16 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

VI

 Vede quão invencível é a alma « que habita no santuário da Divindade ».
 Não esqueçamos, porém, que o não conseguiremos senão pela fé em Jesus Cristo, nosso Chefe e nosso modelo.
 Com efeito, diz o salmista que, para nos proteger dos dardos inimigos, «Deus nos cercará com a Sua verdade como se fosse um escudo»: Scuto circumdabit te VERlTAS EJUS. É igualmente o pensamento de S. Paulo, ao descrever as armas de que deve munir-se o cristão para a luta espiritual: IN OMNIBUS sumentes scutum FlDEL,­ in quo possitis OMNIA tela nequissimi ignea extinguere. «Em todas as circunstâncias, armai-vos do escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do espírito maligno». S. P.edro exprime-se no mesmo sentido:  « O demônio anda sempre a rondar em torno de vós, em busca duma presa para a devorar; e é pelo vigor da vossa fé que lhe haveis de resistir»: Cui resistite FORTES 1N FIDE.
 Deveis ter notado que, para repelir o demônio, Jesus Cristo apela sempre para a palavra divina. Esta mesma tática nos levará a nós ao triunfo. 
Assim, por exemplo, quando o demônio vos tentar contra a fé, lembrai-vos do testemunho do Pai Eterno a proclamar que Jesus é o Seu Filho muito amado; lembrai-vos de que « só os que creem em Jesus, Filho de Deus, só esses vêm de Deus ». Quando vos induzir à desconfiança, repeti as palavras de Jesus Cristo: «Só Deus é bom»: Nemo bonus nisi solus Deus: ou então: <
 Em todas as circunstâncias - In omnibus - armai-vos das palavras do Verbo; são um escudo contra o qual todos os dardos se virão a quebrar e perder.
 A fé é a arma por excelência. « Tenho como certo - escrevia Santa Teresa, que Deus jamais permitirá ao demônio enganar uma pessoa que, desconfiando de si mesma, está tão firme na fé que, pela menor das verdades reveladas, estaria pronta a afrontar mil mortes.». É a fé que, na hora da provação, no momento da tentação, nos lembra os direitos soberanos de Deus à obediência à sua justiça, os sofrimentos indizíveis pelos quais Jesus expiou o pecado, a gratuitidade da graça, a necessidade da oração, a eternidade das penas com que Deus castiga o pecador que morre impenitente, a infinita beatitude com que recompensa magnificamente uma fidelidade de poucos anos. Todas estas verdades nos está repetindo a fé. E por mais temíveis que sejam as setas do inimigo, por mais violentas que sejam as suas sugestões, por mais prolongado que seja o combate, a alma que tem uma fé viva encontra nessa fé, e na união com Jesus Cristo que ela produz, o melhor apoio da sua resistência, o próprio princípio da sua estabilidade no bem, o verdadeiro segredo da vitória.
 << Feliz da alma - é Deus quem o diz - feliz da alma que suporta assim a tentação sem a ela se expor, que passa através do fogo com os olhos da fé fixos nas palavras e exemplos de Jesus Cristo e nas promessas divinas; triunfará nesta vida e receberá mais tarde o prêmio da sua generosidade e do seu amor: BEATUS vir qui sutfert tentationem: quoniam cum probatus fuerit, accipiet coronam vitae quam repromisit Deus díligentibus se.
 Porque, diz S. Paulo, Jesus Cristo não abandona os Seus discípulos na luta.« Pontífice compassivo que sofreu a tentação, conhece o que é a provação e pode sustentar-nos no meio do combate ». Socorre-nos com a Sua graça, ajuda-nos com a Sua oração. Repete por nós o pedido que fez ao Pai no momento em que ia sofrer, para delas sair vitorioso, as derradeiras investidas do inferno: «Pai, não Vos peço que os tireis do mundo, mas que os preserveis do mal ». E porque cremos em Seu Filho Jesus, porque não nos queremos afastar d'Ele, porque desconfiando de nós mesmos, só n'Ele colocamos, pela oração, a nossa esperança, porque nos vê e nos ama em Seu Filho - Quia tui sunt -, o Pai nos preservará do mal»; mandará os Seus bons Anjos« que invisivelmente se aproximem de nós e nos sirvam ».É  aliás, a magnífica promessa que nos fez, pelos lábios do escritor sagrado, no belo salmo XC, que quero citar ainda ao terminar esta palestra. « Porque recorreu a mim, diz o Senhor, eu o libertarei; porque me reconheceu como o Todo-poderoso, protegê-lo-ei; invocar-me-á.  e eu o atenderei; estarei com ele na aflição para o libertar e cumular de glória; dilatar-lhe-ei os seus dias; e far-lhe-ei ver, para que sempre dela goze, a salvação que só eu posso dar»: Clamabit ad me, et ego exaudiam eum;  cum ipso sum in tribulatione; eripiam eum et glorificabo eum; longitudine dierum replebo eum, et ostendam illi salutare meum.

