21 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

AMOR IMENSO DE JESUS

D. — Padre, estou cada vez mais satisfeito com suas explicações. Faça o favor de explicar-me o seguinte:
Jesus Cristo é Deus e por isso, na sua onisciência, previra todos estes abusos e sacrilégios cometidos por seus filhos através dos séculos. Por que então mesmo assim, instituiu a Eucaristia?
M. — Ah! Meu amigo! Jesus Cristo é Deus e previu também a ingratidão dos homens, por Ele remidos, a traição de Judas, o ódio dos fariseus, a vileza de Pilatos, sua paixão e morte horrorosas.
Apesar disso submeteu-se a todas estas provas somente visando àqueles que aproveitariam os frutos de sua redenção.
Deus também previu que o pão causaria indigestão a muitos, e que muitos ficariam embriagados com vinho; não obstante, Ele criou o pão e criou o vinho. Assim também Ele previra todos os sacrilégios na Comunhão, contudo instituiu-a igualmente, com o único fim de proporcionar a todos um penhor eterno de seu imenso amor; para ser o alimento e a força de nossas almas débeis, o remédio para nossas enfermidades espirituais. Sobretudo Ele instituiu a Eucaristia para nos facilitar o caminho para o céu.
D. — Logo, Jesus Cristo instituindo a Eucaristia preferiu o próprio desprezo antes que privar-nos de tão grande benefício?
M. — Precisamente. Jesus Cristo é semelhante a uma carinhosa mãe. Você nunca pensou como é que se formou na terra o amor materno? As mães já sabem por experiência comum quanto irão padecer antes e depois do nascimento dos filhinhos; preveem e conhecem que eles serão ingratos, revoltosos, desobedientes; cientes de que terão amargas desilusões em troca de tantos sacrifícios, têm diante dos olhos o exemplo de tantas mães, suas companheiras, amigas e até parentes; contudo, resignadas e decididas exclamam: que iremos fazer? Faça-se a vontade de Deus.

Enquanto averiguam a realidade do que haviam previsto, e as humilhações, as ingratidões e os desprezos vêm bater-lhes à porta, elas não se arrependem, não maldizem sua própria sorte e os próprios filhinhos. Antes, pacientemente suportam e toleram as suas diabruras, sempre prontas a dar a própria vida por amor dos filhos. Sentem-se mais felizes e gozam muito mais com um beijo de um filho carinhoso, do que sofrem com as má-criações e ingratidões de todos os outros filhos.
D. — Isso é verdade. Dia a dia se pode verificar o que o senhor diz, em todas as mães.
M. — Então, se o amor materno, que é um amor humano, possui tais prerrogativas, que diremos do amor divino?
D. — Está bem, Padre. Porém, Jesus Cristo, quando instituiu a Eucaristia para alimento das almas, deveria tê-la deixado unicamente como prêmio para os bons cristãos.
M. — Pois Ele fez isso mesmo. Deixou a Eucaristia como alimento e prêmio para os bons; Jesus, porém, não excluiu os maus, nem os afasta, somente os condenou.
D. — Então, por quê é que os maus comungam sacrilegamente?
M. — Porque são perversos e dominados por inominável malícia. Se Jesus Cristo os tolera é porque sua misericórdia é infinita. Jesus veio ao mundo para salvar todos os homens embora pecadores, aos quais tem um amor especial não como pecadores, mas sim para que se convertam e possam salvar-se. Por esta razão suporta-os por muito tempo, dirigindo-lhes continuamente aquele misericordioso convite: Vinde a mim todos. Vinde a mim todos vós, fatigados e oprimidos sob o peso de vossos pecados e Eu vos aliviarei. Em suma, permite que vivam pecaminosamente, esperançoso de que um dia se convertam e voltem à casa paterna. Você conhece a parábola do joio no meio do trigo?
Na Última Ceia Jesus institui a Eucaristia
* * *
Um grande fazendeiro comprou boas sementes e mandou os servos semeá-las em seu campo. Os servos executaram a ordem. Mas, quando as sementes nasceram, notaram com grande surpresa que juntamente com o trigo havia nascido também o joio. Imediatamente foram avisar ao patrão, dizendo-lhe:
— Se o senhor quiser, iremos imediatamente arrancar aquela em daninha.

