6 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III
 
Consideremos, em terceiro lugar, que Maria Santíssima é advogada tão caridosa, que não somente auxilia aos que recorrem a ela, mas que vai procurando por si mesma os desgraçados para os defender e salvar.
Convida a todos, a fim de alentar-nos a esperança de todos os bens, se nos acolhermos sob sua proteção. “Em mim há toda a esperança de vida e virtude. Vinde todos a mim” (Ecl 24,26). “A todos nos chama, justos e pecadores”, exclama o devoto Pelbardo, comentando esse texto.
Anda o demônio ao redor de nós, procurando a quem devorar, diz São Pedro (1Pd 5,8). Mas esta divina Mãe, como diz Bernardino de Bustos, vai procurando sempre a quem possa salvar. Maria é Mãe de misericórdia, porque sua caridade e clemência a obriga a compadecer-se de nós e cuidar constantemente de salvar-nos, como mãe carinhosa, que não pode ver os filhos em risco de perder-se sem logo os socorrer.
E efetivamente, quem, depois de Jesus Cristo, tem mais cuidado da nossa salvação do que vós? exclama São Germano. São Boaventura acrescenta que Maria se mostra tão solícita em socorrer aos pecadores, que não parece ter outro desejo além deste.
Ela ajuda certamente aos que se lhe recomendam e a ninguém desampara. É tão benigna — exclama Idiota — que não repete a ninguém. “Mas isto não basta para satisfazer o coração terníssimo de Maria, disse Ricardo de São Vitor; ela antecipa-nos as súplicas e serve os nossos interesses, ainda antes de lhe pedirmos. E é tão misericordiosa que, onde vê misérias, acode logo e não pode ver ninguém necessitado sem socorrer. “Assim procedia na sua vida mortal, como bem se depreende do que sucedeu nas bodas de Caná, na Galiléia, quando faltou vinho, e ela, sem ser rogada por ninguém, vendo a aflição em que se achavam os jovens esposos, suplicou ao divino Filho que lhes poupasse aquele desgosto, dizendo: “Não têm vinho” (Jo 2,3), alcançando assim do Senhor que, milagrosamente, transformasse água em vinho.
Se a compaixão de Maria para com os aflitos era tão grande enquanto residia na terra, o seu desejo de nos socorrer — diz São Boaventura — é de certo maior agora, que reside no céu, donde vê melhor as nossas misérias e melhor se pode compadecer de nós”. E se Maria, sem ser rogada, se mostrou tão solícita em socorrer-nos, quanto mais atenderá aos que lhe dirigem os seus rogos!...
Não deixemos de recorrer a esta Mãe divina em todas as nossas necessidades, pois quem sempre a encontramos disposta a socorrer a quem a invoca, disse Ricardo de São Lourenço, porque, segundo afirma Bernardino de Bustos, a Virgem tem mais desejo de conceder-nos favores do que nós em recebê-los dela. Portanto, quando recorremos a Maria encontramo-la sempre cheia de misericórdia e de graças. É tão vivo esse desejo de nos fazer bem e de salvar-nos — diz São Boaventura — que se dá por ofendida, não tanto de quem positivamente a injuria, mas daqueles que lhe não pedem amparo e proteção. Ao contrário, salva a quantos se recomendam a ela, com firme vontade de se emendar, pelo que o mesmo Santo a chama Salvação dos que a invocam.
Recorramos, pois, a esta excelsa Mãe, e digamos-lhe com São Boaventura: In te, domina, speravi, non confundar in aeternum!... Ó Mãe de Deus, Maria Santíssima; porque em vós pus minha esperança, espero que não serei condenado.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Aqui tendes a vossos pés, ó Maria, um infeliz escravo do inferno que vos pede misericórdia. E ainda que não mereça nenhum bem, vós sois a Mãe de Misericórdia, e a misericórdia se pode exercer com aquele que não a merece. Todo mundo vos chama esperança e refúgio dos pecadores, portanto sois meu refúgio e minha esperança. Sou uma ovelha tresmalhada; mas para salvar a esta ovelha perdida o Verbo Eterno veio do céu à terra e se fez vosso Filho e é ele que nos manda recorrer a vós e que me socorrais com vossas súplicas. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus... Ó excelsa Mãe de Deus, porque rogais por todos, orai também por mim. Dizei a vosso Filho que sou vosso servo e que me protegeis. Dizei-lhe que em vós pus minhas esperanças.
