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3 de agosto de 2017

Sermão para o 5º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] O bom católico é um fariseu?


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Caros católicos, Nosso Senhor Jesus Cristo, no Evangelho de hoje, que é um trecho do sermão da montanha, faz um ataque frontal aos escribas e fariseus: “Se a vossa justiça não for além da justiça dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.” A Epístola e o Evangelho nos falam da caridade para com o próximo. Parece haver aqui uma contradição de Nosso Senhor com a sua própria doutrina de caridade fraterna. Como pode o Senhor atacar tão gravemente os fariseus e falar da caridade? Ora, claro que essa contradição é meramente aparente. O Senhor, ao falar essas palavras severas com os escribas e fariseus, age com caridade, primeiramente, com os próprios fariseus. Nosso Senhor diz para eles que é preciso que se convertam verdadeiramente para que alcancem o reino dos céus, para que se salvem. Nosso Senhor aponta o erro grave, para que possam se corrigir, se arrepender e alcançar a salvação. Grande caridade é corrigir, no momento devido e do modo devido, os que estão no erro. Nosso Senhor o faz perfeitamente. Então, Cristo, ao dizer essas palavras, age com caridade para com os próprios fariseus.
Todavia, o Salvador age com caridade também para com todo o povo. O povo ouvia atentamente os fariseus e os escribas e tendia a imitá-los. Eram os mestres do povo. Ao denunciar o erro dos escribas e fariseus, Nosso Senhor mostra para o povo o que não se deve fazer, denunciando os falsos mestres, denunciando o lobo em pele de cordeiro. É uma grande caridade mostrar ao povo que está seguindo cegos, cegos que os levarão diretamente ao precipício. Ao denunciar o erro dos fariseus e escribas, Nosso Senhor age com enorme caridade, visando à salvação dos homens. Ao denunciar assim o erro grave dos fariseus, o Senhor cumpre ao menos três obras de misericórdia: corrige os que erram, ensina os ignorantes e dá bom conselho. E, claro, faz tudo isso bem. Não basta corrigir, ensinar ou dar bom conselho. É preciso fazê-lo bem.
Lembremo-nos rapidamente da doutrina dos fariseus. Muitos acham que fariseu é aquele que cumpre com exatidão as leis de Deus. Ora, o que faz isso não é um fariseu. O que cumpre com exatidão as leis de Deus chama-se santo. Nossa Senhora o fez. Santa Isabel, Rainha de Portugal, comemorada ontem (08/07), o fez. São Pio X o fez. São João Bosco o fez, por exemplo. Hoje, quando a pessoa vai à Missa todos os domingos, quando procura confessar-se com frequência, quando defende a única religião verdadeira ou quando evita as ocasiões de pecado, já é logo chamado de fariseu. Ora, aquele que afirma que apenas a religião católica salva, não é fariseu, mas apenas acredita naquilo que Nosso Senhor nos ensinou e que é a verdade. Aquele que evita as ocasiões de pecado, como os banhos públicos (tais como frequentados), praia ou piscina, por exemplo, não é um fariseu, mas apenas foge de ocasião próxima de pecado. O fariseu não é aquele que procura cumprir com generosidade e exatidão a lei de Deus. O fariseu faz precisamente o contrário. Ele não cumpre a lei de Deus e não deixa os outros praticarem-na, embora tenham certa aparência exterior de virtude. “Ai de vós, diz Nosso Senhor, escribas e fariseus hipócritas, que fechais o reino dos céus aos homens, pois nem vós entrais, nem deixais que entrem os que estão para entrar.” Os fariseus inventavam tradições humanas para se livrarem da lei de Deus. Assim, criaram uma consagração dos bens a Deus (Mc 7, 11) que os impedia de dar esses bens aos pais necessitados, enquanto podiam continuar usando esses mesmos bens. Escapavam assim do quarto mandamento, que manda ajudar os pais também em suas necessidades materiais. Criavam muitas vezes preceitos meramente humanos e pesados que impunham aos outros sem que eles mesmos cumprissem essas coisas (Mt 23, 4). Os fariseus também violavam a lei de Deus porque praticavam uma religião puramente exterior, em que a pureza exterior substituía a santidade interior. Eram hipócritas, bonitos por fora como um túmulo pintado de branco, mas no interior cheio de podridão. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, diz Cristo, que sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a sorte de podridão! Assim também vós por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniquidade.” Os fariseus cumpriam os preceitos menores e mais externos (o que é bom e necessário) e negligenciavam os mais importantes. Assim, eles pagavam o dízimo de todas as ervas (o que era bom e louvável), mas negligenciavam a justiça e a misericórdia (Mt 23, 23).  “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã e do endro e do cominho, e desprezais os pontos mais graves da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade! São estas coisas que era preciso praticar, sem omitir as outras. Condutores cegos, que filtrais um mosquito e engolis um camelo!” O fariseu é aquele que fazia também as suas boas obras para ser visto e elogiado pelos outros, ostentando. Oravam de modo a ser visto e reparado por todos, com singularidades, excentricidades ou em lugares mais visíveis. Assim diz Nosso Senhor (Mt. 23, 5) que os fariseus fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens, e trazem mais largas as filactérias, e mais compridas as franjas dos vestidos. Assim, quando jejuavam, apareciam tristes para que todos vissem que estavam jejuando (Mt 6, 16). Os fariseus e escribas faziam algumas boas obras também para atrair os outros para sua doutrina ou para conseguir bens materiais. Nosso Senhor diz que prolongavam suas orações nas casas das viúvas para devorar os bens delas (Mt. 23, 14), semelhante ao que fazem certos grupos sob pretexto de favorecer a devoção a Nossa Senhora de Fátima.
