5 de dezembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 5

CAPÍTULO QUARTO

Terceiro Artigo do Símbolo:

O qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem

I. - 1. Importância, e... [1] Das explicações dadas no Artigo anterior, podem os fiéis deduzir como é grande e singular o benefício que Deus fez ao gênero humano, por nos livrar da escravidão do mais cruel dos tiranos, por nos restituir [assim] a liberdade. Mas, atentando no plano e nos meios que Deus quis empregar para a nossa libertação, nada podemos conceber de mais grandioso, nem de mais brilhante, do que a bondade e munificência de Deus para conosco.

2. ... sentido do Artigo. É, pois, na explanação do terceiro Artigo que o pároco irá mostrando a grandeza deste mistério. A Sagrada Escritura no-lo propõe, freqüentes vezes, como fator fundamental de nossa salvação.

Ensinara como seu sentido se resume em crermos e confessarmos que o mesmo Jesus Cristo, nosso único Senhor e Filho de Deus, assumindo carne humana no seio da Virgem pela nossa salvação, não foi concebido de germe masculino (210), como os outros homens, mas por obra do Espírito Santo (211), acima de todas as leis da natureza, de sorte que a mesma Pessoa permaneceu Deus, qual era desde toda a eternidade, e tornou-Se então Homem, o que antes nunca tinha sido. (212)

3. Confirmação deste sentido O que prova, claramente, ser este o sentido destas palavras, é a profissão de fé do Sagrado Concílio de Constantinopla: "O qual desceu dos céus, por amor de nós homens, e por causa de nossa salvação; e encarnou de Maria Virgem por obra do Espírito Santo, e Se fez Homem".

Assim também o explicou São João Evangelista que, do peito do próprio Senhor e Salvador, havia haurido o conhecimento deste profundo mistério. Depois de ter explicado a natureza do Verbo Divino com as palavras: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (213); - conclui por fim: "E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós". (214)

4. Modo de união entre as duas naturezas [2] O Verbo, que é uma Pessoa (215) da natureza divina, assumiu de tal forma a natureza humana que uma e a mesma Pessoa é o "suporte" (216) das naturezas divina e humana.

Daí resultou que, nessa admirável união, se conservaram as operações e propriedades de uma e outra natureza. E na frase do célebre Pontífice São Leão Magno, "nem a glória da natureza superior destruiu a inferior, nem a elevação da natureza inferior diminuiu a dignidade da superior". (217)

II. 1. A conceição de Cristo é... [3] Sendo essencial explicar bem as noções, o pároco ensinará as seguintes particularidades. Quando dizemos que o Filho de Deus foi concebido por obra do Espírito Santo, não afirmamos que esta Pessoa da Santíssima Trindade consumou sozinha o mistério da Encarnação. Ainda que só o Filho assumiu a natureza humana, nem por isso deixaram de ser autoras deste mistério todas as três Pessoas da Santíssima Trindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo.

a) obra comum das três Pessoas Em geral, devemos ter como norma de fé cristã: Tudo o que Deus opera fora de si nas coisas criadas é obra comum das três Pessoas. Uma não opera mais do que as outras, nem uma sem as outras.

A única coisa que não pode ser comum a todas Pessoas, é o modo de proceder a uma da outra. Com efeito, só o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Tudo, porém, o que operam para fora, é obra comum das três Pessoas, sem diferença alguma. A esta espécie de operação pertence a Encarnação do Filho de Deus.

b) ... mas atribuída ao Espírito Santo em particular Apesar disso, a Sagrada Escritura costuma, das coisas que são comuns às três Pessoas, atribuir umas a esta Pessoa, outras àquela, como por exemplo, ao Pai o supremo poder sobre todas as coisas, ao Filho a sabedoria, e o amor ao Espírito Santo.

Como o mistério da Encarnação de Deus nos revela a singular e imensa benignidade de Deus para conosco, é por esse motivo que, de modo particular, atribuímos essa operação ao Espírito Santo.

2. Caráter da conceição de Cristo: a) aspecto natural [4] Verifica-se, neste mistério, que alguns elementos superam a ordem da natureza, e que outros lhe são conformes.

Cremos que o Corpo de Cristo se formou do sangue da Virgem Sua Mãe, e nisso reconhecemos uma operação da natureza humana. É lei natural que todo corpo humano se forme do sangue materno.

b) aspecto sobrenatural... Mas, o que ultrapassa a ordem natural das coisas, e supera a força de nossa inteligência é o fato de que, no instante de consentir a bem-aventurada Virgem às palavras do Anjo, declarando: "Eis aqui a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a Vossa palavra", - logo começou a formar-se [nela] o santíssimo Corpo de Cristo, ao qual se uniu uma alma dotada de inteligência, de sorte que, no mesmo instante, o Deus perfeito se tornou perfeito homem. (218)

quanto ao corpo - obra do Espírito Santo; Ninguém pode duvidar que esta foi uma nova e admirável obra do Espírito Santo, pois segundo a ordem da natureza a alma humana não pode informar nenhum corpo, senão em certo lapso de tempo. (219)

quanto à divindade - união hipostática Acresce ainda outro fato, digno de maior admiração. Tanto que a alma se uniu ao corpo, a própria Divindade se uniu também ao corpo e à alma. Por conseguinte, logo que o corpo foi formado, e simultaneamente animado, a Divindade ficou ligada tanto ao corpo como à alma.

Corolário: Maria. Mãe de Deus. Daí se segue que, no mesmo instante, Deus perfeito veio a ser perfeito homem; e que a Santíssima Virgem pode, verdadeira e propriamente, ser chamada Mãe de Deus, porque no mesmo instante concebia a Deus e ao Homem.

É o que também lhe foi significado, quando o Anjo lhe dissera: "Eis que conceberás no teu seio, e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, e chamar-Lhe-ão Filho do Altíssimo". (220) E por este fato se realizou a profecia de Isaías: "Eis que uma Virgem conceberá, e dará à luz um Filho". (221)

Assim também reconheceu Isabel a conceição do Filho de Deus, quando toda cheia do Espírito Santo prorrompeu nas palavras: "Donde me vem esta graça de chegar a mim a Mãe do meu Senhor?" (222)

quanto à alma - plenitude de dons e carisma Mas, como acabamos de dizer, o Corpo de Cristo se formou do puríssimo sangue da Virgem toda Imaculada, sem nenhuma interferência de varão, mas unicamente pela virtude do Espírito Santo.

Assim também a Sua Alma recebeu, desde o primeiro instante da conceição, a mais rica abundância do Espírito Santo e toda a plenitude de [Seus] dons e carismas. Segundo o testemunho de São João (223), Deus "não Lhe dá o Espírito por medida", como aos outros homens, aos quais reveste de graça e santidade, mas infundiu-Lhe na alma todas as graças com tanta profusão, que "de Sua plenitude todos nós recebemos". (224)

Corolário: Cristo não é filho adotivo de Deus [5] No entanto, Cristo não pode ser chamado Filho adotivo de Deus, ainda que teve aquele Espírito, pelo qual os homens justificados conseguem a adoção de filhos de Deus. (225) Sendo Ele Filho de Deus por natureza, deve crer-se que de modo algum Lhe cabe a graça de adoção, nem o título de Filho adotivo.

3. Frutos deste mistério: a) meditá-lo com freqüência [6] São estas as explicações que, em nosso sentir, devíamos dar a propósito do admirável mistério da Encarnação.

