8 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II 

Esta cena misteriosa não é mais do que uma aplicação particular da lei divina que vos indiquei no princípio desta palestra: é preciso que Jesus Cristo seja glorificado, uma vez que por nós sofreu a humilhação. Jesus abaixa-se até se confundir com os pecadores, e eis que logo o céu se abre para O exaltar; solicita um batismo de penitência, de reconciliação, e eis que o Espírito de amor testemunha que repousa em Jesus com a plenitude dos Seus dons de graça; reconhece-se merecedor dos golpes da justiça divina, e eis que o Pai O proclama o objeto de todas as suas complacências: Humiliavit semetipsum ... propter quod et Deus exaltavit illum. 
Esta solene glorificação de Jesus Cristo não interessa somente à Sua pessoa; tem um alcance muito extenso, que quero pôr em relevo.
 É nesse momento que a missão de Jesus, como enviado de Deus, é declarada autêntica: o testemunho do Pai acredita, para assim dizer, o Seu Filho junto do mundo e liga-se, por este lado, a um dos caracteres da obra de Jesus Cristo a nosso respeito.
 De fato, devemos notar que a missão de Jesus reveste um duplo aspecto: tem, ao mesmo tempo, o carácter duma redenção e duma santificação; resgatar as almas e depois infundir-lhes a vida, eis toda a obra do Salvador. Estes dois elementos são inseparáveis, mas distintos.
 Achamo-los em germe nas circunstâncias que assinalam o batismo de Jesus Cristo, prelúdio da Sua vida pública. 
Já vimos de que modo, ao apresentar-se para receber o batismo de penitência, o verbo Incarnado afirma a Sua qualidade de Redentor; deve consumar a Sua obra pelo dom da Sua vida divina, que nos confere em virtude dos merecimentos da Sua Paixão e Morte: Unigenitum misit Deus in mundum ut vivamus per eum. Deus deu-nos o Seu Filho para que aqueles que nele crêem tenham a vida: «Ut omnis, qui credit in ipsum, NON PEREAT, sed HABET VITAM aeternam .
 A fonte da vida eterna é em nós uma luz.
 No Céu é a luz da visão beatifica. Nesta luz, vivemos da própria vida de Deus: Quoniam apud te est fons vitae: et in lumine tuo videbimus lumen. 
Neste mundo, a fonte da nossa vida sobrenatural é igualmente uma luz, a luz da fé. A fé é uma participação do conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Esta participação é comunicada à alma pelo Verbo Incarnado; torna-se para nós uma luz que nos guia em todos os nossos caminhos, e é por isso que deve vivificar toda a nossa atividade sobrenatural: Justus meus ex fide vivit.
 Ora o fundamento desta fé é o testemunho que Deus dá do Seu Filho Jesus: <
 Jesus Cristo é apresentado solenemente ao mundo como o enviado do Pai. Tudo o que nos disser será o eco dessa verdade eterna que Ele contempla sempre no seio do Pai: Unigenitus Filius, que est in sinu Patris, ipse enarravit. «A Sua doutrina não será Sua, mas do Pai que O envia». Repetirá tudo quanto ouviu, e assim é que Jesus, no último dia, poderá dizer ao Pai: << Pai, cumpri a obra que me confiaste; dei-te a conhecer ao mundo».
 As palavras do Verbo Incarnado não produziram em todas as almas a luz que deve ser para elas o principio da salvação e da vida. Ele é, sem dúvida, «a luz do mundo»; mas é preciso segui-la, se não quisermos andar nas trevas e quisermos alcançar essa luz eterna que é a fonte da nossa vida no céu»: Qui sequitur me, non ambulat in tenebris, sed habebit lumen vitae; só são aceites a Deus aqueles que recebem o Seu Filho. 
Para ouvir com fruto a palavra de Jesus Cristo, é preciso ser atraído pelo Pai: Omne quod dat mihi Pater, ad me veniet; aqueles que não são atraídos pelo Pai não ouvem a voz do Verbo: Vos non auditis, quia ex Deo non estis. E quem são os que são atraídos pelo Pai? Os que reconhecem em Jesus o próprio Filho de Deus: OMINIS qui credit quoniam Jesus est Christus, ex Deo natus est.
 É por isso que este testemunho público dado pelo Pai a Jesus, depois do batismo, constitui a um tempo o ponto de partida de toda a vida pública de Jesus, Verbo Incarnado, luz do mundo, e o próprio fundamento de toda a fé cristã e de toda a nossa santificação. 
Assim, este mistério do batismo de Jesus, que marca o início do Seu ministério público, contém como que o resumo de toda a Sua missão neste mundo.
 Pela humilhação que quis sofrer, recebendo este rito de penitência <
 Em paga, abre-se o céu. O Pai Eterno introduz autenticamente o Seu Filho no mundo. O esplendor de glória que Lhe dá este testemunho divino anuncia a missão de iluminação das almas, que o Verbo feito carne vai iniciar. O Espírito Santo desce sobre Ele ;para marcar a plenitude dos dons que exornam a Sua alma santa e simbolizar, ao mesmo tempo, a unção da graça que Jesus Cristo deve comunicar ao mundo. 
O batismo, com a fé em Jesus Cristo, tornou-se para nós o sacramento da adoção divina e da iniciação cristã. É nos conferido em nome da Santíssima Trindade, dessa Trindade que se nos revelou nas margens do Jordão.
 Santificada pelo contato da Humanidade de Jesus e unida ao «Verbo de verdade», a água tem a virtude de apagar os pecados daqueles que detestam as suas faltas e proclamam a sua fé na Divindade de Jesus Cristo; é <
 De modo que, diz S. Paulo, <
 Do mesmo modo que o batismo constitui para Jesus Cristo o resumo de toda a Sua missão, simultâneamente redentora e santificadora, assim contém para nós, em germe, todo o desenvolvimento da vida cristã, com o seu duplo aspecto de <
É uma verdade, segundo a palavra do Apóstolo, que <
 Ó feliz condição dos cristãos fiéis: Ó cegueira insensata daqueles que esquecem as suas promessas batismais! Ó terrível destino daqueles que as calcam aos pés!. ..
É que, dizia aos judeus o Precursor, <

