22 de novembro de 2009

Reflexão sobre o Evangelho Dominical - XXIV e Último Domingo depois de Pentecostes - Parte I

24º e Último Domingo depois de Pentecostes

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat: Pe. João Roalta Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Evangelho: Mt. XXIV, 13-35.

1. A JUSTIÇA FINAL DE CRISTO
Três momentos podemos considerar na justiça final de Cristo, como a prediz o Evangelho.
Primeiramente, a crise suprema do mundo. As forças que regem a estrutura do universo dispersar-se-ão; os céus enrolar-se-ão como tendas, o sol e a lua se escurecerão, as estrelas cairão como folhas de outono.
Depois a súbita aparição do Juíz. No céu vazio, Jesus e a sua cruz fulgurante. Aos revérberos dessa luz ultramundana, toda alma tornar-se-á transparente mais do que o cristal batido pelo sol, de modo que todas as manchas da consciência, mesmo as mais pequenas serão visibilíssimas.
O terceiro momento é a confusão da alma culpada. Muda porque sem desculpas, sozinha porque sem nenhum protetor, ela chorará; e ao seu pranto fará coro o vasto soluçar das tribos dos pecadores.
A desilusão de um modo que desaparece.
O juízo exatíssimo do Juíz divino.
A confusão da alma sem desculpas e sem proteção.
São três pensamentos que valerá a pena meditar muito seriamente.



1- A desilusão de um mundo que desaparece.
“O céu e a terra passarão...”; desgraçados todos aqueles que colocaram no mundo o seu coração e o seu tesouro.
Servir-me-ei de alguns símiles de Santo Agostinho, adaptando-os um pouco.
a) Um arquiteto habilíssimo passou, um dia, por diante de uma suntuosa vivenda construída à margem de um riacho, e disse ao proprietário: “Olha que ela esta para ruir; corroídos pela água, os alicerces agora estão cedendo.” O inquilino meneou os ombros em face dele, à noite reuniu ainda os amigos para o costumeiro festim, e depois foi para a cama, dormir tranquilamente. Estava no primeiro e profundo sono, quando a casa ruiu, esmagando-o debaixo dela.
Pior para ele, direis, porque tinha sido avisado. Ora bem: também nós somos avisados. O construtor do mundo diz-nos que este mundo há-de ruir, e que o rio do tempo, correndo sem parar corrói-lhe os fundamentos. E não somos imensamente estultos se em vez de desentulharmos, de começarmos a pôr alhures as nossas esperanças, os nossos desejos, os nossos bens, os colocamos e fixamos neste mundo, como se ele devesse durar sempre, como se devêssemos ter nele uma morada perpétua?
Depois vem a morte, e tudo rui. Depois vem o fim do mundo, e tudo desaba. Que desilusão amaríssima!
b) Um camponês punha o trigo sobre a terra nua, num lugar úmido e sem ar. Veio um amigo, que conhecia bem a natureza do trigo e da terra, e fez-lhe ver a sua ignorância, dizendo-lhe: “Que fizeste? pôr o trigo sobre a terra nua, num lugar úmido? No inverno, quando as longas chuvas amolecem tudo, este grão apodrecerá, e o teu trabalho se irá em fumo.”
O camponês perguntou: “ Que devo fazer?”
O amigo respondeu-lhe: “ Antes que as chuvas comecem,transporta-o para cima.”
O outro pensou um pouco, e , depois, parecendo-lhe muito grande esse trabalho, não o fez. Vieram as chuvas: ele foi ver o trigo, e, em vez de trigo, viu um monte de matéria em fermentação.
Ah! - direis – nós não agiríamos assim! Dizeis bem, porque sois pessoas sensatas; mas sede-o em tudo, inclusive nas coisas mais importantes. Sois prontos em escutar o conselho de um amigo no negócio do trigo; e porque haveis de desprezar o conselho de Jesus, o amigo divino, acerca do negócio de vossa alma?
Ele conhece a natureza do vosso coração, que é feito para o céu; conhece a natureza da terra, que é feita para ser corrompida e destruída, e vos avisa: “Transporta ao alto o teu coração, porque tudo o que esta sobre a terra apodrecerá.”
Tendes receio de por sobre a terra nua um pouco de trigo, e, depois, sobre a terra nua deixareis apodrecer e destruir o vosso coração? Colocai no alto, nos bens invisíveis e eternos, o vosso coração, para não serdes iludidos por este mundo que desaparece.
c)Numa barca em que a água penetrava por todos os lados, um homem clamava por auxílio. Passou um navio, e do alto lhe deixaram cair uma corda de salvamento. O náufrago, que apertava cupidamente a caixinha dos seus tesouros, empenhava em agarrar a corda, mas não o conseguia, por ter as mãos impedidas. Do navio alguém lhe gritava: “Larga o que seguras, toma o que eu te dou. Se não abandonares uma coisa, não pode receber a outra.”
Segurar juntamente caixinha e corda ele não podia; abandonar a caixinha ele não queria; de repente a barca ficou cheia de água, e o homem afundou com a caixinha.
Nós, que vivemos neste mundo, estamos numa barca na qual penetra água por todos os lados e fatalmente vai a pique. Nosso Senhor acorreu para nos salvar, e deixa cair até nós a corda da sua redenção; mas, para pegá-la, é preciso desprendermos as nossas mãos e o nosso coração das coisas e dos prazeres sensuais e mundanos. A mão, se segura um objeto , não pode segurar outro. Quem ama o mundo não pode amar a Deus: tem a mão empenhada. E quanto, segurando cupidamente sobre o coração a sua avareza, ou seu orgulho, ou a sua paixão impura, irão a pique com este mundo!

2- O juízo exatíssimo do Juíz.
Desaparecido o mundo e as suas irrisadas ilusões, não mais restará senão o bem e o mal espalhado em todos os dias da nossa vida, do primeiro alvorecer da razão e da responsabilidade até o momento extremo da morte. Disto seremos julgados.

a) Seremos julgados do mal:
-do mal que fizemos, com as obras, com as palavras, com as ações;
-do mal que fizemos os outros fazerem; e, aqui, pensem nisso os que, sem necessidade, fazem os outros trabalhar em dia de festa, fazem os outros comer carne nos dias proibidos, impedem de qualquer modo os seus dependentes de cumprir os seus deveres religiosos; pensem nisso também os que fazem blasfemar, os que, pela sua conduta, fazem falar mal da religião, os que, com seu modo de vestir e de se comportar, induzem os que os veem a pensamentos e desejos impuros; pensem nisso todos aqueles que tem dado escândalo;
-do mal que deixamos os outros fazerem, quando podíamos impedi-lo: portanto, o mal que muitos pais, com maior vigilância, poderiam impedir em seus filhos; que os irmãos, com maior caridade, poderiam impedir em seus irmãos; que tantos cristãos, com um pouco de ação católica, poderiam impedir em seu próximo; que eu, pobre padre e pastor de almas, poderia impedir na minha paróquia se tivesse mais zelo. Senhor nosso e nosso Juíz Jesus, tende misericórdia!

b) Seremos julgados também do bem:
- do bem que não fizemos e que podíamos fazer: por exemplo, do rosário ou terço que todos podem rezar toda noite em família, e que não rezam; das Missas que se podiam ouvir, das esmolas que se podiam fazer, dos auxílios às boas obras e ao próximo necessitado que se podiam prestar!
- Do bem que fizemos mal: todas as vezes que na igreja, durante os sagrados ritos, estivemos com os olhares vagando sobre as pessoas, com a mente anuviada de pensamentos inúteis e quiçá pecaminosos; todas as vezes que demos esmola ou trabalhamos para ser vistos, estimados, recompensados pelos homens;
- finalmente, do bem que fizemos bem: este é o ouro puro, só com o qual se pode comprar a vida eterna.