Para tirar delas frutos salutares, devem os fiéis antes de tudo recordar, e muitas vezes meditar, de coração, os pontos seguintes:

É Deus Aquele que assumiu carne humana. Fez-Se Homem por uma via que nossa razão não alcança, que nossa linguagem não pode muito menos exprimir. Fez-Se Homem, enfim, porque queria que nós homens renascêssemos como filhos de Deus.

b) não querer esquadrinhá-lo Após atenta consideração destas verdades, os fiéis devem crer e adorar, com espírito crente e humilde, todos os mistérios contidos no presente Artigo. Mas não se ponham a inquiri-los e esquadrinhá-los por mera curiosidade. Tal pretensão nunca deixa de ter os seus perigos.

Nasceu de Maria Virgem

III. 1. "Nasceu" [7] Esta é a segunda parte do presente Artigo. O pároco fará todo o empenho de explicá-la apuradamente, porque impõe aos fiéis a obrigação de crerem que Jesus Nosso Senhor não só foi concebido por obra do Espírito Santo, mas também nasceu de Maria Virgem, e por ela foi posto neste mundo.

a) para regozijo nosso... O Anjo foi o primeiro a anunciar ao mundo esta mensagem de felicidade, e suas palavras nos dão a entender, com quanta alegria e elevação de espírito não devemos meditar este mistério da fé: "Eis que venho anunciar-vos uma grande alegria para todo o povo". E também os cantares da milícia celeste: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!" (226)

b) segundo as profecias... Desde aquele instante, começou realmente a cumprir-se a grandiosa promessa de Deus a Abraão, quando lhe dissera que, um dia, "todos os povos seriam abençoados em sua descendência". (227) Maria, a quem proclamamos e veneramos como verdadeira Mãe de Deus, - por ter dado à luz aquela Pessoa que era ao mesmo tempo Deus e Homem, - [Maria] descendia da estirpe real de Davi. (228)

2. "de Maria Virgem"... [8] Se a conceição de Cristo já excede toda a ordem da natureza, em Seu nascimento nada podemos contemplar que não seja de caráter divino.

O que há de mais admirável, o que sobrepuja a tudo quanto o homem possa dizer ou imaginar, é o fato de nascer Ele de Sua Mãe, sem que daí resultasse a menor lesão da virgindade materna.

Assim como mais tarde saiu do sepulcro fechado e selado; assim como "entrou para junto de Seus Discípulos, apesar das portas fechadas" (229); assim como, na observação diária da natureza, vemos os raios solares atravessarem um vidro compacto, sem o quebrar, e sem lhe fazer o menor estrago; - assim também, e de maneira mais sublime, nasceu Jesus Cristo do seio de Sua Mãe, sem nenhum dano para a integridade materna.

É, pois, com os mais justos louvores que, em Maria, enaltecemos uma virgindade perpétua e intemerata. Operado foi este milagre pela virtude do Espírito Santo. De tal modo assistiu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho que, dando-lhe fecundidade, lhe conservou, todavia a virgindade. (230)

que é a segunda Eva. [9] De vez em quando, costuma o Apóstolo designar a Cristo como o "segundo Adão" (231), e confrontá-l'O com o primeiro Adão. Realmente, assim como pelo primeiro Adão todos os homens sofrem a morte, assim pelo segundo são todos novamente chamados à vida. Assim como Adão foi pai do gênero humano segundo as leis da natureza, assim também Cristo é [para todos] o autor da graça e bem-aventurança.

Por analogia, podemos igualmente comparar com Eva a Virgem Mãe [de Deus]. A primeira Eva corresponde a segunda, que é Maria; assim como acabamos de mostrar que o segundo Adão - Cristo - corresponde ao primeiro Adão.

Por ter dado crédito à serpente (232), Eva acarretou maldição e morte ao gênero humano. Maria acreditou nas palavras do Anjo (233), e obteve que aos homens viesse [novamente] bênção e vida. (234) Por culpa de Eva, nascemos filhos da ira (235); por Maria recebemos Jesus Cristo, que nos faz renascer como filhos da graça. (236) A Eva foi dito: Em dores darás a luz [teus] filhos". (237) Maria ficou isenta desta lei. Conservando a integridade de sua virginal pureza, como dizíamos há pouco, Maria deu à luz a Jesus, Filho de Deus, sem sofrer dor de espécie alguma.

3. Figuras deste mistério [10] Visto serem tão grandes e tão numerosos os mistérios desta admirável conceição e nascimento, convinha que a Divina Providência os fizesse anunciar, por meio de muitas figuras e profecias.

Esta é a razão por que os Santos Doutores aplicaram a este mistério muitos trechos, que lemos em vários lugares da Sagrada Escritura. Entre os quais se fala principalmente daquela porta do Santuário, que Ezequiel viu fechada (238); daquela pedra que se desprendeu do monte, "sem a intervenção de mãos humanas", como diz Daniel, "a qual se avolumou em grande montanha, e encheu toda a superfície da terra" (239); da "vara de Aarão, a única que deitou rebentos, entre as varas dos príncipes de Israel. (240); da "sarça, que Moisés viu arder sem se consumir". (241)

4 Frutos e aplicações A história do natal de Cristo foi amplamente descrita pelo Santo Evangelista. (242) Não julgamos, pois, necessário entrar aqui em outros pormenores, porque o pároco os encontrará facilmente na leitura do Evangelho.

A pregação deste mistério desperta: a) gratidão [11] Como estes mistérios "foram escritos para nosso ensinamento" (243), faça o pároco por incutí-los, profundamente no espírito e no coração dos fiéis. Antes de tudo, para que a recordação de tão grande benefício os leve a render graças a Deus, que é o Seu autor. Depois, para que tenham diante dos olhos, e tratem de imitar este egrégio e singular exemplo de humildade.

b) humildade Realmente, que pode haver de mais útil e mais próprio, para sofrear nosso orgulho e arrogância espiritual, do que considerar muitas vezes como Deus Se humilha, a ponto de tomar sobre Si a fraqueza e fragilidade humana; como Deus Se fez homem, e põe a serviço do homem Sua soberana e infinita majestade, a cujo aceno - no dizer da Escritura - as colunas do céu vacilam e tremem de pavor (244); como veio afinal nascer na terra Aquele, a quem os Anjos adoram nos céus. (245)

Ora, se Deus faz tanto por nós, que nos incumbe fazer de nossa parte, para realizar a Sua vontade? Com quanta alegria e prontidão de espírito não devemos, pois, amar, abraçar, e cumprir todos os deveres que nos impõe a humildade!

c) imitação de Cristo Devem os fiéis tomar a peito as salutares lições que Cristo nos dá, desde o seu nascimento, antes até de ter proferido a menor palavra. Nasce na indigência. Nasce, como [nasceria] um estrato na estalagem. Nasce em tosca manjedoura. Nasce no rigor do inverno.

Eis o que relata São Lucas: "E quando ali estavam, aconteceu completar-se o tempo em que devia dar à luz. E deu à luz o seu Filho Primogênito, envolveu-O em faixas, e reclinou-O numa manjedoura; pois não havia lugar para eles na estalagem". (246)

Poderia o Evangelista exprimir, em termos mais lhanos, toda a majestade e glória do céu e da terra? Não escreve, apenas, que não havia lugar na estalagem,

mas que o não havia para Aquele, que de Si declarou: "Minha é a redondeza da terra, e Minhas são todas as coisas de que se acha repleta". (247) Outro Evangelista dá o mesmo testemunho: "Veio para o que era Seu, e os seus não O receberam". (248)

d) consciência de nossa dignidade Levando em conta estes fatos, os fiéis devem ainda lembrar-se que, se Deus quis assumir a baixeza e fragilidade de nossa carne, foi para elevar o gênero humano ao mais alto grau de honra e dignidade. Com efeito, como prova da eminente posição e dignidade, a que a bondade divina exaltou o homem, basta existir realmente um Homem que, ao mesmo tempo, é perfeito e verdadeiro Deus.

