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4 de agosto de 2017

Sermão para o 7º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro

[Sermão] Guardar e pregar a fé: primeiro dever do sacerdote.


 Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Caro Padre Marcos, faz alguns dias, na sua ordenação para o sacerdócio, o senhor ouviu: ao padre cabe abençoar, governar, oferecer (o sacrifício) e pregar. Ao fazer essas coisas excelentes, o padre age realmente em conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo. Quão sublime é a missão do sacerdote!
Cristo é a luz que iluminou todo homem, como nos diz São João, embora muitos não o tenham recebido. Ele é a Verdade. A Igreja, que perpetua a obra de do Salvador, é a coluna e o sustento da verdade (1Tim 3, 16). Propagar essa verdade, fazer brilhar para os homens a luz do Evangelho, eis a obra da Igreja ao longo dos séculos. A Igreja transmite os ensinamentos de Cristo. Sem isso, não pode haver a salvação. A salvação está no conhecimento da verdade, na fé unida às obras. E o responsável por essa pregação é o sacerdote.
São Paulo exige que o candidato ao sacerdócio seja capaz de ensinar (1Tim 3, 2; Tit. 1, 9; 2Tim 2, 24). Não precisa ser humanamente eloquente, não precisa ter os diplomas mais elevados, mas precisa conhecer bem Nosso Senhor Jesus Cristo, ter aquela ciência supereminente de Cristo e ser apto a transmiti-la. Deve o sacerdote abordar os temas litigiosos em doutrina, deve impor a definição de verdade, refutar o erro e convencer os contraditores, sendo possível.
O ensinamento da doutrina tem, nos textos de São Paulo, um lugar de imenso destaque. O sacramento da ordem, caro Padre Marcos, institui o homem como ministro da palavra divina. Assim, São Paulo diz que o padre deve proclamar a palavra de Deus (Tit. 2, 5; 2Tim 2, 9), a palavra da verdade (2Tim 2, 15), deve ressoar as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo (1Tim 6, 3; Tit.2, 8). Deve pregar as palavras da fé (1Tim 4, 6). A própria vida pública do Salvador foi uma incessante pregação. E Ele enviou seus discípulos para ensinarem e pregarem no mundo inteiro. Assim, São João Crisóstomo dirá que “aquele que não sabe ensinar a verdadeira doutrina deve afastar-se da cátedra do ensino.” E que missão tremenda a de pregar a mesma palavra do Salvador. Que missão tremenda a de participar do ensinamento do Verbo Encarnado. O sacerdote que sabe em que consiste o seu dever de ensinar, não se desviará nem um jota da doutrina de Cristo, isto é, da doutrina católica.
São Paulo insiste com enorme veemência, nas epístolas a Tito e a Timóteo, na integridade da doutrina e na obrigação de ensinar a doutrina em toda a sua pureza. São Paulo pede a Timóteo que fique em Éfeso e lhe confere sua autoridade apostólica para combater, antes de tudo, os falsos doutores (1Tim. 1, 3; 6, 3-5). Em Creta, Tito deverá silenciar os propagandistas de mitos e que abusam da credulidade das pessoas (Tit. 1, 10-11; 3, 9).
Ora, esses perigos, caro Padre Marcos, contra os quais o apóstolo São Paulo alerta, não são passageiros nem restritos àqueles momentos ou àqueles lugares. Os ataques contra a fé são perpétuos, pois os homens têm sempre sede de novidades, ou de erros antigos apresentados sob nova roupagem. Sempre há homens que buscam sistemas ou invenções que agradem ao seu orgulho e sensibilidade. E eles vão buscar esses sistemas e invenções com qualquer mestre e se tornam vítimas desses impostores. O apóstolo é severo contra esses erros. Esses falsos doutores e profetas pretendem conhecer a Deus, mas são abomináveis a Deus. Cheios de orgulho, pretendem chegar a um alto conhecimento, bem que, no fundo, não saibam nada do que interessa. Isso não impede que falem muito, que discorram à toa sobre os mais variados temas e que se coloquem como doutores. Suas afirmações são loucuras e se disseminam insidiosamente como um câncer, principalmente hoje com as chamadas redes sociais. Eles provocam, com seus sistemas errôneos e suas novidades contrárias à doutrina, discussões e divisões. São independentes, indóceis e obstinados quanto à verdadeira religião e se opõem a ela.
Essa mentalidade herética se encontra hoje disseminada como se encontrou nos tempos anteriores aos nossos. E é espantoso ver os católicos e sobretudo padres que se entregam facilmente às inovações intelectuais, filosóficas ou sociais. Têm a posse da verdade, mas inclinam a orelha às inovações. Têm a doutrina de sempre de Cristo, têm a doutrina de sempre da Igreja, mas buscam a solução nas novidades que pipocam aqui e acolá.