3- A confusão da alma culpada.
a) “Quid sum miser tunc dicturus?” Que poderá dizer, que desculpas poderá apresentar a alma culpada?
Talvez diga; “A tua lei,ó Senhor, era muito difícil, não se podia observá-la.” Não, ela não poderá dize-lo, do contrário em torno de Cristo se levantaria para protestar uma turba infinita de homens, de mulheres, de jovens e de meninas. Eles souberam praticá-la, e, praticando-a, sentiram que o jugo do Senhor é leve e suave.
Talvez ela diga: “A tua lei, ó Senhor, requeria muito tempo, e eu tinha afazeres, transações, negócios desde o amanhecer até alta noite.” Não, não poderá dize-lo, do contrário em torno de Cristo se levantaria outra turba de almas que trabalharam ainda mais do que ela, sem descurarem a salvação eterna; e,depois, a razão requeria que se abandonasse mesmo algum negócio material, para não perder o único negócio necessário, que é o da alma.
Talvez ela diga: “Eu tinha pouca saúde, tinha muitas preocupações financeiras, a casa pequena, não tinha lugar para outra caminha...” Não, não o dirá. Sentirá dentro de si que tudo isso eram desculpas para esconder o medo dos sacrifícios, o amor das comodidades, o desejo de ter liberdade para gozar a vida; sentirá dentro de si que, se tivesse amado o Senhor, teria achado a coragem e a força necessária para vencer todas as dificuldades.

b) “Quem patronus rogaturus?” A quem chamará ela em socorro?
Porventura o anjo da guarda? Não; a alma, nos dias da vida terrena, nunca lhe quis escutar o pranto silencioso; e agora ele não pode, nem lhe quer ouvir a sua angústia desesperada.
Acaso algum santo protetor? Os santos, quem não os invoca quando vivo ignora-lhes os nomes quando morto. Quem não os imita na mortificação nunca será companheiro deles na alegria.
Acaso acudirá Nossa Senhora? Não; essa é a mãe dos pecadores, mas não mãe dos condenados. Depois de pronunciada a condenação por seu Divino Filho, ela se conforma com a justa sentença. E, se Nossa Senhora não vem, ela que é mãe de misericórdia e de esperança, é sinal de que toda misericórdia e toda esperança morreu.

Conclusão.
No Horto das Oliveiras, quando Jesus foi ao encontro do bando que vinha para o prender, disse simplesmente: “Aqui estou, sou eu!”
Eles recuaram, e caíram como desmaiados de susto.
Todavia, aqueles eram os dias da sua mansidão, os dias do cordeiro que emudece enquanto o tosquiam, que não solta um balido enquanto o conduzem ao matadouro. Que será então no dia da sua justiça, no dia do leão que ruge e agarra?
“Aqui estou, sou eu.”
Sou esse Jesus a quem blasfemaste, a quem beijaste como traidor, a quem ultrajaste com os escarros e as pancadas, a quem puseste na cruz com os cravos dos teus pecados.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 53

53) A alma do homem morre com o corpo ?
Não. A Alma do homem não morre com o corpo, mas vive eternamente, porque é espiritual.
A alma do homem é espiritual, como é espiritual a sua inteligência.
Por ser espiritual é a alma independente do corpo. Eis o motivo pelo qual estão ambos muitas vezes em contradição: por exemplo, o corpo sentindo prazer e a alma imersa em tristeza.
Sendo espiritual, simples e independente do corpo, a alma não pode ser destruída pela morte.
O quadro representa Santa Felicidade, nobre matrona romana do século II. Mulher forte que era, mostra com o movimento enérgico do braço e com a firmeza do olhar, a fortaleza adamantina da sua fé!
Ficando viúva com sete filhos, educou-os como uma verdadeira mãe cristã sabe educar. Acusada ao Imperador, mostrou-se pronta a dar a sua vida por Jesus Cristo, acompanhada pelos filhos. Com heróica fortaleza assistiu ao martírio de todos eles. "Coragem! - dizia-lhes, enquanto eram estraçalhados pelos carrascos e passados a fio de espada - coragem!" E todos, inclusive a mãe, receberam a palma do martírio.
A alma do homem é imortal. Como prova disto aí estão os heróis que deram a vida pela sua fé. Diga-o também a nossa sede de felicidade, a idéia de um Deus justo, que premia o bem e castiga o mal, o consenso de todos os povos, o olhar errante do moribundo, as sepulturas dos nossos mortos, o que tudo nos diz: Ressuscitaremos!
"Eu julgo, pois, que as penas da vida presente, não tem proporção alguma com a glória vindoura que se manifestará em nós" (Rom 8,18).

20 de novembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 3

CAPÍTULO SEGUNDO

Primeiro Artigo do Símbolo:

Creio em Deus Padre todo-poderoso, criador do Céu e da Terra

I. 1. Sinopse do Artigo [1] Estas palavras querem dizer: Creio com toda a certeza, e sem nenhuma hesitação confesso a Deus Pai, a primeira Pessoa da Santíssima Trindade, que pela virtude de sua onipotência criou do nada o próprio Céu, a Terra, e tudo que se contém em suas dimensões; que sustenta e governa todas as coisas criadas. E não só de coração o creio, e de boca o confesso, mas com o maior afeto e filial piedade a Ele me entrego, por ser o bem sumo e perfeito.

2. Finalidade de seu estudo Nestes termos se pode, brevemente, formular o sentido deste primeiro artigo. Mas como quase cada uma destas palavras envolve grandes mistérios, é obrigação do pároco explicá-las mais amplamente, para que o povo cristão, quanto o permitir a graça de Deus, aprenda a contemplar, com temor e tremor, a glória de Sua majestade. (73)

II. Crer significa: 1. uma íntima convicção...
[2] Neste lugar, a palavra "Creio" não tem a significação de "pensar", "julgar", "dar opinião". Conforme a doutrina da Sagrada Escritura, significa uma adesão absolutamente certa, pela qual a inteligência aceita, com firmeza e constância, os mistérios que Deus lhe manifesta. Para se compreender melhor este ponto, [basta dizer] que só crê propriamente quem está certo de alguma verdade, sem a menor hesitação.

que exclui toda dúvida... Ninguém deve, todavia, julgar menos seguro o conhecimento que nos vem da fé, pelo fato de não compreendermos as verdades que ela nos propõe a crer. É certo, a luz divina que no-las faz conhecer, não nos dando a evidência das coisas, nem por isso abre margem para se duvidar de sua realidade. "Pois Deus ordenou que das trevas rompesse a luz; Ele mesmo resplandece em nossos corações" (74), para que "o Evangelho não seja encoberto, como acontece aos que se perdem". (75)

...por causa da autoridade de Deus... [3] A concluirmos pelo que ficou dito, quem recebeu o celestial conhecimento da fé, já não sente o prurido de investigar só por mera curiosidade. Quando nos deu o preceito de crer, Deus não nos incumbiu de sondar os juízos divinos, nem de lhes aferir as causas e razões. Prescreveu-nos, ao contrário, uma fé inalterável, cuja ação faz a alma repousar no conhecimento da verdade.

a quem não podemos pedir razões; De fato, como diz o Apóstolo, "Deus é verdadeiro (76), e todo homem é mentiroso". (77) Ora, quando um homem grave e sensato nos assegura a verdade, seria orgulho e insolência não lhe dar crédito, e pedir-lhe ainda por cima provas e testemunhos de sua palavra. Qual não seria então a temeridade, ou antes, a loucura daquele que, ouvindo as palavras de Deus, quisesse ainda devassar as razões da celestial doutrina da salvação?

Devemos, portanto, abraçar a fé não só com exclusão de toda dúvida, mas também sem o desejo de vê-la demonstrada. (78)

2. uma confissão exterior, em palavras e obras [4] O pároco ensinará também o seguinte: Quem diz "Creio" exprime a íntima aquiescência da alma, que é o ato interior da fé. Deve, porém, externar em pública profissão a fé que lhe vai na alma, e manifestá-la com a maior expansão de alegria.

Devem os fiéis estar possuídos daquele espírito que levou o Profeta a dizer: "Eu tinha fé, por isso é que falei". (79) Força lhes é imitar os Apóstolos que aos príncipes do povo responderam: "Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos". (80)

Devem entusiasmar-se com grandiosa declaração de São Paulo: "Neo me envergonho do Evangelho, pois é uma virtude de Deus para salvar todo homem crente" (81); - ou também, com esta outra palavra: "Com o coração se crê para ser justificado; com a boca se faz confissão, para que haja salvação". (82)

[Creio] em Deus

III. Mostram estas palavras... [5] Estas palavras "em Deus" nos mostram a dignidade e excelência da sabedoria cristã, pela qual podemos reconhecer o quanto devemos à bondade divina por nos levar, sem demoras de raciocínio, a conhecer pelos degraus da fé o ser mais sublime e desejável.

