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30 de maio de 2014

Sermão para o V Domingo depois da Páscoa – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] A fé e as obras


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…
“Irmãos, sede realizadores da palavra e não vos contenteis apenas de a ouvir, iludindo-vos a vós mesmos.”
Essa frase da Epístola de São Thiago nos traz um ponto essencial de nossa religião católica. Não basta ouvir a Palavra de Deus, que nos foi dada por Cristo. É preciso realizar o que Cristo nos ensinou. A mesma doutrina está contida na coleta, em que pedimos a Deus não só o bem de pensar no que é reto, mas pedimos igualmente o bem de poder realizar o que é reto. Em outras palavras, caros católicos, não basta ter a fé, que nos vem pelos ouvidos, não basta acreditar. É preciso colocar em prática aquilo em que acreditamos: é preciso as obras, a caridade. É preciso ter a fé e a caridade, se queremos agradar a Deus. E isso é algo, à primeira vista, evidente, que está contido claramente no Evangelho e nas Epístolas, bem como no ensinamento dos Padres da Igreja. Todavia, ao longo da história, essa necessária união da fé e da caridade é muitas vezes negada.
É bem conhecido o princípio protestante do sola fides, somente a fé. Para os protestantes, em geral, basta a fé, e as boas obras não são necessárias. Fé sem obras basta para a salvação. E essa fé dos protestantes não é a adesão da inteligência às verdades reveladas por Deus, mas uma fé confiança, a certeza de que Jesus nos salvou e que seremos salvos se acreditamos nisso. Portanto, para os protestantes a fé confiança de que Cristo nos salvou basta para nos salvar, independentemente das boas obras. Por que, porém, os protestantes afirmam isso? Eles afirmam isso – basta a fé sem as obras – porque têm uma doutrina errada sobre o pecado original. Para eles, o pecado original corrompe a natureza humana de tal forma que ela se torna má. E dessa natureza humana tornada má pelo pecado original, só pode vir o pecado. Todas as ações dessa natureza má, sejam elas quais forem, são um pecado. Dar uma esmola é um pecado. Um ato de amor a Deus é um pecado, pois o princípio dessas ações é mau: a natureza humana corrompida pelo pecado original. Fica claro que uma tal doutrina sobre o pecado original leva necessariamente ao desespero. Se tudo o que faço é pecaminoso, como posso me salvar? Para escapar, então, ao desespero afirma-se que as boas obras não são necessárias para a salvação, bastando a fé confiança, bastando acreditar que Cristo nos salvou. Essa doutrina encontra sua origem nas dificuldades pessoais de Lutero. Não conseguindo escapar de seus pecados e não enxergando suas próprias fraquezas, Lutero preferiu resolver o problema dizendo que somos incapazes de boas obras, em vez de lutar para vencer seus vícios e adquirir as virtudes. Para resolver seu problema pessoal, o heresiarca inventou uma nova doutrina que trouxe grandes prejuízos para a humanidade. Podemos ver, caros católicos, como um só homem pode ter uma grande importância na história e mudar o curso dela, para o mal ou para o bem. Segundo o protestantismo, então, a morte de Cristo não foi mais poderosa do que o pecado, pois o homem segue necessariamente sendo mau e suas obras, sejam elas quais forem, são más. A paixão de Jesus e todos os méritos de Cristo são simplesmente uma capa piedosa que cobre a maldade humana, como a neve cobre uma sujeira sem tirá-la. Consequentemente, se alguém vai ao céu, conforme a doutrina protestante, não é porque mereceu o céu pelas boas obras que realizou ajudado pela graça divina, mas simplesmente porque Cristo mereceu isso para mim e tenho fé em Cristo. E é claro, caros católicos, que a afirmação de que as obras não são necessárias vai conduzir pouco a pouco as pessoas a desprezar as boas obras por completo, levando-as à indiferença quanto ao pecado e à virtude. A doutrina protestante colocada realmente em prática conduz à decadência moral e resta, simplesmente, um vago sentimento de fé. Vemos isso concretamente em nossa sociedade, em que a maioria das pessoas é completamente indiferente ao pecado, mas se crê salva porque tem um vago sentimento religioso, de confiança em Deus. A fé sem as obras é um grande erro.
