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21 de fevereiro de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino

Ai daquele que começa

D. — Padre, se é assim tão fácil encontrar quem se deixe enganar pelo demônio e se
cala, renovando o sacrilégio na confissão por quê é que os sacerdotes e os confessores não
indagam, não interrogam os penitentes para impedir as confissões mal feitas?
M. — Coitados dos sacerdotes e dos confessores! Infelizmente eles sabem e vêm que
algumas almas deixam muito a desejar, mas em geral receiam ser indiscretos interrogando e
esclarecendo certas coisas. Até pelo contrário, com certas pessoas, não ousamos, parece-nos
imprudência interrogar. Um pai ou uma mãe gostam de fazer sempre bom juízo dos seus
filhos, e ficam penalizados quando têm que duvidar da sua conduta, da sua sinceridade, da
sua inocência. Do mesmo modo sente o pobre sacerdote no que diz respeito aos próprios
filhos espirituais e penitentes.
D. — E então?
M. — E então, continua-se em tal vida até que Deus intervenha com a sua mão
providencial.
Eis porque por ocasião dos Exercícios Espirituais, das Missões, da Páscoa e de outras
tantas festividades do mesmo gênero encontram-se muitas almas, as quais, tendo tido a
desgraça enorme de calar uma vez certos pecados na confissão e continuaram depois com
sacrilégios durante anos e anos até o dia em que, tocados por graça especial, podem
finalmente abrir os olhos e tranqüilizar a consciência por tanto tempo torturada pelo remorso.
Pregavam-se os Exercícios em uma paróquia do Piemonte. Havia já alguns dias que
tinham começado as confissões e desde o princípio eu notara uma pessoa de aspecto triste e
indizivelmente constrangida que rondava o confessionário. Não fazia, porém, muito caso
disso, quando eis que uma noite ela caiu aos meus pés e disse:
— Padre, ajudai-me; eu sou uma infeliz. Há quinze anos que eu me confesso mal; só
fui capaz de cometer sacrilégios... e desatou em pranto.
— Pois bem, cria coragem, eu respondi, Deus será misericordioso; para a senhora
também Jesus será infinitamente bom. Diga-me: quantos anos tem? Como é que enveredou
por esse caminho?
— Tenho vinte e sete anos; quando tinha doze apenas, por causa de uma curiosidade
ilícita eu cometi um pecado que não ousei confessar. Com tal sacrilégio, aproximei-me da
mesa da Comunhão e, desde aquele dia até hoje os pecados e sacrilégios sucederam-se uns
aos outros. Rezei muito, chorei muito, fiz romarias mas tudo em vão! Confessava-me todos
os meses e até com mais freqüência por ocasião dos Exercícios Espirituais; repetia as
confissões gerais mas esses pecados eu sempre os escondi, por pura vergonha.
— E a senhora estava satisfeita com as suas Confissões: Comungava tranquilamente?
— Oh, Padre! se soubésseis como os remorsos amargos atormentavam o meu
coração, cravando-se nele como espinhos agudos!
— Mas então por quê continuava sempre do mesmo modo?
Porque fui uma tola, eis tudo... Um medo indizível das reprimendas do confessor
fechava-me a boca e um exagerado respeito humano das minhas companheiras arrastava-me
para o Comunhão nesse estado.
— Há quanto tempo confessou-se pela ultima vez?
— Ah! Padre! confessei-me já três vezes durante esta Missão, com três confessores
diferentes, sempre com o firme propósito de acabar com isto de uma vez por todas e dizer
tudo. Mas, chegando ao ponto terrível, sentia um nó cruel que me apertava a garganta e
assim calava-me.
— E agora, como conseguiu manifestar-se?
— Padre, o vosso sermão de hoje sobre a necessidade absoluta da confissão bem
feita, aquelas palavras tantas vezes repetidas “experimentem e verão o quanto Jesus é bom”,
comoveram-me e foi então que decidi falar, custasse o que custasse.
“Tirem da minha frente este Cristo, não preciso dele!”
Ajudada pelo confessor ela fez uma confissão geral das mais consoladoras, tendo
recebido a absolvição, não parava de repetir:
— Agora chega, Padre, chega de pecados e sacrilégios. Direi a todos que
experimentei e que vi como Jesus é bom!...
D. — São fatos que consolam, não é Padre?... e ainda bem que reconhecem suas
faltas!