7 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 276 a 278

CARIDADE COM OS MENINOS

1. S. José Benedito Cottolengo disse certo dia a Dom Bosco: “O pano de tua batina é muito fino. Por enquanto pode servir; mas quando fores sacerdote, lembra-te de trocá-lo... Milhares de meninos te cercarão: um puxará à direita; outro, à esquerda, e tua pobre batina logo estará em pedaços. Lembra-te de fazê-la de pano mais forte”...
O mesmo S. Jolo Bosco escrevia em suas “Memórias”: “Em pouco tempo encontrei-me rodeado de jovenzinhos obedientes e trabalhadores, cuja conduta nos dias de trabalho como nos dias de festa eu podia garantir... Um levei-o à casa dos pais, de onde fugira; outro, que era ocioso e vagabundo, coloquei-o com um patrão dedicado ao trabalho; alguns recém-saídos do cárcere tornavam-se modelos dos companheiros; muitos, ignorantíssimos das coisas da fé, instruíram-se na religião”

2. Um dia disse a um deles:
— Queres dar-me a chave?
— Que chave, senhor? a do meu baú?
— Que vou fazer com a chave do teu baú? Dá-me a chave do teu coração! Ajuda-me!
— Ajudar no que, senhor?
— Ajuda-me a salvar, a tua alma. Façamos assim: primeiro uma confissão de tua vida futura.
— De minha vida futura, Dom Bosco, não pode ser.
— Tens razão — respondeu — como se logo notasse a dificuldade. — Mas, não importa, façamos uma confissão de tua vida passada. Fica, porém, tranqüilo; o que não puderes dizer, Dom Bosco o dirá.

3. S. João Bosco descreve num de seus sermões a chegada, ante as portas de Roma, de um jovem estudante, que depois foi S. Filipe Néri:
— Quem és? e o que é que olhas com tanta ansiedade?
— Sou um pobre forasteiro; contemplo esta grande cidade e um pensamento me agita; mas temo que seja loucura ou temeridade.
— Que pensamento é o teu?
— Consagrar-me ao bem de tantas pobres almas, de tantos meninos que, por falta de instrução religiosa, vão correndo pelo caminho da perdição.
— Possuis ciência para isso?
— Estudei um pouco, mas estou muito longe da sabedoria.
— Tens meios materiais?
— Nada: não tenho nem um pedaço de pão, afora o que me dá o meu amo cada dia por caridade.
— Tens igreja? tens casa?
— Não tenho mais que um quartinho estreito e emprestado. Estendi uma corda de uma parede à outra e ali penduro minha roupa.
— Como queres, pois, sem ciência, sem fortuna, empreender tão gigantesca tarefa? Como te chamas?
— Filipe Néri.
Neste diálogo S. João Bosco retratava a si mesmo; pois, com esses mesmos sentimentos, apresentava-se em Turim (1841) para ser o “apóstolo dos meninos”.

