão no Céu e às almas do Purgatório, como ainda aos fiéis da terra, porque foram santificados pelo Batismo e são chamados a viver uma vida santa.
4. Os bens espirituais da Igreja são: os merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos, os Sacramentos, o Santo Sacrifício da Missa, as orações e as boas obras.
5. A Comunhão dos Santos não existe apenas entre os fiéis que vivem sobre a terra, mas ainda entre a Igreja triunfante, a Igreja militante e a Igreja padecente.
6. A Igreja triunfante é a reunião dos santos que triunfam com Jesus Cristo no Céu.
7. A Igreja militante é a reunião dos fiéis que combatem na terra contra os inimigos da Salvação.
8. A Igreja padecente é a reunião das almas dos justos que acabam de expiar as suas culpas nas penas do Purgatório.
9. O Purgatório é este lugar de sofrimentos onde as almas dos justos acabam de expiar as suas culpas antes de entrar no Céu.
10. Estão no Purgatório aqueles que morreram em estado de Graça, não se achando todavia completamente isentos de pecados veniais ou que não satisfizeram ainda à justiça de Deus.
11. A existência do Purgatório é certa. Com efeito Jesus Cristo diz no Evangelho que as blasfêmias contra o Espírito Santo não serão perdoadas neste mundo nem no outro. Nosso Senhor dá-nos assim entender que outros pecados serão perdoados depois desta vida. Ora não o podem ser no Céu, onde não entra o pecado, nem no Inferno, onde não há perdão. Portanto sê-lo-ão no Purgatório.
12. Encontramo-nos em comunhão com os santos que estão no Céu enquanto oramos por eles, e eles intercedem por nós.
13. Estamos em comunhão com as almas do Purgatório, enquanto as aliviamos com as nossas orações, as nossas belas obras, pelas indulgências e sobretudo pelo Santo Sacrifício da Missa.
14. As orações que ordinàriamente se rezam para as almas do Purgatório são : o ofício dos mortos, o salmo “De profundis”, e a invocação : “ Que as almas dos fiéis defuntos descansem em paz pela misericórdia de Deus”.
15. Os fiéis da terra estão em comunhão entre si enquanto cada um deles aproveita das orações e boas obras que se fazem em toda a Igreja.
16. Nem todos participamos destes bens no mesmo grau, que é maior ou menor segundo os nossos merecimentos.
17. Os próprios pecadores têem alguma parte nesta comunhão de bens espirituais, de que lhes advêm graças, que podem aproveitar para se converterem.
18. Não participam de modo algum, dos bens espirituais da Igreja aqueles que não são membros dela, como os hereges, cismáticos, e excomungados.
19. Por estas palavras “Fora da Igreja não há salvação” devemos entender que é absolutamente impossível a salvação aqueles que voluntariamente de má fé se conservam fora da verdadeira Igreja

Explicação da gravura

20. Esta gravura representa a comunicação dos santos na multidão dos Santos e dos Anjos que estão no Céu, nos fiéis da Terra e nas almas do Purgatório.
21. Na parte superior da gravura os Anjos e os Santos adoram as três pessoas da Santíssima Trindade, rogando-lhes pelos fiéis que vivem sobre a terra.
22. Ao centro, estes fiéis assistem ao Santo Sacrifício da Missa, invocando os Santos do Céu, orando uns pelos outros e pedindo a libertação das almas do Purgatório.
23. O plano inferior representa o Purgatório. As águas refrescantes que os dois anjos derramam sobre as almas simbolizam o alívio que se lhes obtém pelo Santo Sacrifício da Missa. 

4 de maio de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 7

CAPÍTULO VII

Nono e décimo Concílio Ecumênico - São Bernardo - Milagres e morte - São Tomás de Cantuária - Heresia dos Valdenses - Undécimo Concílio Ecumênico.

Nono Concílio Ecumênico - O nono Concílio Ecumênico foi celebrado também em Roma, na Igreja de São João de Latrão; por isso chamou-se Lateranense. Convocou-o Calixto II no ano 1123 e intervieram nele mais de 300 bispos e mais de 600 abades, sob a presidência do mesmo pontífice. O fim principal deste concílio era restabelecer a paz e concórdia entre o sacerdócio e o império, perturbada pelas chamadas investiduras. Os imperadores da Alemanha pretendiam imiscuir-se nos assuntos religiosos, especialmente na eleição dos bispos e abades, e na adjudicação da dignidade episcopal ou abacial, o que se chamava investir. Acontecia frequentemente que, pela usurpação destes direitos, elegiam-se pessoas indignas e às vezes indigníssimas por sua ignorância e péssima conduta, com grande escândalo dos fieis. Os Papas tinham levantado várias vezes a voz contra estes abusos, porém em vão, pois os mesmos imperadores tomaram as armas e passaram a cometer violências contra eles. O Papa Calixto, cheio de zelo e valor, querendo a todo custo remediar tamanho mal, depois de ter trazido Henrique V a melhores sentimentos, reuniu o dito concílio. Ali conseguiu o imperador ser absolvido da excomunhão em que tinha incorrido, e submeteu-se humildemente à Igreja jurando que já não tomaria parte nas investidas deixando assim livre a Igreja na eleição de seus ministros. Condenaram-se igualmente as ordenações feitas pelo herege Bordino, que se proclamara anti-Papa. O concílio convidou por último os cristãos a expulsarem de Jerusalém aos Sarracenos, que tinham voltado novamente, e da Espanha aos Mouros, ferozes inimigos do cristianismo, que se tinham apoderado daquele reino.