— Absolutamente não — respondeu o patrão — a fim de que não aconteça que juntamente com o joio arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita, e então separaremos o trigo para os celeiros e o joio atirá-lo-e-mos ao fogo.
Veja aqui, meu querido discípulo, o conselho sapientíssimo de Deus: Esperar, ter paciência, e no tempo da colheita, isto é, na hora da morte, o trigo, os bons e os justos irão para o céu; os maus, o joio, serão lançados no fogo eterno.
A mesmíssima coisa acontece na Comunhão: os que a recebem dignamente irão para o Céu, pois a comunhão é um penhor de vida eterna: pelo contrário os sacrílegos, por si mesmos, já estão condenados ao inferno.
D. — Que adianta então, comungar mal? Que proveito os maus tiram disso?
M. — O mesmo proveito que auferem os criminosos com seus delitos e traições contra a Pátria e a família. Eles cometem tão bárbaros crimes levados unicamente por ódio, má vontade ou ganância, e pelos mesmos motivos é que os sacrílegos comungam.
São os piores criminosos, pobres desgraçados pelos quais devemos rezar.
D. — Hei de rezar muito por eles, pois que aprendi que rezar pelos pecadores é um dever de caridade. Agora passemos a outra questão.

20 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

SERÁ NECESSÁRIO POR UM FREIO?

D. — Se tantos são os abusos, não seria conveniente por um freio à comunhão frequente?
M. — Que está dizendo? Pôr freio quando apenas se começou a caminhar? Fazendo assim, voltaríamos ao impiedoso e cruel Jansenismo. E ainda mais, chegaria a tal ponto a indiferença religiosa que em breve, como sequela inevitável, seria deixado no esquecimento o augusto e prodigioso sacramento, único sustentáculo do mundo.
D. — Então nada de freios?
M. — Nada, nem sequer devemos pensar em diminuir minimamente a frequência à comunhão; o que é preciso é por freio ao pecado que é causa de tais abusos; acabar com as más companhias, os costumes depravados, as ocasiões perigosas, os caprichos e o egoísmo. E não pôr freio à comunhão cotidiana bem feita, meio seguro para chegarmos ao céu.
D. — E, diante de tão poucas comunhões bem feitas, em comparação com tantos e tantos sacrilégios, o senhor continua pensando o mesmo?
M. — Também neste ponto você está enganado.
É verdade que muitos comungam sacrilegamente, há, porém, um número muito maior de pessoas que comungam bem. Esse número supera imensamente aos sacrílegos, pois se assim não fosse de há muito o mundo já teria acabado.
* * *
Uma basílica de Roma ostenta em sua cúpula dois célebres quadros de Leonardo da Vinci representando o começo e o fim do mundo. O segundo quadro tem por fundo um altar suntuoso onde um padre celebra a última missa; ao redor um grande número de fiéis preparam-se devotamente para receber a Santa Comunhão, enquanto que ao alto se vê uma multidão de anjos que esperam o fim da missa para anunciar com suas trombetas de ouro o advento do dia terrível da Justiça Divina. Nesse quadro o autor quis demonstrar que ele estava convencido de que sem a Santa Missa e sem a Santa Comunhão o mundo já estaria submergido no abismo aberto pelos seus mesmos crimes.
Vê-se uma multidão de Anjos que esperam o fim da Missa para anunciar o advento do dia terrível da Justiça Divina.
D. — E com isso, Padre?
M. — Com isso, devemos concluir que é preciso fomentar cada vez mais a prática da Comunhão frequente bem feita, fazendo ao mesmo tempo guerra às comunhões sacrílegas.
D. — Será verdade que Deus aniquilará o mundo ou enviará tremendos castigos em vista de tantos sacrilégios?
M. — Não leu ou ouviu contar aquele episódio da Bíblia no qual se fala da oração do patriarca Abraão?
D. — Sim, já ouvi contar, todavia não o recordo bem. Queira contá-lo.
M. — Lê-se no Antigo Testamento que um dia Deus apareceu ao patriarca Abraão e lhe disse:
— Abraão, estou farto com os inumeráveis pecados cometidos pelo meu povo, e por isso vou exterminá-lo com uma chuva de fogo.
— Senhor, exclamou Abraão, será que não o perdoarias se entre eles houvesse cem justos?
— Sim, em vista dos cem justos haveria de perdoá-lo.
— E se ouve-se somente cinquenta?
— Assim mesmo haveria de perdoá-lo.
— E se houvesse vinte e cinco?
— Mesmo que fossem só vinte e cinco, não os exterminaria.
Abraão, confiado na misericórdia divina, continuou:
— Senhor, perdoarias a teu povo ainda que houvesse só dez justos?
Respondeu o Senhor: — Infinita é minha misericórdia. Em atenção a esses dez pouparia todo o meu povo.
Satisfeito, Abraão saiu à procura dos dez justos; não conseguiu, porém encontrá-los e Deus destruiu com uma chuva de fogo e enxofre as cidades de Sodoma e Gomorra.
D. — Como se mostrou bondoso Nosso Senhor!
M. — Deus é bom também agora. Ele não muda. É sempre o mesmo, e hoje como outrora sente delícias em perdoar os pecados dos homens. Embora os sacrílegos sejam como espinhos agudos a pungir-lhe as pupilas ou como espadas que lhe transpassam o coração, todavia Ele se cala e perdoa sempre, em vista do consolo e alegria que recebe dos que comungam bem. E, como as comunhões bem feitas superam em número as más, Ele permite estas últimas.