6 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

Sabeis que Deus estabelecera como Precursor, encarregado de anunciar aos judeus a vinda do Verbo Incarnado, a João, filho de Zacarias e de Isabel.
 Depois duma existência toda de austeridade, impelido por inspiração divina, João começara, aos trinta anos, a pregar nas margens do Jordão. O seu ensino resumia-se todo nestas palavras: «Fazei penitência, pois se aproxima o reino de Deus». As suas insistentes exortações, juntava o batismo no rio, a fim de mostrar assim ao auditório a necessidade de purificar as almas para as tornar menos indignas da vinda do Salvador. Este batismo só era concedido aos que, reconhecendo-se pecadores, confessavam as suas faltas.
 Ora um dia em que o Precursor administrava <
Quando a alma piedosa se detém a pensar que Aquele que assim se proclama pecador e voluntariamente se apresenta para receber um batismo de penitência é a segunda pessoa da Santíssima  Trindade, diante de Quem os Anjos velam a face e cantam: «Santo, santo, santo», - fica assombrada com tão prodigioso aniquilamento.
 Diz-nos o Apóstolo que Jesus Cristo é «santo, inocente, sem mácula, separado dos pecadores», e eis que o próprio Jesus se apresenta como um culpado, a pedir o batismo da remissão dos pecados! Que mistério é este? 
É que, em todos os Seus estados, o Verbo Incarnado desempenha duplo papel: o de Filho de Deus, em virtude da Sua eterna geração, e o de chefe duma raça pecadora, de quem possui a natureza e à qual vem resgatar.
 Como filho de Deus, pode pretender sentar-se à direita do Pai e aí fruir a glória a que tem direito nos esplendores do céu.
 Mas, como chefe da humanidade decaída, tendo revestido uma carne, culpada na raça, embora puríssima n,Ele -In similitudinem carnis peccati, - não poderá entrar no céu à frente desse corpo mistico, senão depois de ter passado pelas humilhações da Sua vida e sofrimentos da Sua Paixão: Nonne haec oportuit pati Christum, et ita intrare in gloriam suam?.
Possuindo, diz S. Paulo, a natureza divina, Jesus Cristo não pensava cometer injustiça alguma declarando-se igual a Deus em perfeição; mas, por nós, para nossa salvação, desceu a abismos de humilhação; e, por este motivo, o Pai exaltou-O, dando-Lhe este nome de Jesus que encerra a nossa Redenção. Ao exaltar o Seu Filho, «O Pai eleva-nos com Ele ao mais alto dos céus»: Consedere facit nos in caelestibus. É realmente para nos preceder que Jesus Cristo entra no céu: Ubi praecursor pro nobis introivit Jesus. 
Todavia, não entrará lá sem primeiro saldar com o Seu sangue a nossa dívida para com a justiça divina: Per proprium sanguinem introivít ... in sancta, aeterna redemptione inventa. 
É que, de fato, Jesus Cristo vem para nos libertar da escravidão do demônio, em cujo poder a humanidade caíra em consequência do pecado: Qui facit peccatum, servus est peccati; vem para nos salvar dos suplícios eternos que Satanás tinha o poder de nos infligir, como ministro da justiça divina: Ne forte tradat te judici, et judex tradat te ministro.
 Ora o Verbo Incarnado, Homem-Deus, não reali­zará esta Redenção, senão tomando voluntariamente o nosso lugar de pecadores e tornando-se solidário com o nosso pecado, a ponto, diz S. Paulo, de Deus o constituir como um pecado vivo: Eum qui non noverat peccatum, pro nobis peccatum fecit. Se toma sobre Si as nossas iniquidades, terá de suportar também os nossos castigos; deverá, portanto, so­frer aniquilamentos e humilhações sem conta.
 Tal é o decreto eterno.
 Compreendeis agora porque, logo ao princípio da Sua vida pública, no momento de inaugurar de um modo manifesto a Sua missão redentora, Jesus se submete a um ato de profunda humildade, a um rito que O colocava entre os pecadores.
 Ora vede, quando João, esclarecido do alto, reconhece n'Aquele que se apresenta o Filho de Deus, Aquele de quem havia dito: <
Qual é esta justiça? São as humilhações da adorável Humanidade de Jesus que, prestando uma homenagem suprema à Santidade Infinita, saldam completamente todas as nossas dívidas para com a justiça divina. Jesus, justo e inocente, toma o lugar de toda a raça pecadora: ]ustus pro injustis; e, por Sua imolação, torna-se o «Cordeiro de Deus que apaga os pecados do mundo», a «propiciação por todos os crimes da terra». É assim que Ele <
Ao meditarmos estas profundas palavras de Jesus, humilhemo-nos com Ele; reconheçamos a nossa qualidade de pecadores; e, principalmente, renovemos a renúncia ao pecado que marcou o nosso batismo. 
 O Precursor anunciava este batismo, que devia ser superior ao dele, porque seria estabelecido pelo próprio Jesus Cristo: <
Renovemos, pois, muitas vezes a nossa renúncia ao pecado. Sabeis que o caráter do batismo permanece indelével no fundo da nossa alma e, quando reiteramos as promessas feitas na hora da nossa iniciação, uma virtude nova jorra da graça batismal para fortalecer o nosso poder de resistência a tudo o que leva ao pecado, às sugestões do demônio, às seduções do mundo e dos sentidos. Só assim poderemos salvaguardar em nós a vida da graça.
 Deste modo ainda testemunhamos a Jesus Cristo o nosso vivo reconhecimento. <