Décimo Concílio Ecumênico - Ainda não tinham passado dezesseis anos da celebração do mencionado concílio, quando o Papa Inocêncio II julgou conveniente reunir outro no mesmo palácio de Latrão. Abriu-se em 1º de Abril do ano 1139. Assistiram a ele mil bispos e outros tantos abades presididos pelo mesmo pontífice, que, como escreve um historiador daqueles tempos, compareceu entre aqueles santos prelados como o mais venerável de todos, tanto pela majestade que Resplandecia em seu rosto e pelos oráculos que saiam de sua boca, como por sua suprema autoridade. O concílio foi celebrado para por um remédio às desordens causadas pelo anti-Papa Anacleto, chamado Pedro de Leão, e condenar vários erros que tinham surgido contra a fé. Entre estes merece mencionar a heresia de Tanquelino, leigo muito astuto, que fingindo santos costumes, soube enganar os simples e levá-los à prática das mais vergonhosas obscenidades. Considerava-se igual a Jesus Cristo; negava os sacramentos e ensinava que os bispos nada eram mais do que os leigos. Foram condenados também os erros de Pedro de Bruis e Arnaldo de Brescia, os quais, além de levarem vida escandalosa, desprezavam o santo sacrifício da Missa, a invocação dos santos, o batismo das crianças, a tradição e os escritos dos santos Padres. A justiça de Deus confirmou visivelmente a condenação destes hereges. Com efeito: Pedro de Bruis, depois de cinco anos de roubos e delitos, foi vítima do furor do povo, que, horrorizado por suas blasfêmias, o atirou dentro das chamas que ele próprio preparara para queimar um monte de cruzes que tinha derribado. Arnaldo, inimigo acérrimo do poder temporal dos Papas, não cessando de vomitar calúnias contra a igreja, atreveu-se a ir a Roma onde por ódio ao pontífice tentou fazer assassinar a um cardeal. Temendo em seguida a pena que merecia seu crime, fugiu de Roma; ao chegar porém a Toscana, foi preso e condenado às chamas pelo poder civil. São Bernardo em carta escrita ao Papa sobre Arnaldo de Brescia e Abelardo seu mestre, disse que estes se uniram e se puseram de acordo para uma conjuração secreta contra Jesus Cristo e contra sua Igreja; em seguida relata-lhe seus erros. Arnaldo morreu obstinado no erro; mas Pedro Abelardo foi a Roma e submeteu-se à santa Sé. Dali voltou à França, reconciliou-se com São Bernardo, e para tratar melhor da salvação de sua alma, encerrou-se em um convento dependente de Cluny, onde depois de passar alguns anos fazendo penitência, com edificação daqueles religiosos, morreu no Senhor no ano 1142, aos 63 de idade.

São Bernardo, abade e doutor - São Bernardo, abade de Claraval, é certamente um dos astros mais luminosos da Igreja. Nasceu em Fontainas na Borgonha. Ainda pequeno, sentia tal ternura para com a Santíssima Virgem, que só ao ouvir pronunciar seu nome, dava sinais de prazer e alegria. Tudo fazia com gosto contanto que se lhe dissesse: "Isto agrada a Maria'" e desejava fazer o contrário quando se lhe dizia: “Isto desagrada a Maria.” Embora as raras e nobres qualidades de sua pessoa e as ainda mais seu engenho surpreendente lhe abrissem caminho para as mais altas dignidades, a tudo renunciou para abraçar o estado religioso no mosteiro de Cister. Seu exemplo suscitou-lhe tantos discípulos, que tiveram de fundar outros mosteiros entre os quais se achava o de Assêncio. Era este lugar uma espantosa guarida de ladrões, e pelo nome e celebridade de Bernardo se chamou em seguida Claraval. Poucos eram os jovens com quem falava o santo, que não se alistassem na sua milícia Espiritual. Muitos nobres mancebos seguiram os incentivos de sua extraordinária santidade. Um seu tio, sua Irmã, seus cinco irmãos, e seu próprio pai fizeram-se religiosos e morreram como santos.