15 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 282

A INVEJA LEVA A CALUNIA

Numa aldeia da Austria, em 1847, vivia uma pobre mulher, viúva com cinco filhinhos, de seu trabalho de costura e bordado. Uma jovem costureira, chamada Ana Geisel, invejosa da muita freguesia que tinha a viúva e desejando que a perdesse, levantou-lhe Uma calúnia: espalhou que a costureira tinha uma doença contagiosa das mais repugnantes. Os fregueses deram-lhe crédito e, não recebendo mais trabalho, a viúva viu-se obrigada a pedir esmola. Mas mesmo as portas daqueles que antes a favoreciam agora se fechavam para ela. Por ocasião do jubileu de Pio IX, naquele ano, a invejosa-caluniadora confessou a verdade e fez pública retratação numa declaração firmada de próprio punho. Essa declaração a caluniadora mandou fixar no quadro de avisos da prefeitura; além disso enviou à viúva uma pequena indenização pelos prejuízos causados e logo, desapareceu da aldeia para ocultar sua vergonha.
A pobre invejada e caluniada recobrou sua antiga freguesia e dai em diante foi sempre muito favorecida de todos.

14 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

v

 A graça que o Verbo Incarnado nos mereceu, suportando a tentação, foi a força de vencermos o demônio, de sairmos vitoriosos da luta que necessariamente temos de sustentar, antes de sermos admitidos ao gozo da vida divina na bem aventurança celeste. Jesus Cristo obteve que aqueles que estão unidos a Ele participassem - e participam na própria medida da sua união com Ele - da Sua impecabilidade. 
Tocamos aqui no âmago do mistério.
 Vemos no Evangelho que Jesus Cristo era impecável, impassível, inacessível à menor imperfeição. Mas qual é a fonte desta invulnerabilidade moral?
 A razão fundamental é ser Ele o próprio Filho de Deus; como segunda pessoa da Santíssima Trindade, é a santidade infinita e não pode sucumbir ao mal.
Todavia, se examinarmos a Humanidade de Jesus em si mesma, veremos que ela é criada como a nossa, semelhante à nossa; a união com a Divindade não lhe tirou aquelas fraquezas que são compatíveis com a qualidade de Filho de Deus. Jesus Cristo padece fome, sede; a fadiga acabrunha-o;  o sono Lhe cerra as pálpebras; o medo, a tristeza, o tédio invadem-Lhe verdadeiramente a alma; e, no entanto, não há n'Ele a menor sombra de imperfeição. Logo, se a Humanidade de Jesus, como tal, goza da impecabilidade, é porque está maravilhosamente corroborada no bem. Ora qual foi o meio de que se serviu Deus para tornar a santa alma de Jesus inacessível ao mal moral, ao pecado, para afirmar na impecabilidade?
  Foi fazê-la «habitar sob a proteção do Altíssimo »: In adjutorio Altissimi; ou, segundo os termos mais significativos do texto original, « In sanctuario secreto divinitatis». E qual é este asilo, este santuário? - É a visão beatífica.
 Como sabeis, a visão beatífica é a contemplação bem aventurada de Deus, tal qual é em Si mesmo. Aquele a quem tal graça é concedida não pode desprender-se de Deus, porque vê que Deus é o soberano Bem e que nenhum bem particular, por maior que seja, Lhe pode ser comparado. Portanto, o pecado - que consiste em se afastar de Deus para se apegar a um bem que se encontra em si ou na criatura - torna-se radicalmente impossível. Neste bem aventurado estado, em que a inteligência contempla a própria Verdade, não há lugar para ignorância, ilusão ou erro de espécie alguma; e a vontade, presa ao Bem absoluto que encerra em si a plenitude de todo o bem, não conhece hesitações nem desfalecimentos. A alma que atinge tal altura encontra-se, segundo a linguagem teológica, perfeitamente « confirmada na graça >>. 
Esta confirmação na graça é uma consequência da predestinação; comporta diferentes graus proporcionados à perfeição e à medida desta predestinação.
 A Humanidade de Jesus foi predestinada para ser unida ao Verbo eterno; por isso, desde o primeiro instante da sua existência, a alma de Cristo possui, como privilégio resultante desta união, como atributo << conatural », a visão beatífica; ela é confirmada em graça, no grau mais elevado, isto é, na impecabilidade essencial e absoluta. Eis porque ouvimos Nosso Senhor, Chefe de todos os predestinados, desafiar assim os judeus: <