Dizei-lhe que me perdoe, porque me arrependo de todas as ofensas que lhe fiz, e que me conceda a
graça de amá-lo de todo o coração.
Dizei-lhe, enfim, que me quereis salvar, pois ele faz tudo o que lhe pedis...
Ó Maria, minha esperança e meu consolo, em vós confio! Tende piedade de mim.

5 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Consideremos, em segundo lugar, que Maria é advogada tão clemente quanto poderosa, e que não sabe negar sua proteção a quem recorre a ela. Os olhos do Senhor estão voltados sobre os justos, disse David. Mas esta Mãe de misericórdia, segundo afirma Ricardo de São Lourenço, fita os olhos nos justos como nos pecadores, a fim de que não caiam; e, se tiverem caído, para ajudar-lhes a que se levantem.
Afigurava-se a São Boaventura, quando contemplava a Virgem, que estava vendo a própria misericórdia. São Bernardo nos exorta a que em todas as nossas necessidades recorramos a essa poderosa advogada, porque é toda doçura e bondade, para aqueles que se lhe recomendam.
É por isso que Maria é chamada formosa como a oliveira. Quasi oliva speciosa in campis (Ecl 24,19); pois assim como a oliveira produz azeite suave, símbolo da piedade, assim da Virgem Santíssima promanam graças e misericórdias para todos aqueles que se refugiam na sua proteção.
Tem, pois, razão Dionísio Cartusiano para lhe chamar advogada dos pecadores que a ela recorrem. Qual não será a mágoa do cristão que se condena, quando pensar que tão facilmente se podia ter salvado, recorrendo a esta Mãe de misericórdia, e que não o fez, nem haverá já tempo para remediá-lo! A bem-aventurada Virgem disse a Santa Brígida: “Eu sou chamada Mãe de misericórdia e, na verdade, o sou, porque assim o quis a bondade de Deus”.... Quem é que constituiu tal advogada para a nossa defesa, senão a misericórdia divina, que quer salvar todos?... “Desgraçado, acrescentou a Virgem, e eternamente desgraçado, será aquele que, podendo recorrer a mim, que sou misericordiosa e benigna, não procura o meu auxílio e se condena!” Tememos, acaso, diz São Boaventura, que Maria nos negue o socorro que lhe pedimos?... Não; Maria não sabe nem soube jamais olhar sem compaixão, nem deixar sem socorro aos desgraçados que recorrem a ela. Não sabe, nem pode, porque foi destinada por Deus para ser a Rainha e Mãe de misericórdia, e como tal incumbe-lhe velar pelos necessitados. Sois rainha de misericórdia, disse São Bernardo, e quem são os súditos da misericórdia senão os miseráveis? E logo o Santo, por humildade, acrescenta; “Ó Mãe de Deus, já que sois a rainha da misericórdia, é de mim que deveis ter o maior cuidado, porque sou o mais miserável dos pecadores”. Com maternal solicitude, sem dúvida, livrará da morte a seus filhos enfermos, pois a bondade e clemência de Maria a convertem em Mãe de todos os que sofrem. São Basílio a chama casa de saúde, porque, assim como nos hospitais de enfermos pobres os mais necessitados é que têm mais direito de ser recebidos, assim Maria, como disse aquele Santo, há de acolher e abrigar com piedade solícita e amorosa os maiores pecadores que a ela recorrerem.
Não duvidemos, portanto, da misericórdia de Maria Santíssima.