5 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 275

SABEIS QUEM EU SOU?

Ah! não sabeis quem eu sou?...
Eu sou a ruína dos grandes proprietários.
Sou o tormento da classe média, dos burgueses, dos camponeses remediados.
Sou o naufrágio dos pobres.
Sou a tentação das mulheres moças e até das velhas.
Sou a ruína dos lares.
Sou a morte dos mais sólidos capitais.
Sou o instrumento da corrupção.
Sou a sede que se não sacia, o fogo que se não extingue, a tentação que está sempre presente.
- Como? Então não me conheceis?...
Eu sou o Luxo e a Moda!...
S. Jolo Crisóstomo, dirigindo-se às casadas, dizia: “Quereis adornar-vos? Fazei-o com a modéstia e o decoro, e não com jóias e vestidos custosos; assim sereis mais agradáveis a vossos maridos. Há adornos que geram ciúmes e inimizades, disputas e lutas intestinas nas famílias. A modéstia da esposa é para o marido a melhor garantia, e para ambos o mais forte laço de concórdia em vosso estado. A modéstia é mãe do amor verdadeiro”

4 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

X

 BATISMO E TENTAÇÃO DE JESUS
 Quaresma


 Nos diferentes mistérios de N. S. Jesus Cristo na terra, a Sabedoria eterna dispôs de tal modo os acontecimentos, que as humilhações do Verbo Incarnado são sempre realçadas por uma revelação da Sua Divindade; Jesus Cristo aparece-nos assim tanto na verdade da Sua natureza divina como na realidade da sua condição humana.
 A razão profunda desta economia celeste é ajudar e ao mesmo tempo exercitar a nossa fé, fundamento de toda a vida sobrenatural. Os assombrosos aniquilamentos em que o amor sepulta Jesus Cristo dão merecimento à fé; a manifestação das prerrogativas divinas serve-lhe de apoio.
Os mistérios do nascimento e da infância de Jesus são marcados por esses contrastes de sombra e de luz que tornam a nossa fé «racional», deixando-a ao mesmo tempo livre. O mesmo se dará na vida pública, e a tal ponto que os judeus disputarão encarniçadamente a respeito da personalidade de Jesus Cristo; a uns aparecera apenas como filho dum operário de Nazaré, ao passo que, para outros, não pode ser senão o enviado do Altíssimo, anunciado por todos os profetas, para iluminar e salvar o mundo.
 Vamos tornar a encontrar esta economia sobrenatural nos acontecimentos com que Jesus Cristo, depois de trinta anos de existência oculta, enceta a Sua vida pública: o batismo recebido de João, o Precursor, nas águas do Jordão, e a tentação no deserto.
 Contemplemos Jesus nestes dois mistérios estreitamente unidos. Veremos quão admirável é a Sabedoria infinita nos Seus pensamentos, e até que ponto Jesus Cristo, nosso modelo, quer preceder-nos no caminho que devemos seguir para Lhe sermos semelhantes.