 Na terra, não nos é dado ainda habitar permanentemente nesse << asilo da Divindade ». Mas o que é que para nós substitui neste mundo a visão beatífica? A fé. Pela fé temos Deus sempre presente: Per fidem enim ambulamus; esta fé a cuja luz caminhamos é a fonte da nossa união com Jesus e a raiz da nossa perfeição: Ambula coram me, et esto perfectus. Na medida em que, pela fé, vivermos na contemplação de Deus e permanecermos unidos a Jesus Cristo, nessa mesma medida nos tornaremos invulneráveis à tentação. 
Neste mundo, encontram-se almas já por tal modo unidas a Jesus Cristo, possuidoras duma fé tão grande, que são logo confirmadas em graça. Assim, a Santíssima Virgem foi, por privilégio único, predestinada a ser isenta de todo o pecado, mesmo do pecado original: Tota pulchra es, Maria, et macula originalis non est in te. S. João, o Precursor, foi santificado no seio materno, e os Padres da Igreja ensinam-nos que ele foi confirmado na graça divina; o mesmo sucedeu com os Apóstolos, depois de receberem o dom do Espírito Santo no dia do Pentecostes.
 A todos dá Deus uma parte desta confirmação em graça, parte correspondente, como disse, à nossa vida de fé. Uma alma que, pela fé, vive habitualmente na contemplação divina bebe de contínuo nessa fonte de vida: Quoniam apud te est fons vitae; participa da união de Jesus Cristo com o Pai -Ego in eis, et tu in me - e, por conseguinte, do amor que o Pai tem ao Seu Filho Jesus: Ut dilectio qua dilexisti me in ipsis sit, et ego in ipsis.
 Por isso, o Senhor tem para com esta alma verdadeiras complacências; protege-a, torna-a, pouco a pouco, invulnerável. Poderão atacá-la todos os inimigos; «cairão mil à sua esquerda, dez mil à sua direita, nada a atingirá»; calcará aos pés os demônios; pode o universo inteiro sublevar-se em volta dela, desencadear-se contra ela; dirá a Deus: «Sois o meu protetor e o meu refúgio, e o Senhor a libertatá de todas as ciladas e de todos os perigos>>: Quoniam in me speravit liberabo eum. 
A lgteja, que tanta solicitude dispensa a seus filhos, que conhece a quantos perigos estão expostos, que sabe, por outro lado, as poderosas graças de vida que nos trazem os mistérios do Verbo Incarnado e a nossa união com Ele, recorda-nos todos os anos, no princípio da Quaresma, o mistério da tentação de Jesus. Quer que, a exemplo do Mestre, vivamos durante quarenta dias em espírito de penitência, no retiro, na solidão e na oração.
 Para nos ajudar a bem passar este tempo, para despertar em nossos corações os sentimentos que os devem animar, dá-nos a ler, no princípio desta santa quarentena, a narração do jejum, da tentação e do triunfo de Jesus Cristo.
 Ao mesmo tempo, põe em nossos lábios todo o salmo XC, que começa pelas palavras que vos acabo de explicar: «Aquele que habita no seio da Divindade permanecerá sob a proteção do Deus do céu ». É por excelência o salmo da confiança no meio da luta, da provação e da tentação.
 As magníficas promessas que nele se encerram aplicam-se em primeiro lugar a Jesus Cristo e depois a todos os membros do Seu Corpo Místico, na medida da vida da graça e fé que possuem.
 Por tal motivo, a Igreja não se contenta com no-lo fazer ler, por inteiro, na Missa do primeiro Domingo da Quaresma; extrai dele ainda para o seu Ofício canônico versículos que nos faz recitar todos os dias deste longo período, afim de colocar incessantemente diante dos nossos olhos as atenções do Pai celeste. « Ordenou a Seus Anjos que te guardassem em todos os teus caminhos»: Angelis suis (Deus) mandavit de te: ut custodiant te in omnibus viis tuis. «É Ele quem liberta a minha alma da rede do passarinheiro e da palavra amarga que abate>>: lpse liberavít me de laqueo venantium et a verbo aspero. «Cobrir-te-á  com as suas asas, e n'Ele encontrarás um refúgio cheio de esperança»: Scuto circumdabit te veritas ejus; non timebis a timore nucturno.
 Quanta confiança não despertam na alma semelhantes promessa diariamente repetidas! Que segurança lhe não infundem para trilhar o caminho da salvação -  Ecce nunc dies salutís -, por mais rodeada que esteja de ciladas e de inimigos! Deus está com ela; e, « se Deus está conosco, diz S. Paulo, que poderão aqueles que estão contra nós? ». Porque, acrescenta «nunca o Senhor permitirá que sejamos tentados ou experimentados além das nossas forças; antes nos protegerá e, pela sua proteção, fará com que vençamos a provação, resistamos à tentação e mostremos a nossa fidelidade, fonte de merecimentos e de glória: Cum tentatione praventum .

