13 de maio de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Em resumo: para que a alma consiga a salvação eterna, o juízo há de patentear que a vida dessa alma fora conforme a vida de Cristo.
É o que fazia tremer Jó, quando exclamava: “Que farei quando Deus se levantar a julgar? E quando me perguntar, que lhe responderei?” (Rm 8,29). Repreendendo Filipe II um de seus criados, que o tinha enganado, disse-lhe apenas estas palavras: É assim que me enganas?...
Aquele infeliz, ao voltar à sua casa, morreu de pesar. Que fará pois, e que responderá o pecador a Jesus Cristo, seu juiz? Fará como aquele homem do Evangelho, que se apresentou ao banquete sem a veste nupcial. Não soube o que responder e calou-se (Mt 22,12). As próprias 77 culpas lhe fecharam a boca (Sl 106,42). A vergonha — diz São Basílio — será então para o pecador maior tormento que as próprias chamas infernais.
Finalmente, o juiz pronunciará a sentença: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!” Quão terrivelmente ressoará aquele trovão — exclama Dionísio, o Cartuxo... “Quem não treme à consideração dessa horrenda sentença — observa Santo Anselmo — não está dormindo, mas morto”. Santo Eusébio acrescenta que será tão grande o terror dos pecadores ao ouvir a sua condenação, que se não fossem já imortais morreriam de novo. Então, — como escreve São Tomás de Vilanova, — já não será tempo de suplicar, já não haverá intercessores a quem recorrer. A quem, efetivamente, hão de recorrer?... Porventura, a seu Deus a quem desprezaram?. Talvez aos Santos, à Virgem Maria?...
Ah! não! porque então as estrelas (que são os santos advogados) cairão do céu, e a tua (que é Maria Santíssima) não dará a sua luz (Mt 24,29). “Maria — diz Santo Agostinho — retirar-se-á das portas da glória”.
Ó Deus! — exclama o já citado São Tomás de Vilanova, — com que indiferença ouvimos falar do juízo, como se não pudéssemos merecer a sentença condenatória, ou como se não tivéssemos de ser julgados...
Que loucura estar tranqüilo no meio de tamanho perigo!” Não digas, pois, meu irmão — nos adverte Santo Agostinho: Será que Deus queira enviar-me ao inferno? não o digas jamais. Também os hebreus não queriam convencer-se de que seriam exterminados. Quantos réprobos blasonavam de que não seriam condenados às penas eternas! E, no entanto, chegou a hora do castigo: “O fim vem, vem o fim... Agora derramarei a minha ira sobre ti, e te julgarei” (Ez 7,6-8). É também o que te acontecerá. “Chegará o dia do juízo e verás que Deus não faz vãs ameaças”.
Presentemente ainda nos é dado escolher a sentença que preferimos.
Devemos, pois, ajustar as contas da alma, antes que chegue o juízo (Ecl 18,19), porque, segundo diz São Boaventura, os negociantes prudentes, para se não exporem a uma falência, conferem e ajustam suas contas freqüentemente. “Antes do juízo, diz Santo Agostinho, podemos ainda aplacar o Juiz; mas durante o juízo, não”. Desejo, ó Juiz de minha alma, que me julgueis e castigueis nesta vida, porque ainda é tempo de misericórdia e de perdão. Depois da morte só será tempo de justiça.

AFETOS E SÚPLICAS

Se agora não aplaco, ó meu Deus, a vossa ira, mais tarde não será possível aplacar-vos. Como, porém, o conseguirei, depois de ter desprezado tantas vezes vossa amizade por vis e míseros prazeres? Paguei com ingratidão vosso imenso amor... Qual a satisfação meritória que pode oferecer a criatura pelas ofensas que fez a seu Criador?... Ah, meu Se-nhor! Como agradecer dignamente à vossa misericórdia os meios infalíveis que me proporcionais para satisfazer-vos e aplacar-vos?...
Ofereço-vos, o sangue e a morte de Jesus Cristo, vosso Filho, e desde já se acha aplacada e superabundantemente satisfeita a vossa justiça.
Necessário é, além disso, o meu arrependimento... Sim, meu Deus, arrependo- me de todo o coração de quantas ofensas vos fiz. Julgai-me agora, meu Redentor. Detesto minhas culpas mais que todo o mal e amo-vos sobre todas as coisas com toda a minha alma. Proponho amar-vos sempre, e preferir a morte a ofender-vos outra vez. Prometestes o perdão a quem se arrepende. Julgai-me, pois, agora, e perdoai-me os pecados. Aceito a pena que mereço; mas restabelecei-me na vossa graça e fazei que nela persevere até à morte...
Ó Maria, nossa Mãe! Agradeço-vos tantos dons que para mim tendes alcançado da divina clemência. Dignai-vos continuar a proteger-me até ao fim de minha vida.

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