Por conseguinte, podemos gloriar-nos de que o Filho de Deus é "nossa carne e osso". (249) É uma regalia que não se aplica nem aos próprios espíritos bem-aventurados, porquanto diz o Apóstolo: "Não assumiu a natureza dos Anjos, mas a linhagem de Abraão". (250)

e) obediência à graça Sem embargo, devemos cuidar para que não nos aconteça, para nossa maior desgraça, o que sucedeu na estalagem de Belém, onde faltava lugar para Jesus nascer; que, já não nascendo corporalmente, não possa Ele descobrir em nossos corações um lugar, para nascer espiritualmente. Nascer dentro de nossas almas é o que Jesus quer, com toda a veemência, pois a nossa salvação é o objeto de Sua maior solicitude.

f) desejo de vida nova Assim como Ele Se fez homem por obra do Espírito Santo, e nasceu de uma maneira que supera as leis da natureza; assim como Ele é santo, e representa [em pessoa] a própria santidade; - assim também devemos nós nascer "não do sangue, nem do desejo da carne, mas de Deus" (251); e depois "levar uma vida nova" (252), como "novas criaturas" (253), para conservarmos aquela santidade e pureza de espírito, que é o maior apanágio dos homens regenerados pelo Espírito de Deus.

g) perfeita identificação com Cristo Desta arte, reproduziremos em nós uma certa imagem e semelhança da Santa Conceição e do Santo Nascimento do Filho de Deus. Esta possibilidade constitui para nós o objeto de uma fé inabalável E na posse desta fé (254), contemplamos enlevados (255), e adoramos a "sabedoria de Deus no Mistério (256), a qual se acha encobertas". (257)

210) Traduzimos literalmente, mas no púlpito é preciso parafrasear. DU 256 422 429 993. - 211) 1, 20. - 212) Jo 1, 24. - 213) Jo 1, 1. - 214) Jo 1, 14. - 215) Em latim: Hypostasis. - 216) .... hipóstase - 217) Leo M. sermo 21, 2; DU 288 344. - 218) Lc i, 38; DU 144 422. - 219) O CRO alude à doutrina de S. Tomás (SG 2 89 ad object. secundam) que no embrião admite três almas sucessivas, primeiro a vegetativa, depois a animal, por último a racional. Sustentam-na ainda, como provável, o Cardeal Mercier (Curso de Philos. IV 347 ss. Vizeu 1904) e poucos autores modernos. Na maioria, os filósofos abraçam hoje a outra criada e infundida no próprio instante da conceição. - A igreja deixa livre a discussão científica, mas segue praticamente a opinião mais segura. O CIC manda batizar todos os abortivos, de qualquer idade que seja (can. 747). Os autores do CRO perfilharam uma opinião que lhes parecia comum. Efetivam a questão nunca assumiu as proporções de aberta controvérsia, pelo menos em terreno dogmático. Em vista disso, não há lugar de se volver o assunto na tribuna sagrada. - 220) Lc 1, 31. - 221) Is 7, 14. - 222) Lc 1, 43. - RK antepõe esta passagem ao texto de Isaías, afastando-se de Manucci. - DU 111a 113 201-202 214 218 256 ss. 290 708 993 1462. - 223) Aqui se fala de João Batista. - 224) Jo 1, 16. - 225) Rm 8, 15; DU 229 309 314a 344 462. - 226) Lc 2, 10-14. - 227) Gn 22, 18. - 228) Mt 1, 1-17. - 229) Jo 20, 19. - 230) O vulgo entre nós confunde "intemerato" com "intrépido". DU 113 201 ss. 214 256 282 1314. - 231) 1 Cor 15, 21-32; Rm 5, 14. - 232) Gn 3, 6; Sr 25,33. - 233) Lc 1,38. - 234) Ef 1,3. - 235) Ef 2,3. - 236) Gl 4, 4-7. - 237) Gn 3,16. - Seria oportuno intercalar, na explicação deste capitulo, os outros mistérios da mariologia: Imaculada Conceição (DU 256 734 ss. 792 1073 1100 1641 2147a 1924); a isenção de pecado pessoal (DU 256 833 1978a); a mediação de todas as graças (DU 734 1940a 1978 1978a); a Assunção (DU 1641 nota); o culto mariano (DU 1255 1316 ss.) etc. - 238) Ez 44,2, - 239) Dn 2, 34-35 circa finem. - 240) Nm 17, 8. - 241) Ex 3,2 ss. - 242) S Lucas. - 243) Rm 15, 4 - 244) Jó 26, 11. - 245) 7, 11; Sl 96, 7. 246) Lc 2, 6-7. - 247) Sl 49, 12. - 248) Jó 1, 11. - 249) Gn 29, 14; DU 20 344 710 1463- 250) Hb 2, 16. - 251) Jo 1, 13. - 252) Rm 6, 4. - 253) 2Cor 5, 17. - 254) ... em nosso renascimento. - 255) LCR, Doney e Manz trazem a variante "suscipimus" em vez de "suspicimus". - 256) ... da Encarnação. - 257) 1Cor 2, 7.

4 de dezembro de 2009

Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 6 de 6

1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat: Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.


6- PREVINAMOS O JUÍZO DE DEUS.
No céu o sol, a lua e as estrelas empalidecerão; na terra, os homens tremerão na expectação. E eis que o Filho do Homem virá sobre nuvens com poder e glória, a julgar os vivos e os mortos.
Com estas palavras cheias de mistério e de pavor, Jesus nos anuncia o juízo universal. Alguns, quiça muitos,pensarão: “Quem sabe quantos milênios ainda deverão passar até que chegue o fim do mundo?” Contudo, embora esteja longe o último dia de todo o gênero humano, porventura daí se segue que esse último dia esteja longe também para cada um de nós? Em verdade, para cada um de nós o mundo acaba no dia da nossa morte; então, para esse, o sol se apagará, e a lua findará de pratear os telhados, os hortos e os campos, e as estrelas desaparecerão todas juntas na imensa treva que pesará sobre as suas pupilas extintas; então o divino Juiz virá julgar.
De nós, ninguém conhece o dia e a hora do seu juízo, e no entanto ele é inevitável, e não está longe. A verdadeira sabedoria consiste em preveni-lo, praticando os três conselhos repetidos muitas vezes pelo Senhor.
Estai alerta, porque não sabeis quando virá.
Não julgueis, e não sereis julgados.
Fazei misericórdia, e achareis misericórdia.

Leia mais...