Caro Padre Marcos, há e deve haver uma oposição constante entre o sacerdote e o herege, entre o padre de Nosso Senhor Jesus Cristo e o propagador de mentiras e de fábulas. O padre refuta o herege e sua heresia. Esse, em geral, não se submete, infelizmente. E o que está em jogo é a salvação das almas. O pastor tem, portanto, o dever de promover a vida cristã dos fiéis, mas seu primeiro dever, como fundamento disso, é defender o rebanho de toda contaminação doutrinal. Para isso, deve o sacerdote permanecer firme na fé. Deve preservá-la por uma vida de piedade. Deve aprofundá-la também por seus estudos. Deve ensinar aos fiéis a doutrina tradicional, isto é, aquela que foi transmitida por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos e que se transmite e se transmitirá na Igreja e pela Igreja até o fim dos tempos. O sacerdote deve afastar toda novidade, toda inovação. A doutrina de Cristo não suporta novidades nem mudanças. Ela já foi dada integralmente pelo Senhor aos apóstolos. Se alguém ensina algo contrário ao que a Igreja sempre ensinou não deve ser ouvido. O próprio São Paulo, na Epístola aos Gálatas (1, 8), diz: ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema. Se o próprio São Paulo ou um anjo do céu anunciasse uma doutrina diferente da doutrina de sempre, não deveriam ser ouvidos. E assim é. Se alguém ensina algo contra o que a Igreja sempre ensinou, querendo inverter o Evangelho, não pode ser ouvido.
O Padre, em seu zelo para evitar toda contaminação doutrinal do rebanho, não deverá desviar nem à esquerda nem à direita. Como os Macabeus (1Macabeus 2,22), diante do rei Antíoco, diziam: “Não obedeceremos a estas ordens do rei, não nos desviaremos da nossa religião, nem para a direita, nem para a esquerda.” O sacerdote não se desvia da doutrina católica nem à esquerda, nem à direita, como tantos o fazem hoje para um lado e para o outro com prejuízo enorme das ovelhas. O sacerdote não se deixa levar pelo canto da sereia da suposta alta cultura, pretexto constante ao longo dos séculos para propagar o erro, como menciona Leão XIII em sua Encíclica Humanum Genus contra a maçonaria. O sacerdote funda a cultura sobre o Evangelho. O sacerdote não se deixa levar por um erro menor para combater um maior. O bom sacerdote não admite o erro na doutrina. O bom sacerdote não admite a aliança com os inimigos jurados da Igreja, como as sociedades maçônicas e secretas. Não aceita a aliança com qualquer princípio errôneo, como os princípios liberais, por exemplo. Não aceita uma mera forma de governo como solução dos problemas, como, por exemplo, a monarquia ou a democracia, ainda mais quando os representantes de tal forma de governo aderem a falsos princípios. O bom padre sabe que – como diz o Padre Lemoyne, primeiro e melhor biógrafo de Dom Bosco – o demônio não se converte e não se apaga e que se ele é introduzido em casa (por uma falsa doutrina, ainda que mínima, por exemplo), ele trará consigo a traição e a morte. Foi o erro, por exemplo, do Rei Carlos Alberto de Itália que quis utilizar os liberais como meio para fazer a Itália livre e que para que nela florescesse a religião. Terminou engolido pelo liberalismo. O sacerdote sabe que a mais temível perseguição não é a sangrenta. Ele sabe que o pior inimigo é o erro introduzido sutilmente nas almas sob a aparência de verdade. Ele sabe que é essa a estratégia do inimigo utilizada no passado e ainda utilizada largamente hoje. Ele sabe que o pior inimigo são os falsos profetas, os falsos doutores que se apresentam com pele de cordeiro, com aparência católica, mas que são lobos devoradores, como diz Nosso Senhor. Devoradores da fé, da inteligência, dos bons costumes e, muitas vezes, dos bolsos.
Mas, diante de todos esses males, de todos os erros, o sacerdote deve guardar o depósito da fé e da moral. Ele sabe que um só erro na fé destrói toda a fé e toda a religião. Que um só erro na doutrina ou na moral basta para fazer perecer todo o rebanho. Ele sabe que mesmo as ambiguidades e palavras menos precisas podem levar à perdição. Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, corrige, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que (muitos) não suportarão a sã doutrina, mas acumularão mestres em volta de si, ao sabor das suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas. Tu, porém, vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos, faze a obra de evangelista, cumpre o teu ministério. Combate, até ao fim, o bom combate, guardei a fé. E terá preparada a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, lhe dará naquele dia. São as palavras de São Paulo a Timóteo e que um padre deve ter profundamente marcadas em letras de fogo na sua alma. Guardar a fé e pregar a fé.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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