13 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 281

O INVEJOSO CAUSA DANO A SI PRÓPRIO

Um príncipe de Siracusa tinha dois criados: um era avarento e o outro, invejoso.
Um dia disse-lhes o príncipe: “Quero fazer-vos um presente. O primeiro que pedir terá o que desejar; e ao outro darei o mesmo presente, porém em dobro”. Um por avareza e o outro por inveja, nenhum queria pedir primeiro. Afinal o príncipe, para acabar de uma vez, mandou ao invejoso que pedisse. Este, depois de refletir algum tempo, pediu que lhe arrancassem um olho. Por que? Para que ao seu companheiro tivessem de arrancar os dois.

12 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV 

Contemplemos agora o nosso divino Chefe em luta com o príncipe dos espíritos rebeldes.
 Sabeis que Jesus esteve no deserto quarenta dias e quarenta noites, <
 Para bem compreenderdes o mistério da tentação de Jesus, lembrai-vos do que tantas vezes vos tenho dito: Jesus Cristo é em tudo semelhante a nós: Debuit per omnia fratribus similari. Imaginai agora a que estado de fraqueza ficaria reduzido um homem que, durante quarenta dias, não tomasse alimento algum. Não quis Nosso Senhor fazer milagres para impedir em Si os efeitos do jejum; por isso, diz- nos o Evangelho que, depois deste tempo todo, Jesus sentiu fome: Postea esuriit. Naturalmente, depois de tanto tempo, devia achar-se num estado de extrema fraqueza. Vamos já ver como o demônio se vai aproveitar da ocasião para O tentar.
 No entanto, embora participe das nossas enfermidades e fraquezas, a santa Humanidade de Jesus Cristo não pode conhecer o pecado: Absque peccato; a alma de Jesus não está sujeita a ignorância, a erro, a fraqueza de espécie alguma.
 Escusado será dizer que tão pouco experimenta nenhum desses movimentos desordenados que em nós resultam da culpa original ou dos hábitos do pecado. Se, por amor de nós, Jesus padece fome e abatimento, em Si mesmo permanece o Santo dos santos. Qual é a consequência desta doutrina? Que a tentação que Jesus Cristo pode sofrer Lhe não atinge a alma, é apenas exterior; não pode ser tentado senão <
Entre estes espíritos devemos pensar que aquele que tentou o Salvador era dotado de um poder particular: por maravilhosa, porém, que fosse a sua inteligência, ignorava contudo quem era Jesus Cristo. Criatura alguma pode ver a Deus, a não ser pela visão beatífica, de qual está privado o demônio.
 Do mesmo modo lhe não era permitido conhecer a chave do mistério que estabelece em Jesus a união da Divindade com a Humanidade. Certamente suspeitava qualquer coisa; não se esquecera da maldição que sobre ele pesava. desde que Deus estabelecera inimizade eterna entre Satanás e a mulher que lhe devia esmagar a cabeça, isto é, destruir o seu poder sobre as almas; não podia ignorar os prodígios que se haviam operado desde o nascimento de Jesus; o relato da tentação mostra-o claramente. A sua ciência, porém, era incerta. Queria, ao tentar a Jesus Cristo, conhecer de modo indubitável se era possível triunfar daquele homem, que, não havia dúvida, considerava um ser extraordinário. 