1- Estai alerta.
No Evangelho, é uma sucessão incessante de advertências à vigilância, à preparação, na espera fiel de Cristo que volta.
Será como um ladrão que chega de noite, quando ninguém o suspeita. Será como um laço que vos prende pelo caminho quando menos pensais.
Será como um grito fulmíneo que estronda ao ouvido e rompe os sonhos lisonjeiros da vida longa, de ganhos, de prazeres: “Estulto, esta noite morrerás”.
Será como um rei que de improviso aparece no meio do salão dos convidados, perscruta como a pupila severa, e descobre aquele que esta sem veste nupcial. “Pegai-o, e lançai-o fora, nas trevas!”
será como o esposo que chega no meio da note, enquanto todos dormem, toma consigo quem tem a lâmpada provida de óleo, e aos outros que batem para entrar responde: “Não vos conheço e não vos abro”.
Será como o proprietário que volta quando quer, e chama os seus súditos para prestarem conta dos talentos que,em partindo, lhes confiara. Ai do servo iníquo que os não houver feito render!
Será, enfim, como um pai de família que partiu para uma viaem misteriosa, deixando sua casa e sua fazenda em mãos dos servos, fixando a cada um a sua obra, e recomendando ao porteiro vigiar.
‘Diga-nos quando voltará”.
“Não posso dizê-lo. Talvez uma manhã ao canto do galo, ou talvez ao meio dia, enquanto se esta comendo. E quiça uma noite, acordando, ouvireis o meu passo na estrada. O que digo a vós, digo-o a todos: vigiai!” (Mc., XIII, 33-37).
O patrão foi-se para longe.
Algum servo prudente e fiel começou logo a executar as ordens recebidas, preparando sem desperdício e distribuindo com pontualidade, no momento oportuno, a comida aos familiares. Feliz o servo que, à sua chegada, o patrão achar fazendo assim! Em verdade vos digo, ele o porá à testa de tudo quanto possuí.
Ao invés, algum outro servo indolente e mau, passado algum tempo disse consigo mesmo: “Meu patrão esta demorando... quem sabe quando virá?... Talvez nem venha mais”. E começou a descuidar o seu trabalho, a litigar e a espancar os companheiros de serviço, a comer e a beber com os bêbedos. Desgraçado do servo que o patrão achar fazendo assim! Sobrevindo num dia em que não será esperado, numa hora que o servo não sabe, o patrão mandará matá-lo, expulsá-lo-á para entre os hipócritas malignos; para lá onde haverá pranto e ranger de dentes. (Mt., XXIV, 45-51).
portanto, cristãos, toda a nossa vida neste mundo é uma espera, é um tempo de advento. Mas, especialmente, deve ser uma espera fervorosa nesta parte do ano litúrgico que se chama justamente “Advento”.
Ninguém se engane, dizendo consigo: “O meu patrão esta demorando... quem sabe quando virá?... tenho tempo”. Ninguém ouse ficar em pecado mortal: ponde-vos todos na graça de Deus; vivei sempre em graça de Deus.
“Estejam vossos flancos cingidos e vossas lâmpadas acesas: sede semelhantes aqueles que esperam o seu patrão...”. (Lc., XII, 35-36).

2- Não julgueis.
Outro conselho do Juiz divino para prevenir nosso bem é o de nunca julgarmos o próximo. “Não julgueis, e não sereis julgados”. Eis aqui alguns motivos que nos persuadirão melhor a pratica-lo.
a) Não devemos julgar, porque ninguém nos constituiu no encargo de juiz para com o nosso próximo. Todos estamos no mesmo plano, todos somos irmãos; só um esta acima de nós, superior e juiz de todos: a seu tempo Ele virá. Entrementes, ninguém usurpe esse oficio, que é seu só.
b) Não devemos julgar, porque cada próximo nosso é súdito e servo de Deus. Quer ele caia, quer fique em pé, isto é lá com o seu patrão, e não conosco. (Rom., XIV, 4-10).
c) Não devemos julgar, porque somos incapazes de ser imparciais: no olho do próximo nos incomoda até a palha, e no nosso suportamos até uma trave. “Quantos homens – escreve S. João Crisóstomo – caem neste defeito! Se veem um padre que tem duas vestes, repreendem-no opondo-lhe a palavra do Senhor; e eles passam o dia trabalhando por avareza, e fraudam. Se veem que come bem, acusam-no; e eles continuam a passar bem e a embriagar-se. Não pensando que assim acumulam os pecados e preparam para si um juízo inescusável e duríssimo”. (Hom., XXIII, 2).
Cristãos, neste tempo do Advento, cada um de nós deve estar tão ocupado em se corrigir dos seus defeitos, graves e numerosos, que não perceba os alheios. Não devemos achar nem gosto nem tempo para qualquer palavra de critica ou de murmuração.


3- Fazei misericórdia.
Já desde agora nós sabemos exatamente como se desenrolará o juízo, e que palavras serão pronunciadas pelo Juiz.
Quando o Filho do Homem vier na sua glória com todos os seus anjos, então sentar-se-á no trono, e dirá aos que estiverem à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos esteve preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; fui estrangeiro e me acolhestes; estive nu e me vestistes;doente, e me assististes; em prisão, e viestes visitar-me”.
E, admirados, os justos responderão: “Senhor, quando foi que te encontramos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber?. . . Prisioneiro e te visitamos?”
e o rei lhes responderá; “Em verdade vos digo; todas as vezes que fizestes isso a qualquer um de vossos irmãos, a mim o fizestes”.
À admiração dos maus o rei dará ainda a mesma resposta, porém invertida: “Em verdade vos digo: todas as vezes que não fizestes isto a qualquer um de vossos irmãos, a mim o recusastes”. E estes irão para o castigo eterno. . . (Mt., XXV, 31-46).
muitos que agora se julgam cristãos perfeitos porque observam exteriormente as praticas religiosas, porque assistem às cerimônias oficiais, então ver-se-ão repelidos; e, ao contrário, muitos que agora fazem humildemente o bem e se julgam pecadores, ouvirão então as palavras que lhe abrirão as portas da alegria: “Era eu, aquele órfão; era eu aquele surdo-mudo, aquele idiota; era eu aquele velho do asilo; era eu aquele operário a quem dava trabalho honesto e recompensa suficiente, era eu que chorava naquele leito de hospital lá no fundo do corredor; era eu aquele prisioneiro na sua cela, quando tu o consolavas”.
Onde quer que há uma miséria, um sofrimento, uma humilhação, uma necessidade, ó cristãos, aí há oculto e mascarado o nosso Juiz. Usemos de misericórdia com esses, e Ele nos fará misericórdia.

Conclusão.
Para concluir, ouvi como é sábio este outro conselho que esta no Evangelho de S. Mateus: “Enquanto ainda estas a caminho, põe-te de acordo com o teu adversário. Do contrário, no instante em que chegares, ele te entregará aos guardas e serás encarcerado”.
Enquanto ainda somos peregrinos neste mundo, ponhamo-nos, pois, em paz com o Senhor, a quem havemos ofendido. Não esperemos para quando chegarmos à morte.
Corre tu, antes, a apresentar-te perante ele com o arrependimento, com a confissão. Corre a apresentar-te a Ele, antes que ele te faça comparecer perante si. Previne para não seres prevenido.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 57

57) De quem nasceu Jesus Cristo ?
Jesus Cristo nasceu de Maria sempre Virgem, a qual por isso se chama e é verdadeira Mãe de Deus.
Não houve artista que não tentasse figurar, na tela ou no mármore, o semblante sobrenaturalmente belo da Mãe de Deus.
Observa este quadro, no qual Dolci, com riqueza e suavidade de colorido, pintou a Virgem Mãe, com seu divino Filhinho nos braços. E que ternura e devoção Lhe demonstra! Jesus era filho de Maria, mas era também o Deus de sua própria Mãe! Por isso a ternura de Nossa Senhora para com Ele era uma perene e fervorosa adoração!
A Santíssima Trindade, havendo predeterminado, desde toda a eternidade, que o Verbo do Pai se fizesse homem, para a redenção do mundo, escolheu-lhe uma Mãe e enriqueceu-a de inumeráveis dons, para deste modo poder ser ela um digno tabernáculo do Filho de Deus.
Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. Concebeu-O em seu seio, plasmou-lhe o corpo com o seu sangue puríssimo, deu-O à luz, nutriu-O, educcou-O e teve para com Ele os mais ternos cuidados que a mais desvelada mãe pode ter para com seu filhinho. O coração de Maria encanta mais a Jesus do que todos os louvores que recebeu dos anjos no Céu e sua beleza supera todas as maravilhas celestes.
És toda bela e imaculada, ó Virgem Mãe, porque em teu semblante refulge o esplendor de teu Filho divino!
"Aquele que me achar, achará a vida e alcançará do Senhor a salvação" (Provérbios, 8,35).
Em "O poema da Virgem" o Venerável Padre José de Anchieta canta com entusiasmo a maternidade divina de Nossa Senhora:
De ti nos veio
A Salvação primeira e última do mundo,
de ti a liberdade, a graça, a vida!
Salve, mais uma vez, ó Mãe feliz com teu penhor:
bela na virgindade, grande na maternidade!... (Encarnação do Verbo, Epitalâmio Divino, 2045).