1. que a fé é superior à filosofia: [6] Existe, realmente, uma enorme diferença entre a filosofia cristã e a sabedoria deste mundo. Guiada só pela luz da razão, pode esta desenvolver-se aos poucos, pelo conhecimento dos efeitos e pela experiência dos sentidos. Mas só depois de longos esforços é que chega afinal a contemplar, com dificuldade, "as coisas invisíveis de Deus" (83); a reconhecer e compreender a Deus como causa primeira e autor de todas as coisas.

A fé, pelo contrário, aumenta de tal maneira a penetração natural do espírito, que este pode sem esforço elevar-se até ao céu, e, inundado de luz divina, contemplar primeiramente o próprio foco de toda a luz, e de lá todas as coisas colocadas debaixo [de seu clarão]. Num transporte de júbilo, sentimos então que "das trevas, como diz o Príncipe dos Apóstolos, fomos chamados para uma luz admirável" (84); e nessa "fé exultamos de inefável alegria". (85)

É, pois, com razão que os fiéis professam em primeiro lugar sua fé em Deus, cuja majestade, numa expressão de Jeremias, dizemos ser "incompreensível". (86) Deus "habita numa luz inacessível, como diz o Apóstolo, e nunca foi nem pode ser visto por homem algum". (87) Ele mesmo disse a Moisés: "Não pode o homem ver-Me, e continuar com vida". (88)

Com efeito, para chegarmos até Deus, o mais transcendente de todos os seres, é preciso que nossa alma desfaça totalmente das faculdades sensitivas. Isto, porém, não nos é possível por lei da natureza, enquanto durar a vida presente.

Ainda assim, como diz o Apóstolo, Deus "não deixou, todavia de dar testemunho de Si mesmo, dispensando benefícios, mandando chuvas do céu e tempos férteis, dando alimento, e enchendo de alegria os corações dos homens". (89)

a) esta dá um conhecimento imperfeito de Deus; Eis por que os filósofos nada de imperfeito podiam admitir em Deus. Da noção de Deus, afastaram categoricamente tudo o que fosse matéria, crescimento, composição.

Atribuindo-Lhe, pelo contrário, a suma plenitude de todos os bens, consideravam-n'O como fonte perpétua e inexaurível de bondade e clemência, donde se derrama em todas as criaturas tudo o que nelas há de bom e perfeito.

Chamavam-Lhe, sábio, autor e amigo da verdade, justo, supremo benfeitor. Deram-Lhe ainda outros atributos que exprimem uma perfeição suma e absoluta. Em Deus reconheciam um poder imenso e absoluto, que abrange todos os lugares, e chega a todas as criaturas.

b) aquela dá conhecimento mais perfeito... No entanto, estas verdades são expressas, com mais vigor e propriedade, nas páginas da Sagrada Escritura, como por exemplo, nas passagens seguintes:

"Deus é Espírito". (90) - "Sede perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito". (91) – "Todas as coisas estão a nu e a descoberto diante de seus olhos". (92) – "Oh! Que profundidade das riquezas, da sabedoria e do conhecimento de Deus!" (93) - "Deus é verdadeiro". (94) – "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". (95) - "Vossa destra é cheia de justiça". (96) - "Vós abris a mão, e encheis de bênçãos todos os viventes". (97) - "Para onde irei, a fim de esquivar-me de Vosso espírito, e para onde fugirei da Vossa face? Ainda que tomasse asas, ao romper da aurora, e fosse morar nos confins do oceano, ainda lá me guiaria a Vossa mão, e Vossa destra me tomaria". (98) - "Porventura, não encho Eu o céu e a terra? Diz o Senhor". (99)

não só aos filósofos e eruditos... Por grandes e sublimes que sejam os conceitos que, de harmonia com a doutrina da Sagrada Escritura, os filósofos tiraram da investigação das coisas criadas, devemos todavia reconhecer a necessidade de uma revelação sobrenatural.

mas também aos simples e ignorantes, Para esse fim, basta considerar que a excelência da fé, como acima foi dito, não consiste apenas em patentear, aos simples e ignorantes, com clareza e prontidão, o que eminentes sábios conseguiram averiguar só depois de longas lucubrações. O conhecimento que a fé nos transmite dessas verdades, é também muito mais certo e estreme de erros, do que as noções adquiridas com os recursos de um ciência meramente humana.

dos mais sublimes mistérios Além disso, quão superior não deve ser, aos nossos olhos, o conhecimento que a fé nos dá da essência divina, para o qual a contemplação da natureza não leva em geral todos os homens, enquanto a luz da fé propriamente o franqueia a todos os crentes?

Esse conhecimento está depositado nos Artigos do Símbolo. Explanam-nos a unidade da essência divina, a distinção das três Pessoas. Ensinam-nos que o último fim do homem é o próprio Deus, do qual o homem deve esperar a posse da celestial e eterna felicidade, segundo a palavra de São Paulo: "Deus retribuirá aos que o procuram". (100)

Para mostrar a grandeza dessa recompensa, e como a inteligência é de si mesma incapaz de imaginá-la, o Profeta Isaías disse muito antes de São Paulo: "Nunca ninguém ouviu, nem ouvido algum percebeu, nem olhar algum enxergou, a não serdes Vós, ó meu Deus, o que tendes preparado para os que em Vós esperam". (101)

Mostram-nos também a unidade de Deus: a) prova filosófica [7] Das explicações dadas, segue-se também a obrigação de confessarmos que há um só Deus, e não vários deuses. A razão é óbvia. A Deus atribuímos suma bondade e perfeição. Ora, em vários seres não pode haver perfeição em grau sumo e absoluto. (102) Se a um deles falta alguma coisa para ser sumamente perfeito, por isso mesmo é imperfeito, e não lhe compete a natureza divina.

b) prova teológica Comprovam esta verdade, muitas passagens dos Livros Sagrados. Está escrito: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é um só Deus". (103) Além disso, há um preceito do Senhor: "Não tereis deuses estranhos em Minha presença". (104) E pela boca do Profeta diz [Deus] com insistência: "Eu sou o Primeiro, e Eu sou o Último. Fora de Mim, não há outro Deus". (105) O Apóstolo também o atesta sem ambigüidade: "Um só Senhor, uma só fé, um só Batismo". (106)

Corolário: "Deuses" na Escritura. [8] Não devemos estranhar que a Sagrada Escritura, por vezes, aplique o nome de "deuses" a seres criados. Quando chama de deuses aos juízes e profetas (107), não o faz à moda dos gentios que, louca e impiamente, imaginavam a existência de muitas divindades. Com tal expressão, quer apenas designar algum poder ou encargo extraordinário, que lhes foi confiado pela munificência de Deus.

c) resumo e transição A fé cristã crê, pois, e confessa que Deus é uno em natureza, substância e essência, conforme o definiu o Símbolo do Concílio de Nicéia, em confirmação da verdade. Mas, subindo mais alto, ela crê de tal maneira em Deus Uno que, ao mesmo tempo, adora a Unidade na Trindade, e a Trindade na Unidade. (108) É desse mistério que vamos tratar agora.

IV O nome de "Pai" designa Deus: 1. Como criador e governador do mundo... [9] No Símbolo, vem a seguir a palavra "Pai". (109) Ora, dá-se a Deus o nome de "Pai" sob vários pontos de vista. É preciso, pois, explicar primeiro o sentido, que lhe cabe neste lugar.

Não obstante as trevas do paganismo, chegaram alguns homens a reconhecer, sem a luz da fé, que Deus é uma substância eterna, da qual tiveram origem todas as coisas, e cuja Providência tudo governa, e tudo conserva em sua ordem e posição.

Assim como chamamos de pai a quem funda uma família, e a dirige com critério e autoridade, assim também quiseram eles, por analogia, chamar de "Pai" a Deus, a quem reconheciam como Criador e Governador de todas as coisas.

A Sagrada Escritura emprega o termo também no mesmo sentido. Falando de Deus, declara que Lhe devemos atribuir a criação, o domínio e a admirável provisão de todas as coisas. Numa passagem lemos: "Não é Ele teu Pai, que te adquiriu, que te fez e tirou do nada?" (110) - E noutra: "Porventura, não é um só o Pai de todos nós? Não foi o mesmo Deus que nos criou?" (111)

2. Como Pai dos cristãos Com maior insistência, e num sentido todo particular, Deus é chamado Pai dos cristãos, principalmente nos Livros do Novo Testamento.