Existe também, sobretudo no Brasil, o erro oposto: a caridade sem a fé. É o espiritismo. Sem falar na doutrina irracional da reencarnação, já refutada por Aristóteles, e do absurdo que é a invocação dos mortos, prática reiteradamente condenada na Sagrada Escritura, os espíritas afirmam que o importante é fazer o bem para os outros, o importante é a caridade, pouco importando a fé. Aqui existe um erro grave sobre o que é a caridade. A caridade não é a filantropia, isto é, fazer bem ao próximo. A caridade é, na verdade, amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo por amor a Deus. Assim, o amor ao próximo deve ser uma decorrência do amor a Deus. Tem-se verdadeiramente amor ao próximo quando se deseja e se age para levá-lo, de alguma forma, a Deus, ou quando se ajuda o próximo por amor a Deus. Todavia, só podemos amar algo que conhecemos. Só poderemos amar a Deus devidamente, se o conhecemos. Ora, nós conhecemos Deus pela fé, pela fé católica. Para haver realmente caridade, é preciso, então, que haja a fé antes. Portanto, é impossível haver caridade sem a fé. A caridade sem a fé vira mera filantropia, especialidade dos espíritas e das seitas maçônicas. O que importa é fazer o bem e não a religião. Isso é um erro grave. É de suma importância e decisivo a pessoa aderir ou não ao que Deus falou por meio de seu Filho, Nosso Senhor. Como pode pretender fazer o bem aquele que se nega a acreditar em Cristo, que é a própria Verdade? A filantropia não leva ninguém para o céu e ela quer nos fazer esquecer a raiz de onde procede todo o bem, que é Deus e a verdadeira religião. Uma suposta caridade sem fé conduz ao pernicioso indiferentismo religioso, que considera que todas as religiões são boas.
Assim, caros católicos, precisamos da fé e da caridade, se quisermos viver realmente bem. Vejamos a doutrina católica. A natureza humana, depois do pecado original, não se tornou má. Como consequência do pecado original, o homem ficou incapacitado de fazer obras com valor sobrenatural, já que perdeu a graça, e tem a inclinação para o pecado. Mas as suas ações não são todas pecaminosas. Mesmo um pagão é capaz de fazer obras que não são pecaminosas, ainda que não tenham um valor sobrenatural. Um pagão que dá esmola para ajudar o próximo faz uma boa ação na ordem natural, por exemplo. Para que a boa obra tenha valor sobrenatural, é preciso estar em estado de graça. A paixão e os méritos de Cristo não são simplesmente para cobrir as nossas iniquidades, nos imputando uma justiça que, na verdade, não possuímos. Nosso Senhor realmente nos santifica. Se creio nEle e estou arrependido de minhas faltas, Nosso Senhor nos dá a graça santificante, que apaga os nossos pecados, nos santifica realmente e nos converte em Filhos de Deus. Com o auxílio de Deus, somos capazes de obras sobrenaturalmente boas, que nos levarão para o céu, se as fazemos em estado de graça e por motivo sobrenatural. Assim, caros católicos, podemos fazer boas obras e obras que nos levam para o céu, sempre ajudados por Deus, de quem procede todo o bem.
Não basta apenas ouvirmos a Palavra de Deus, iludindo-nos. É preciso colocá-la em prática. Não basta só a fé, é preciso a caridade. Não basta só uma pretensa caridade. É preciso a fé. E entre a fé e a caridade é preciso a esperança. Entre a fé pela qual nossa inteligência adere firmemente às verdades ensinadas por Deus e a caridade, pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Deus, está a esperança. Esperança pela qual confiamos com toda segurança que Deus nos dá as graças suficientes para que acreditemos e façamos as boas obras, se tomamos a decisão de servi-lo e se rezamos bem, como nos diz Nosso Senhor no Evangelho. Com a graça de Deus, podemos perseverar até o final na fé, na esperança e na caridade. As três são necessárias.
“Ó Deus, de quem todo o bem procede, escutai as nossas preces e concedei: que por vossa inspiração pensemos o que é reto e, dirigidos por Vós, o realizemos.” (Coleta)
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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