3 de dezembro de 2009

Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 5 de 6

1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat: Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.


5- FUGI DA IRA DIVINA NO JUÍZO UNIVERSAL.

Os céus, como um toldo gasto pelo tempo,rasgar-se-ão, deixando cair as estrelas. Sobre a terra ouvir-se-á o profundo rugido do mar que se entornará, e o estrondo das águas a se precipitarem. As turbas humanas, amedrontadas, tremerão na expectação terrífica.
Então o Sinal do Filho do Homem aparecerá no céu: e todas as raças chorarão na terra.
Então o Filho do Homem virá sobre as nuvens do céu: e os anjos, com as trombetas, fá-las-ão soar sobre os continentes da terra.
Como veremos Cristo naquele dia? Imagino-o conforme o pincel de Miguel Ângelo o pintou na parede da Capela Sistina. A mâo direita levantada poderosamente para abater, e a esquerda dobrada para mostrar o rasgão do peito, como a dizer: “Firo-vos por não haverdes correspondido ao meu coração!” Nada é terrível como a vingança de um amor ultrajado; depois, se este amor é o de um Deus, a sua vingança só eterna pode ser: o inferno. Recordemos as maldições de Jesus contra as cidades ingratas ao seu amor.
Milagres e pregações certamente não haviam faltado aos lugares em torno do lago de Genesaré, e especialmente a Corozaim, a Betsaída, a Cafarnaum; e, no entanto daquela região, o Mestre virou-se para trás para, com a voz velada de uma amargura profunda, maldizer: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaída! Se Tiro e Sidon, longínquas cidades da Fenícia, tivessem podido ver uma parte minima dos prodígios que vós vistes, ter-se-iam convertido, e teriam feito penitência dos seus pecados. Em verdade vos asseguro que no dia do juízo haverá misericórdia para estas, mas não para vós. Haverá misericórdia para Sodoma incendiada pelo meu furor; mas para Cafarneum, onde debalde prodigalizei o meu amor, não mais haverá misericórdia”. (Mt., XI, 20-24).
Semelhante aquelas cidades ingratas é também a nossa alma. Quantas finezas afetuosas não tem usado conosco o Senhor! Desde o dia do nosso nascimento até hoje, é uma longa cadeia de preferências divinas, às quais talvez não tenhamos correspondido. Ai de nós! No dia do juízo haverá misericórdia para tantos infelizes que não sabiam orar, que não podiam escutar uma prédica, mas para nós não!. . . Ai de nós se não fugirmos à ira futura.
Os nossos anos já voam para o seu fim com a rapidez de uma roda; já a morte, furiosa, nos está às costas. Enquanto ainda nos resta um pouco de tempo, corrijamo-nos; acendamos as nossas lâmpadas com o óleo da fé e das boas obras; preparemo-nos para o advento do divino Juíz.
Ai de nós se não fugirmos da ira futura!
No dia do juízo final, duas coisas causarão o maior pavor: o aparecimento da Cruz, e o dAquele que nela foi crucificado. E, se nesta vida nós não nos fizéssemos amigos da Cruz e do Crucificado, não seria um belo para fugirmos à ira futura, e acharmos misericórdia naquele momento supremo?
Portanto, façamo-nos amigos da Cruz.
Façamo-nos amigos do Crucificado.



1- Amigos da Cruz.
Fazer-se cavaleiro de Carlos V não era coisa fácil, e para isso muitos haviam trabalhado inutilmente. Mas, no dia da sua coroação,quis o imperador que qualquer corajoso pudesse conseguir aquela honra, contanto que se deixasse percutir pela sua espada.
Era o dia 24 de fevereiro de 1530, em Bolonha: coroado com a coroa férrea, Carlos V saía de S. Petrônio, ao lado do Papa Clemente VII, e com garbo montou num magnífico corsel; duas apinhadíssimas alas de povo abriam-se à sua passagem. E eis que jovens destemidos, homens fortes, velhos senhores, vêm ao meio, inclinam a cabeça e dizem: “Quero ser cavaleiro”. Percutindo-os com o punho da espada, Carlos V respondia: “Esto miles” (Sê soldado). Os postulantes eram muitíssimos, e de toda parte ouvia-se clamar: “Sire, sire, a mim! A mim!”.
Finalmente o imperador sentiu faltarem-lhe as forças: “Não posso mais”, suspirou; mas o grito dos pedintes crescia a cada passo: “A mim! A mim!”. Então ele pegou a espada e atirou-a sobre o povo, exclamando: “Amai a minha espada e a minha guerra: faço-vos todos cavaleiros”. “Todos! Todos!” Um brado de alegria irrompeu por toda a cidade: cada um queria beijar a espada imperial. À noite, Bolonha ardeu de fogo e ecoou de músicas triunfais.
Este episódio da história bolonhesa serve-me para imprimir na vossa mente o conceito do sofrimento cristão. O nosso Rei imortal, Jesus Cristo, passa pelas cidades deste mundo. Todo aquele que quer ser seu cavaleiro, todo aquele que quer triunfar com Ele no dia final da sua vitória, deve deixar-se percutir pela sua espada: a cruz. Por pouca dor Ele nos retribuirá uma alegria infinita; por breve guerra, conduzir-nos-á a uma vitória eterna.

1- Amai, pois, a sua cruz! E ama-lá-eis quando, com fé, com paciência, suportardes as tribulações que a cada dia da vida encontrareis. Considerai como fêz Jesus Cristo, o Rei divino, e depois segui-o: factus oboediens usque ad mortem, mortem autem crucis. (Fil., II, 8). E por que nos rebelarmos quando a Providência de Deus nos fere com a sua espada nos haveres, na família, na saúde? Não sabemos que, se Deus nos toca, é para nos fazer seus cavaleiros no Paraíso? E havemos de imprecar contra Ele?

2- Amai,pois, a sua guerra! Ela é guerra contra as seduções do mundo. Sempre e por todos os lados estamos cercados de perigos espirituais: o mundo é todo uma malignidade.
Amai a sua guerra! Ela é guerra contra nós mesmos. Há em nós duas partes contrastantes: uma parte é animal e terrena, a outra é espiritual e celeste; a primeira elevaños ao bem, a segunda abaixa-nos ao mal. É esta parte de nós que devemos sufocar e renegar com as suas inclinações perversas, com os seus afetos venenosos.
Se tivermos amado a cruz e a guerra contra o mundo e contra nós mesmos, não sentiremos pavor ao aparecimento do Sinal do Filho do Homem, no dia do juízo. “Eis a cruz!” clamarão os Anjos; outros chorarão, porém não nós, que naquele momento a saudaremos com as palavras de Santo André Apóstolo: “Salve, ó cruz, longamente carregada! Salve, ó cruz, com alegria esperada! Acolhe-me sob a sombra do teu braço direito, porque fui discípulo dAquele que penduraram em ti!”