3 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 271 a 274

PEDIR ESMOLAS É UM SACRIFÍCIO

1. “É melhor dar que pedir, dizia o santo Cura d’Ars. Uma só vez tive de mendigar, quando empreendi uma viagem ao túmulo de S. Francisco Régis, e saí-me muito mal: tinham-me por um ladrão, e não queriam dar-me nem pão, nem abrigo. Precisei pedir, a comutação de meu voto a um dos padres, para não ter que pedir esmolas no meu regresso”.

2. S. Micaela do SS. Sacramento, viscondessa e fundadora das Irmas Adoradoras, sabia por experiência o que é pedir esmolas, pois muitas vezes teve de fazê-lo para manter seus colégios de jovens desamparadas. Assim escrevia em março de 1860: “Ontem, minha amiga, receberam-nos tão mal, que fiquei doente. Particularmente uma senhora foi cruel; nas sete casas que visitamos fomos mal recebidas”. E dias depois: “Isto vai muito bem; saí mais quinze dias a pedir esmola casa por casa, e tenho o consolo de que recebemos o suficiente para que tudo corra bem, com economia; recebi amargas repulsas e xingatórios, e dois dias estive doente; mas é porque o meu orgulho não se encontra tão baixo que não se ressinta o coração, contudo, no dia seguinte ia de novo contente. E agora a senhora já sabe que sei pedir esmola, no caso que ai estejam em apuros”.

3. S. João de Deus, desde que se consagrou a Deus, gostava de sair a pedir, esmolas para reparti-las entre os pobres; razão por que bem depressa todos lhe davam o glorioso título de “pai dos pobres”. Costumava dizer aos benfeitores: “Agora não sabeis o bem que fazeis a vós mesmos, mas Deus vô-lo mostrará quando devolver a esmola”.

4. O beato João de Ávila, querendo consagrar-se à salvação das almas, vendeu toda a herança dos país e repartiu o preço entre os pobres, reservando-se para si apenas uma veste de pano grosseiro.

2 de fevereiro de 2017

Sermão para o 4º Domingo depois da Epifania – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] História das heresias I: judaizantes, gnosticismo, adocionismo, maniqueísmo e outras


