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4 de maio de 2014

SEGUNDO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA.

O Pastor divino

O Evangelho de hoje nos apresenta uma das mais suaves cenas da vida de Jesus Cristo.

Ele é Pai... Ele é Rei... Ele é o Messias... O Salvador do mundo, mas Ele é sobretudo o Pastor divino das almas, conhecendo as suas ovelhas e sendo por elas conhecido, como Ele conhece o seu Pai e é por Ele conhecido.

Que tocante aproximação!

O próprio Jesus Cristo nos assemelha a si mesmo, e diz que, o que Ele é em relação a seu Pai, nós o somos relativamente a Ele!

Este traço ilumina com uma beleza infinita a doce fisionomia de Jesus, deixando-nos entrever a santidade perfeita e soberana da sua vida.

Meditemos este novo ponto de vista, considerando:

1. A sua santidade absoluta.
2. A personificação de toda santidade.

Estas duas considerações vão dar-nos mais uma prova clara da divindade de Jesus Cristo.

I. A sua santidade absoluta

Todos nós somos pecadores, filhos de uma raça pecadora, afora a Imaculada Mãe de Jesus. O pecado e a inclinação ao mal formam o triste característico da humanidade.

Imaginemos um santo, até o maior dentre eles que diga: Eu sou um santo!... Não há nenhum pecado em mim! Imediatamente tal santo cairia de seu pedestal e a consciência humana indignada, assaltando-o, lhe arrancaria a sua coroa.

Eis porque os maiores santos julgam-se os maiores pecadores. São Paulo não hesitava em proclamar-se o primeiro dos pecadores. Quorum primus ego sum (1 Tim. I. 15).

Entretanto há uma exceção!

Há um homem que disse um dia: Eu sou santo!... Quem me arguirá de pecado?

Há um homem, o mais humilde, o mais puro, que disse: sêde santos como eu sou santo, sem que tal afirmação extranha, vinte vezes repetida, tenha diminuído a auréola que cerca a sua fronte.

E não somente não se pode descobrir em sua vida inteira um único momento de hesitação na afirmação serena da sua santidade absoluta, mas Ele nem sequer deixa perceber o menor pensamento de precisar de perdão.

Jesus Cristo clama a todos: convertei-vos... fazei penitência... mas Ele nunca bate no próprio peito... nunca derrama uma lágrima de arrependimento... nem no Jardim das Oliveiras, nem no Calvário... nunca Ele se arrepende de qualquer uma das suas ações, mas ocupa-se exclusivamente da expiação dos pecados alheios, da salvação dos outros.

Sente-se neste homem uma consciência virgem, uma alma imaculada, uma serenidade divina, que parece murmurar em redor de si: Santo! Santo! Santo! Inocente, separado dos pecadores!

Esta convicção que Jesus Cristo tinha da Sua santidade absoluta, todos os seus contemporâneos a tiveram também.

Seus apóstolos, seus discípulos, seus amigos todos se sentem tomados de veneração diante da pureza perfeita de seu Mestre.

Os seus próprios inimigos, os rancorosos fariseus, com o faro penetrante do ódio, espiaram continuamente o Nazareno e prepararam-Lhe ciladas, em toda parte, sem nunca descobrir uma falta, nem sequer um passo errado nesta vida toda divina.

A todas as provocações Jesus responde com soberana dignidade: Quem de vós me arguirá de pecado?

Jamais alguém antes d'Ele lançou um tal desafio. Jamais alguém o lançará depois.

Logo, Ele é o único neste mundo, perfeito e santo: Ele é Deus!

II. A personificação da santidade

E este desafio, não somente Jesus Cristo o dirige a seus inimigos de Jerusalém; mas o repete para a humanidade de todas as nações e todos os séculos.

É sobre esta palavra que coloca a base da sua Igreja. Aí está a sua base de granito. Ela tem por pedra angular o diamante da pureza e santidade de Jesus.

Suponhamos que se descubra uma impostura na vida de Jesus Cristo, uma queda! Que digo? Uma destas manchas, como há por milhares em nossa vida, e eis a Igreja em ruínas.