O tentador aproxima-se, pois, de Jesus, diz-nos o Evangelho! Et accedens tentator. Vendo-O num estado de esgotamento, tenta fazê-lo cair num pecado de gula. Não num pecado de grande gulodice, apresentando a Jesus Cristo suculentas iguarias; o demônio tinha uma opinião muito elevada 
d'Aquele que atacava, para acreditar que pudesse sucumbir a uma sugestão deste gênero. Mas sugere a Jesus, acabrunhado pela fome, que, se é o Filho de Deus, tem o poder de operar milagres para a satisfazer. Queria assim induzir Jesus Cristo a antecipar a hora do Pai para realizar um prodígio cuja finalidade era inteiramente pessoal. «Se és o Filho de Deus diz a estas pedras» - e mostrava-as aos pés de Jesus - << que se transformem em pão». E que responde Nosso Senhor? Dá a conhecer a sua qualidade de Filho de Deus? Não. Opera o milagre proposto pelo demônio? Ainda menos. Limita-se a replicar com uma palavra da Escritura: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus». Mais tarde, durante a vida pública, um dia em que os Apóstolos Lhe trazem alimento - «Mestre, comei»: Rabbi manduca -, Jesus Cristo dá uma resposta análoga: «Tenho um alimento que vós não conheceis: cumprir a vontade do meu Pai». O mesmo diz ao demônio. Esperará, para satisfazer a fome, que o Pai venha em Seu auxílio; não antecipará o momento marcado pelo Pai para revelar o Seu poder; quando o Pai falar, escutará a Sua voz.
 Vendo-se repelido, Satanás compreende que tem diante de si, senão o Filho de Deus, pelo menos um ser de grande santidade. Por isso, resolve lançar mão de outra arma mais perigosa. Conhece maravilhosamente a natureza humana; sabe que aqueles que atingiram um alto grau de perfeição e de união com Deus estão acima das solicitações do apetite grosseiro dos sentidos, mas podem-se deixar seduzir pelas sugestões mais sutis do orgulho e presunção; podem-se julgar superiores aos outros e pensar que, em atenção à sua fidelidade, mesmo quando se exponham voluntariamente ao perigo, Deus é obrigado a dispensar-lhes especial proteção. - O dem­ônio intenta, pois, impelir a Cristo por esse caminho. Fazendo uso do seu poder espiritual, transporta Jesus ao pináculo do Templo e diz-Lhe :«Se és o Filho de Deus, atira-te daqui abaixo; para ti não haverá perigo algum, porque Deus ordenou aos Seus Anjos que te amparem em suas mãos, para não te ferires de encontro às pedras». «Se Jesus é o Filho de Deu», aparecer assim no ar e descer no meio da multidão que se aglomera no átrio, que maravilhoso sinal da Sua missão messiânica, que prova evidente de que Deus está com Ele! E para tornar a sugestão mais sedutora, o demônio recorre à autoridade da palavra divina. - Mas Jesus replica, dum modo soberano, com outro texto sagrado: <
 O espírito das trevas tenta vencer a Cristo num derradeiro assalto. Transporta-O ao cume duma elevada montanha, e mostra-Lhe todos os impérios do mundo, desenrola a Seus olhos todas as suas riquezas, todo o seu esplendor e glória. Que tentação para a ambição d'Aquele que se considerava o Messias! Faltava marcar-lhes o preço. Mais um ardil do espírito maligno para conhecer finalmente quem era Aquele que lhe resistia. «Tudo isto me pertence; mas tudo te darei, se, prostrando-te, me adorares». - Conheceis a resposta de Jesus e o vigor com que repele as sacrílegas sugestões do demônio: «Retira-te, Satanás! Está escrito: só a Deus adorarás e só a Ele servirás ».