2- Amigos do Crucifixo.
Para nos tornarmos amigo do Crucificado não há caminho melhor do que nos fazermos amigo dos pobres, dos doentes, de todos os que sofrem, de todos os que, de qualquer modo, estão crucificados na alma ou no corpo.
Na Turíngia não havia dor que Santa Isabel da Hungria não suavizasse, não havia necessidade que ela não socorresse, não havia desventura que ela ignorasse. Acorria às choupanas dos doentes, assístia os moribundos, vestia os nus, recolhia e instruía os órfãos. Nas grades do seu palácio, os pobres apinhavam-se cada dia, e nenhum se retirava sem algum consolo.
Uma vez ela deixou entrar nos seus aposentos um doente asqueroso; antes, ela mesma com suas mãos finas e cândidas começou a curar-lhe as chagas, a lavá-las, a beijá-las... Os servos, horrorizados, exclamaram: “Que estais fazendo! Que estais fazendo!...” Porém Isabel, tranqüilíssima, respondeu: “Beijo as chagas de meu Senhor Jesus Cristo: assim elas não mais me farão pavor no dia do juízo. É nesse dia que eu penso, e para ele, como posso. me preparo.
Era verdadeiramente uma rainha sábia, da sabedoria do Evangelho. De fato, o Evangelho diz abertamente o valor e a estima que será dada às boas obras no juízo universal. O grande Rei dirá aos que forem acolhidos à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, a tomar posse do reino que desde o princípio do mundo eu vos tinha preparado. Achaste-me com fome e deste-me de comer; vistes-me nu e me vestistes; encontrastes-me peregrino na estrada e me abrigastes; soubestes-me prisioneiro e me visitastes; e, se estive doente, assististes-me”. E os justos, admirados, perguntar-lhe-ão: “Talvez te enganes, já que nunca achamos famintos, nem te vimos nu, e nem mesmo peregrino pela estrada, e nem também prisioneiro nem doente...”. “Não, não! - responderá o Rei – não me engano: tudo aquilo que fizeste a ao mais pequeno, ao mais esquecido entre os homens, a mim mesmo o fizestes”.
S. João Crisóstomo adverte-nos a não considerarmos como uma perda o bem que fazemos , mas sim como um ganho; nós damos pão, e em troca receberemos o Paraíso; damos uma roupa , e em troca recebermos a veste nupcial para entrarmos no banquete dos céus; concedemos hospedagem sob o nosso teto, e teremos toda a eternidade; perdoamos pouco, e seremos perdoados em muito; enxugamos as lágrimas alheias e seremos alegrados para sempre. Digo-vos que nem mesmo um copo de água pura oferecido por amor de Deus, será perdido! Antes vos digo que no dia do juízo final nós não possuiremos senão aquilo que houvermos dado.

Conclusão.
S. Felipe Benizi, religioso da Ordem dos Servos de Maria Virgem, estava morrendo.
Além da doença, além da dor, havia dias em que o atormentava uma terrível visão. Parecia-lhe já se achar perante o tribunal de Deus, e em torno dele surgiam os demônios a exprobrar-lhe os pecados de sua vida passada, mesmo os mais remotos, mesmo os mais pequenos... ante essa vista, ante essas palavras, o agonizante abria os olhos horrorizado, tremia, e não tinha mais ersperança. “Dai-me o meu livro! Dai-me o meu livro!” gritava ele com voz apavorada.
Dos presentes, alguns correram a tomar um livro, outros outros; mas ele o recusava a todos, sem achar repouso. Finalmente, um percebeu que os olhos do moribundo se haviam fixado num Crucifixo ali ao lado; tomou-o e colocou-lhe entre as mãos gélidas e suadas.
Mal o teve, como um sedento ele o pôs sobre a boca para o beijar ansiosamente: beijou o lenho da cruz, beijou as chagas d’Aquele que a ela estava suspenso. Seus olhos iluminaram-se como ao surgir de uma aurora interior; a sua fronte expandiu-se numa doce serenidade; o seus lábios distenderam-se num dulcíssimo sorriso. E assim la se foi ele ao encontro do juízo de Deus.
Amara a Cruz, amara o Crucifixo com todas as suas forças. Que haveria de temer.


"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 56

56) O Filho de Deus, fazendo-se homem, deixou de ser Deus ?
Não. O Filho de Deus fazendo-se homem não deixou de ser Deus, mas continuando a ser verdadeiro Deus, começou a ser também verdadeiro homem.
O Filho de Deus, fazendo-se homem não deixou de ser Deus. Como Deus, Ele é eterno: sempre foi e sempre será.
No momento da encarnação, a sua Pessoa divina assumiu também a natureza humana, isto é, uniu a si o corpo formado no seio puríssimo de Maria Virgem e a sua alma humana, união essa de estreitíssimos laços que durará eternamente.
Assim Jesus Cristo foi e será para todo e sempre "Deus e Homem verdadeiro".
Vês este lindo quadro? Ele representa a Sagrada Família.
Como homem, Jesus é um menino igual a ti: é um filho obediente a Maria, sua Mãe, e a José, seu Pai putativo. É em tudo igual a nós.
Como Deus, porém, é em tudo igual ao Pai e ao Espírito Santo, com os quais forma conjuntamente a Santíssima Trindade.
Adoremos o Filho de Deus que se fez filho de Maria e nosso irmão, para demonstrar-nos o seu amor e conquistar todo o afeto de nosso coração.
"Esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis" (I Timóteo, 4,10).

2 de dezembro de 2009

Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 4 de 6

1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat: Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.


4- O JUÍZO, PARA OS ELEITOS, SERÁ UMA CONSOLAÇÃO.

Austera é a verdade do juízo universal.
Ainda soam ao nosso ouvido as palavras aterradoras que lemos, domingo passado, no Evangelho; na nossa mente ainda repassam as tristes imagens de um mundo em chamas e de um firmamento desfeito.
Hoje, o Evangelho retorna ao mesmo assunto, porém não mais para nos oprimir de pavor, e sim para nos elevar a uma grande esperança. O sol, a lua, as estrelas darão tristes sinais, e a consternação passará sobre os povos; o mar rugirá, e os homens morrerão de medo na expectação do que sucederá. E virá de lá das nuvens, em poder e em glória, o Filho do homem.
Quando sucederem estas coisas, vós – que sois bons – levantai a fronte, pois está próxima a vossa redenção. Levate capita vestra: quoniam appropinquat redemptio vestra.
Jesus dirige-nos estas boas palavras justamente no I Domingo do Advento. Preparemo-nos para o Santo Natal, que é a recordação da primeira vinda de Jesus ao mundo; preparemo-nos bem, e achar-nos-e- mos contentes na segunda vinda de Jesus ao mundo, para o juízo universal.
O mundo se desfará. Porém nós não seremos do mundo, e olhá-lo-e-mos desmoronar-se, seguros, como se desmoronasse a casa de outro; antes, como se desmoronasse a prisão onde tanto padecemos e choramos. Então levantaremos com alegria a nossa cabeça para os céus, aguardando a redenção; virá trazer-no-la Jesus.
E Ele;
Redimir-nos-á do mundo.
Redimir-nos-á da morte.
Redimir-nos-á da dor.

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1- Redimir-nos-á do mundo.
A Sagrada Escritura diz muitas vezes que Deus fez todas as coisas para os bons.
Contudo, se considerarmos somente a vida presente, os bons estão constrangidos neste mundo, como emigrados numa terra estrangeira, onde são mal vistos pelos habitantes, mal tolerados pelas leis, perseguidos.
De fato, aos justos, o mundo não oferece senão seduções, perseguições, desprezo.

a) O juízo final livra os eleitos das seduções do mundo.
Muitas são as seduções que o mundo põe por obra para arruinar os bons: gravuras, modas, as conversas obscenas nas ruas, nas praças, nos locais de trabalho; os maus exemplos dos escandalosos. E a nossa natureza, já corrompida pelo pecado, nestas ocasiões quotidianas sente-se fraca, e treme. “Oh! Infeliz de mim! - exclamava por isso S. Paulo – quem me livrará deste corpo de morte?” livrar-me-á Jesus Cristo, no dia do juízo, quando aparecer a cruz como estandarte de vitória. Bem-aventurados, então, os que houverem vencido as seduções do mundo.