Milagres e morte - A santidade de Bernardo achava-se confirmada por frequentes e ruidosos milagres. Com o sinal da cruz curou um bispo que estava prestes a morrer; também curou, em presença de grande multidão, a uma mulher, um menino e uma menina aleijados. Dava por todas as partes a vista aos cegos e o ouvido aos surdos, a palavra aos mudos, a saúde aos enfermos e conhecia os segredos mais íntimos do coração. E ainda que suas rígidas penitências debilitassem sua saúde, estava, não obstante, sempre pronto para confessar, pregar e empreender viagens a fim de cumprir difíceis missões, e pacificar príncipes e nações. No meio destes vários e gravíssimos negócios nunca deixava as orações e meditações de costume. Estando um dia na Igreja catedral de Spira, arrebatado em êxtase, pôs-se a cantar no meio do povo e do clero: o clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria. Estas palavras agradaram tanto, que a Igreja acrescentou-as à Salve Regina, com que costuma honrar a augusta Mãe do Salvador. Quando se espalhou a notícia da perigosa enfermidade de São Bernardo, de todas as partes acudiam pessoas a Claraval unicamente com o fim de ver pela última vez esse portento de sabedoria. Bispos e abades tinham-se reunido em redor dele para receber sua bênção e assistir à sua ditosa morte. Dormiu Bernardo no Senhor, nos braços de seus religiosos, no ano 1153, aos sessenta e três de idade. Por causa dos muitos milagres que se operavam sobre seu sepulcro, apenas vinte anos depois de sua morte, Alexandre II o inscreveu no número dos santos, e o sumo Pontífice Pio VIII no ano 1830 o contou entre os doutores da santa Igreja.

São Tomás de Cantuária - A Inglaterra, terra fecunda em santos, contou neste século, entre os muitos luminares da fé, a Santo Tomás, arcebispo de Cantuária. Nascido em Londres de nobres e piedosos pais, demonstrou, desde menino, tanto amor para com a verdade, que não podia sofrer que se faltasse a ela nem por gracejo. Seus talentos e suas virtudes o tornaram mui querido a Teobaldo, arcebispo de Cantuária, que o ordenou sacerdote e mais tarde arcediago de sua catedral. Sua aptidão para manejo dos grandes negócios lhe mereceu o cargo de conselheiro, ou primeiro ministro de estado. São Tomás exerceu este cargo com plena satisfação de todo o reino, e muito em particular, do rei, que o favoreceu de tal modo que nada queria que se fizesse sem ordem sua. Morto o arcebispo, elegeram a Tomás para lhe suceder. Não podendo subtrair-se a este cargo tão pesado, abandonou todas as pompas, cingiu um grande cilício em suas desnudadas carnes e vestiu o hábito monástico. Costumava passar as noites em oração e na leitura dos livros santos ao passo que de dia dedicava-se a obras de beneficência e a reformar os costumes do clero e do povo. Exemplar no ofício de chanceler, mostrou-se firme e invicto no ministério episcopal, e com ânimo varonil resistiu ao próprio rei, que de diferentes modos o perseguia cruelmente. Tomás teve de experimentar por muitos anos os rigores do desterro, até que, acalmando-se as iras do príncipe, voltou a sua sede episcopal. Como continuasse, porém, sempre pregando contra as desordens públicas e privadas, acusaram-no perante o rei, o qual não cessou de armar-lhe insídias; e queixava-se a seus cortesãos de que já não podia ter paz enquanto vivesse o arcebispo. Ouvindo isto alguns de seus satélites, pensando fazer coisa agradável ao soberano, foram às escondidas a Cantuária, e acometeram ao bispo enquanto se achava na igreja rezando vésperas. Querendo seus clérigos fechar as portas do templo, impediu-os dizendo-lhes: "A Igreja de Deus não se deve guardar como as fortalezas das cidades; eu de bom grado morrerei pela causa de Deus e da sua Igreja. Não peço senão esta graça, que meu sangue lhe restitua a paz e a liberdade que lhe querem tirar". Pondo-se logo em oração e encomendando a Deus sua igreja, ofereceu sua cabeça ao ferro do verdugo com a mesma firmeza e constância com que tinha resistido às iníquas leis do rei. Morreu mártir no ano 1171. Tendo-se operado mais tarde muitos milagres mediante sua intercessão, o pontífice Alexandre III, três anos depois de sua morte, o colocou no cânon dos santos.

Heresia dos Valdenses - Os hereges chamados Valdenses começaram neste século a perturbar a Igreja. Devem nome e origem a Pedro Valdo, comerciante de Lion. Achando-se este em um banquete (Ano 1160), um seu amigo caiu morto a seu lado. Horrorizado com o fato, começou a exortar seus companheiros à pobreza voluntária; porém deixando-se levar pela imaginação, excedeu os limites e deu-se a pregar contra as riquezas que possui a Igreja, afirmando que o clero está obrigado a viver pobre e que não pode possuir bens sem cometer pecado. Deste erro extravagante passou a reprovar o culto das sagradas imagens, a confissão auricular, a extrema unção, as indulgências e o purgatório. Ameaçado em sua pátria saiu dela, e foi à Sabóia em companhia de alguns vagabundos; passou dali para Lucerna, perto de Pinerolo, onde ele e seus sectários tomaram o nome de Barbudinhos. Tendo sido refutados várias vezes seus erros, tornaram-se mais orgulhosos e por isso foram condenados no undécimo concílio ecumênico. Estes, contudo, até o século dezesseis ficaram mais ocultos; não tinham igrejas próprias, porém frequentavam as dos católicos e, quando podiam confundir-se com eles, pediam e recebiam todos os sacramentos da Igreja católica. Mas surgindo em Genebra a heresia de Calvino, pensou este homem astuto que ganharia muito mais se unindo aos Valdenses, que, cedendo a seu convite, abraçaram seus erros e desde então Valdenses identificaram-se com Calvinistas sendo eles, portanto muito diferentes dos primitivos Valdenses, sectários de Pedro Valdo.