Santa Brígida ouviu o divino Salvador dizer à Virgem: “Até do próprio demônio terias compaixão se te pedisse com humildade”. Nunca o soberbo Lúcifer se humilhará; mas, se esse desgraçado se humilhasse diante dessa soberana Senhora e lhe pedisse auxílio, a intercessão da Virgem o livraria do inferno. Com essas palavras, Nosso Senhor deu-nos a entender o mesmo que sua querida Mãe disse à Santa, isto é, que quando um pecador, por vultosas que sejam suas culpas, se lhe recomenda sinceramente, ela não procura saber os pecados que o acabrunham, mas sim a intenção que o move; e se vem com boa vontade de emendar-se, acolhe-o logo e o cura de todos os males que o afligem.
“Por muito que o homem haja pecado, se recorre a mim verdadeiramente arrependido, apresso-me a recebê-lo, não considero o número de suas culpas, mas a intenção que o anima. Nem me desdenho de ungir e curar as suas feridas porque me chamam e realmente sou a Mãe de Misericórdia”.
Em verdade, pois, São Boaventura nos estimula, dizendo: “Não desespereis, pobres e perdidos pecadores, levantai os olhos a Maria e respirai, confiados na piedade desta boa Mãe”. Procuremos a graça perdida, disse São Bernardo, e procuremo-la por intermédio de Maria.
Esse alto dom, perdido por nós, acrescenta Ricardo de São Lourenço, Maria o encontrou; é, pois, a ela que devemos recorrer para o recobrarmos. Quando o arcanjo São Gabriel anunciou à Virgem a divina maternidade, disse: “Não temas, Maria, porque achaste graça” (Lc 1,30). Se Maria, porém, sempre cheia de graça, jamais esteve privada dela, como diz o Anjo que a encontrou? A isto respondeu o Cardeal 104 Hugo que a Virgem não achou a graça para si, pois que sempre a gozou, mas para nós que a tínhamos perdido. Daí infere que devemos apresentar-nos a Maria Santíssima e dizer-lhe: “Augusta Senhora, o bem deve ser restituído a quem o perdeu. Essa graça que encontrastes não é vossa, porque sempre a possuístes; mas é nossa e por nossa culpa a perdemos. É, portanto, a nós que a deveis restituir”. Acorram, pois, acorram pressurosos à Virgem os pecadores que, por sua culpa, tiverem perdido a graça e digam-lhe sem receio: “Restituí-nos o nosso bem que achastes”...

AFETOS E SÚPLICAS

Eis que aqui a vossos pés, ó Mãe de Deus, um miserável pecador que deixou perder voluntariamente, não uma, mas muitas vezes, a divina graça que vosso Filho lhe conquistou com sua morte. Ó Mãe de misericórdia, com a alma cheia de feridas, recorro a vós. Não me desprezeis ao ver o estado em que me acho; antes olhai-me com maior compaixão e apressai-vos a socorrer-me. Vede a confiança que me inspirais e não me abandoneis. Não procuro bens terrestres, mas a graça de Deus e o amor a vosso divino Filho. Orai por mim, minha Mãe.
Não cesseis de rogar, a fim de que por vossa intercessão e em virtude dos merecimentos de Jesus Cristo alcance a salvação. É vosso ofício interceder pelos pecadores, exercei-o para comigo — como dizia São Tomás de Vilanova. — Recordai-me a Deus e defendei-me. Não há causa, por mais desesperada que seja, que se perca quando é defendida por vós. Sois a esperança dos pecadores e a minha esperança... Nunca deixarei, Virgem Santa, de servir-vos, de amar-vos e de recorrer a vós...
Não deixeis de socorrer-me, sobretudo quando me virdes em perigo de perder novamente a graça do Senhor.
Ó Maria, excelsa Mãe de Deus, tende compaixão de mim!

4 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXII
 
Da confiança na proteção de Maria Santíssima
Qui invenerit me, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino. Quem me encontrar, encontrará a vida, e alcançará do Senhor a salvação (Pr 8,35).
 
PONTO I
 
Quantas graças devemos render à misericórdia divina, exclama São Boaventura, por ter-nos dado como advogada a Virgem Maria, cujas súplicas podem alcançar-nos todas as mercês que desejamos!... Pecadores, meus irmãos, mesmo que nos acharmos já condenados ao inferno em vista das nossas iniqüidades, não desesperemos, entretanto.