19 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

CASTIGOS TERRÍVEIS

É assustador o caso de um desgraçado que se gloriava publicamente de ser ateu e de não gostar de Padres, nem de Igreja e muito menos dos sacramentos.
Quando lhe notavam que assim não agia bem, pretendiam convencê-lo de seus desatinos e vãs palavras, mostrando-lhe o perigo a que se expunha de uma morte má, ele respondia:
— Na hora da morte, entender-me-ei sozinho com Deus, e no que se refere honra de minha família, não me faltará tempo para simular que comungo convencido e bem preparado.
Pobre infeliz! Sobreveio-lhe uma doença mortal e advertiram-lhe que seria conveniente chamar o Padre. Ele respondeu: — Eu sempre estou bem com Deus; ao confessor não tenho nada para dizer; só quero que me tragam a comunhão. — Com muito pesar levaram-lhe a comunhão a pedido dos parentes, na secreta esperança que talvez com isso entrasse em si. Recebeu-a como a pode receber um incrédulo: sem fervor, sem devoção, sem respeito, com a maior indiferença possível. Mas, que sucedeu? Apenas recebida a Santa Comunhão, estremeceu, começou a agitar-se em horríveis convulsões e pôs-se a gritar: Estou me queimando, estou me queimando, estou ardendo! — E assim entre gritos horríveis, morreu desesperado, deixando nos presentes uma segura impressão de um merecido castigo.
E entre gritos horríveis, morreu desesperado...
* * *

Muito pior sorte teve este outro indivíduo do mesmo lugar. Esse não era irreligioso, pois lhe era conveniente proceder de outra forma; era muito amigo dos padres, frequentava a igreja e recebia os sacramentos. Mas ao mesmo tempo vivia com maus companheiros e era assíduo frequentador de casas de perdição, sem preocupar-se com sua consciência nem com o bom exemplo. Acendia duas velas, como dizemos nós; amigo, tanto de Deus como do demônio. Estando para morrer, pois a morte não respeita ninguém, chamou em tempo o Padre, confessou-se e pediu o Viático; porém, minutos antes de recebê-lo seus olhos incharam-se tanto até desaparecerem nas órbitas. A boca alargou-se horrivelmente e de tal forma cerraram-se-lhe os dentes que não foi possível, fazer passar nem sequer uma particulazinha da Hóstia.
Jesus Cristo, infinitamente bom, não quis mais entrar naquele corpo, réu de tantos sacrilégios.
Os fiéis que haviam acompanhado o Santíssimo Sacramento comentavam o fato que lhes serviu de proveitosa lição.
Estes dois casos, por demais assustadores, mas destinados a fazer grande bem, não são mais do que a fiel realização daquelas palavras da Sagrada Escritura: ''Deus non irridetur" — “Com Deus não se brinca’. — Maiores ainda seriam os castigos se estes sacrilégios (que Deus tal não permita) fossem cometidos por pessoas religiosas ou ministros de Deus.
* * *
Conta a História, que certo rei do antigo país da Etiópia havia confiado a educação do seu único filho a um dos generais do seu exército. Aquele general, com a maior indignidade possível, abusando da confiança que o rei depositara nele, resolveu envenenar lentamente o filho real e assim usurpar a dignidade suprema, após a morte do velho monarca.
Certificando-se o rei de tão sinistros e cruéis planos, tomado de justa cólera, mandou atá-lo na praça principal da cidade e presente todo o exército, com os arcos retesados, desmascarou-o com estas palavras: — Miserável! Assim desejavas corresponder aos meus desejos e à confiança que depositava em ti? Recebe, pois o castigo que mereces.
E fazendo um aceno, centenas e milhares de flechas envenenadas transpassaram o peito e o coração daquele general cruel e traidor. Pois bem, esta terrível cena repetir-se-á eternamente no inferno, contra os sacrílegos que tenham correspondido mal aos favores de Deus, às graças da Santa Comunhão; para esses a sorte será ainda pior. Já conhece a história do cortiço de abelhas?
D. — Não, conte-a, Padre.
M. — Um fulano, certo dia, passeando pelo campo, topou com um monte de terra na forma de um guarda-chuva todo esburacado donde saía um leve e airoso sussurro. Levado pela curiosidade, deteve-se e com a ponta da bengala remexeu os buracos. Coitado, nunca tivesse feito isso.
Era um enorme cortiço. Os insetos, irritados, aos milhares, formando uma negra e ululante nuvem, atacaram o pobre curioso. O infeliz procurou defender-se debatendo-se por todos os lados; porém, com isso mais ainda irritava as abelhas, que enfezadas faziam penetrar seus ferrões naquele desventurado. E tanto o picaram, que afinal, ele com o rosto e a cabeça inflamados caiu desfalecido e morreu entre terríveis convulsões.
Assim também os sacrilégios com tanta frequência cometidos por centenas e milhares de vezes, serão no inferno, como vespas que atormentarão sem cessar a todos os sacrílegos, não excluindo os religiosos e sacerdotes que, abusando da própria vocação e ministérios, se tenham tornado réus de sacrilégios no mistério de amor. Com a diferença, porém, de que essas abelhas infernais nunca desaparecerão e nem causarão a morte a esses infelizes, mas somente lhes serão causas de tortura constante.