Deste majestoso edifício, onde desabrocharam tantas e tamanhas virtudes, nada ficaria em pé, pois Jesus Cristo seria talvez o mais perfeito dos homens, mas não passaria de homem, não seria mais Deus.

O que O eleva acima de todos os homens, de todos os santos, é o poder dizer: Quem de vós me arguirá de pecado?

Nunca um homem, nem o mais sublime dos santos, identificou a sua própria santidade, com a beleza moral como Jesus Cristo, ao ponto que afastar-se d'Ele, é afastar-se do bem; e reproduzi-Lo é praticar todas as virtudes.

Sob este ponto de vista, Jesus Cristo nunca teve, nem pode ter igual, ou rival: Ele é único, pelo único fato da sua santidade; Ele nos aparece, no meio dos demais homens, como numa sublime solidão. Os outros são homens! Ele é Homem-Deus, Ele é a personificação do bem, da virtude, da santidade.

III. Conclusão

Jesus pode intitular-se: o bom pastor. Ele é bom porque é Deus, como Ele mesmo disse: porque me chamas bom, só Deus é bom! Ele é um pastor amoroso, vivendo no meio dos homens, como homem, fora do pecado. Ele vem expiar o pecado, mas não permite que o pecado Lhe toque, nem pela sua sombra; Ele é a santidade perfeita.

Podemos tudo resumir numa página luminosa de um gênio, Napoleão.

“Dizem que o sublime é um traço da divindade. Que nome se pode dar àquele que reúne todos os traços do sublime?

No Cristo tudo me encanta: o seu espírito me ultrapassa, e a sua vontade me confunde. Entre Ele e qualquer outro homem não existe termo de comparação. Ele é um ser à parte!

Mais me aproximo e mais examino de perto sua vida, mais acho que tudo está acima de mim que tudo é grande e de uma grandeza que me esmaga.”

“Se a vida e a morte de Sócrates são de um sábio”, disse o ímpio Rousseau, “a vida e a morte de Jesus Cristo são de um Deus!”

Sim, Jesus Cristo é Homem-Deus, pela sua santidade, como Ele o é pela sua natureza. Como homem, Ele é Pastor, como Deus, Ele é o Pastor divino das almas. Cabe, pois, a Ele instruir-nos, guiar-nos; cabe a nós prostrar-nos de joelhos, em adoração diante de Deus feito homem.

EXEMPLO

Pensamentos de um ímpio

Beuve, o grande crítico francês que fez passar na joeira de seu juízo todas as personalidades de renome, pensava que não se podia conhecer plenamente um homem sem saber o que havia sido em relação com a religião.

Jesus Cristo, no dizer dele, era o metro moral e intelectual, com que media os homens.

Coisa admirável e terrível! Este homem que terminou a sua carreira com uma impiedade escandalosa, havia traçado pelo próprio punho a sua sentença de condenação, nas seguintes linhas:

“Quando se tem de falar de Jesus Cristo, entra-se numa espécie de restrição voluntária.

Teme-se, desde que este nome não seja pronunciado de joelhos e na adoração, que seja profanado, só pela repetição deste nome inefável, para o qual o mais profundo respeito pode parecer, senão uma blasfêmia, pelo menos uma falta de respeito devido.

Aqueles que negam Jesus Cristo sofrem as consequências desta negação.

Toma os maiores dos modernos anticristãos, que desconheçam a Jesus Cristo, examina-os de perto, e verás que qualquer coisa lhes falta no espírito ou no coração.

Se não houvesse profecias para Jesus Cristo, nem milagres, há qualquer coisa de tão divino em sua doutrina e em sua vida, que é preciso, pelo menos, ficar encantado por ela. E como não há nem virtude verdadeira, nem retidão de coração sem o amor a Jesus Cristo, não há tampouco nem profundeza de inteligência, nem delicadeza de sentimentos, sem a admiração por Jesus Cristo”.

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 180 - 185)

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