Undécimo Concílio Ecumênico - Convocou este concílio o Papa Alexandre III no ano 1179 com o fim de condenar as Valdenses e outros hereges, e tratar também de alguns assuntos concernentes ao bem da Igreja. Foi este o undécimo Concílio Geral e o terceiro de Latrão; tomaram parte nele 302 bispos. Seu fim principal foi estabelecer um meio conveniente para evitar toda sorte de desordens e cismas na eleição dos Papas. O Papa Nicolau II no ano 1059 a fim de obviar estes perigos, tinha reservado o direito de eleger o Papa somente aos cardeais; mas estes não concordando às vezes sobre a pessoa que tinham de nomear, acontecia que se elegiam ao mesmo tempo vários anti-Papas. Em vista disto, o concílio presidido pelo mesmo Alexandre, decretou que, dado o caso em que os cardeais não se achassem de acordo na eleição do pontífice, se reconheceria por legítimo o que tivesse obtido as duas terças partes de votos, e que se aquele que obtivesse a outra terça parte quisesse se declarar Papa, ficaria excomungado juntamente com seus instigadores. Este concílio condenou, como ficou dito, os Valdenses juntamente com os Cátaros, os Patarinos e outros hereges.

3 de maio de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 6

CAPÍTULO VI

São Bruno - Libertação dos Santos Lugares - Santo Anselmo bispo e doutor - São lsidro, o lavrador.

São Bruno - Nasceu São Bruno em Colônia de família ilustre, e fez tais progressos na ciência e na virtude, que ainda muito jovem, tornou-se credor de cargos muito elevados. Querendo, porém, abandonar o mundo e entregar-se inteiramente a Deus, partiu com seis companheiros e subiu com eles a altíssima e mui escabrosa montanha de Grenoble, chamada Cartuxa. No meio daqueles montes rodeados de precipícios, e de penhascos espantosos, fundou a ordem dos Cartuxos, assim chamada pelo lugar onde teve princípio. A nova ordem se difundiu rapidamente por toda a Europa. O Papa Urbano II queria nomear a Bruno arcebispo de Reggio; ele porém não quis nunca aceitar essa dignidade. Permitiu-lhe então o Pontífice que se retirasse para a Calábria com alguns companheiros, onde fundou outro mosteiro chamado a Torre. Morreu no ano 1101.

Libertação dos Santos Lugares - Os Santos Lugares, que por suma desgraça e ludíbrio da cristandade, se achavam desde mais de cinco séculos em poder dos maometanos, foram libertados por meio das Cruzadas, isto é, exércitos reunidos pelos príncipes da Europa. O iniciador desta grande obra foi um simples sacerdote da diocese de Amiens, chamado Pedro, e apelidado o eremita por sua vida solitária. Fazendo uma peregrinação a Jerusalém, comoveu-se vivamente ao ver mesquitas e estábulos em redor da Igreja do Santo Sepulcro, e ao contemplar todos os lugares santificados pelo nascimento, vida, milagres, pregação, morte, sepultura, ressurreição e ascensão do Salvador, em poder dos infiéis e de mil modos profanados. Ao chegar a Roma apresentou-se a Urbano II, e pintou tão ao vivo o triste estado daqueles lugares, que o Pontífice se propôs lançar mão de todos os meios para libertá-los de semelhante profanação. Pedro, alentado assim pela aprovação do Papa, em breve tempo animou as potências européias a que se armassem para levar a cabo aquela santa e grande empresa. Os que se alistavam tomavam por divisa uma cruz de lã encarnada que faziam colocar sobre o ombro direito, donde o nome de cruzados. Ao chegar o exército cristão perto de Jerusalém, sitiou a cidade e assaltou os inimigos com tal ímpeto e com tanto valor, que depois de cinco semanas de combate, se apoderou da cidade, expulsando de lá os inimigos e fez desaparecer todas as imundícies que desonravam aqueles santos lugares. Os fieis em agradecimento ao divino favor tomaram vestidos de penitentes, e com os pés descalços foram visitar os lugares consagrados pelos padecimentos do Salvador. Fizeram logo uma festa esplêndida sagrando ao valente e piedoso capitão Godofredo de Bouillon, duque de Lorena, como rei e soberano do reino de Jerusalém. Em sinal de reverência a Jesus, Godofredo jamais quis levar a coroa naquela cidade. Em seguida, para honrar o culto divino, fundou ali um cabido de cônegos, fez um mosteiro no vale de Josafá e levantou muitas Igrejas às quais ofereceu preciosos dons. (1099).
Com o fim de por dique aos infiéis que molestavam os cristãos, muito capitães se consagraram ao serviço do Senhor, formando e instituindo para tal fim a ordem dos Hospitaleiros de São João. Seu ofício consistia em assistir aos enfermos, servindo-lhes com suas próprias mãos, como criados, e combater valorosamente pela causa da Religião. Esta ordem chamou-se mais tarde Cavaleiros de Malta porque tinham fixado moradas nessa ilha desde o ano 1530.

