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8 de maio de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales

15/26 -  Deve-se sofrer com paciência as imperfeições para chegar a perfeição.

A festa da Purificação não tem oitava; deve durar toda a vida. É preciso que tenhamos duas resoluções iguais; uma de ver crescer as más ervas em nosso jardim; outra de ter a coragem de as arrancar e de arrancarmos de nós mesmos. Porque enquanto vivermos viverá o nosso amor próprio, e é ele que produz estas imperfeições. O homem esta em toda a parte e a miséria acha-se ligada como a sombra ao corpo.
Tendes por suspeitos todos estes desejos, que, segundo o sentimento comum das pessoas de bem, não podem ser seguidos dos seus efeitos. Tais são os desejos duma certa perfeição, que se pode imaginar, mas não praticar, e da qual muitos recebem as lições, mas não seguem a pratica. Sabei que a paciência é a que mais nos assegura a perfeição; e se devemos tê-la com os outros, muito mais a devemos ter conosco. Os que aspiram ao puro amor de Deus, não precisam da paciência para com os outros como para consigo.
Para chegarmos a perfeição convém sofrer as imperfeições; mas sofrer com paciência, e não a amar e acariciar; a humildade sustenta-se com este sofrimento. Deve-se confessar a verdade; somos pobres e nenhum bem podemos fazer; mas Deus, que é infinitamente bom, contenta-se com as nossas obras e agrada-lhe a preparação do nosso coração (Salmo IX, 38).
Para caminhar bem convém andar com cuidado no primeiro dia e no caminho que vemos perto, e não nos distrairmos a pensar como andaremos no último dia e no caminho que vemos ao longe. Atendei bem ao que vou dizer-vos: "Muitas vezes trabalhamos para sermos bons anjos e não trabalhamos para sermos bons homens".
A nossa imperfeição deve acompanhar-nos a sepultura; não podemos andar sem tocar a terra. Não é preciso andar de rastos; mas também não convém voar, porque somos tão pequenos que nem asas temos. Morremos pouco a pouco; pois façamos também assim morrer nossas imperfeições. Caras imperfeições essas, que nos fazem conhecer a nossa miséria, nos exercitam na humildade e desprezo próprio, na paciência e diligência, e não obstante as quais Deus considera a preparação do nosso coração que é perfeita!
Queixai-vos de ter muitas imperfeições e defeitos contrários ao desejo que tendes da perfeição e da pureza do amor de Deus; mas eu digo-vos que enquanto vivemos não nos podemos deixar completamente.
Oh! Deus! que grande bem para uma alma é o tocar a sua inutilidade! Isto a fortifica e fortalece para o resto da vida. "Que pode saber o que não experimentou ?", diz a Sagrada Escritura. Meu Deus, desejaria poder confundir a mim mesmo!
Tenhamos paciência e não pensemos poder curar em um dia hábitos que contraímos há anos, pelo pouco cuidado que merece a nossa saúde espiritual. Deus curou alguns de repente sem lhes deixar sinal da sua precedente doença; mas a outros inclusivamente aos seus discípulos deixou muitos vestígios das suas imperfeições passadas, e entre outros a São Pedro, que, depois da sua vocação, caiu muitas vezes em imperfeições e uma vez caiu completamente.
Tende paciência e vereis como tudo correrá bem; porque este querido e doce Salvador das nossas almas não nos dá desejos inflamados de o servir, que não nos dê também comodidade para o fazermos. Sem dúvida, não afasta a hora do complemento dos vossos santos desejos senão para a tornar mais feliz; porque o Coração de Jesus prepara e ajusta todos os envólucros mundanos para os espíritos que o querem servir sem reserva.
A hora que desejais chegará pois no dia em que a Providência divina o decretar nos segredos da sua misericórdia; e então com mil consolações secretas derramareis o vosso coração diante da bondade divina, que converterá os vossos rochedos em água, a vossa serpente em vara, os vossos espinhos em rosas, e rosas odoríferas, que encherão de suavidade o vosso espírito. Pois se é verdade que as nossas faltas enquanto estão nas nossas almas, são espinhos, expulsando-as pela confissão voluntária convertem-se em rosas e perfumes; porque assim como a nossa malícia as entranha em nossos corações, assim também a bondade divina as expulsa.
Neste mundo não há vinho sem fezes. Convém pois saber o que sera melhor: que o nosso jardim tenha espinhos para ter rosas, ou que não tenha rosas para não ter espinhos? Avante pois; por pouco que caminhemos, andaremos sempre. A vossa fraqueza prejudica-vos, privando-vos de entrardes em vós mesmos e aproximar-vos de Deus. Mas Deus assim o permite, para vosso proveito. Ele quer que as vossas misérias sejam trono da sua misericórdia e a vossa fraqueza o trono da sua onipotência. Onde fazia Deus consistir a força divina de que dotou Sansão? Nos cabelos, a parte mais fraca que tinha. Uma alma deve pois servir a Deus, segundo o seu divino agrado, e não segundo os seus gostos sensíveis.
Não percais pois a confiança, porque a bondade celeste não vos deixa cair para vos abandonar, mas para vos humilhar, e para que mais vos apegueis com a sua misericórdia.
Fazeis muito bem em continuar os vossos exercícios por entre a tristeza e languidez interior; porque assim como desejamos servir a Deus por puro amor, e o serviço que lhe prestamos enquanto estamos tristes lhe agrada mais do que o que lhe oferecemos quando estamos alegres, assim devemos gostar mais da tristeza do que da alegria; e embora nos agradem mais ao gosto e amor próprio, as amenidades e doçura, são contudo de mais proveito as asperezas e agruras; assim como para os hidrópicos são melhores os alimentos secos do que os úmidos, embora eles prefiram os segundos. Não permitais que o vosso espírito considere por muito tempo as suas misérias; deixai que Deus opere, e Ele fará o que vos for conveniente. Não reflitais no que o amor próprio mistura com as suas ações; devemos desprezar esses assaltos do amor próprio e, desprezando-os duas ou três vezes por dia, temos cumprido. Não é necessário expulsá-los com furor; basta dizermos: "Não".
Tende uma grande coragem: e não a percais pelo estrondo, principalmente nas tentações contra a fé. O nosso inimigo é um grande fanfarrão; não vos afadigueis, porque não vos pode fazer mal; não disputeis com ele; escarnecei-o porque isso nada vale. Bem gritou ele em redor dos santos, fazendo grande algazarra; mas que! ei-los sentados no lugar que o miserável perdeu!

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