Os cristãos "não receberam o espírito de servidão, para estarem novamente com temor, mas o espírito da filiação adotiva, o qual nos faz exclamar: Abba, Pai!" (112) - Tão grande é "o amor do Pai para conosco que somos chamados e de fato somos filhos de Deus". (113) - "Se, porém, somos filhos, somos também herdeiros, sim, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (114), que é o Primogênito entre muitos irmãos (115), e não se vexa de nos chamar irmãos. (116)

Considerando, pois, quer o fato comum da Criação e da Providência, quer a grande realidade da adoção sobrenatural, têm os cristãos toda a razão de professarem sua fé em Deus Pai.

3. Como Primeira Pessoa da SS. Trindade [10] Além destas noções assim formuladas, o pároco explicará aos fiéis que, ao ouvirem o nome de Pai [aplicado a Deus], devem elevar o espírito para a contemplação de mistérios mais sublimes.

Pelo nome de "Pai", a Revelação nos permite entrever aos poucos o que se acha profundamente oculto e encerrado naquela "luz inacessível onde Deus habita" (117), mistérios que a perspicácia do espírito humano não podia certamente atingir, nem tampouco suspeitar.

O termo indica que, na unidade da natureza divina, não devemos crer na existência de uma só Pessoa, mas de várias Pessoas realmente distintas.

a) origem eterna das três Pessoas São três as Pessoas que existem numa só divindade: O Pai, que por ninguém foi gerado; O Filho, que gerado foi pelo Pai, antes de todos os séculos; o Espírito Santo, que também desde toda a eternidade procede do Pai e do Filho. Na unidade da natureza divina, o Pai é a Primeira Pessoa, e "com seu Filho Unigênito e o Espírito Santo é um só Deus e um só Senhor, não na singularidade de uma só Pessoa, mas na Trindade de uma só natureza". (118)

b) distinção de Pessoas... Não é licito supor, nas três Pessoas, qualquer diferença ou desigualdade. Por conseguinte, só devemos considerá-las distintas em suas respectivas propriedades: O Pai não é gerado; o Filho é gerado pelo Pai; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

mas igualdade de natureza. Desta maneira, confessamos ser a mesma essência e a substância das três Pessoas; e "na confissão da verdadeira e sempre eterna divindade" cremos que é preciso adorar, pia e santamente, "não só a distinção nas Pessoas, mas também a unidade na essência, e a igualdade na Trindade". (119)

Quando, pois, dizemos ser o Pai a primeira Pessoa, não é para entender como se na Trindade supuséssemos a idéia de anterior ou posterior, de maior ou menor. Tanta impiedade não deve infiltrar-se nos ânimos dos fiéis, pois a religião cristã apregoa, com relação as três Pessoas, a mesma eternidade, a mesma glória, e a mesma majestade. (120)

c) motivo da Paternidade da Primeira Pessoa Com certeza, e sem a menor dúvida, afirmamos ser o Pai a Primeira Pessoa, porque é um princípio sem princípio. E como se não distingue, das outras Pessoas senão pela propriedade de Pai, é a Ela somente que se atribui, principalmente, a eterna geração do Filho. Mas, para inculcar que a Primeira Pessoa foi sempre Deus e sempre Pai ao mesmo tempo, é que no Símbolo enunciamos juntos os nomes de Deus e Pai.

d) terminologia obrigatória Ora, não há coisa mais perigosa do que versar este assunto, porque é o mais profundo e o mais difícil de todos; assim como não há mais grave responsabilidade, se viermos a errar na formulação e explicação deste mistério.

Por isso, o pároco ensinará que é preciso reter, religiosamente, os termos "essência" e "pessoa" como [os únicos adequados] para exprimir esse mistério. Os fiéis devem ficar sabendo que a unidade está na essência, e a distinção nas pessoas.

e) investigação sem sutileza No mais, força é evitar toda sutileza de investigação, lembrando-nos do que sentencia a Escritura: "Quem quer sondar a Majestade, será oprimido pelo peso de sua glória". (121)

Para nós, deve bastar a certeza que a fé nos dá, de ter Deus assim falado. Grande loucura e desgraça seria, para nós, o não crermos em Suas palavras: Ensinai, diz Nosso Senhor, todas as gentes, e batizai-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo". (122) E noutro lugar: "Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo. E estes três são uma só coisa". (123)

f) frutos desta doutrina Quem pela graça de Deus crê estas verdades, reze com perseverança, e conjure a Deus Pai, que do nada criou todas as coisas; que tudo dirige com suavidade (124); que nos deu o poder de tornar-nos filhos de Deus (125), que revelou à inteligência humana o mistério da Santíssima Trindade. Ore, pois, sem interrupção (126), para ser um dia "recebido nos eternos tabernáculos" (127); para ser julgado digno de contemplar essa infinita fecundidade de Deus Pai, que, considerando-Se e reconhecendo-Se a Si mesmo, gera ao Filho, que Lhe é igual e semelhante; - [para ser digno de ver] também como o Espírito Santo, que é de ambos a mesma e igual caridade, procedendo do Pai e do Filho, une entre Si, com vínculo eterno e indissolúvel, Aquele que gera e Aquele que é gerado; - [para ser digno afinal de verificar] como assim existe uma unidade de essência na Divina Trindade, ao mesmo tempo que existe uma perfeita distinção entre as três Pessoas.

Todo-Poderoso

V. O primeiro dos atributos [11] A Sagrada Escritura emprega muitas expressões para indicar o sumo poder e a imensa majestade de Deus. Mostra-nos assim com quanto respeito devemos venerar Seu Nome Santíssimo.

Entretanto, o pároco ensinará, em primeiro lugar, que a Deus se atribui com maior freqüência o nome de "Onipotente".

Deus declara de Si mesmo: "Eu sou o Senhor Todo-Poderoso". (128) - Quando enviara os filhos a José, Jacó rezou por eles: "Meu Deus, o Todo Poderoso, vo-lo torne propício!" (129) - No Apocalipse também está escrito: "O Senhor Deus, que é, e que era, e que há de vir: o Todo-Poderoso". (130) Noutra passagem fala "do grande dia de Deus Todo-Poderoso". (131)

Algumas vezes, enuncia-se o mesmo atributo por meio de paráfrases, como acontece nas seguintes passagens: "A Deus, nada é impossível". (132) - "Porventura, a mão do Senhor já não terá força?" (133) - "Em Vossa mão está usar de poder, quando quiserdes". (134) - E outras mais, do mesmo sentido, que se resumem indubitavelmente nesta única palavra: o Todo-Poderoso.

1. Noção: a) o que Deus pode; Este conceito nos dá a entender que nada existe, nada se pode pensar ou imaginar que Deus não tenha a virtude de realizar. Pode, portanto, não só operar prodígios que, por maiores que sejam, não excedem de maneira absoluta o âmbito de nossas idéias, como por exemplo fazer voltar ao nada todas as coisas, ou num ápice tirar do nada outros mundos; mas pode também fazer coisas muito maiores, que a inteligência humana não chega sequer a suspeitar.

b) o que Deus não pode. [12] Apesar de poder tudo, Deus não pode todavia mentir, nem enganar, nem ser enganado, nem pecar, nem perecer, nem tampouco ignorar alguma coisa. São deficiências que só podem ocorrer numa natureza, cuja operação é imperfeita. Ora, operando sempre de maneira perfeitíssima, Deus não é capaz de tais coisas. O poder fazê-las é sinal de fraqueza, e não se coaduna com o domínio sumo e ilimitado que Deus exerce sobre todas as coisas.

Cremos, portanto, que Deus é Todo-Poderoso, mas dessa crença arredamos para longe tudo o que se não refira, nem condiga com a perfeição da natureza divina.

2. Relação com os demais atributos [13] O pároco terá de mostrar que houve sábias e acertadas razões para se omitir no Símbolo os outros atributos divinos, enquanto se propõe à nossa crença este único de Sua onipotência.

Com efeito, desde que reconhecemos a Deus como sendo Todo-Poderoso, força nos é também professar que Ele sabe todas as coisas, e que todas as coisas estão igualmente sujeitas ao Seu poder e soberania. E se não duvidamos que tudo pode, é logicamente necessário termos por certas as outras perfeições de Deus, porque sem elas não poderíamos absolutamente compreender a Sua onipotência.