Santo Anselmo, bispo e doutor - Nasceu Santo Anselmo em Aosta de pais nobres no ano 1033. Desde pequeno deixou vislumbrar grande ardor para o estudo e para a virtude. Aos quinze anos espantado já com os perigos que encontrava no século, queria fazer-se monge; porém seu ardor juvenil e alguns falsos companheiros, lhe fizeram retardar a execução de seu santo propósito seguindo por algum tempo as máximas do mundo. Mas iluminado pela graça divina, abandonou as vaidades mundanas, vendeu todos seus bens, e retirou-se para a abadia de Bec em França sob a observância das regras de São Bento. Ajudado ali e instruído pelo célebre Lanfranco, fez tais progressos na virtude, na filosofia e na teologia, que depois de três anos foi eleito prior. Este novo cargo serviu-lhe de estímulo para andar com maior ardor no caminho da perfeição.
Empregava o dia nos exercícios monásticos e em instruir os outros e de noite, depois de muito breve descanso, ocupava-se na meditação das verdades eternas e em responder aos que por carta lhe pediam conselhos. À imitação do Salvador, entretinha-se com predileção em instruir as crianças. Tinha como regra que na educação dos pequeninos não se deve empregar demasiado rigor, nem se deve levar ao cumprimento do dever à força de castigos, porque dizia, acontece com eles o que se dá com as tenras plantas que, cercadas com demasiada estreiteza, ficam sufocadas e não produzem frutos.
Sua ciência profunda unida à eminente santidade, grangeou-lhe as simpatias e o carinho dos reis, dos bispos e do pontífice São Gregório VII, que, oprimido pelos poderosos do Século, recomendava-se a suas orações juntamente com sua Igreja. Morto Lanfranco, que fora nomeado arcebispo de Cantuária, sucedeu-lhe Anselmo. O rei Guilherme, porém, que tinha promovido sua eleição, começou desde logo a persegui-lo, pretendendo se intrometer nos assuntos eclesiásticos. O santo Arcebispo se opôs com firmeza. Despojado de todos os seus bens e obrigado a por a salvo sua vida por meio do desterro, foi a Roma junto do pai comum dos fiéis que era então Urbano II. O Papa o cumulou de louvores e de graças e valeu-se dele em muitos e importantes negócios. Dali a pouco morreu o rei Guilherme e sucedeu-lhe Henrique. Um dos primeiros atos do seu governo foi chamar imediatamente o nosso santo para a Inglaterra; porém, pouco depois o mesmo o desterrou de novo cruelmente. No meio daquelas continuas aflições, o santo costumava dizer que nada temia no mundo senão o pecado. "Se de um lado, dizia, visse eu o pecado, e de outra parte as penas do inferno, escolheria de preferência estas antes que cometer um pecado".
Estas últimas perseguições não duraram muito, pois que dois anos depois, quando parecia que as coisas se tinham novamente regularizado com o rei dormiu no Senhor na idade de 76 anos. Deixou fama de grande santidade e de operador de milagres em vida e depois de morto (1109). Sua santidade e sua vasta e profunda doutrina fizeram que fosse enumerado entre os doutores da Igreja.

Santo Isidro, o lavrador - No seio da Igreja católica todos, Seja qual for a sua condição, podem chegar a possuir a perfeição das virtudes; bem o dá a conhecer assim um pobre lavrador chamado Isidro, que se distinguiu naquele século. Nasceu em Madri de pais pobres, e ainda que se visse obrigado a ganhar o sustento com o trabalho de suas mãos, conservou-se sempre fervoroso no serviço do Senhor. Costumava levantar-se de manhã muito cedo, e, antes de trabalhar, ia todos os dias ouvir a santa Missa. Era muito devoto da Virgem, e, já caminhando pelas ruas, já trabalhando no campo, rezava sempre a Ave Maria, sua oração favorita. Alguns invejosos acusaram-no a seu amo, dizendo-lhe que para cuidar de suas devoções descuidava a cultura dos campos. Este então tratou de surpreendê-lo; mas qual não foi sua surpresa quando, ao chegar junto de seu servo, viu dois arados que aravam com Isidro! Perguntando de quem eram aqueles dois arados que tinham desaparecido à sua chegada, Isidro respondeu-lhe: "Eu não conheço outro auxílio senão o de Deus a quem invoco no princípio de meus trabalhos, e nunca o perco de vista durante o dia". Conheceu então o amo a santidade de seu servo, e vendo os campos bem cultivados, o exortou a perseverar em suas santas práticas. Cheio de caridade para com os órfãos, dava-lhes tudo o que sobrava de seu escasso alimento. Passou toda sua vida entre pobres agricultores e morreu no ano 1130, Em pouco tempo operaram-se muitos milagres em seu sepulcro; por isso o clero e os magistrados foram ao cemitério comum com o fim de transportar o corpo do glorioso lavrador para lugar mais honroso. Nessa ocasião deu-se um fato assaz extraordinário; porque ao dar o primeiro golpe para exumá-lo, todos os sinos tocaram de per si e não pararam até se concluir a cerimônia.