... Os sacrilégios serão no inferno, como vespas que atormentarão sem cessar a todos os sacrílegos...
D.—Meu Deus, que castigos terríveis! Porém, Padre, eu acho que ao menos entre religiosos e sacerdotes sejam poucos esses desgraçados.
M. — Confiemos que sejam poucos, porque Deus os protege e guarda e Jesus Cristo defende-os como a pupila de seus olhos; todavia não será difícil uma surpresa desagradável.

18 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

NOVOS JUDAS

Em meados do século XVIII, uma religiosa da Visitação, em Turim, teve uma visão tremenda e por demais impressionante. Enquanto estava em oração fervorosa diante de Jesus Sacramentado, apareceu-lhe a Sagrada Hóstia gotejando sangue fresco.
A visão repentinamente desapareceu, e a irmã, como por encanto, se encontrou no átrio das duas igrejas situadas no começo da praça S. Carlos, e ali começou a ouvir uma algazarra de vozes dissonantes, blasfêmias e gritos que vinham das ruas laterais... O barulho ia aumentando cada vez mais, por fim uma enorme multidão invade a praça.

Aí representam uma comédia asquerosíssima e logo após saem precipitadamente pelas ruas da direita em direção ao rio Pó; imediatamente uma grande enxurrada de sangue inunda toda a praça e depois escorre pelas mesmas ruas até perder-se no rio, juntamente com aquela gentalha horrível, verdadeiros demônios.
A irmã, horrorizada, volta-se para Nosso Senhor e exclama: "Ó Jesus, salvai-nos!" E Jesus responde-lhe: "Não tenhas medo, pois a enxurrada já passou. Fique sabendo, porém, que todos esses são os profanadores do meu Sangue Eucarístico. São todos os que nesta cidade eucarística, calcam aos pés a Sagrada Eucaristia, comungando sacrilegamente. São novos Judas que se sucedem através dos séculos. Vai e conte a todos o que lhe mostrei".
A religiosa cumpriu o encargo. A narração desse fato impressionou grandemente, fazendo muito bem.
D. — Estou trêmulo de medo, Padre, mas... será que isso é verdade?
M. — Fato autêntico! Existem documentos Comprobatórios nos arquivos da Igreja e na Cúria de Turim.
D. — Será possível que existam tantos Judas?
M. — Mais do que certo, e como já disse, em todas as classes sociais.
D. — E por que Jesus Cristo, sendo Deus não previu estes abusos?
M. — Sim, Ele previu, mas instituiu a Comunhão e o Sacerdócio, pois sabia também que muitos comungariam digna e santamente, prestando-lhe grande honra e grande amor, e sabia também que sem a comunhão muitos cristãos não conseguiriam manter-se fiéis e constantes na fé.
D. — Então Jesus Cristo, ao instituir a Santíssima Eucaristia, preferiu nosso proveito, à custa de ser desprezado?
M. — Realmente preferiu nosso proveito à custa de ser desprezado. Jesus é sempre Jesus, infinita bondade e misericórdia. Faz como a mãe que se deixa arranhar pelo filhinho e depois quase o come com tantos beijos; ou como aquela outra que, apesar de ser ameaçada e desprezada pelo filho, contudo continua amá-lo e atendê-lo em tudo. Jesus é sempre o Divino Mestre, amante, paciente, resignado, indulgente.
D. — Mesmo assim, acho que Jesus não deveria permitir tantos sacrilégios.
M. — Sua opinião e juízo são demasiado curtos e terrenos; o de Jesus é muito diverso. Mais alegria e felicidade experimenta Ele quando uma alma comunga bem, do que a amargura que lhe podem causar todos os sacrilégios de todos os tempos. É como o sol, que embora reverbere seus raios sobre todas as imundícies da terra, não obstante a enche de luz, vida e calor. É como aquela mãe que se sente feliz e contente com os carinhos de um bom filho, que triste com os desgostos que lhe dão os maus.
D. — Oh! Jesus tão bondoso e tão mal correspondido.
M. — Sim, infinitamente bondoso é Jesus. Por isso é que tantos abusam de sua bondade. Porém, ai dos ingratos e dos traidores!
D. — Serão terríveis os seus castigos?
M. — Terribilíssimos, mas bem merecidos. Não haverá desculpas para eles; as palavras de Jesus Cristo são eternas e infalíveis: "Quem come indignamente a minha carne, come sua mesma condenação".
D. — Logo, ai dos sacrílegos!
M. — Em verdade são bem infelizes, como veremos no capítulo seguinte.