3. Frutos: a) confiança em Deus... Além disso, não há o que mais concorra para firmar a nossa fé e esperança do que a convicção, profundamente gravada em nossas almas, de que a Deus nada é impossível. (135)

... pela fé Tudo o que nos for necessário crer, por grandes e admiráveis que sejam os mistérios, por mais que transcendam as leis ordinárias da natureza, a razão humana os aceitará sem nenhuma hesitação, uma vez que tenha uma idéia exata da onipotência de Deus. Quanto mais sublimes as verdades que vêm de Deus, tanto maior a presteza da razão em acreditá-las.

... pela esperança Quando tem de esperar algum benefício, o cristão nunca arrefece ante a grandeza do bem almejado. Sente, pelo contrário, sua coragem e esperança crescerem com a idéia de que a Deus Todo-Poderoso nada é impossível.

Esta fé e confiança devem alentar-nos, principalmente nas obras extraordinárias que tivermos de empreender, para o bem e proveito do próximo; ou quando quisermos implorar alguma mercê de Deus. O próprio Nosso Senhor nos ensinou o primeiro destes deveres, ao censurar a incredulidade dos Apóstolos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para lá, e ele passará. Nada vos será impossível". (136)

O segundo dever, o Apóstolo São Tiago no-lo inculca: "Peça com fé, sem nenhuma hesitação, pois quem hesita assemelha-se à onda do mar, que o vento chicoteia de um lado para outro. Não cuide, pois, tal homem que do Senhor receberá alguma coisa". (137)

b) humildade e verdadeiro temor Sob outros pontos de vista, a fé na onipotência divina dá-nos ainda muitas vantagens. Ensina-nos, em primeiro lugar, uma perfeita modéstia e humildade de espírito, segundo a afirmação do Príncipe dos Apóstolos: "Humilhai-vos debaixo da poderosa mão de Deus". (138)

Exorta-nos também a não temer onde não há motivo (139), mas a temer só a Deus (140), em cujo poder estamos postos, nós e todas as coisas. (141) Nosso Senhor disse cabalmente: "Mostrar-vos-ei a quem deveis temer. Temei aquele que, depois de matar, pode ainda lançar no inferno". (142)

c) gratidão Esta fé leva-nos afinal a reconhecer e proclamar os imensos benefícios de Deus para conosco. Quem pensa em Deus Onipotente, não poderá ser tão desagradecido que não diga muitas vezes: "Grandes coisas operou em mim Aquele que é poderoso". (143)

4. atribuição ao Pai [14] Se neste Artigo dizemos que o Pai é Todo-Poderoso, ninguém caia no erro de pensar que só a Ele atribuímos esse predicado, de sorte que não seja também comum ao Filho e ao Espírito Santo. Como afirmamos que o Pai é Deus, que o Filho é Deus, e que o Espírito Santo é Deus, sem por isso reconhecer três deuses, mas a um só Deus; assim também dizemos que o Pai é Todo-Poderoso, que o Filho é Todo-Poderoso, que o Espírito Santo é Todo-Poderoso, sem, contudo asseverarmos que haja três onipotentes, mas um só Onipotente. (144)

por ser fonte e origem de todas as coisas Isto não obstante, damos ao Pai esse atributo, pela especial razão de ser Ele a fonte de tudo quanto existe. Da mesma maneira, atribuímos a sabedoria ao Filho, que é o Verbo eterno do Pai; e a bondade ao Espírito Santo, que é o amor de ambos. No entanto, pela regra católica de fé, estes e outros atributos devem ser enunciados em comum, com relação às três Pessoas divinas.

Criador do céu e da terra

VI. Conteúdo das palavras: 1. A criação, ato de onipotência... [15] O que agora vamos dizer da criação de todas as coisas, mostrará claramente como era necessário explicar antes aos fiéis a noção da onipotência divina. Com maior facilidade acreditarão no milagre que se manifesta em obra tão grandiosa, se nenhuma dúvida tiverem a respeito do imenso poder do Criador.

de amor espontâneo... Pois Deus não formou o mundo de uma matéria preexistente, mas criou-o do nada, sem a tanto ser obrigado por violência estranha ou necessidade natural; mas por Sua livre e espontânea vontade.

Nenhum outro motivo O impeliu a criar o mundo, senão a Sua própria bondade. Queria comunicá-la a todas as coisas que criasse. Possuindo por Sua natureza toda a felicidade, Deus não tem falta de coisa nenhuma, como o exprime o rei Davi: "Disse eu ao Senhor: Vós sois o meu Deus, e não tendes precisão dos meus bens". (145)

de infinita sabedoria Assim como não obedeceu senão à própria bondade, para "fazer tudo o que era do Seu agrado" (146), assim também não seguiu na criação nenhum modelo que estivesse fora de Sua própria natureza.

Sua inteligência infinita possui, dentro de Si mesma, a idéia exemplar de todas as coisas. Contemplando, pois, em Si mesmo essa idéia exemplar; e reproduzindo-a, por assim dizer, com a suma sabedoria e o infinito poder, que Lhe são próprios, Supremo Artífice (147) criou no princípio todas as coisas do Universo. "Ele disse, e tudo foi feito; Ele mandou, e tudo foi criado". (148)

2. Descrição da Criação: a) o firmamento; [16] Pelos termos "céu e terra", deve tomar-se tudo o que o céu e a terra compreendem. Além dos céus, que o Profeta considerava como "obra de Suas mãos" (149), Deus criou também a claridade do sol e o encanto da lua e dos outros corpos celestes, para que "servissem de sinais para os tempos, os dias e os anos". (150) Aos astros marcou uma órbita inalterável, de sorte que não pode haver coisa mais rápida que suas contínuas rotações, nem coisa mais regular que sua velocidade.

b) os Anjos... [17] A par do firmamento, Deus criou do nada seres de natureza espiritual, os inúmeros Anjos, cujo ministério era servir-Lhe e assistir diante de Seu trono. Conferiu-lhes depois o admirável dom de sua graça e poder.

Se na Bíblia está escrito: "O demônio não persistiu na verdade" (151), não padece dúvida que ele e os outros anjos rebeldes haviam [também] recebido a graça, desde o primeiro instante de sua existência.

sua santidade ciência e poder Santo Agostinho diz a respeito: "Criou os Anjos e dotou-os de boa vontade, quer dizer, com o casto amor que os unia a Deus. Em formando a natureza [angélica], infundiu-lhes ao mesmo tempo a graça. Daí devemos concluir que os Anjos bons nunca se viram destituídos de boa vontade, isto é, de amor a Deus". (152)

Quanto ao grau de ciência [angélica], há um testemunho das Sagradas Letras: "Vós, Senhor meu Rei, sois sábio, como a sabedoria que tem um Anjo de Deus, para entendermos tudo o que se passa sobre a terra". (153)

Indicam enfim o poder dos Anjos as palavras que lhes aplica o rei Davi: "Sois poderosos e fortes, e executais a Sua vontade". (154) Por esse motivo, a Sagrada Escritura lhes dá, muitas vezes, o nome de "virtudes e exércitos do Senhor". (155)

Corolário: Os Anjos maus Dotados que eram, todos, de prendas celestiais, muitos deles abandonaram, todavia a Deus, seu Pai e Criador. Foram, por conseguinte, derrubados de seus altos tronos, e detidos numa prisão muito escura da terra, onde agora sofrem o eterno castigo de sua soberba.

Deles escreve o Príncipe dos Apóstolos: "Deus não poupou os Anjos que pecaram, mas acorrentados os precipitou nos abismos do inferno, para serem cruciados, e tidos em reserva até o dia do juízo". (156)

c) a Terra [18] Com o poder de Sua palavra, Deus também firmou a terra em bases sólidas, e deu-lhe um lugar no meio do Universo. Fez com que os morros se erguessem, e os campos baixassem ao nível que lhes tinha marcado. E para que as massas de água não inundassem a terra, "assentou-lhes limites dos quais não passarão, e não tornarão a cobri-la". (157)

Em seguida, revestiu a terra de árvores e de toda a sorte de flores; encheu-a também de inúmeras espécies de animais, como antes já o tinha feito com as águas e os ares.

d) o homem... [19] Por último, Deus formou do limo da terra o Corpo do homem, de maneira que fosse imortal e impassível, não por exigência da própria natureza, mas por mero efeito da bondade divina. (158)

dotes de sua alma A alma, porém, Deus a criou à Sua imagem e semelhança, e dotou-a de livre arbítrio. Além de tudo, regulou os movimentos e apetites da alma, de sorte que sempre obedecessem ao império da razão. Finalmente, deu-lhe ainda o admirável dom da justiça original, e quis que tivesse o governo de todos os outros seres animados.