 O príncipe das trevas sente-se agora inteiramente desmascarado: só lhe resta retirar-se. Mas, diz o Evangelho, «foi só por certo tempo que se afastou»: Usque ad tempus. O escritor sagrado dá assim a entender que, durante a vida pública, o demônio voltará ao ataque; pelos seus ministros, quando não em pessoa, perseguirá sem tréguas a Nosso Senhor; durante a Paixão principalmente há de encarniçar-se, pelas mãos dos fariseus, em perder Jesus: Haec est hora vestra, et potestas tenebrarum. O demônio incitará os fariseus, e estes o povo, a exigirem que o Salvador seja crucificado: Tolle, tolle, crucifige eum. Sabeis, no entanto, que a morte do Salvador na Cruz será precisamente o golpe decisivo que arruinará para sempre o império do demônio. Assim resplandece a sabedoria em todas as suas obras! Qui salutem humani generis in ligno crucis constituistí ... ut qui in ligno vincebat in ligno quoque vinceretur.
 O Evangelho acrescenta que, << tendo-se retirado o tentador, os Anjos desceram do céu para servirem a Jesus ». Era a manifestação sensível da exaltação que o Pai concedia ao Filho por se ter abaixado a ponto de suportar em nosso nome os ataques do demônio. Apareceram os Anjos fiéis e serviram a Jesus o pão que esperava, na hora designada pela Providência do Pai. 
Até aqui, o relato evangélico da tentação de Jesus. Se Jesus Cristo, Verbo Incarnado, Filho de Deus, quis entrar em luta com o espirito maligno, como admirar-nos de que os membros do seu corpo mistico tenham de seguir por igual caminho? Muitas pessoas, mesmo piedosas, creem que a tentação é um sinal de condenação. Mas, a maior parte das vezes, é o contrário! Tendo-nos tornado discípulos de Jesus pelo Batismo, não podemos « estar acima do nosso divino Mestre ». QUIA acceptus eras Deo, NECESSE FUIT ut tentatio pro­baret te: « Porque eras agradável a Deus, foi necessário que a tentação te experimentasse ». É o próprio Senhor quem no-lo diz.
 Sim, o demônio pode tentar-nos, e tentar-nos poderosamente, e tentar-nos quando nos julgamos inteiramente ao abrigo dos seus dardos: nas horas de adoração, depois da sagrada Comunhão; nestes momentos abençoados pode sugerir-nos pensamentos contra a fé, contra a esperança, pode induzir o nosso espírito à independência para com os direitos divinos, à revolta; pode despertar em nós as paixões. Pode, e não deixará de o fazer.
 Repito, não nos admiremos; nunca nos esqueçamos de que Jesus Cristo, em tudo nosso modelo, foi tentado antes de nós, e não só tentado, mas tocado pelo espírito das trevas; permitiu ao demônio pusesse a mão na Sua Santa Humanidade.
 Sobretudo não esqueçamos que não foi só como Filho de Deus que Jesus venceu o demônio, mas também como Chefe da Igreja; n'Ele e por Ele triunfamos e triunfaremos das sugestões do espírito rebelde.
 Foi esta precisamente a graça que nos mereceu o nosso divino Salvador por este mistério; nele encontraremos a fonte da nossa confiança nas provações e nas tentações; resta-me apenas mostrar-vos como esta confiança deve ser inquebrantável, e como, pela fé em Jesus Cristo, encontraremos sempre o segredo da vitória. 