17 de maio de 2015

Sermão para o 5º Domingo depois da Páscoa – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A oração pública da Igreja e a oração privada


Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito santo. Amém.
Ave Maria…
“Em verdade, em verdade vos digo que, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará.”
Nosso Senhor nos fala hoje, no Evangelho, da oração e da necessidade dela para podermos alcançar as graças de que precisamos, para podermos ser, como nos diz São Thiago na Epístola, realizadores da Palavra de Deus, para podermos praticar a religião pura e sem mácula.
 De modo geral, podemos afirmar que existem dois tipos de oração. A oração litúrgica, ou oração pública da Igreja, e a oração privada ou particular. A oração litúrgica ou oração pública da Igreja é a oração oficial da Igreja, é a oração em que intervém todo o corpo místico de Cristo com a sua divina Cabeça, isto é, com Jesus Cristo como chefe. Ela é realizada pelo ministro da Igreja, constituído para isso. Essa oração litúrgica será considerada pública ainda que o sacerdote a realize sozinho, pois ele o faz enquanto ministro da Igreja e representando os seus membros. A oração privada é aquela que faz o simples fiel, ainda que seja na Igreja e acompanhando de outras pessoas, e também a oração que faz o sacerdote quando reza em nome próprio ou quando faz suas devoções particulares.
Na oração pública da Igreja, se destaca, em primeiro lugar, o Santo Sacrifício da Missa, que Jesus realiza sobre os nossos altares por meio dos padres. Destacam-se, também, os outros sacramentos, que operam a nossa redenção. Merece particular destaque também a recitação do Breviário pelos sacerdotes e religiosos. Como já tivemos oportunidade de mencionar, no Breviário se recitam os 150 salmos na semana, além de inúmeras outras orações em honra de Deus e dos santos. Tradicionalmente, inclusive, o sacerdote tem a obrigação de rezar quotidianamente o Breviário, mas não a Missa, embora todo padre consciente de seus deveres deva celebrar quotidianamente a Missa.
 Objetivamente, nenhuma outra oração tem a força e a eficácia santificadora da oração litúrgica. Para julgar o valor objetivo de uma coisa devemos considerar o quanto de glória ela dá a Deus, já que Deus criou todas as coisas para a sua glória, para manifestar as suas perfeições, para ser mais conhecido, amado e servido. Assim, quanto mais uma coisa manifestar a glória de Deus, quanto mais uma coisa fizer Deus conhecido, amado e servido, melhor ela será. E esse é o único critério realmente verdadeiro para se julgar a bondade de uma coisa: o quanto de glória ela dá a Deus.
A partir desse critério podemos afirmar que a oração litúrgica, a oração pública da Igreja é a mais agradável a Deus, a mais perfeita, a mais eficaz. Primeiro, porque é a Igreja que reza, Igreja que é santa, que é a Esposa Imaculada Cristo. Segundo, pela excelência das próprias fórmulas litúrgicas, formadas ao longo dos séculos sob a guia do Espírito Santo, compondo um verdadeiro tesouro de espiritualidade e de doutrina. Terceiro, porque a oração da Igreja sobe sempre a Deus Pai por meio de Jesus Cristo, ainda que implicitamente. E finalmente, mas não menos importante, é o próprio Cristo que reza na oração litúrgica, na oração pública da Igreja, já que a Igreja é o corpo místico de Cristo. Assim, a pessoa que reza é a mais perfeita e as orações são as mais perfeitas. Está claro, então, que a oração litúrgica agrada imensamente a Deus e que ela é extremamente eficaz.