Tantos erros dos fariseus. Inventavam leis humanas contrárias à lei de Deus. Sabemos que nenhuma lei humana pode ser contrária à lei de Deus. Faziam as pequenas coisas e deixavam as mais importantes. Sabemos que é preciso ser fiel nas pequenas e nas grandes, é preciso fazer as pequenas sem deixar as grandes e vice-versa. Faziam as boas obras para serem vistos pelos outros, em primeiro lugar. Sabemos que devemos fazer o bem para agradar a Deus e não para sermos vistos pelos outros. E sabemos que se algumas de nossas boas obras são vistas pelos outros, devemos esperar que elas sirvam para a edificação do próximo e não nos orgulharmos. E, naturalmente, muitas boas obras que fazemos serão vistas pelos outros, mas devemos fazer por Deus. Eram hipócritas, querendo aparentar santidade. Não devemos, porém, confundir hipocrisia com fraqueza. A hipocrisia é voluntariamente fazer uma coisa ruim, mas querendo aparentar o bem para ser elogiado e reconhecido pelos outros. Não é hipócrita aquele que se esforça para fazer o bem, mas ainda cai algumas vezes, por algum descuido ou fraqueza. Muitas vezes aqueles que procuram ser bons católicos são chamados de hipócritas quando têm alguma queda. Ora, não é hipocrisia, mas fraqueza, que procura combater e vencer seriamente.
Não devemos, porém, caros católicos, cair em erro oposto, dizendo que a santidade deve ser meramente interior. Não. A santidade é primeiramente e principalmente interior, mas ela se manifesta em atos exteriores. Naturalmente. Somos corpo e alma. Vivemos em sociedade. A santidade tem também o seu aspecto exterior. Nosso Senhor diz que as boas obras, feitas com a intenção de agradar a Deus, ajudam na conversão: assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus (Mt 5, 16). O culto deve ser externo e em sociedade, como fazemos agora na Missa, por exemplo. A boa árvore se conhece pelas verdadeiras boas obras, como diz o Senhor. A santidade interior transborda nas obras externas e no apostolado. A santidade interior que vem pela vida de oração, pela meditação católica em particular, pela prática das virtudes. Essa santidade é a alma do apostolado.
Essa santidade se traduz em particular no amor ao próximo. O amor ao próximo inclui o aspecto material, mas sobretudo o aspecto espiritual. Podemos, por exemplo, enumerar as obras de misericórdia corporais: 1ª, dar de comer a quem tem fome; 2ª, dar de beber a quem tem sede; 3ª, vestir os nus; 4ª, dar pousada aos peregrinos; 5ª, assistir aos enfermos; 6ª, visitar os presos; 7ª, enterrar os mortos. E as obras de misericórdia espirituais: 1ª, dar bom conselho; 2º, ensinar os ignorantes; 3ª, corrigir os que erram; 4ª, consolar os aflitos; 5ª, perdoar as injúrias; 6ª, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7ª, rogar a Deus por vivos e defuntos.
Porém, um meio muito eficaz de ajudar o nosso próximo na sua santificação é oferecer orações e sacrifícios por ele. E nisso, os pastorinhos de Fátima nos dão um exemplo tremendo. Jacinta, Francisco e Lúcia, 7, 9 e 10 anos. Logo na primeira aparição, em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pergunta: “quereis oferecer-vos a Deus, para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e em ato de súplica pela conversão dos pecadores?” E aquelas crianças respondem sim imediatamente, repetindo o sim da própria Maria Santíssima diante do Arcanjo Gabriel. Ao dizer sim, Nossa Senhora sabia que teria muito que sofrer em união com o seu Divino Filho, para reparar os pecados e converter as almas a Deus. E em 19 de agosto, Nossa Senhora manda aos pastorinhos: “rezai, rezai muito e fazei sacrifício pelos pecadores. Vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.” Façamos sacrifícios, coisas bem simples, começando com as contrariedades do quotidiano, fazendo pequenas renúncias aqui e acolá no nosso dia-a-dia. Lembrando, ao rezarmos, de oferecer em reparação pelos pecados e pela conversão dos pecadores. E não esqueçamos de nós mesmos em tudo isso.
Façamos essa boa obra, que muito agradará a Deus e que nos levará à verdadeira santidade, à verdadeira justiça, acima da justiça dos fariseus.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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