Recorramos a esta divina Mãe, abriguemo-nos debaixo do seu manto, e ela nos salvará. Ela apenas exige de nós a resolução de mudar de vida. Tomemo-la, pois; confiemos verdadeiramente em Maria Santíssima, e ela nos alcançará a salvação... Porque Maria é advogada piedosíssima, advogada que a todos nós deseja salvar.
Consideremos, primeiramente, que Maria é advogada poderosa, que tudo pode junto ao soberano Juiz, em proveito e benefício daqueles que devotamente a servem... Singular privilégio concedido pelo mesmo Juiz, Filho da Virgem! “É grande privilégio que Maria seja poderosíssima junto a seu Filho”. Afirma Gerson que a bem-aventurada Virgem nos obtém de Deus quando lhe pedirmos com firme vontade e que como rainha ordena aos anjos que iluminem, aperfeiçoem e purifiquem os seus devotos. À vista disto, a Igreja, querendo inspirar-nos confiança nessa nossa grande advogada, induz-nos a invocá-la com o título de Virgem poderosa: Virgo potens, ora pro no-bis... E por que é tão eficaz a proteção de Maria Santíssima? Porque é a Mãe de Deus. As petições da Virgem Maria — disse Santo Antonino, — sendo como é Mãe do Senhor, são em certo modo ordens para Jesus Cristo; assim não é possível que, quando peça, não alcance o que pede. São Gregório, arcebispo de Nicomédia, diz que o Redentor, para satisfazer a obrigação que tem com sua Santa Mãe, da qual recebeu a natureza humana, concede tudo quanto Maria solicita. E Teófilo, bispo de Alexandria, escreve estas palavras: “Deseja o Filho que sua Mãe lhe peça, porque quer outorgar-lhe quanto peça, a fim de lhe recompensar assim o favor que dela recebeu”. Com razão, pois, exclamava São Metódio, mártir: “A-legra-te e regozija-te, Maria, que lograste a ventura de ter por devedor ao Filho de quem todos nós somos devedores, porque tudo quanto possuímos é dádiva sua!....
Do mesmo modo, Cosme de Jerusalém repete que o auxílio de Maria é onipotente, e o confirma Ricardo de São Lourenço, observando quão justo é que a Mãe participe do poder do Filho, e que, sendo este onipotente, comunique à sua Mãe a onipotência. O Filho é onipotente por natureza; a Mãe é onipotente pela graça, de modo que obtém com suas súplicas quando deseja, conforme o célebre verso: “Quod Deus imperio, tu prece, Virgo, potes”. (Podes, Virgem, com tuas preces, — o que Deus com seu império).
A mesma doutrina consta das Revelações de Santa Brígida (Liv. I, cap. IV). Ouviu essa Santa que Jesus disse à sua bendita Mãe que lhe pedisse quanto quisesse e que, quaisquer que fossem suas súplicas, nunca rogaria em vão. O próprio Senhor foi quem deu o motivo desse privilégio, dizendo: “Já que nada me recusaste quando vivias na terra, justo é que nada te recuse agora que estás comigo no céu”.
Em suma: não há ninguém, por mais malvado que seja, que Maria não possa salvar por meio de sua intercessão... Ó Mãe de Deus! exclamava São Gregório de Nicomédia — nada pode resistir ao vosso poder, porque aquele que vos criou considera e estima a vossa glória como se fosse propriamente dele. Vós, Senhora, podeis tudo, — diz também São Pedro Damião, — podeis até salvar os desesperados.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Amantíssima Rainha e minha Mãe, dir-vos-ei com São Germano: “Sois onipotente para salvar os pecadores e não tendes necessidade perante Deus de outro encômio do que ser a Mãe da verdadeira vida.
Assim, minha Senhora, recorrendo a vós, todo o peso dos meus pecados não pode fazer-me desconfiar de minha salvação. Por meio de vossas súplicas, alcançais quanto quereis e se rogardes por mim certamente me salvarei. Rogai, pois, por mim — direi com São Bernardo, — porque vosso divino Filho vos escuta e vos concede quanto lhe pedirdes.