Estas verdades, os párocos podem facilmente examinar [mais a fundo] na santa história do Gênesis, quando fizerem a instrução dos fiéis.

e) "céu e terra" [20] Com as noções "do céu e da terra", compreende-se, pois, a criação de todas as coisas. O Profeta Davi resumiu tudo em poucas palavras: "Vossos são os céus, e vossa é a terra. Vós criastes o orbe da terra, e tudo o que nele se contém". (159)

Fórmula do Símbolo de Nicéia Com maior concisão ainda, souberam exprimir-se os Padres do Concílio de Nicéia, ao acrescentarem ao Símbolo só duas palavras: "das coisas visíveis e invisíveis". (160) Tudo o que o mundo abrange, e que reconhecemos como criado por Deus, - ou entra pelos sentidos, e chama-se "visível", - ou só pode ser percebido pela inteligência, e chama-se então "invisível".

3. Conservação e governo de todo o criado [21] Não devemos, porém, crer que Deus é Criador e Autor de todas as coisas, de molde que, consumada a obra da Criação, os seres por Ele criados pudessem, em nossa opinião, continuar a subsistir sem o auxílio de Sua potência infinita.

Como tudo só existe graças à onipotência, sabedoria e bondade do Criador, todas as criaturas recairiam logo em seu nada, se Deus lhes não assistisse continuamente pela Sua Providência, e não as conservasse pelo mesmo poder que, desde o princípio, empregou para as criar. A Escritura no-lo declara em termos formais: "Como poderia subsistir alguma coisa, se Vós o não quisésseis? Como poderia conservar-se o que Vós não tivésseis chamado?" (161)

4. O concurso divino [22] Sobre conservar e governar, pela sua Providência, tudo o que existe, Deus comunica, por um impulso interior, ação e movimento a todas as coisas, conforme a propriedade que tem cada qual, de mover-se e operar.

Sem as impedir, Deus antecipa-Se a influência das causas segundas, como uma virtude oculta que se estende a todas as coisas, e, no dizer do Sábio, "atinge fortemente de um extremo a outro, e dispõe todas as coisas com suavidade". (162)

Por esse motivo, ao anunciar aos atenienses o Deus que eles adoravam, sem O conhecerem, o Apóstolo disse-lhes: "Não está longe de cada um de nós, pois n'Ele vivemos, n'Ele nos movemos, e n'Ele subsistimos". (163)

4. A Criação, obra comum das três Pessoas [23] O que foi dito até agora, bastará para a explicação do primeiro Artigo. Resta-nos, ainda, advertir que a Criação é obra comum de todas as três Pessoas da Santa e Indivisível Trindade.

Neste lugar, confessamos pela doutrina dos Apóstolos, que o Pai é o Criador do céu e da terra. Nas Escrituras, porém, lemos com relação ao Filho que "por Ele foram feitas todas as coisas". (164) Acerca do Espírito Santo: "O Espírito de Deus movia-Se por sobre as águas". (165) Noutro lugar: "Pela palavra do Senhor foram assentes os céus, e do hálito de Sua boca procede toda a pujança [de vida]". (166)

73) Ex 20, 18 ss. - 74) 2Cor 4, 6. - 75) 2Cor 4,3. - 76) Rm 3, 4. - 77) cfr. Sl 115, 11. - 78) Isto não é uma negação do axioma "fides quaerens intellectum". O CRO só não quer que o ato de fé, como tal, não dependa de uma prévia demonstração. DU 1637 1812 1813 1796. - 79) S1 115, 10. - 80) At 4, 20 - 81) Rm 1, 16. - 82) Rm 10, 10. - 83) Rm 1, 20; DU 1796-1800. - 84) 1Pd 2, 9. - 85) 1Pd 1, 8. - 86) Jr 32, 19. - 87) 1Tm 6, 16. - 88) Ex 33, 20 - 89) At 14, 16 - 90) Jo 4, 24 - 91) Mt 5, 48 - 92) Hb 4, 13. - 93) Rm 11, 33. - 94) Rm 3, 4 - 95) Jo 14, 6. - 96) Sl 47, 11. - 97) Sl 144, 16. - 98) Sl 138, 7 ss. - 99) Jr 23, 24. - 100) Hb 11, 6. - 101) is 64, 4; cfr. 1Cor 2, 9. - 102) Aqui falta, ao que parece, uma pequena transição como, por exemplo: "A perfeição suma e absoluta é exclusiva por natureza". Se a vários coubesse simultaneamente, só poderia ser gradual e relativa. Ora, se... - 103) Dt 6, 4. - 104) Ex 20, 3. - 105) Is 41, 4; 44, 6; 48, 12; cfr. Ap 1, 17; 22, 13. - 106) Ef 4, 5; DU 1782 1801. - 107) Ex 7, 1; 22, 28; 32, 8; S181, 1-6; 94, 3. - 108) SA. - 109) Designação antiga de "Pai", conservada nas versões oficiais do Credo e do Pai-Nosso. Não convém substituí-la por "Pai", e dizer "Pai-Nosso que estais nos céus", ou ainda ver, uma mal avisada adaptação às fórmulas protestantes. Além disso, destroem a uniformidade de nossas versões oficiais. E diga-se, de passagem, que essa uniformidade foi até agora um apanágio da língua portuguesa. Não se observa em todas as línguas modernas; veja-se, por exemplo, o Pai-Nosso em francês ou a Salve-Rainha em alemão. - 110) Dt 32, 6. - 111) Ml 2, 10. - 112) Rm 8, 15. - 113) 1Jo 3, 1. - 114) Rm 8, 17. - 115) Rm 8, 29. - 116) Hb 2, 11. - 117) 1Tm 6, 16. - 118) Prefácio da SS. Trindade. - 119) Pref. da SS. Trindade. O missal diz "et in maiestate", enquanto o CRO põe "et in Trinitate". Será engano ou intenção? - 120) SQ - Pref. da SS. Trindade. - 121) Pr 25, 27. - 122) Mt 28, 19. - 123) 1Jo 5, 7. - Esta passagem é o célebre "Comma loanneum", cuja autenticidade é contestada pela maior parte dos exegetas, sem exclusão dos católicos. Falta nos antigos códices gregos, e em mais de 50 códices da Vulgata. Parece tratar-se de uma interpolação feita em data muito remota. Segundo a opinião mais comum, seria uma glosa dogmática incluída no próprio texto. Por decreto de 13 de Janeiro de 1897, a Congregação do Santo Ofício decidiu que se não podia, com certeza, negar ou por em dúvida a autenticidade. Em conversa particular com o Cardeal Vaughan, Leão XIII declarou que o decreto não coibia a continuação das pesquisas científicas. Idêntica declaração fez a Congr. do S. Offício em 2 de Junho de 1927 (DU 2198), contanto que os cientistas se submetam à decisão definitiva que a Igreja venha talvez a publicar, em momento oportuno. - 124) Sb 8, 1. - 125) Jo 1, 12. - 126) 1Ts 5, 7.- 127) Lc 16, 9.- 128) Gn 17, 1. - 129) Gn 43, 14. - 130) Ap 1, 8. - 131) Ap 16, 14. - 132) Lc 1, 37. - 133) Nm 11, 23. - 134) Sb 12, 18. - 135) Lc 1, 37. - 136) Mt 17, 20 137) Tg 1, 6-7. - 138) 1Pd 5, 6. - 139) Os 52, 6. - 140) Os 32, 8. - 141) Sb 7, 16 - 142) Lc 12, 5. 143) Lc 1, 49. - 144) SQ - DU 420 704. - 145) Os 15, 1 (texto da Vulgata); DU 706 1783 1805. - 146) Os 113, 3. - 147) Linda expressão que hoje teria ressaibo, por causa do vocabulário deísta ou maçônico. - 148) Sl 148, 5; DU 1805 428 574a. - 149) Os 8, 4. - 150) Gn 1, 14. - 151) Jo 8, 44; DU 237. - 152) Aug. de civit. Dei XII 9; DU 1783. - 153) 2Sm 14, 20. - 154) Sl 102, 20. - 155) Sl 102, 21; 23, 10; 45, 8; 58, 6; 79, 5; 83, 2; Rm 8, 38. - 156) 2Pd2, 4. - 157) Sl 103 ,5; 8, 9. - 158) Gn 1, 1 ss.; 2, 1-7; DU 717 c 1021 1023 1026 2123 1701. - 159) Sl 88, 12. - 160) Em latim são de fato duas palavras: visibilium et invisibilium. - 161) Sb 11, 26; DU 1784. - 162) Sb 8, 1; DU 254 1702. - 163) At 17, 27 ss. - Note-se como o CRO explica levemente o concurso divino, sem tocar em controvérsias, e como enaltece seu lado positivo para a vida cristã. - 164) Jo 1, 3. - 165) Gn l, 2 - 166) Os 32, 6.