Todavia, para que ela seja eficaz para nós, devemos participar da liturgia em verdadeira união com Nosso Senhor Jesus Cristo e em união com toda a Igreja militante (nós aqui na terra), triunfante (anjos e santos no céu) e padecente (almas do purgatório). Devemos participar dignamente, com atenção e devoção. E devemos nos preparar bem para a liturgia da Igreja, em particular para a Santa Missa, buscando o arrependimento de nossos pecados, fazendo atos de fé, de esperança e de caridade. Para isso, convém chegar um pouco antes à Igreja, para se preparar devidamente. A verdadeira participação ativa na liturgia não é uma participação meramente física, de falar, de gesticular, de balançar folheto. A verdadeira participação na liturgia é unir-se a ela procurando ter as mesmas disposições de Jesus Cristo. Assim, na Missa, a participação mais profunda é aquela em que a pessoa se une realmente ao sacrifício de Cristo renovado pelo sacerdote, para oferecê-lo à Santíssima Trindade em união com a sua própria vida. Junto com o sacrifício de Cristo, devemos oferecer o sacrifício da nossa própria vida, entregando-a inteiramente a Ele, com todas as nossas alegrias e consolos, com todas as nossas angústias e cruzes. A participação verdadeiramente ativa na Missa é uma participação espiritual. E mesmo os pais que devem cuidar dos filhos durante a Missa e que aparentemente não conseguem se concentrar tanto nela, podem ter uma participação frutuosa, oferecendo a Deus, justamente, esses cuidados, unidos ao sacrifício de Cristo.
A liturgia da Igreja é a fonte de onde corre a água viva que alimenta a nossa vida espiritual. Se a água não é perfeitamente límpida, haverá prejuízo para a vida espiritual dos homens. Daí a importância de uma liturgia límpida, na espiritualidade e na doutrina. E se a fonte é límpida, mas não vamos até ela ou vamos até ela com um recipiente muito pequeno, também não avançaremos no amor a Deus. Devemos, então, amar a liturgia católica e devemos nos dispor bem – do modo que já mencionamos – para receber bem as graças abundantes que ela nos proporciona.  Mesmo a nossa vida de oração particular deve encontrar a sua raiz, a sua fonte, na liturgia da Igreja. Se não encontrar na liturgia a sua fonte, nossa vida de oração tende a secar rapidamente. Isto é, se não nos unimos bem à liturgia da Igreja, é toda a nossa vida espiritual que começará a desmoronar.
Dada a excelência da oração litúrgica, alguns poderiam ser tentados a menosprezar a importância da oração privada. Seria um erro grave. Não existe oposição entre oração litúrgica e oração privada, mas necessária complementaridade. As duas procedem de Deus. Não pode haver, portanto, oposição. Elas devem andar lado a lado, a fim de influenciarem-se mutuamente e aumentar o grau de eficácia que cada uma delas tem. Como vimos, a oração litúrgica alimenta a nossa oração individual e a oração privada nos dispõe bem para a oração litúrgica. Muitas vezes recebemos com certa frequência os sacramentos, recebemos com frequência a eucaristia e a confissão, mas não avançamos como era de se esperar no amor a Deus. Por que não avançamos? Porque muitas vezes nos falta a oração individual que nos dispõe melhor para as graças dos sacramentos e nos falta a oração individual para prolongar os frutos do sacramento, por exemplo, com a devida ação de graças após a Santa Missa. Muitas vezes, a família vem junta para a Missa, mas não reza unida em casa, impedindo também frutos mais abundantes. Rezem em família. De quase nada adiantará a liturgia, se não fazemos nossas orações individuais. Não nos deixemos esmagar pelas atividades do dia-a-dia, por mais importantes que sejam.
 E essas orações privadas, ainda que ditas na maior solidão, são úteis não só para a alma que as reza, mas são úteis para todo a Igreja, em virtude da comunhão dos santos.
Portanto, caros católicos, devemos rezar e rezar muito, unindo a oração da Igreja às nossas orações individuais, deixando que elas se complementem e aumentem a eficácia uma da outra. Como tão bem nos diz Santo Afonso: quem reza se salva, quem não reza se condena.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