Sou pecador, é verdade, mas quero emendar-me e me desvaneço em ser vosso servo dedicado. Sou indigno também da vossa proteção, mas sei que nunca desamparais aquele que em vós deposita a sua esperança.
Podeis e quereis salvar-me, e, por isso, confio em vós... Quando vivia afastado de Deus e não pensava em vossa bondade, vós vos lembráveis de mim e me alcançastes a graça de emendar-me. Quanto mais devo confiar em vossa clemência, agora que me consagro ao vosso serviço, que em vós espero e me recomendo a vós! Ó Maria, rogai por mim e tornai-me santo. Alcançai-me a graça da perseverança e do amor profundo ao vosso Filho e a vós mesma. Amo-vos, minha Rainha e Mãe amabilíssima, e espero amar-vos sempre. Amai-me também e pelo vosso amor transformai-me de pecador em santo.

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.do

25/26 -  A madeira da verdadeira cruz.

Felizes os que sofrem as perseguições da justiça: esta bem aventurança, a última na categoria, é a primeira na estima, e considero-a como a suprema felicidade da vida presente. Os que são injustamente perseguidos tem mais semelhança com o Salvador e levam uma vida oculta com Jesus Cristo em Deus; parecem maus e são bons; parecem mortos e estão vivos; pobres e são ricos, tolos e são sábios, detestados pelos homens e benditos por Deus. As perseguições são parcelas da cruz de Nosso Senhor, e não podemos perder delas a menor porção.
Vi há tempos, uma rapariga que levava à cabeça um cântaro cheio de água e em cuja superfície colocara um pedaço de madeira. Perguntei-lhe para que, e ela me respondeu que era para a água não verter. Ora daqui por diante convém colocar a cruz no centro de nossas orações, para determos o movimento dos nossos afetos com esta madeira, afim de que não derramem em inquietações e turbações de espírito.
Sofrer é quase o único bem que neste mundo podemos praticar; porque raramente praticamos algum bem que lhe não juntemos o mal. Nosso Senhor nunca esta tão certo de nós como quando sofremos com paciência por seu amor. Vigia sempre sobre nós quando repousamos em seu seio e faz com que tiremos proveito das nossas tribulações.
É onde poderemos nós exercitar os grandes atos de invariável união do coração à vontade de Deus, da mortificação do nosso amor próprio, do amor da própria abjeção, em uma palavra, da nossa crucifixão, senão nestes rudes e perigosos assaltos? Não vos disse já muitas vezes que vos despojásseis de todas as criaturas, para vos unirdes a Jesus Cristo crucificado? Coragem pois; Deus é que quer despojar assim os nossos corações. Não é um rigor, é uma doçura. Animai-vos: contanto que o vosso coração se conserve fiel, não vos dará peso superior às vossas forças, e ajudar-vos-á a levá-lo, quando vir que vos abaixais para conduzirdes o feixe que vos entregar.
Bem aventurados os crucificados! Neste mundo a nossa herança é a cruz; mas no outro será a glória. Tudo passa. Após poucos dias desta vida mortal que nos faltam, virá a infinita eternidade. Pouco nos importa que tenhamos aqui comodidades ou não, contanto que sejamos felizes por toda a eternidade. Seja vossa consolação a eternidade santa que vos espera, e o serdes cristão, filho de Jesus Cristo e regenerado com o seu sangue, porque a nossa glória consiste em Jesus Cristo ter morrido por nós.

3 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Consideremos o terceiro inimigo, a carne, que é o pior de todos, e vejamos como deveremos combatê-la. Em primeiro lugar por meio da oração, conforme já vimos acima. Em segundo lugar, evitando as ocasiões como iremos ver e ponderar atentamente. Disse São Bernardino de Sena que o conselho mais excelente (que é para bem dizer a base e o fundamento da vida religiosa) consiste em evitar sempre as ocasiões do pecado. Constrangido pelos exorcismos, confessou certa vez o demônio que, entre todos os sermões, o que mais detesta é aquele em que se exortam os fiéis a fugirem das más ocasiões. E com efeito, o demônio se ri de todas as promessas e propósitos que formule o pecador arrependido, se este não evitar tais ocasiões.
