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1 de fevereiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

S É T I M A C A R T A

Conclusões práticas

I

 O conhecimento das criaturas, comparado ao do Criador, é muito diminuto. – É todavia uma parte da bem-aventurança acidental. – Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e deles se regozijam. – Sabem especialmente o que se refere aos seus parentes e amigos. – Nuvem luminosa dos testemunhos que o provam. – Os contraditores fazem um grande mal.

Tudo quanto vos tenho escrito até aqui não deve fazer-vos esquecer que a essência da bem-aventurança é a clara visão ou a intuição do próprio Deus. O conhecimento das criaturas, acrescentado ao do Criador, parece aos bem-aventurados menos do que uma gota de água lançada no mar. Eles dizem com o filho de Amós: “Todas as nações, todas as famílias dos homens, dos anjos e dos astros, não podem, de modo algum, comparar-se com Deus; elas estão na sua presença como se não estivessem, e pesam tanto na sua balança como se não existissem”. (Is., XL, 15, 17)
Dizem ainda com o filho de Mônica: “Senhor, Deus de toda a verdade, quão desgraçado é o homem que conhece todas as criaturas, e não vos conhece a Vós! Quão afortunado é todo aquele que vos conhece, quando mesmo não conheça mais coisa alguma! Aquele que une estas duas ciências, a do Criador e a das criaturas, não vê aumentar a sua felicidade pelo conhecimento dos seres criados; mas só Vós, ó meu Deus, o tornais feliz”. Nem por isso é menos verdade, como creio ter-vos suficientemente demonstra-do, que uma parte da bem-aventurança acidental reservada pelo Senhor a todos os seus escolhidos, consiste no conhecimento das criaturas.
É este um belo ponto de meditação, que o célebre P. Coton não receava de propor a uma rainha de França, e que um beneditino também propunha aos seus religiosos para os consolar no momento da morte.
Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e alegram-se com um espetáculo que muitas vezes nos entristece. “Que direi, escrevia um sábio e piedoso cardeal, tratando da eterna felicidade dos santos, que direi do decurso dos tempos e dos séculos, desde o seu princípio até ao fim? Que deleite não causará aos escolhidos a lembrança de tantas vicissitudes e mudanças entre as coisas que a inimitável Providência governa com sabedoria e conduz a seus fins? Lá haverá esta impetuosidade do rio, que tão maravilhosamente alegra a Cidade de Deus – Fluminis impetus laetificat civitatem Dei! (Ps. XLV, 5). O que será, efetivamente, a ordem ou a sucessão dos séculos, que passam rapidamente e nunca interrompem o seu curso, senão a impetuosidade dum rio que, sem descanso, faz girar as suas águas, arrastando-as até ao mar, onde se mergulham e desaparecem? Entretanto, o rio passa e os tempos correm, muitos homens duvidam da Providência de Deus. Entre os seus próprios servos, há muitos que são perturbados ou gravemente tentados, e que se queixam do seu governo. Porque esta rápida corrente do rio causa muitas vezes grandes danos aos bons, e grandes vantagens aos maus, pois leva a boa terra dos campos do justo para deixá-la nos do ímpio. Mas, quando os tempos finalizarem a sua carreira e o rio tiver entrado no mar com todas as suas águas, os santos lerão claramente, no livro da Divina Providência, as razões de todas as desordens e de todas as revoluções.
Então a impetuosidade deste rio, representada pela imaginação, alegrará a Cidade de Deus acima de tudo o que pode dizer a língua dum mortal”.
Mas, segundo Bossuet, “no infinito espelho da Divina Essência, onde se vê tudo, as almas dos bem-aventurados descobrem principalmente o que toca às pessoas que lhes estão unidas por ligações particulares”. É o que provam de sobejo todos os testemunhos que tenho referido, em vez de falar por mim mesmo. Fi-lo assim para que vos fosse mais fácil consolar-vos, vivendo deste modo, durante algumas horas, na companhia e mesmo na intimidade dos santos e dos doutores, cujo coração foi sempre tão sensível e compassivo. Se alguém, pois, ainda ousar dizer-vos que não nos reconheceremos no Céu, mostrai-lhe esta nuvem de testemunhos de que fala o Apóstolo
 (Hebr.XII,1), e que paira sobre a vossa cabeça.
Todos os autores que vos tenho citado, e muitos outros de que me poderia ter servido, são sábios e virtuosos. Eles formam uma nuvem cujo brilho rende testemunho ao Sol da verdade, que nasceu no mundo, e os doura com seus raios. Formam uma nuvem cuja suavidade e escuridão faz repousar docemente os nossos olhos e deixa esperar aos nossos corações uma chuva fecunda em consolações celestes. Os seus contraditores também formam nuvens, mas tenebrosas e ameaçadoras. Aumentam o horror da noite que nos envolve, derramam negra tinta sobre o eterno dia que esperamos. Roubam ao nosso conhecimento e ao nosso amor esses brilhantes astros a que chamamos bem-aventurados do Paraíso, e forçam os nossos olhos a fixarem-se dolorosamente nos túmulos, quando teríamos maior necessidade de os levantar para o Céu, a fim de nele encontrarmos alguma luz e alegria. Negar que nos reconheceremos no seio da glória, junto de Deus, é fazer-nos um grande mal, aumentar-nos a tristeza e lançar-nos no desespero ou desalento. Mas divulgar a importante verdade que se acaba de estabelecer é aliviar a aflição, sustentar a piedade e reanimar o zelo. Eis as três conclusões práticas que me resta desenvolver-vos.

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