11 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 280

FOI POR INVEJA...

Um bom jardineiro plantou perto de sua casa algumas videiras, que davam sombra agradável e deliciosas uvas. É verdade, não eram muitas, mas excelentes. Um vizinho invejoso veio uma noite e cortou muitos galhos da videira. De manhã, quando viu aquele estrago, o bom jardineiro sentiu muito pesar, pois ignorava que a poda faz frutificar a videira, e dizia: “Tenho vontade chorar; mas como não choro, minhas pobres videiras derramam lágrimas ao verem-se tão cruelmente maltratadas”. Quão grande foi, porém, a alegria do jardineiro, quando viu que naquele ano a videira produziu maior número de cachos, maiores e mais formosos do que no ano anterior. Foi devido a inveja de seu vizinho que ele aprendeu a podar as videiras e torná-las fecundas.

10 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Logo depois do batismo, conta-nos o Evangelho que Jesus foi levado ao deserto pelo Espirito. Os escritores sagrados empregam várias expressões para significar esta ação do Espírito Santo. Jesus foi "conduzido", diz S. Mateus; foi "impelido", explica S. Lucas; foi "levado", segundo S. Marcos. Que poderá indicar esta variedade de termos, senão a veemência da ação interior do Espírito Santo sobre a alma de Jesus Cristo? E com que fim é assim impelido para o deserto? Ut tentaretur a diabolo: "para ali ser tentado pelo demônio". É o próprio testemunho do Evangelho.
 Coisa estranha esta! Acaba o Pai de proclamar que Jesus é o Seu Filho muito amado, o objeto das Suas complacências; sobre Ele repousa o Espírito de amor; e eis que «imediatamente» - statim - esse Espírito O leva para o deserto para ali ser exposto às sugestões do demônio. Que mistério! Que poderá significar tão extraordinário episódio na vida de Cristo? Porque procede assim no início da Sua vida pública?
Para bem compreendermos a profundeza deste mistério e antes de expormos o relato evangélico, devemos, em primeiro lugar, recordar o papel que a tentação desempenha na nossa vida espiritual.
 As perfeições divinas exigem que a criatura racional e livre seja submetida a uma provação, antes de ser admitida ao gozo da futura beatitude. É mister que esta criatura seja posta em face de Deus e diante da provação e que, livremente, renuncie à própria satisfação para reconhecer a soberania de Deus e obedecer à Sua lei. A santidade e a justiça divina reclamam esta homenagem.
 Esta escolha, gloriosa para o Ser Infinito, é para nós o fundamento do mérito que o Senhor recompensa com a bem aventurança celeste. O Concilio de Trento definiu que é Deus quem nos salva, de tal modo, porém, que a salvação é, ao mesmo tempo, dom da misericórdia divina e recompensa dos nossos merecimentos. A vida eterna será a nossa recompensa, porque, tendo de escolher, repelimos a tentação para seguirmos a Deus; submetidos à provação, suportamo-la, a fim de permanecermos fiéis à vontade divina. O ouro purifica-se no cadinho; a constância no meio da tentação revela uma alma digna de Deus.
 Tal é a nobre condição de toda a criatura livre. 
Foram os Anjos os primeiros a ser submetidos à provação. Embora ignoremos em que tenha consistido esta provação, sabemos, contudo, que a sua natureza correspondeu ao modo de ser angélico.
 Sabeis que os Anjos são criaturas exclusivamente espirituais; os seus atos não são, como os nossos, medidos pelo tempo; mais ainda, possuem um poder, uma envergadura, uma profundeza, que nenhum ato humano pode atingir. Puros espíritos não raciocinam. Em nós, a extrema mobilidade da nossa imaginação, faculdade sensitiva ligada ao organismo corporal, apresenta à nossa escolha múltiplos bens particulares, cuja variedade retarda a ação da nossa inteligência e da nossa vontade; passamos dum bem a outro bem, voltando ao que a princípio havíamos decidido rejeitar. Não se dá o mesmo com o Anjo; nele, natureza inteiramente espiritual, não há lugar para a hesitação; os atos da inteligência e da vontade revestem um caráter de plenitude, de fixidez, de irrevogabilidade que lhes confere uma força incomparável. 