Em matéria de prazeres sensuais, a ocasião é como uma venda posta diante dos olhos e que não permite ver nem propósitos, nem instruções, nem verdades eternas; numa palavra, cega o homem e o faz esquecer-se de tudo. Tal foi a perdição de nossos primeiros pais: não fugiram da ocasião. Deus lhes havia dito que não colhessem o fruto proibido. “Ordenou Deus — disse Eva à serpente — que não o comêssemos nem tocássemos”(Gn 3,3). Mas o imprudente “o viu, o tomou e comeu”. Começou a admirar a maçã, colheu-a depois com a mão, até que por fim comeu dela. Quem voluntariamente se expõe ao perigo, nele perecerá (Ecl 3,27). Adverte São Pedro que o demônio anda ao redor de nós, procurando a quem devorar. Para tornar a entrar numa alma donde foi expulso, diz São Cipriano, somente aguarda a ocasião oportuna. Quando a alma se deixa seduzir pela ocasião do pecado, o inimigo se apoderará novamente dela e a devorará irremediavelmente.
O abade Guerico diz que Lázaro ressuscitou com as mãos e pés atados, e por isso ficou sujeito à morte. Infeliz daquele que ressuscitar e ficar preso nos laços das ocasiões do pecado! Apesar de sua ressurreição, tornará a morrer. Quem quiser salvar-se, precisa renunciar, não somente ao pecado, mas também às ocasiões de pecado, isto é, deve afastar-se deste companheiro, daquela casa, de certas relações de amizade...
Poderá alguém objetar que, ao mudar de vida, abandonou inteiramente o fim ilícito em suas relações com determinadas pessoas e que, portanto, já não há receio de tentações. A propósito, recordarei o que se conta de certa espécie de ursos da Mauritânia, que vão à caça de macacos.
Estes animais, ao ver o inimigo, trepam para o alto das árvores.
O urso estende-se junto ao tronco, fingindo-se morto, e quando os macacos, confiados, descem ao solo, levanta-se, apanha-os e os devora.
Tal é a astúcia do demônio: persuade que as tentações estão mortas e quando os homens condescendem com as ocasiões perigosas, apresenta-lhes de súbito a tentação que os faz sucumbir. Quantas almas infelizes, que praticavam a oração, que freqüentavam a comunhão e que se podiam chamar santas, deixaram-se prender nos tentáculos do inferno, porque não evitaram as más ocasiões. Lê-se na História Eclesiástica que uma senhora virtuosa, no tempo da perseguição aos cristãos, dedicava-se à piedosa obra de recolher e enterrar os corpos dos mártires. Entre eles encontrou um que ainda respirava. Levou-o para casa, tratou-o e chegou a curá-lo. Aconteceu, porém, que pela ocasião próxima, essas duas pessoas, que se podiam chamar santas, perderam primeiramente a graça de Deus e depois até a fé cristã.
O Senhor ordenou a Isaías que pregasse que toda a carne não é mais que feno (Is 40,6). Comentando este texto, disse São João Crisóstomo: É possível que o feno deixe de arder, quando se lhe deita o fogo? Com efeito, acrescenta São Cipriano: É impossível ficar numa fogueira e não queimar-se. A nossa força, adverte o profeta, é como a estopa posta ao fogo (Is 1,31). Também Salomão nos diz que seria um louco aquele que quisesse caminhar por cima de um braseiro sem que se lhe queimassem as plantas dos pés (Pr 6,27-28). Não é menor a loucura daquele que pretende expor-se às ocasiões e não cair em falta.
É preciso fugir do pecado, como de uma serpente venenosa (Ecl 21,2).
É preciso evitar, não apenas a mordedura da serpente, escreve Gualfrido, mas também o seu contato e até a sua aproximação.