2 de maio de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 5

CAPÍTULO V

São Leão IX - Berengário e sua retratação - São Pedro Damião - São Gregório VII - Morte e milagres de São Gregório VII.

São Leão IX - São Leão, chamado antes Bruno, nasceu no ano 1002, de real família alsaciana. Fez tais progressos nas ciências, que na idade de vinte e quatro anos foi consagrado bispo de Toul. Para não perder um só momento de tempo, distribuía-o entre a oração, a leitura de bons livros, o estudo, a visita aos hospitais e a instrução aos pobres, método que seguiu toda sua vida. Tendo falecido o Papa Damaso II, foi eleito para substituí-lo sob o nome de Leão IX. Teve muito que trabalhar para combater a heresia de Berengário que negava a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. São Leão, depois de tê-la condenado, foi em pessoa a Verceli para assistir a um concílio que esta cidade convocara. Condenou-se nele o herege e seus escritos, condenou-se também e foi lançado ao fogo um livro de João Scoto Erígenes, isto é, Holandês por estar cheio de erros contrários à fé. Depois de ter apaziguado estas turbulências, recebeu Leão uma carta do Patriarca de Constantinopla, chamado Miguel Cerulário, que acusava a Igreja romana porque celebrava a missa com pão ázimo, isto é, sem fermento: jejuava aos sábados, deixava o Aleluia desde a Septuagésima até a Páscoa. Respondeu-lhe São Leão com muita caridade, observando-lhe que eram estas coisas de mera disciplina e que por isto não davam motivo algum razoável para causar cisma na Igreja. O soberbo patriarca só buscava pretextos para subtrair-se à autoridade do romano pontífice; por isso, fechando os olhos à luz da verdade, renovou o cisma de Fócio que, consumado alguns séculos depois separou a igreja grega da igreja latina, isto é, da Igreja Católica (1034). Este foi o último ano de São Leão. O Santo Pontífice, vendo aproximar-se seu fim, quis que o levassem à basílica vaticana à beira do túmulo, onde pronunciou um discurso comovedor. Em seguida, depois de ter recebido o viático e os demais confortos da religião morreu, aos 52 anos de idade.

Berengário e sua retratação - Berengário de quem já falamos, era arcediago da igreja de Angers, e foi o primeiro que se atreveu a negar formal e publicamente a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Confundido muitas vezes nas discussões, declarando que se retratava de seus erros, em seguida tornava a recair neles. Depois de uma série de retratações e recaídas, entrou finalmente em si mesmo, converteu-se deveras e passou os últimos anos de sua vida fazendo penitência. Apesar disto, quando estava em ponto de morte, temia os juízos divinos e exclamava chorando: "Confio que o Senhor não se negará a receber-me em sua glória em vista da penitência que me inspirou; porém temo a sua justiça por causa daqueles a quem eu perverti com meus escândalos." Ano 1088.

São Pedro Damião - Enquanto Berengário escandalizava a Igreja, edificava-a um grande santo; era Pedro Damião, natural de Ravena, o qual desde menino já havia deixado entrever maravilhosa inclinação para o estado eclesiástico. Achando certo dia uma moeda de preta, apesar de que tivesse dela grande necessidade e lhe faltasse o necessário sustento, quis levá-la logo a um sacerdote, pedindo-lhe para celebrar uma missa por alma de seu pai. Deus recompensou a generosa ação inspirando a um irmão seu para se encarregar dele.
Mandou-o estudar em Parma onde muito depressa foi um dos mais hábeis preceptores.
Este ministério proporcionava-lhe ocasião de ser pródigo para com os pobres, a quem recebia com alegria em sua casa e servia com suas próprias mãos, pois via a Jesus Cristo debaixo de seus andrajos. O mundo, porém, não era para ele; por isso decidiu-se a ir para uma ermida nas faldas dos Apeninos na Umbria onde viveu uma vida verdadeiramente angélica. Jejuava todos os dias a pão e água; às vezes passava três dias sem tomar alimento; caminhava descalço, açoitava-se até ao sangue, golpeava com frequência o peito, orava com os braços abertos, dormia pouco e deitado sobre uma esteira estendida no chão. Com seu pesar foi nomeado abade de um mosteiro, que administrou santamente; fundou vários outros, procurando insinuar em todos os corações três máximas fundamentais: Caridade recíproca, solidão e humildade. Tivera desejado passar toda sua vida em tranquila solidão; porém o Papa Estevão IX obrigou-o a aceitar a dignidade de cardeal e de bispo de Ostia. Neste cargo que ocupou sob o pontificado de sete Papas, resolveu os assuntos mais intrincados da Igreja com o maior êxito, conseguiu com seu infatigável zelo, vantagens consideráveis para toda a Igreja e para a da Itália especialmente. Empregou especial solicitude em combater valorosamente os simoníacos e os libertinos daqueles tempos e em promover a disciplina do clero. Ao voltar de uma legação sobreveio-lhe em Faenza violenta febre que o levou ao sepulcro. Ano 1072.
São Pedro Damião deixou muitos escritos utilíssimos pelo que é contado entre os doutores da Igreja.