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Nós temos hoje o Evangelho da tempestade acalmada. A barca em que está Jesus Cristo e seus discípulos significa a Igreja Católica Apostólica Romana. O mar é o mundo, no qual a Igreja se encontra, visível aos olhos de todos. Na tempestade agitada, podemos ver as perseguições que sofre a Igreja ao longo de toda a sua história.
A Igreja é perseguida de dois modos: pela violência externa, física. E aí temos os mártires, aqueles que aceitaram a morte para permanecerem fiéis a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja. Temos os mártires da antiguidade, os mártires no oriente, os mártires nas mãos dos muçulmanos, os mártires nas mãos dos protestantes e cismáticos, os mártires do comunismo na Espanha e na Europa do leste, os mártires do nazismo, os mártires do regime maçônico no México e tantos outros…
O outro modo de perseguir a Igreja é mais sutil e, em geral, perde mais almas: o erro doutrinário, as heresias. É delas que trataremos hoje. Alguns podem pensar que a Igreja, ao longo de sua história, viveu uma grande tranquilidade e que somente agora é que atravessa uma enorme crise e uma perseguição. Não é verdade. A Igreja, sendo o corpo místico de Cristo, é perseguida ao longo de toda a sua existência, a exemplo do próprio Cristo em sua vida pública. É muito útil conhecer algumas heresias ao longo dos séculos, para que não caiamos nelas novamente e para que melhor conheçamos a verdade. Os erros se repetem ao longo da história. Veja-se, por exemplo, a tentativa de conciliar práticas como a astrologia, entendida seja no sentido de prever o futuro seja como símbolo de forças que governam o mundo, com a religião católica. A adivinhação, pecado contra o primeiro mandamento, engloba querer prever o futuro ou conhecer coisas ocultas. Os erros se repetem com frequência, sob novas aparências.
Vejamos algumas dessas tempestades agitadas ao longo da história da Igreja. E também como, apesar de tudo, a Igreja continua a mesma na sua constituição e no seu ensinamento. Podemos tomar, primeiramente, o período que vai do ano 33 ao ano 325, ano do Concílio de Nicéia. A primeira heresia foi a heresia dos judaizantes, que afirmava a necessidade de se manter a lei mosaica, por exemplo, quanto à circuncisão, quanto aos alimentos, etc. Sendo a lei mosaica uma figura do Messias, praticá-la significa, ao fundo, que o Messias ainda não veio. Praticar a lei mosaica é negar que Cristo seja o messias. Heresia condenada no Concílio de Jerusalém, feito pelos apóstolos, no ano 49.
Em seguida, nos primeiros séculos do cristianismo, desenvolveu-se a heresia do gnosticismo, que diz existir uma religião externa para a pessoa comum e um conhecimento mais profundo, do qual essa religião é símbolo. Esse conhecimento seria reservado a alguns apenas. O gnosticismo afirma a divindade do homem, que teria em si uma partícula divina. Nessa heresia, trata-se de levar uma classe de homens superiores ao conhecimento da própria divindade, a reconhecer a própria identidade com Deus. Isso se faz por conhecimentos esotéricos e práticas esotéricas, reservados a alguns, por meios de simbolismos, por exemplo, astrologia, numerologia, hipnose, às vezes, e outras práticas. Gnosticismo que afirma também o dualismo, quer dizer, a oposição entre a alma e a matéria. A matéria é ruim. O espírito é bom. E afirma a existência de dois princípios equivalentes o bem absoluto e o mal absoluto. Quantos erros, mas bem presentes em nossa sociedade e que alguns tentam reavivar sob a roupagem de certa filosofia ou espiritualismo. Esse erro da gnose é o mais pérfido, o mais enganador e aquele que mais subiste ao longo da história, pois é realmente uma caricatura do cristianismo. O pecado original é o homem acreditar que é divino: “Se comerdes desse fruto, sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal”, diz o demônio a Eva, que come o fruto, apesar da clara falsidade da proposição. O gnosticismo e seu erro de fundo, a gnose, é absurdo, é uma grande mentira, mas seduz os homens de diferentes maneiras, sobretudo pela sua pretensão de dar uma explicação inteligente, “filosófica” da religião. Philip Hughes, historiador da Igreja, diz que o gnosticismo não desapareceu ao longo da história e que não é fantasia que uma corrente subterrânea do gnosticismo persiste através dos tempos. E de tempos em tempos ela aparece sobre a terra com mais clareza.
