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1 de maio de 2014

"Fuga das ocasiões de pecado" - Domingo "in albis" - Pe. Renato Coelho, IBP

Iº Domingo depois da Páscoa
in Albis

Fuga das ocasiões


Pe. Renato Coelho, IBP


Em nome do Pai e do Filho e do Espírito-Santo. Amém. 

Lemos hoje no Evangelho a passagem em que Jesus aparece ressuscitado diante dos discípulos que estavam juntos fechados numa casa. São Tomás de Aquino mostra que nessa passagem se quer significar que para encontrarmos Jesus é preciso estar com nossos sentidos fechados para o mundo externo. É preciso fechá-los a todas as ocasiões próximas de pecado que são desnecessárias, pois quando o perigo de cair é muito grande, aceitar o perigo sem uma causa grave é implicitamente já querer o pecado, mesmo que por algum motivo não se caia efetivamente nele. Como diz a Bíblia: “Quem ama o perigo nele perecerá.” (Eclesiástico 3, 27). 

São Tomás diz que quando nos expomos ao perigo Deus nos abandona nele. Santo Afonso, ao tratar do mesmo tema, assinala uma importante diferença entre a nossa ressurreição do pecado através do batismo ou da confissão e a ressurreição de Cristo. Cristo ressuscitou livre e não morrerá mais. Nós ressuscitamos um pouco como Lázaro que tinha as mãos e os pés ligados e podia ainda morrer novamente. 

Ao contrário de Jesus, nós temos o pecado original que nos inclina a buscar o pecado, por isso devemos ter uma atenção especial para evita-lo. São Pedro diz que o demônio é como um leão faminto que busca quem devorar (I Pedro 5, 8). Ele nos sonda para achar uma brecha para nos afastar de Deus. Foi assim que ele agiu com os nossos pais, Adão e Eva, que não fugindo da ocasião caíram no pecado. Deus não havia apenas proibido comer o fruto, mas havia proibido também tocá-lo, pois sabia que cedendo nesse ponto, acabaria-se caindo no outro. 

Isso é muito importante para meditarmos. Se cometemos algum pecado, não se deve apenas agir de modo oposto a ele especificamente, mas é preciso buscar a raiz dele, a causa dele, o que, cronologicamente ocorreu antes e que nos levou depois a cair nele. Antes de comer o fruto proibido, Eva o pegou em mãos. Mas antes de pegá-lo, Eva olhou e fixou seu olhar no fruto. Vemos, assim, que a causa do comer não reside simplesmente no ato de comer, mas a queda já havia começado quando Eva havia fixado seu olhar no fruto, o cobiçando. 

Não quero dizer que devemos, então, andar de olhos vendados ou com as mãos enfaixadas, pois precisamos distinguir uma tentação que pode ocorrer no dia-a-dia, do consentimento pleno dado à tentação. Distinguir o curso natural das coisas, em que cumprimos legitimamente nossos deveres, com o buscar livremente e desnecessariamente algo que nos coloque em perigo de pecar. O que quero dizer é que não devemos pensar que apenas aquilo que está estritamente proibido deve ser evitado, como roubar, matar etc., mas devemos evitar também aquilo que está ligado proximamente ao pecado. Diz o rei David, que fez a infeliz experiência de fixar seu olhar sobre uma mulher já casada que depois o levou a pecar, em um de seus salmos: “Dos maus caminhos desvio os meus pés, para poder guardar vossas palavras” (Salmos 118, 101). Isto é, não se deve evitar apenas estar no lugar ruim, mas deve-se também evitar a via que conduz a esse lugar ruim.

Para que o sermão não seja algo muito genérico, dou aqui um exemplo concreto e fácil. A televisão. Em si ela é neutra, principalmente quando desligada. Ligada, aí temos um problema. No caso ordinário, ela transmite 24 horas por dia o conteúdo organizado pelos nossos três inimigos: o demônio, o mundo e a carne. O demônio, príncipe do mundo, do poder e da mídia, que faz claramente propaganda anti-católica na televisão difundindo o erro e o pecado entre os homens. O mundo, que quer nos impor costumes imorais por meio da televisão e, aproveito dizer, também por meio dos facebooks, onde o narcisismo que antes era considerado vício, hoje é considerado virtude. E a carne, pois a imoralidade e tudo o que é relacionado com a impureza, é difundido abundantemente seja nos programas, seja nos comerciais, seja também nos noticiários. 

Há quem pense que é forte o suficiente para conseguir bem usar a televisão, como os que dizem vê-la apenas para “ver as notícias”, mas ignoram o comum viés anti-católico das notícias, bem como o modo como são transmitidas, impossibilitando o telespectador de realmente compreender o que acontece, passando rapidamente, por exemplo, de uma notícia de guerra importante para outra, logo em seguida, que trata de uma vitória sem importância de um time de futebol. É como que o comunismo aplicado às notícias, onde todas as informações teriam o mesmo valor. Atualmente, pela internet, é possível sair um pouco desse totalitarismo midiático, se bem que a internet também apresenta seus perigos... 

E, mesmo pensando no melhor caso, a televisão é facilmente mal usada. Com ela, cria-se um hábito de passividade, enfraquecendo a vontade, enfraquecendo as relações familiares, cortando as conversas (pois a atenção se volta à televisão), nos afastando da realidade e nos deixando hipnotizar e perder tempo com ela. 

Enfim, como dizia São Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma.” (I Cor 6, 12). Por isso, ao rezarmos o Pai-Nosso: “e não nos deixeis cair em tentação”, peçamos a graça de resistir às tentações e também a graça de evitar os caminhos desnecessários que nos levam a elas. 

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito-Santo. Amém. 

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