São Gregório VII - Depois da morte de São Pedro Damião, subiu à cadeira de São Pedro um dos maiores Papas que têm governado a Igreja: foi São Gregório VII, chamado antes Hildebrando. Desde seus primeiros anos profetizou sua futura grandeza, pois ainda menino e sem nenhum conhecimento, estando certo dia a brincar com serragens em uma carpintaria, formulou estas palavras de David: Dominarás de um a outro mar.
Vestiu o hábito dos monges beneditinos em Cluny; passou mais tarde para o mosteiro de São Paulo perto de Roma, onde sua doutrina, santidade, perspicácia e firmeza o tornaram merecedor da dignidade cardinalícia, e foi, em toda a extensão da palavra, um poderoso sustentáculo da Santa Sé sob o pontificado de seus cinco antecessores. Trataram muitas vezes de elevá-lo à cadeira Papal, porém ele sempre se recusou humildemente, até que, a seu pesar, no ano 1073 viu-se obrigado a aceitá-la. Dominou realmente de um a outro mar e, como o sol, espalhou seus raios benéficos em proveito de toda a Igreja. Trabalhou com denodo para extirpar o vício da simonia, confundir os hereges, reformar a disciplina eclesiástica e defender os direitos da Santa Sé apostólica. Empregou grande zelo contra Henrique IV, rei dissoluto e cruel da Alemanha, que desperdiçava as rendas da Igreja em festas e donativos aos soldados que tinha alistado contra a religião, encarcerava e matava os sacerdotes e bispos que se opunham às suas crueldades e sacrilégios. São Gregório conservou firme e imóvel contra ele a imunidade eclesiástica o excomungou e depôs, desligando todos os seus súditos da obrigação do juramento. Depois disto os sectários de Henrique e os cúmplices de suas maldades foram castigados de modo visível pela divina Justiça. O mesmo Henrique, abandonado por todos, foi despojado do império por seu filho, e concluiu seus dias morrendo repentinamente.

Morte e milagres de São Gregório VII - Este incomparável Pontífice, depois de ter renovado a face do mundo por meio de sua ciência e piedade, para evitar as tramas do ímpio Henrique, retirou-se de Roma e foi a Salerno, onde caiu gravemente enfermo. Antes de expiar prometeu que, quando mediante os méritos de Jesus Cristo chegasse ao céu, a todos recomendaria vivamente ao Senhor. Pronunciou estas palavras: "Amei a Justiça e odiei a iniquidade; por isso morro no desterro". Descansou no Senhor a 25 de Maio do ano 1085, depois de doze anos de glorioso pontificado.
Deus confirmou sua santidade com muitos milagres, entre os quais se nota o seguinte: Enquanto se achava o santo disputando com um homem que lhe negava ser réu de simonia, mandou-lhe que firmasse sua palavra rezando Gloria Patri; porém começando por três vezes nunca pode pronunciar as palavras et Spiritui Sancto, porque era culpado dos delitos que se lhe imputavam. Outra ocasião enquanto celebrava a santa Missa, viu-se baixar do céu uma pomba que, indo pousar no ombro direito de Gregório, cobriu-lhe a cabeça com suas asas. Com o sinal da Santa Cruz apagou um incêndio que se tinha ateado em Roma. Seu corpo cinquenta anos depois de sua morte, foi encontrado ainda inteiro com os ornamentos pontificais.

1 de maio de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 4

CAPÍTULO IV

Século décimo - Progressos da fé - São Bruno São Romualdo - Heresia de Estevão e de Lisóio.

Século décimo - O décimo século da Igreja foi assinalado por muitos deploráveis acontecimentos, devidos à prepotência exercida em Roma pelo conde Adalberto e por suas filhas Marósia e Teodora. Estas duas ambiciosas mulheres introduziram no Pontificado, por meio da força, os de seu partido, sem Consideração alguma a sua virtude e doutrina. Por isso, muitas vezes, fizeram-se eleições nas quais, homens de pouca ciência e de não muito bons costumes eram preferidos a outros que por doutrina e santidade eram os únicos que mereciam ser eleitos. Deve-se por outra parte notar, que muitas coisas que se referem aos papas desta época, terem sido exageradas por historiadores posteriores e pouco inclinados à Igreja. Um cuidadoso estudo da história deste século pôs em claro que a calúnia e a maldade levaram vários escritores a falar mal de alguns Papas, que autores imparciais acharam dignos dos maiores elogios. Igualmente deve-se fazer sobressair a especial assistência que prestou Deus a sua Igreja, posto que neste século, não houvesse heresia ou cisma, contra o qual fosse necessário convocar um concilio universal.