A Igreja sempre se opôs e sempre se oporá a tudo isso. A verdade não é isso. O homem não é Deus nem tem partícula divina. É absurdo argumentar isso. Não somos onipotentes, nem oniscientes, nem eternos. Adquirimos, por exemplo, inúmeras perfeições ao longo de nossa vida. Deus já tem todas elas. Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Igreja nunca transmitiram um conhecimento escondido. O que vos é dito aos ouvidos, pregai sobre os telhados, diz Nosso Senhor. O verdadeiro conhecimento nos vem pela fé, pela doutrina ensinada pela Igreja católica. A matéria é boa, tendo sido criada por Deus e não se opõe ao espírito, mas auxilia a nossa alma, bastando ser bem ordenada. O mal absoluto não existe, ao contrário do que prega o gnosticismo. O mal é ausência de ser. O mal absoluto seria a total ausência de ser, quer dizer, não existiria. O demônio não é princípio equivalente a Deus ou quase equivalente, mas é uma pobre criatura, com grande capacidade, mas que nada pode fazer sem a permissão de Deus, que permite os males para que deles venham um bem superior, como permitiu o pecado original para que daí viesse a Encarnação do Verbo. Não somos deuses nem temos uma centelha divina em nós. Podemos participar e nos assemelhar a Deus pela graça santificante, mas nunca nos identificar com Ele ou nos deificar no sentido estrito, mas permanecemos inteiramente seres humanos, pobres criaturas. Não existe uma religião para a pessoa comum e uma outra reservada a poucos. A doutrina católica é uma só para todos.
Temos também a heresia do subordinacionismo, que afirma que o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, não é propriamente Deus, mas uma criatura excelente, intermediária entre Deus e o mundo, subordinada a Deus, donde o nome da heresia. Nega a divindade de Jesus Cristo e a Trindade das pessoas, ambas claramente afirmadas no Evangelho e confirmadas por Deus pelos milagres. Essa foi uma grave heresia que existiu ao longo dos séculos II e III.
Outro erro dessa época foi o Montanismo, uma heresia de fanáticos profetas (falsos), de iluminados e visionários que queriam independência quanto às autoridades eclesiásticas. Com pretensos êxtases e dons do Espírito Santo. Montano, em torno do ano 170, se dizia iluminado e movido pelo Espírito Santo. Esperavam o fim próximo do mundo, como muitos hoje. Entregavam-se a um rigorismo descabido: proibição de segundo casamento após a morte do cônjuge, aversão ao casamento pura e simplesmente, uma mortificação exagerada, irracional, proibição de se esconder nas perseguições, afirmação de que certos pecados não poderiam ser perdoados, a proibição de qualquer ornamentação para as mulheres. O erro da heresia é evidente: querer saber com precisão o fim do mundo, falsos dons recebidos do Espírito Santo, rigorismo infundado. Infelizmente, Tertuliano, que havia muito bem defendido a fé católica, deixou-se levar por esse erro grave. Ninguém está imune de cair, se não vigiar e evitar os perigos para a fé. Quanto se arriscam, por exemplo, aqueles que leem autores cheios de erros dizendo que levam em consideração somente o que é bom. Mas nem critério têm para saber o que é bom.
 Em seguida, a heresia do adocionismo, que afirma que Nosso Senhor Jesus Cristo não é o Filho de Deus segundo a natureza, ou seja, afirma que ele não tem a natureza divina, mas afirma que Cristo é somente filho adotivo de Deus, o filho adotivo mais perfeito, mas somente filho adotivo. Teodoto de Bizâncio sustentava essa gravíssima heresia no ano de 190. Paulo de Samósata, em torno do ano 260, professou esse mesmo erro. Ora, Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. E, em Cristo, as duas naturezas se unem na pessoa divina do Verbo. De forma que Jesus Cristo é Filho de Deus segundo a natureza, tem a mesma natureza de Deus. É Deus de Deus, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro. Não se pode dizer nem mesmo que Cristo é filho adotivo de Deus segundo a sua natureza humana, pois a filiação se refere à pessoa de Cristo e a pessoa de Cristo é divina. Nós é que somos filhos adotivos, pois não temos a mesma natureza que Deus, apenas podemos participar da vida divina pela graça santificante.
Outra heresia é o modalismo, professado por Sabélius, que viveu em torno do ano 200. O modalismo afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são pessoas distintas, mas apenas modos de se manifestar da mesma pessoa divina, o Pai. Assim, não há três pessoas divinas e um só Deus, mas apenas uma pessoa divina, o Pai, que teria sofrido na cruz. Esse sofrimento de Deus Pai na cruz dá nome a uma variante dessa heresia, chamada de patripassionismo: o Pai e não o Filho teria sofrido na cruz. As duas heresias negam a divindade de Cristo e trindade das Pessoas.