19 de novembro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 52

52) Que é a alma?
A alma é a parte espiritual do homem, pela qual ele vive, entende e é livre.
Depois de haver criado o Céu, a Terra, a Luz e todas as coisas, disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gênesis 1,26).
Plasmou Adão com o lôdo da terra e soprando-lhe no rosto deu-lhe um espírito, isto é, a alma. Infundiu depois em Adão um profundo sono, durante o qual tirou-lhe uma das costelas, com a qual fez a primeira mulher, a quem deu o nome de Eva, que quer dizer: mãe dos viventes.
O homem e a mulher são compostos de alma e de corpo. A alma é a parte mais nobre do homem, pois o faz semelhante a Deus, o que não se dá com as outras criaturas existentes na Terra.
Adão e Eva eram felizes no paraíso terrestre. No entanto bem sabeis, como abusaram eles de sua liberdade, comendo o fruto proibido.
Caros meninos, a alma é um grande dom que recebemos! Agradecei a Deus o ter-vos feito capazes de conhecê-lo, amá-lo e servi-lo.
"A vida da tua carne é a tua alma; a vida da tua alma é o teu Deus (Santo Agostinho: Homilia sobre o Evangelho de João 47,10,8).

17 de novembro de 2009

O Inferno - Santa Francisca Romana

O Inferno Visto e Descrito por Santa Francisca Romana




“Lembra-te dos teus novíssimos e não pecarás” (Ecl. 7,40) — recomenda a Sagrada Escritura. Os novíssimos do homem são as últimas coisas que a ele ocorrerão, ou seja, a morte, o juízo particular, o Céu, o inferno, o purgatório, o fim do mundo, a ressurreição dos mortos e o juízo final.

A 9 de março a Igreja comemora a festa de uma grande santa, cuja vida foi marcada por extraordinárias visões que teve do Céu, purgatório e inferno, bem como a ação dos anjos e dos demônios neste mundo. Trata-se de Santa Francisca Romana.

Nasceu ela em 1384, da nobre família dos Brussa. Com apenas 12 anos, levava já uma vida extraordinária. Sua intenção era de não se casar, mas seu confessor aconselhou-a a não resistir às instâncias de seus pais, tendo esposado então Lourenço de Poziani.

Logo que se casou, caiu gravemente doente, sendo curada milagrosamente por uma aparição de Santo Aleixo, mártir romano. No lar, o teor de sua vida era severo e admirável. Desde o seu restabelecimento, Francisca dedicou-se largamente às obras de caridade. Junto à cunhada Vanosa, pedia esmola de porta em porta, para dar aos pobres nas vias públicas, em zonas onde não era conhecida.

Deus abençoou seu matrimônio, concedendo-lhe seis filhos. O falecimento do filho João, ainda criança, constituiu uma das alegrias de sua existência. Teve ele uma morte extraordinária, e disse ao expirar: “Vejo Santo Antônio e Santo Onofre, que vêm buscar-me para me levarem ao Céu”.


Vários fatos de transcendência pública influenciaram sua vida: a tomada de Roma pelo Rei de Nápoles, que desencadeou uma série de catástrofes sobre sua família; o exílio do Papa Eugênio IV, em virtude da guerra entre florentinos e milaneses, etc.

Ainda em casa do esposo, congregou em torno de si muitas senhoras da melhor sociedade romana, com o fim de se animarem na prática da piedade e virtudes cristãs.

Formou-se a primeira organização de senhoras que, em 1431, recebeu uma regra própria, dando origem às Oblatas de Santa Francisca Romana, cujo pequeno convento tinha o pitoresco nome de Tor de ‘Spechi.

Após a morte do marido, juntou-se a suas filhas espirituais, conduzindo-as aos hospitais e às casas dos pobres. Muitas vezes, em lugar de um remédio ou recurso insuficiente, foi uma cura súbita e miraculosa que Santa Francisca levou aos necessitados.


Deus a consolou com revelações e comunicações místicas sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima.
Tornou-se célebre por seus milagres e dons de cura. Restituiu a vista aos cegos, a palavra aos mudos, a saúde aos doentes, e libertou muitos possessos do demônio.

Santa Francisca teve o pressentimento de sua morte e preveniu seus amigos. Pedia a Deus que a levasse desta vida, pois não queria ver as novas crises que já começavam a assaltar a Santa Igreja. Caiu enferma, vindo a falecer em 1440.

Na vida dessa mística italiana, as visões ocupam um lugar saliente. A propósito do que a Santa viu sobre o inferno, o célebre escritor católico francês Ernest Hello apresenta um apanhado sucinto e sugestivo em sua obra “Physionomie des Saints”, o qual exporemos abaixo.

Inúmeros suplícios, tão variados quanto os crimes, foram mostrados à Santa em detalhes. Por exemplo, viu ela o ouro e a prata serem derretidos e derramados na boca dos avarentos. A hierarquia dos demônios, suas funções, seus tormentos, os diversos crimes aos quais presidem, foram-lhe apresentados. Viu Lúcifer, chefe e general dos orgulhosos, rei de todos os demônios e precitos, rei muito mais infeliz do que os próprios súditos.


O inferno é dividido em três partes: o superior, o do meio e o inferior. Lúcifer encontra-se no fundo do inferno inferior. A Lúcifer, chefe universal, subordinam-se três outros demônios, os quais exercem império sobre os demais:
1) Asmodeu, que preside os pecados da carne, e era antes da queda um Querubim;
2) Mamon, que preside os pecados da avareza, era um Trono. O dinheiro fornece, ele sozinho, uma das três grandes categorias.
3) Belzebu preside aos pecados de idolatria. Tudo que tem algo a ver com magia, espiritismo, é inspirado por Belzebu. Ele é, de um modo especial, o príncipe das trevas, e mediante as trevas ele é atormentado e atormenta suas vítimas.

Inferno: Beato Angelico.

Uma parte dos demônios permanece no inferno, a outra no ar, e uma terceira atua entre os homens, procurando desviá-los do certo caminho. Os que ficam no inferno dão ordens e enviam seus embaixadores; os que residem no ar agem fisicamente sobre as mudanças atmosféricas e telúricas, lançando por toda parte suas más influências, empestando o ar, física e moralmente. Seu objetivo é debilitar a alma.

Quando os demônios encarregados da Terra vêem uma alma enfraquecida pelos demônios do ar, eles a atacam no seu ponto fraco, para vencê-la mais facilmente. É o momento em que a alma não confia na Providência. Essa falta de confiança, inspirada pelos demônios do ar, prepara a alma para a queda solicitada pelos demônios da Terra.

Assim, enfraquecidos pela desconfiança, os demônios inspiram na alma o orgulho, em que ela cai tanto mais facilmente quanto mais fraca esta. Quando o orgulho aumentou sua fraqueza, vêm os demônios da carne que atacam seu espírito. Quando os demônios da carne aumentam mais ainda a fraqueza da alma, vêm os demônios que insuflam os crimes do dinheiro. E quando estes diminuíram ainda mais os recursos de sua resistência, chegam os demônios da idolatria, os quais completam e concluem o que os outros começaram.


Todos se articulam para o mal, sendo esta a lei da queda: todo pecado cometido, e do qual a alma não se arrependeu, prepara-a para outro pecado. Assim, a idolatria, a magia, o espiritismo esperam no fundo do abismo aqueles que foram escorregando de precipício em precipício.

Todas as coisas da hierarquia celeste são parodiadas na hierarquia infernal. Nenhum demônio pode tentar uma alma sem a permissão de Lúcifer.

Os demônios que estão no inferno sofrem a pena do fogo. Os que estão no ar ou na terra não sofrem atualmente tais penas, mas padecem outros suplícios terríveis, e particularmente a visão do bem que praticam os santos. O homem que faz o bem inflige aos demônios um tormento indescritível. Quando Santa Francisca era tentada, sabia, pela natureza e violência da tentação, de que altura tinha caído o anjo tentador e a que hierarquia pertencera.