b) O juízo final livra os eleitos das perseguições do mundo.
Além disto,nesta vida os justos são condenados a viver como os iníquos, são confundidos com eles; são chamados hipócritas mais do que eles; são perseguidos de mil modos. No dia do juízo os bons serão vingados: haverá a separação, e ver-se-ão as perfídias e as injustiças dos maus.
Quando Deus mandou Josué tirar do meio do povo Acan, homem escandaloso, e faze-lo morrer, disse: “Levanta-te, e santifica o povo”. Surge et sanctifica populum. (Jos., VII, 13).
Quando Judas saiu do cenáculo, para executar o seu detestável intento, Jesus sentiu-se aliviado de uma angústia mortal, e exclamou: “Finalmente o Filho do homem é glorificado”. Nunc clarificatus est Filius hominis. (João, XIII, 31).
Esta santificação, esta glorificação será dada aos bons no dia final, quando os anjos separarem os justos dos injustos.

c) O juízo final livra os eleitos do escárnio do mundo.
Enfim , nesta vida as pessoas humildes são escarnecidas; as que suportam as ofensas são vis; as que não se dão aos prazeres são chamadas tolas; e as que se consagram a Deus através da vida religiosa são chamadas loucas. Mas será um momento de brusca admiração quando os mundanos virem essas pessoas num trono de glória.
“Ei-los lá – exclamarão eles com raiva – aqueles que nós considerávamos o refugo do mundo, aqueles que nós ridicularizávamos; agora eles estão na luz e na alegria dos filhos de Deus. Nós os pensamos estúpidos, e os estúpidos éramos nós”. Nos insensati! Vitam illorum aestimabamus insaniam. (Sap., V, 4).

2- Redimir-nos-á da morte.
Soberana única do mundo é a morte. Assalta-nos desde o primeiro dia de vida, e, lentamente como uma lima ou de um golpe como uma lâmina, mata-nos.
É verdade: a nossa alma não desce para sob as pedras frias e a terra fértil do cemitério; sobe ao céu, se está em graça;mas a alma é uma parte de nós, não é todo o nosso ser, e, por isto mesmo, no Paraíso ela ficará sempre incompleta enquanto não tornar a juntar-se ao corpo. Pois bem: no juízo final seremos redimidos da morte. Ressoarão as trombetas para a ressurreição, e onde quer que o nosso corpo esteja, ou em terra ou no mar ou espalhado no vento como leve pó, ressurgirá. Cristo, que morreu para vencer a morte, redimir-nos-á da morte, restituindo aos bons a sua própria carne, tornada luminosa, impassível, bela pela glória do Paraíso.
Aquele corpo que tanto padeceu para resistir ao demônio, é justo que seja premiado. Aqueles olhos que se fecharam com violência diante das vaidades mundanas, dos livros, das figuras perigosas, é justo que tenham de se reabrir para verem toda a glória de Deus. Aqueles ouvidos que se tornaram surdos a certas murmurações, a certas palavras, ímpias contra a fé ou sórdidas contra a virtude, é justo que escutem a harmonia dos anjos e o coro universal dos santos.
Aquela garganta e aquela língua que se haviam proibido o abuso no comer, no beber, no falar, justo é que entoem um cântico eterno e beatíssimo.
E aqueles pobres joelhos que souberam como é duro o pavimento das igrejas, ou a madeira dos bancos, ou os ladrilhos do próprio quarto junto ao leito, porque não hão de ter a sua parte de glória?
Vede então como não devem os bons temer o dia do juízo, mas esperá-lo como o camponês espera a primavera. E acaso não é todo primaveril o prognóstico que o Senhor nos deu para reconhecermos o tempo do juízo final?
Olhai a figueira, antes todas as plantas: quando vedes os gomos umedecer-se de visco, entumescer-se, romper a casca para porem ao sol um olho de tenríssimo verde, dizeis: está próxima a primavera. Pois bem: quando começarem os sinais no sol e nas estrelas, alegrai-vos! Pois está às portas o reino de Deus”.
Como uma árvore que acorda do inverno, nós acordaremos da morte.
Com estes sentimentos morria, queimado vivo, o mártir S. Piônio. Enquanto as chamas, crepitando por debaixo, ascendiam para lhe lamber os membros contraídos no espasmo atroz, enquanto a fogueira o envolvia numa tormentosa bandeira de fogo, ele gritava: “Morro assim por gosto; para que todo o povo saiba que depois da morte há a ressurreição da carne”. Depois a fumaça e o fogo atingiram-lhe a boca, e ele não falou mais.

3- Redimir-nos-á da dor.
A terra é um vale de lágrimas: a miséria, o trabalho, as ilusões, as desgraças, as doenças, a morte. . . Todos sofrem, porém os bons mais do que todos, por haverem recusado as ilícitas consolações do mundo.
Mas assim não será sempre. Quando começarem os sinais do fim do mundo, vós, ó bons, levantai a fronte, porque esta próxima a redenção da dor: e não mais sofrereis. Levate capita vestra: quoniam appropinquat redemptio vestra.
Não mais haverá choro; ou, se chorarmos, será de alegria. Toda tristeza será convertida em gáudio. Toda lágrima será enxugada no rosto.
O Paraíso! Alguma vez já pensastes bem no Paraíso? Imaginai aquela imensa região de toda beleza, dos cantos e das harmonias, de luz, de sorriso, de alegria: e nós lá estaremos. Lá, com o nosso corpo, nós em pessoa, e todos nos amarão; porém, mais do que todos amar-nos-á Deus.
“Ó Senhor! Como é belo estarmos aqui. . .” (Mt, XVII, 4), exclamava S. Pedro no auge da alegria; e, no entanto, não via o Paraíso. No Tabor não havia mais do que uma pálida revelação da infinita beleza do Senhor. Que será, então, no Paraíso, quando virmos todo o Senhor? Quem sabe o que diremos?. . . Não diremos nada: amaremos. O que mais importa é ai chegarmos.
Jônatas, contra a proibição do rei, em tempo de batalha provara um pouco de mel. Agora era condenado à morte. O infeliz lamentava-se no desespero: “Desgraçado que fui1 Saboreei uma gota de mel, e eis que devo morrer. . .” Mais desgraçados nós, se, por saborearmos a venenosa doçura do pecado, devêssemos perder para sempre a doçura eterna do Paraíso.

Conclusão.
Levate capita vestra; quoniam appropinquat redemptio vestra.
Santa Catarina de Sena, ouvindo falar do juízo universal, enquanto todos tremiam ela sorria feliz.
“Por que?”, perguntaram-lhe.
“Porque penso que Aquele que virá julgar-me é esse Jesus a quem tanto amo, por quem sacrifiquei a minha juventude e toda a minha vida”.
Amemos nesta vida Jesus Cristo, e o seu juízo não nos infundirá pavor.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 55

De que maneira se fêz homem o Filho de Deus?
O Filho de Deus fêz-se homem tomando um corpo e uma alma, como nós temos, no seio puríssimo de Maria Virgem por obra do Espírito Santo.
O arcanjo Gabriel veio do Céu à Terra, entrou na pobre casa de Nazaré, onde a Virgem Maria estava rezando e disse-lhe: "Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres (...) Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho e por-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. E reinará (...) e o seu reino não terá fim".
E Maria disse ao anjo: como se fará isso, pois eu não conheço varão?
E respondendo o anjo disse-lhe: o Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. E, por isso mesmo, o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.
Então disse Maria: eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lucas, I, 28-38).
Naquele mesmo instante realizou-se o mistério da Encarnação e Maria tornou-se Mãe do Filho de Deus. Como todos nós temos nossa mãe, assim também Jesus quis ter a sua: tomou um corpo e uma alma como nós temos, no seio puríssimo de Maria Virgem. Sua alma foi criada como a nossa e seu corpo foi formado pelo Espírito Santo.
"E o verbo se fêz carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória; glória como de Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (João, 1,15).

1 de dezembro de 2009

Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 3 de 6

1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat: Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.