Finalmente, nesse primeiro período das heresias, podemos considerar o maniqueísmo, que vem de Mani, nascido em 216, oriundo da Persa, mas formado também na Índia. Mani afirmava que as religiões eram complementares, chamava-se o “apóstolo de Jesus Cristo” e o intérprete de Buda. Unia as diferentes “tradições religiosas”, negando um princípio básico, que é o princípio de não contradição. O maniqueísmo é uma manifestação da gnose, que vai serpenteando ao longo da história, aparecendo com mais intensidade em alguns momentos, principalmente em momento de crise da sociedade, como o que vivemos hoje, por exemplo. Os princípios são basicamente os mesmos do gnosticismo que explicamos há pouco. O esquema é o mesmo: dois princípios equivalentes, um bom e outro mau. A oposição entre os dois princípios, sendo que o mau seria criador da matéria e o bom do mundo espiritual. O maniqueísmo afirma também o aprisionamento da partícula divina na matéria, o que é particularmente absurdo, como se a divindade pudesse ser presa por algo. Afirma a identificação com a divindade por meio de um conhecimento esotérico (às vezes tratado como um conhecimento de si mesmo), reservado a alguns e que pode ser atingido por certa filosofia, e por certas práticas como a astrologia, numerologia, e outras. Santo Agostinho deixou-se levar muito tempo por esse gravíssimo erro, pela aparente erudição de membros da seita, pela falaciosa ciência astrológica e outras ciências a que às vezes chamam de “tradicionais” (alquimia, por exemplo). Erro que vai combater vigorosamente depois de conhecer a Verdade, depois, então, de conhecer realmente Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja, a Católica. Muitos se deixaram levar por essas fábulas, apresentadas sob capa de erudição. Santo Agostinho diz que, em Roma, havia vários maniqueus ocultos entre os cristãos, por exemplo. Ainda hoje assim acontece: muitos se deixam levar por essas fábulas ou sob capa de erudição, de política ou filosofia, falsa, é claro.
Podemos ver, então, caros católicos, nesse primeiro período, o quanto a Igreja foi atacada pelos erros, pelas heresias. Heresias que queriam a manutenção da religião judaica, como se Cristo, no fundo, não fosse o Messias. Heresias que negavam a Santíssima Trindade, como o modalismo. Heresias que negavam a divindade de Cristo, como o adocionismo, o subordinacionismo. Heresia de certos falsos profetas, visionários e iluminados, com pretensos dons do Espírito Santo, que afirmavam a independência da autoridade, que afirmavam a impossibilidade do perdão de certos pecados e que professavam um rigorismo irracional. A gnose sob formas distintas, com suas práticas esotéricas. Desde sempre a Igreja permaneceu firme face a esses erros gravíssimos. Ela sempre afirmou a Trindade das pessoas divinas e a divindade e humanidade de Cristo. A Igreja sempre recusou qualquer forma de gnose e de esoterismo e suas práticas e ciências. A Igreja sempre recusou uma suposta religião oculta como base das diferentes religiões. E sempre continuará assim. Existe uma única religião verdadeira e que todos podem conhecer: a católica. Esses erros continuam sendo erros hoje. Ao longo dessas tempestades agitadas, com a Igreja, estava Nosso Senhor Jesus Cristo, não permitindo que ela se afastasse da verdade, mas assistindo a Igreja para que ela permanecesse fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo em seus ensinamentos. E assim permaneceu a Igreja e assim permanecerá sempre: fiel, em seu magistério infalível, àquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. A Igreja não perecerá. E, mesmo sabendo disso, devemos rezar e pedir ajuda ao Senhor, face a tantos erros, vindos de todos os lados. Peçamos a ajuda de Cristo para que, permanecendo fiéis à Igreja Católica e à sua doutrina constante, não pereçamos nós.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Algumas fontes:
Santo Agostinho. Confissões.
Philip Hughes. História da Igreja Católica.
Pietro Parente. Dizionario di Teologia Dommatica.
Bernardino Llorca. Manuel de História Eclesiástica.
Richard M. Hogan. Dissent from the Creed. Heresies past and present.

1 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 270

PEDIR POR AMOR DE DEUS

S. João de Deus tinha por norma dar esmola a todo que lha pedisse em nome de Deus. Quando o censuravam, dizendo que muitos o enganariam, respondia: “A mentira neste caso só pode prejudicar. a quem a diz... Eu faço esmolas por amor de Deus, o qual não olha a quem se dá, mas a intenção com que se dá”.
Um dia aproximou-se dele um homem. O Santo perguntou-lhe: “Em nome de quem me pedes esmola?” O mendigo retirou-se, mas logo depois voltou a reclamar. O Santo respondeu-lhe: “Se não me pedes em nome de Jesus Cristo, não receberás nada”. E com efeito não lhe deu nada.
Quando os pobres se humilhavam e diziam: “Uma esmolinha por amor de Deus”, excitavam mais a caridade pública. O pobre agradecido, depois de receber uma esmola, diz: “Deus lhe pague!” e não apenas: “Muito obrigado”.