NECESSIDADE DA VESTE NUPCIAL

D. — Padre, tenha a bondade de explicar-me a parábola dos convidados às núpcias, e o que sucedeu ao que não tinha a veste nupcial.
M. — Com muito gosto. Preste, pois atenção.
* * *
Narra o Santo Evangelho que um rei quis, com a maior pompa possível, celebrar o casamento de seu filho. Preparou um grande banquete e convidou todos os parentes e amigos.
Muitos, porém se recusaram em atender ao convite de tão bondoso rei. Vendo isto, o rei disse aos seus criados que fossem às praças e ruas da cidade e convidassem a todos que encontrassem.
Quando a sala ficou repleta e os lugares todos ocupados, entrou o rei para passar em revista os convidados. Encontrou um que não tinha a veste nupcial, e lhe disse: "Amigo, como entraste aqui não tendo a veste nupcial?" E sem mais detença ordenou aos criados: "Tirai-o daqui, e atado de mãos e pés lançai-o no calabouço".
Amigo, como entraste aqui não tendo a veste nupcial.
D. — Padre, que significa esta veste nupcial da qual não estava revestido aquele infeliz e por isso foi metido no cárcere, sendo ele pobre?
M. — Este banquete representa a Eucaristia, ou seja, a Sagrada Comunhão. O rei que faz festa por motivo das núpcias de seu filho é o Padre Eterno; o filho é Jesus Cristo que se desposa com a natureza humana. Os convidados são todos os homens da terra.
Esta parábola significa que Deus criou todos os homens para o paraíso; e por isso, os convida a todos a alcançá-lo pela senda da fé, da caridade, da penitência e dos sacramentos; porém, dentre estes convidados, muitos não querem crer: são os ateus; outros apresentam desculpas: são os pecadores que adiam a própria conversão; finalmente alguns vão ao banquete, porém sem a veste nupcial: são os sacrílegos, representados naquele infeliz que foi expulso do banquete, atado e metido em um calabouço.
D. — Então, porque o obrigaram a vir ao banquete?
M. — Ele sabendo que era indigno, devia opor-se, apresentar pretextos, ou pedir desculpas antes de entrar.
O fato é bem claro: todo aquele que vai comungar com pecado mortal na alma se encontra nas mesmas condições daquele infeliz e, portanto em perigo de ser condenado.
Ademais, Deus mesmo o disse pela boca do grande apóstolo São Paulo: “Aquele que come a minha carne indignamente, come a sua mesma condenação e a si mesmo se julga”.
Lê-se em um capítulo do Sagrado Livro dos Números que, quando o marido, por uma suspeita fundada, duvidasse da fidelidade de sua mulher, tinha o direito, conforme a lei de Moisés, de apresentá-la ao Sacerdote. Este, para dissipar a dúvida, tomava um pouco de pó do chão do templo e misturando-o com água dava-o à mulher para beber. Se ela era culpada, caía imediatamente morta, como corroída por um terrível veneno; mas se era inocente, nada lhe sucedia e voltava para casa, no meio do contentamento e alegria de seus parentes.

O mesmo sucede, embora invisivelmente, na Santa Comunhão. Ai da alma em pecado mortal, que ousa aproximar-se da mesa sagrada para receber a Comunhão das mãos do Sacerdote!... Ser-lhe-á um veneno mortal.
Feliz, ao invés, mil vezes feliz aquele que se alimentar desse Pão da Vida, tendo o coração limpo e contrito; receberá bênçãos e graças e os aplausos dos anjos, e a comunhão será para ele penhor de glória eterna.
D. — Serão muitos os que comungam sem a veste nupcial, ou seja, em pecado mortal?
M. — Quem poderá dizer com certeza que sejam muitos? O certo é que, infelizmente, existem muitos em todas as classes sociais.
Ai da alma em pecado mortal, que ousa aproximar-se da mesa sagrada.

Missa Tridentina


16 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

HAVERÁ AINDA OUTROS?

D. — Escute, Padre, haverá ainda outros cristãos que não tenham o pecado da impureza, e que comunguem mal?
M. — Sim há, mas é mais difícil, pois quem evita o pecado da impureza, geralmente falando, não comete outros pecados mortais, e se chega a cometê-los não vai comungar sem confessar-se antes; pelo contrário, encontram-se muitos desonestos que pretendem conciliar o pecado com a comunhão, Jesus com o demônio.
Infelizmente existem outros também que prejudicam o próximo em seus haveres, que denigrem ou diminuem a estima e a boa fama do próximo; há muitos que escandalizam seus irmãos com modas indecentes e conversações obsenas e libertinas; frequentadores de companhias perigosas e lugares suspeitos, etc.
Todos os que sabem que uma coisa e má e pecaminosa e fazem sem nenhum escrúpulo pecam e é coisa sabida que com a alma em pecado não se pode comungar. Bem entendido, quando se trata de pecados mortais certos.
D. — E se alguém ignora os seus pecados ou não tem certeza de os ter cometido?
M. — Neste caso, consulte o confessor e submeta-se ao seu juízo.
D. — E se o confessor errar?
M. — Se o confessor errar, que se arranje com Deus. O penitente obedecendo-o nunca erra. Tome por base o fato seguinte:
* * *