Quando uma alma cai no inferno, seu demônio tentador é felicitado pelos demais. Mas quando a alma se salva, o demônio tentador recebe insulto dos outros, que o levam para Lúcifer e este lhe inflige um castigo a mais, além das torturas que já padece. Este demônio entra às vezes no corpo de animais ou homens. Ele finge ser a alma de um morto.

Quando um demônio consegue perder certa alma, após a condenação desta transforma-se em tentador de outro homem, mas torna-se mais hábil do que foi a primeira vez. Aproveita-se da experiência que a vitória lhe deu, tornando-se mais forte para perder o homem.


Santa Francisca observava um demônio em cima de alguém que estivesse em estado de pecado mortal. Confessado o pecado, via ela o mesmo demônio ao lado da pessoa. Após uma excelente confissão, o anjo mau ficava enfraquecido e a tentação não tinha mais o mesmo grau de energia.

Ao ser pronunciado santamente o nome de Jesus, Santa Francisca via os demônios do ar, da terra e do inferno inclinarem-se com sofrimentos espantosos, tanto maiores quanto mais santamente o nome de Jesus fora pronunciado.

Se o nome de Deus é pronunciado em meio a blasfêmias, os demônios ainda assim são obrigados a se inclinar, mas um certo prazer é misturado à dor causada pela homenagem que são obrigados a render.

Se o nome de Deus é blasfemado por um homem, os anjos do céu inclinam-se também, testemunhando um respeito imenso. Assim, os lábios humanos, que se movem tão facilmente e pronunciam tão levianamente o nome terrível, produzem em todos os mundos efeitos extraordinários e ecos, dos quais o homem não é capaz de compreender nem a intensidade nem a grandeza.

15 de novembro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 50

50) Os demônios quem são ?
Os demônios são anjos que se rebelaram contra Deus por soberba e foram precipitados no inferno, e que, por ódio contra Deus, tentam o homem para o mal.
Os demônios são os anjos maus.
Lúcifer era o anjo mais lindo do paraíso. Tornou-se orgulhoso, revoltou-se contra Deus e arrastou consigo muitos outros anjos rebeldes.
Levantou-se Miguel contra eles e com os anjos fiéis combateu contra Lúcifer e seus sequazes. Estes foram expulsos do paraíso e precipitados no inferno e desde então são chamados "demônios".
Eles também, como os anjos, são puros espíritos, sem corpo. São inimigos de Deus a Quem odeiam. Invejam a nossa sorte, porque fomos destinados a ocupar no Céu o lugar que eles abandonaram por orgulho.
Não podendo vingar-se contra Deus, procuram todos os meios para fazer-nos mal, perturbando nossa alma com maus pensamentos e nosso coração com maus afetos. Impelem-nos assim ao pecado, que é rebelião contra Deus.
Caros meninos, não escuteis as insinuações do demônio, repeli-o imediatamente, pedindo auxílio a vosso Anjo da Guarda. Dizem os santos que o demônio é como um cão preso à corrente: ladra muito, mas morde só os que dele se aproximam.
"Houve no Céu uma grande batalha: Miguel e seus anjos pelejavam contra o dragão e o dragão com seus anjos pelejavam contra ele (...). E foi precipitado aquele grande dragão, que se chama o demônio (...) e foram precipitados com ele os seus anjos (Apocalipse, 12,7-9).

14 de novembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 2

PARTE PRIMEIRA DO CATECISMO

CAPÍTULO PRIMEIRO

Da fé, e do Símbolo da fé

I. Quanto a fé: 1. Necessidade [1] Nas Divinas Escrituras, o termo "fé" admite várias significações. Aqui vamos falar daquela virtude pela qual assentimos plenamente a tudo quanto nos foi revelado por Deus.

Ninguém terá justo motivo de duvidar que essa fé seja necessária para a salvação, mormente por estar escrito que "sem fé não é possível agradar a Deus". (59)

Realmente, o fim que se propõe ao homem para sua bem-aventurança, é tão elevado que o não poderia descobrir a agudeza do espírito humano. Era, pois, necessário que o homem recebesse de Deus tal conhecimento.

2. Noção Ora, esse conhecimento não é outra coisa senão a própria fé, cuja virtude nos leva a ter por certo o que a autoridade da santíssima Mãe Igreja declara ser revelado por Deus. Nenhuma dúvida podem ter os fiéis das afirmações que vem de Deus, porque Deus é a própria verdade. (60) Este critério nos faz compreender a diferença que vai entre a fé que temos em Deus, e a fé que se dá aos autores de história humana. (60)

3. Graus A fé tem grande extensão, e admite vários graus de grandeza e dignidade, como se depreende da Sagrada Escritura: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" (61) – "Grande é tua fé". (62) – "Aumentai nossa fé". (63) – E ainda: "Fé sem obras é morta" (64) – "A fé que opera pela caridade". (65)

Entretanto, a fé é uma só virtude, e os diversos graus que possa ter entram perfeitamente na mesma definição.

Quantos frutos, e quantas vantagens dela se tiram, é o que vamos ver na explicação dos Artigos.

II. Quanto ao Símbolo: 1. Finalidade [2] Os cristãos devem saber, em primeiro lugar, as verdades que os santos Apóstolos, guias e mestres da fé, inspirados pelo Espírito de Deus, distribuíram nos doze artigos do Símbolo.

Tendo recebido do Senhor a ordem de irem como Seus embaixadores (66), pelo mundo inteiro, a pregar o Evangelho a toda criatura (67), os Apóstolos acharam que se devia compor uma fórmula de fé cristã. Serviria esta para que todos tivessem a mesma crença e a mesma linguagem, e não houvesse separações entre os que foram chamados à unidade da mesma fé, mas fossem todos "perfeitamente conformes no mesmo modo de pensar e sentir". (68)

2. Nome [3] A esta profissão de fé e esperança cristã, que acabavam de redigir, os Apóstolos chamaram-lhe "Símbolo", ou porque se forma das várias proposições que cada um deles apresentou (69), ou porque devia servir de senha para identificar os desertores, os irmãos falsos e intrusos (70) que adulteravam o Evangelho (71), e assim distinguí-los daqueles que verdadeiramente tomavam um santo compromisso na milícia de Cristo.

Creio em Deus

3. Conteúdo [4] Muitas são as verdades que a religião cristã propõe aos fiéis, com a obrigação de aceitá-las numa fé inabalável, quer cada uma delas em particular, quer todas em seu conjunto.

Mas a primeira verdade e a mais essencial, que todos devem acreditar, por ser propriamente a base e o resumo da Revelação, consiste naquilo que o próprio Deus nos ensinou acerca da unidade da essência Divina, da distinção das três Pessoas, das operações que lhes são atribuídas de maneira mais particular. O pároco mostrará, pois, que no Símbolo se contém resumida a doutrina deste mistério.

4. Divisão O Símbolo divide-se em três partes principais, como já diziam os antigos cristãos, quando se punham a explicá-lo com amor e cuidado. A primeira parte trata da Primeira Pessoa da natureza divina, e da prodigiosa obra da Criação. A segunda trata da Segunda Pessoa e do mistério da Redenção dos homens. A terceira afinal descreve, em várias fórmulas adequadas, a Terceira Pessoa, autor e princípio de nossa santificação.

5. Significado dos "artigos" As proposições do Símbolo chamam-se "Artigos", de acordo com uma analogia que nossos Santos Padres usavam com freqüência. Na verdade, assim como os membros do corpo humano se distinguem pelas articulações (72), assim também podemos chamar Artigos as verdades que nesta profissão de fé temos de crer, distintas e separadas umas das outras.

59) Hb 11, 6; DU 801 1793. – 60) Jo 14, 6; DU 1789 1792 1794 1811 2025 2081 2145. – 61) Mt 14, 31 – 62) Mt 15, 28. – 63) Lc 17, 5 – 64) Tg 2, 17 ss. – 65) Gl 5, 6. – 66) 2Cor 5, 20. – 67) Mc 16, 15. – 68) 1Cor 1, 10. – 69) Alusão à lenda de que cada Apóstolo teria formulado individualmente um artigo do Símbolo, antes de se espalharem pelo mundo inteiro. Cfr. S. Ambros. Explicatio Symboli. - 70) Gl 2, 4. – 71) 2Cor 2, 17. – 72) Em latim: articulis. Articulus quer dizer junta ou articulação.