Nenhuma existência humana, por mais prolongada que seja, poderá atingir, pelo conjunto das suas aspirações, o poder, a intensidade do ato único pelo qual os Anjos devem ter fixado a sua escolha no meio da provação.
 Por isso mesmo a fidelidade dos Anjos bons foi tão agradável a Deus; por isso mesmo também o pecado de revolta dos espíritos rebeldes possui uma gravidade que não podemos avaliar e de que somos incapazes. A penetração do conhecimento que lhes permitiu agir em plena luz, deu a esse pecado único tal malícia, que a justiça divina teve de o punir com uma sentença imediata de eterna condenação.
 Para nós, a aceitação da provação, a resistência à tentação envolvem toda a nossa existência neste mundo; a luta contra as seduções corruptoras, a paciência nas contradições queridas ou permitidas pela Providência, são coisa de todos os dias: Militia est vita hominis super terram. 
Mas é também todos os dias ocasião magnífica de fidelidade constante a Deus. Uma alma que, desde a hora em que adquire consciência dos seus atos até ao instante em que se separa do corpo, nunca houvesse cometido uma falta deliberada; que, colocada entre Deus e as solicitações suscetíveis de a afastar d'Ele, houvesse livremente optado sempre pela vontade divina, - daria a Deus uma glória imensa. E por quê? Porque, em todos os seus atos, essa alma proclamaria que só Deus era o seu Senhor. <
O primeiro homem foi submetido à provação. Vacilou, caiu, preferiu a criatura e a sua própria satisfação a Deus. Deste modo, arrastou toda a raça humana na sua rebelião, na sua queda e no seu castigo.
 Por este motivo, foi necessário que o segundo Adão, que representava todos os predestinados, procedesse de forma contrária. Na Sua adorável Sabedoria, quis Deus Pai que Jesus Cristo, nosso Chefe e nosso modelo, fosse colocado em face da tentação e, por Sua livre escolha, dela saísse vitorioso, a fim de nos ensinar a vencer. É uma das razões deste mistério.
 Há outra razão, mais transcendente, que liga intimamente este mistério ao do batismo.
 De fato, que dizia Jesus ao Precursor quando este se recusava a desempenhar o seu ministério de penitência para com Ele? «Consente por agora, porque é necessário cumprirmos assim toda a justiça>. - Esta justiça, como já vimos, consistia, para Jesus, em suportar todas as expiações decretadas pelo Pai para a redenção do gênero humano. Dare animam suam redemptionem pro multis. Desde o pecado de Adão, a raça humana é escrava de Satanás, e é das mãos do príncipe das trevas que Jesus a deve salvar; foi «para destruir o reino do demônio que Ele apareceu na terra»; In hoc apparuit Filius Dei, ut dissolvat opera diaboli. - É por isso que, depois de ter recebido o batismo, em que é apontado como «o Cordeiro de Deus que vem tirar o pecado do mundo» e arrancar todo o rebanho ao poder do demônio, o Verbo Incarnado entra em luta com - «o príncipe deste mundo»; é por isso que o Espírito Santo O leva imediatamente para o deserto, como se fazia outrora com o bode expiatório, carregado de todos os pecados do povo: Ut tentaretur a diabolo. 

9 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 279

PERDOAR AS INJÚRIAS

S. Afonso Maria de Ligório soube que alguns de sua Congregação não queriam dar esmola a uma mulher que muito os havia ofendido e molestado. Escreveu-lhes imediatamente: “Quero que lhe deem tudo quanto pedir; mormente porque foi nossa inimiga”.
E ao reitor. de uma de suas casas que lhe referiu uma injustiça, que lhe fizera a gente daquela terra, respondeu: “Como? Isto vos fizeram? Convém pensar em vingar-vos. Mas de que modo? Deste: abri mais as mãos para as esmolas que se fazem à porta do convento; ficai no confessionário mais tempo; visitai e socorre os enfermos; nunca vos queixeis do agravo que vos fizerem: esta seja a vossa vingança”.
E o que aconselhava aos outros, era ele o primeiro a praticar.