3- NO DIA DO JUIZO OS PAPÉIS SERÃO INVERTIDOS

Longe da sua pátria, sozinho numa triste gruta, entre as mais ásperas penitências do estudo, S. Jerônimo chorava o tempo passado nas dissipações. Parecia-lhe haver ofendido por demais o Senhor, e que todas as asperezas que ele infligia ao seu corpo não bastavam para aplacar a ira de Deus. Tinha medo do juízo que o Senhor devia fazer da sua alma. E, de noite, quando ouvia o silvo do vento, parecia-lhe ouvir o som das trombetas angélicas que chamavam os mortos ao vale de Josafat para a sentença final: então pulava do seu duro catre, prostava-se de joelhos, e, batendo-se com os seixos da espelunca, invocava a misericórdia de Deus.
E era um santo.
Que devemos então dizer nós, que tantos pecados temos cometido? Que será, ó cristãos, da nossa alma quando nos acharmos perante o tribunal de Deus?
Confessemo-lo com coração sincero: pensamos pouquíssimo nestas verdades. Elas nos parecem coisas tão longínquas, que quase se perdem e se diluem na imensidade do tempo, como se nunca devessem suceder. Às vezes temos a ilusão de que aos outros sim, porém a nós elas nunca sucederão.
E, no entanto, aquele dia virá.
No dia de hoje Jesus fala-nos muito claro. Depois de sinais grandiosos e espantosos que se desenvolverão no céu e sobre a terra, Ele chegará fulgurante de poder e de majestade. E os papéis serão invertidos.
Então chorarão os que gozaram; ao contrário, os que na vida sofreram, os que semearam de lágrimas o seu caminho, estes serão cumulados de gláudio imenso.
O pensamento do que acontecerá nesse último dia sirva também a nós, como serviu aos Santos, para nos fazer passar bem o tempo da vida que ora vivemos.

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1- Chorarão os que gozaram.
Quando, na guerra européia, os bolchevistas entraram na cidade de Sebastopol, enviaram à morte muitas pessoas sem sequer um processo. Levavam os condenados para sobre os escolhos, atavam-lhes aos pés grandes pedras, e depois os precipitavam no mar.
Assim foi justiçado um almirante. Mas, depois que ele foi lançado ao mar, eles se lembraram de que ele trazia consigo documentos importantes. Foi dada ordem a um mergulhador para pescar o cadáver. De fato, ele desceu à água; porém, mal tocara o fundo do mar, deu o sinal para ser içado.
Foi retirado louco de terror,pronunciando frases desconexas. Curado após alguns dias, narrou que, chegando ao fundo do mar, se achara perante uma espantosa assembléia: todos os mortos lá estavam eretos, e pareciam vir-lhe ao encontro para o ameaçarem com atroz vingança.
Era esse um fenômeno natural que, no momento, o mergulhador não soube explicar. Os cadáveres que já desde alguns dias estavam nas águas, tornados leves pela decomposição, tendiam a subir ao alto, mas não o podiam, por estarem firmados, nos pés, pelas pedras a que estavam amarrados.
Se a vista de alguns cadáveres que bamboleavam sob o impulso das correntes marinhas fez enlouquecer de espanto um homem já habituado ao risco, pensai no que será quando todos os pecados se apresentarem à mente em toda a sua fealdade, e envolverem a alma para esmagá-la e oprimi-lá sob o seu peso! Coisa bem diversa dos cadáveres vistos pelo mergulhador! Aqueles furtos, aquelas desonestidades, aquele ódio, aquele escândalo que em vida eram objeto de regozijo, tornar-se-ão motivo de horror, de angústia, de pranto.
Chorarão os que gozaram.
O escafandrista de Sebastopol pôde dar o sinal, e assim tiraram-no das águas; mas diante do tribunal de Deus não haverá nenhum meio de salvação. As trombetas angélicas já terão assinalado o término de toda misericórdia.
Ó cristãos, se aqueles que gozam a vida no meio de pecados devem esperar por um tal fim, não vale a pena invejá-los.
Ó cristãos, vale realmente a pena invejar os que gozam a vida no meio dos pecados?

2- Gozarão os que choraram.
Suponde que um filho, saído de casa para ir á guerra, seja feito prisioneiro em terra longínqua, estrangeira. Os seus, especialmente sua mãe, nada mais souberam dele. Morto? Desaparecido? Ninguém pode dizer coisa alguma.
Termina a guerra, e ele quer voltar para casa, mas não pode: é-lhe absolutamente proibido. Quereria ao menos escrever algumas linhas, dizer aos seus que está bem, que venham buscá-lo, que lhe façam saber se sua mãe ainda está neste mundo: mas não lho permitem.
Ora, suponde que, um dia, esse soldado possa fugir, e, depois de viagens e esforços e fadigas sem número, uma noite ele chegue finalmente à sua aldeia e, empurrando cautelosamente a porta da sua casinha rústica, ao frouxo clarão da candeia, ele veja o rosto de sua mãe; dizei-me, poderíeis imaginar o delírio de alegria que se teria naquela casa e naquela aldeia?
Contudo, é esta uma imagem pálida daquilo que sucederá para os bons no dia do juízo universal. Na vida, nós somos soldados que combatem para conquistar a pátria celeste. Neste vale de exílio, quanto trabalho, quantos esforços, quantas lutas para vencermos, para nos mantermos livres! Mal vencemos uma prova, outra mais dura começa. Parece-nos já possuirmos o Paraíso, e eis que a tentação, uma borrasca ameaça arrebatar-no-lo. A vida é sempre assim. Mas no dia do juízo tudo estará findo; a dor não passará de uma doce recordação. Começará a festa perene.
Se vivêssemos os nossos dias sob a luz que vem desse dia, como carregaríamos de bom grado a nossa cruz! Os Santos compreendiam muito bem estas coisas.
S. Pedro Mártir, exorcista da Igreja de Roma nos primeiros tempos do cristianismo, quando foi lançado em prisão pela fé, disse ao carcereiro estar pronto, em nome de Cristo, a livrar a filha dele do demônio de que estava possessa havia vários anos. Surpreso ante tal proposta, o carcereiro perguntou-lhe por que não se servia da onipotência do nome de Jesus para se livrar a si mesmo da prisão.
E ele: “Conheço muito bem as vantagens dos meus grilhões, e por motivo algum quereria libertar-me”.
Se pudermos levar um pouco de conforto a nossos irmãos, faça-mo-lo sempre de bom grado; porém, ao contrário, as nossas cruzes, apreciemo-las como elas merecem, e, antes de pedirmos ao Senhor que no-las tire, peçamos-lhe, nos dê força para carregá-las com resignação e amor. Tanto mais gozaremos quanto mais houvermos trabalhado, sofrido, chorado por amor de Deus.

Conclusão.
Um rei idólatra, da Bulgária, deu ordem a S. Metódio para pintar no seu palácio a coisa mais terrível e espantosa que ele soube-se. O bom religioso, recomendando-se a Deus para que o seu trabalho resultasse bem frutuoso para a alma do rei, pôs-se a pintar o juízo universal. Completada a obra, avisou o rei que se dignasse de ir vê-la. Este, avistando a terrível majestade de Deus no ato de amaldiçoar os condenados, foi presa de grande temor, e perguntou o que era que significava aquele espetáculo espantoso. Então o santo explicou-lhe com tanta ousadia, que, cedendo à graça divina, quis o rei idólatra receber o Batismo. Depois do que, quase todos, no seu reino, abraçaram a fé cristã.
Não um santo, porém o próprio Jesus Cristo fala a nós, no dia de hoje, sobre o juízo universal. De nos convertermos da idolatria, talvez não tenhamos necessidade; mas há que avivar a fé na vida futura. Há que pedir ao Senhor que nos faça desprezar as alegrias do mundo, e amar as nossas cruzes, que nos fazem ganhar as alegrias do céu.