Progressos da fé - Neste mesmo século muitas nações abraçaram o Evangelho. Os Polacos com o seu duque Micislau converteram-se ao cristianismo; o mesmo fizeram os Húngaros, que depois de terem saqueado horrivelmente as igrejas cristãs, foram convertidos por São Estevão seu rei, que por isto é chamado o apóstolo da Hungria. Este monarca era muito devoto da Mãe do Salvador, sob cujo patrocínio pôs sua pessoa e seu reino, exemplo que seguiram mais tarde Luiz XIII, rei de França; Carlos Manoel II, duque de Sabóia, e a república de Genova. Também abraçam a fé de Cristo os Dinamarqueses os Turcos, os Normandos com seu feroz chefe Rolon à frente, e os Russos; no mesmo tempo suscitava Deus nos países já cristãos, homens esclarecidos por sua santidade, para conservar e aumentar neles a fé.

São Bruno - Pelo fim do século nono e no princípio do décimo os Sarracenos e os Longobardos tinham assolado os mosteiros da Itália e da Espanha, ao passo que na França a guerra civil e os Normandos saqueavam os mosteiros e dispersavam os religiosos que os habitavam. Via-se por isso um grande número de monges expulsos de seus claustros andar errando de um a outro país e de uma a outra cidade em busca de asilo e entregues à maior miséria. São Bruno tratou de prover a estas necessidades públicas.
Nascido na Borgonha de família nobre, para evitar os perigos do mundo, entrou na ordem beneditina e fez maravilhosos progressos nas ciências e na virtude. Era superior da abadia de Aniano, quando o duque de Aquitânia, Guilherme o Piedoso, o convidou a que fosse aos seus estados procurar um lugar adaptado para uma fundação religiosa.
Bruno escolheu um deserto perto da cidade de Cluny, donde proveio o nome da nova abadia. Quando Bruno a fundou, foi seguido somente por doze companheiros, porém pouco a pouco a estes se uniram outros, que sob suas ordens foram fundar outros conventos e abadias. assim formou-se a famosa congregação de Cluny, donde saíram tantos homens esclarecidos por doutrina, santidade e milagres. Morreu Bruno no ano 927 com o consolo de ver florescer a observância entre seus religiosos. Alguns martirológios o chamam bem-aventurado; outros lhe dão o título de santo. (V. Moroni art. Cluny e Cong. Cluniac.)

São Romualdo - Nasceu este santo em Ravena no ano 956, e desde jovem sentiu-se prodigiosamente levado a abandonar o mundo e a fazer-se religioso no mosteiro de Santo Apolinário, próximo da sua cidade natal. Sua vida era mortificação contínua; trabalhava sem descanso durante o dia, e passava as noites inteiras em oração. Cingia seu corpo um áspero cilício. Possuía o dom da profecia, conhecia o interior dos corações e dava a conhecer a muitos as culpas que tinham cometido em segredo, com o que conseguiu converter a muitos obstinados pecadores. Desejando ganhar a palma do martírio, pôs-se em marcha para a Hungria a fim de levar ali a luz do evangelho; porém não o quis Deus, enviando-lhe uma enfermidade que lhe reaparecia sempre que queria pôr-se novamente em marcha. Retornou à Toscana, a um vale dos Apeninos onde lançou os alicerces do célebre mosteiro dos Camaldulenses, assim chamado porque então eram conhecidas aquelas terras por Campos de Maldo, nome do seu dono. Consumido pelos trabalhos e austeridades, tendo predito muito antes a hora de sua morte, voou ao céu São Romualdo no ano 1027 para receber a eterna recompensa. Seu corpo se conservava ainda incorrupto quatrocentos e vinte anos depois de sua morte.

Heresia de Estevão e de Lisóio - Nos princípios do século onze, tentou Satanás dar nova vida à heresia dos maniqueus, os quais, como já dissemos, ensinavam que há dois deuses, um bom e outro mau. Começou-se a manifestar o funesto erro em Orleans, cidade de França, e eram seus mais célebres propagadores Estevão e Lisóio. Como eram tidos estes no conceito de homens doutos e virtuosos, puderam em mui pouco tempo difundir tão monstruosa heresia. Para dar alguma ideia de suas torpezas, é suficiente recordar o que eles faziam em suas reuniões. Reuniam-se de noite em determinado lugar; quando se achavam todos presentes, tomava cada um deles uma luz na mão e recitavam juntos ladainhas em que invocavam os demônios, até que aparecia um, dentre eles, sob as formas de um pequeno animal. Então entregavam-se a toda sorte de excessos: tomavam um menino de oito dias, o atiravam no meio de uma grande fogueira em sacrifício aos demônios, e ajuntavam depois as cinzas que deviam servir de viático para os enfermos. Foram acusados ao rei de França que mandou se apresentassem perante um concílio convocado em Orleans; ali se reuniram muitos bispos que unanimemente condenaram tais hereges e seus erros. Estevão e Lisóio porém, obstinando-se no erro, foram excomungados e queimados vivos por ordem do rei. Sendo ameaçados com o fogo, zombaram dele dizendo que não lhes causaria dano algum, mas quando viram que os demônios, em que confiavam, tinham perdido suas forças, e que as chamas realmente os queimavam, começaram a gritar que tinham sidos enganados. Então acudiu gente, mas era demasiado tarde, porque a força do fogo reduzira a cinzas até seus ossos.