Conta o Padre Suarez que, estando para morrer um religioso já muito velho, e que por muitos anos tivera como ofício administrar os bens do convento, lhe apareceu o demônio que fazendo escarninhos dele, disse:
— Muito bem, meu amigo! É fato que você sempre obedeceu cegamente a seu confessor. Saiba, porém, que ele está no inferno e você irá fazer-lhe companhia.
O pobre velho, ao ouvir isso, pôs-se a chorar amargamente e apertando fortemente o crucifixo exclamou: — Oh! Meu Jesus! Meu querido Jesus: se me enganei, tende misericórdia de mim.
Ao pronunciar estas palavras sentiu uma voz interior que lhe dizia: — Coragem, meu filho! É certo que teu confessor se enganou, mas ele que se arrume: Tu obedeceste, e por isso tua obediência será recompensada. — Quem assim falava era Jesus Cristo a fim de tranquilizá-lo; logo após o velho morria santamente.
D. — Será mesmo assim, Padre?
M. — Certamente, porque Jesus Cristo, ao conferir aos sacerdotes o poder e o mandamento de confessar disse-lhes categoricamente: "Tudo o que perdoardes, será perdoado; tudo o que retiverdes será retido". Portanto, se o confessor disser ao penitente: "Vai comungar" ele deve ir sem medo e fará bem; se invés lhe disser: "Não comungue", ele não deve comungar.
* * *
D. — O que o senhor acaba de dizer sobre a obediência ao confessor, relativamente à Comunhão, é coisa tão simples que até as crianças o compreendem.
M. — É coisa simplíssima que até as criancinhas entendem, porém há gente que não quer compreender isso, que não quer dar ouvidos ao confessor e aferrados como estão em seus juízos, formam uma consciência falsa, se enganam a si mesmos, e reprimindo os remorsos da alma se atrevem a comungar sacrilegamente por um simples respeito humano, egoísmo ou outras razões.
D. — Também o respeito humano, o capricho, o egoísmo e coisas congêneres entram nisso?
M. — Oh! Se entram. Há quem diga: se eu não for comungar hoje, que dirão de mim? E por este que dirão vão comungar sem preparação e muitas vezes com alma em pecado.
Outros dizem: se comungo serei considerado boa pessoa, homem honrado, fiar-se-ão em mim, serei adulado, em suma, sairei lucrando do contrário serei prejudicado. E, assim frequentam a comunhão, embora não estejam dispostos.
Outros ainda (e estes são os piores, felizmente são poucos), dizem consigo mesmos: O confessor proibiu-me de comungar, não me deixou ir... todavia eu vou. E vão só para contrariar o confessor.
D. — Desgraçados.
M. — Mais que desgraçados e infelizes, pode chamá-los de... pobres loucos.
D. — Ouça Padre. Certa vez um meu colega disse-me: "Para que confessar-me? Acaso a comunhão não é mais poderosa do que o pecado? Pois então, comungando, cedo ou tarde me afastarei do pecado". Pensava bem ele?
M. — Pensava como um ignorante ou como um maligno.
D. — Como maligno não, porque ele era muito simples.
M. — Se voluntariamente não pensava mal, então agia por ignorância. É verdade que a comunhão é Jesus Cristo e Jesus Cristo sabemos que sempre venceu, porém,entenda-mo-nos bem: Jesus Cristo vence, sempre que de nossa parte fizermos o que nos compete: arrependimento de nossos pecados, fuga das ocasiões, boa confissão, comunhão fervorosa...
Nestes casos Jesus Cristo sempre vencerá e a comunhão bem feita nos libertará dos maus costumes e dos mais graves pecados; do contrário, não.
Se a comunhão for mal feita, servirá de veneno tóxico e não de remédio; cada comunhão será um precipitar-se de abismo em abismo, de ruína em ruína; será um contínuo emaranhamento da consciência, um labirinto de confusão por causa dos sacrilégios cometidos. Os que assim procedem se assemelham às raposas quando caem no laço.
D. — Diga-me, Padre, por quê?
M. — O laço que arma para pegar as raposas consiste em um nó ao contrário. Elas, como é sabido, são astutas e quando se veem presas, correm rapidamente para trás, com o fim de se libertarem e fazem outro nó; dão mais outra volta e tornam a fazer mais outro nó e assim por diante. Pensando que se vão libertar, ao invés, se amarram cada vez mais até o ponto de não poderem mais dar um passo e assim ficam seguras.
D. — Coitadas!
M. — Mais infelizes são ainda os que se habituam a comungar mal, convencidos de que se libertarão dos defeitos, dos pecados e dos remorsos. São tantos os que se enganam a si mesmos.
* * *
Contam os geólogos que numa ilha do Pacífico existe uma areia amarela e brilhante, tão parecida com o ouro, que facilmente ilude. Os inexperientes recolhem aquela areia pensando fazer fortuna, porém, quanto mais avançam, mais afundam, e atolando até os joelhos, até à cintura, chegam ao ponto de não poder retroceder ficando presos na areia, vítimas miseráveis de sua ganância.
Assim sucede aos que voluntariamente comungam nem que estejam preparados: inadvertidamente, de tal maneira que chegam a atolar-se no mal que não encontram mais saída, tornando-se vítimas de sua temeridade.
D. — Quanto melhor seria não acostumar-se a comungar mal!