M. — Mas quantos não as reconhecem mesmo em ponto de morte! É uma coisa
muito triste, mas infelizmente verdadeira; não raro há moribundos que às portas da morte,
teimam em esconder os pecados não confessados ou mal confessados desde a juventude,
nesse estado deplorável passam para a eternidade.
D. — Coitados!
M. — Pode chamá-los desgraçados! ai de quem começa .
D. — Mas a misericórdia infinita de Deus não vem em auxílio?
M. — Você pode supor que Deus queira sempre, na hora da morte, usar de
misericórdia com quem durante toda a vida abusando dessa misericórdia, injuriou-O com
sacrilégios? E além disso na maioria dos casos, nem invocam essa misericórdia; pelo
contrário, muitas vezes a desprezam. Aqui também quero persuadi-lo com fatos.
O Padre dal Rio conta que uma jovem empregada se confessava frequentemente, pois que a
patroa exigia, mas por vergonha e teimosia calava os pecados desonestos. Uma ocasião ela
caiu gravemente enferma; sempre por causa da solicitude da patroa, confessou-se, e mais de
uma vez, sacrílegamente. Depois que a curaram com muitos cuidados, chegava até a caçoar
com as amigas pondo em ridículo o zelo da patroa e do confessor para induzi-la a fazer uma
boa confissão. Tendo adoecido pela segunda vez e mais gravemente do que da primeira, a
patroa tornou a chamar o sacerdote o qual acudiu com presteza. Com toda a piedade e
paciência que Deus concede em casos análogos, o padre procurou induzir a infeliz a uma
sincera e dolorosa confissão. Mas tudo em vão! Sempre teimosa, perseverou durante a longa
agonia no propósito de se esquivar e de se calar, recusando-se até a repetir a jaculatória e
as invocações sugeridas pelo confessor; mostrava-se aborrecida com tudo aquilo e
com a presença do Padre. E, quando por fim vendo que chegava o momento da morte, o
sacerdote lhe pediu que beijasse o crucifixo, ela com um esforço supremo o afastou com
maus modos e olhando-o com desprezo disse: —Tirem da minha frente este Cristo, não
preciso dele! — E voltou-se para o outro lado; assim com um suspiro horrível expirou aquela
alma impenitente e sacrílega. Ai daquele que começa!
O Padre Agostinho de Fusignano conta-nos um fato análogo, que se deu na sua
presença. Uma mulher infeliz escondia na confissão os pecados mais graves. Apesar dos
sermões ouvidos contra essa vergonha sacrílega, apesar das mais amorosas exortações,
apesar do mais agudo remorso da consciência ela não soube aproveitá-los. Cansada a
misericórdia de Deus de esperar, feriu-a com uma doença violenta que a pos em ponto de
morte. O confessor foi chamado prontamente, mas a infeliz assim que o viu, exclamou:
— Padre, chegastes a tempo para ver uma mentirosa penitente ir para o inferno. Eu
me confessava com freqüência, mas deixava sempre os pecados mais graves.
— Pois bem, confesse-os agora, respondeu o confessor.
— Não posso, não posso, gritou desesperada a infeliz. O tempo da misericórdia já
passou; é chegado o momento da justiça!
E, delirando e contorcendo-se raivosamente, expirou, deixando em todos os presentes
a mais triste e horrível impressão. Aqui também não será demais repetir: Ai daquele que
começa!
Santo Afonso conta o caso de um senhor cuja conduta era aparentemente boa; fazia,
porém, más confissões. Tendo adoecido gravemente, foi visitado pelo Vigário o qual
suplicou-lhe que recebesse os sacramentos pois estava em perigo de vida. Mas o enfermo
recusava-se a confessar.
— E por que meu caro senhor não quer confessar-se?
Ah! respondeu o doente, é porque estou condenado! E Deus, para castigar os meus
sacrilégios, tira-me a vontade e a força de repará-los.
Dito isto, começou a morder a língua, a debater-se desesperadamente, gritando:
“Maldita língua, maldito silêncio, malditos sacrilégios”. Não foi possível convencê-lo, até
que miseravelmente morreu.
D. — Chega Padre! São coisas que arrepiam a gente. Eu por mim não quero cometer
sacrilégios.
M. — Mantenha essa santa resolução. Por que deixar-se dominar pelo demônio
mudo, pisar o Sangue de Jesus Cristo, mudar o remédio em veneno e obrigá-lo a nos
condenar, quando pelo contrário, Ele quer a nossa salvação?

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