Dirás, talvez, que aquela casa, aquela amizade favorecem os teus interesses. Entretanto, se aquela casa é para ti caminho do inferno (Pr 7,27) e não renuncias a salvar-te, torna-se, em absoluto, necessário que a abandones resolutamente. Se teu olho direito, disse o Senhor, te pode ser causa de condenação, deves arrancá-lo e atirá-lo para longe de ti... (Mt 5,29). Note-se a expressão abs te do texto: é necessário atirá-lo, não a teu lado, mas para longe de ti, isto é: impende evitar todas as ocasiões.
Disse São Francisco de Assis que o demônio tenta as pessoas espirituais, que se dão a Deus, de modo mui diferente do que costuma tentar as de má vida. A princípio não as prende com uma corda, mas com um cabelo; depois, com um fio; a seguir, com um barbante e, por fim, com uma corda grossa, que as arrasta ao pecado. Aquele, portanto, que deseja escapar de tais ardis, deve evitar, desde o princípio, o enredar de um cabelo, fuja de todas as ocasiões perigosas, relações, cumprimentos, obsequiosidades e outras semelhantes; e, sobretudo, aquele que já teve o hábito da impureza não se limite a evitar as ocasiões próximas; pois, se não fugir também das remotas, cairá de novo.
Quem quiser verdadeiramente salvar-se, terá de robustecer e renovar com muita freqüência a resolução de nunca mais se separar de Deus, repetindo muitas vezes aquela máxima dos Santos: “Antes perder tudo do que perder a Deus”. Não basta, porém, a resolução de não perder a Deus, se não empregamos os meios estabelecidos para a conservação desse bem supremo. O primeiro é, como já ficou dito, evitar as ocasiões. O segundo, freqüentar os sacramentos da confissão e comunhão, porque a casa que muitas vezes se limpa não pode deixar de ser asseada. A confissão mantém a alma pura e alcança, não somente a remissão dos pecados, mas também a força necessária para resistir às tentações. A sagrada comunhão chama-se pão do céu, porque, assim como o corpo não pode viver sem sustento terrestre, assim a alma não pode viver sem o alimento celeste. “Se não comerdes a carne do Filho do homem nem beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,54). Ao contrário, a vida eterna é prometida a quem come com freqüência este pão divino (Jo 6,52). Por isso, o Concílio de Trento chama a comunhão antídoto que nos livra dos pecados veniais e nos preserva dos mortais. O terceiro meio é a meditação ou oração mental: “Lembra- te de teus novíssimos, e não pecarás jamais” (Ecl 7,40). Aquele que não perder de vista as verdades eternas, a morte, o juízo, a eternidade, não cairá no pecado. Deus ilumina-nos na meditação (Sl 53,6) e nos fala interiormente, ensinando-nos o que devemos praticar e o que temos a evitar. “Levá-lo-ei ao deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2,14).
A meditação assemelha-se a uma fogueira benfazeja, na qual nos inflamamos de amor divino (Sl 38,4). Enfim, como já temos considerado, para conservar-nos na graça de Deus, é absolutamente necessário rezar sempre e pedir as graças de que hemos mister. Quem não pratica a oração mental dificilmente reza; e não rezando se perderá certamente.
Impende, pois, empregar todos esses meios para nos salvar e levar vida regrada. De manhã, ao levantar-nos, temos de fazer os atos cristãos de agradecimento, de amor, de oferecimento e bom propósito, com orações a Jesus e a Maria para que nos preservem do pecado nesse dia. A seguir, faremos a meditação e assistiremos à santa missa.
Durante o dia dediquemo-nos à leitura espiritual, visitemos a Jesus Sacramentado e a divina Mãe. À noite, rezemos o rosário e não deixemos o exame de consciência. Devemos comungar uma ou duas vezes por semana, segundo o conselho do diretor espiritual que escolhemos para lhe obedecer constantemente. Muito útil seria fazer exercícios espirituais em alguma casa religiosa. Cumpre honrar também a Maria Santíssima com alguma prática especial, como, por exemplo, jejuar aos sábados. É Mãe da perseverança e promete este dom a quem a serve.
“Aqueles que por mim trabalham, não pecarão” (Ecl 24,30). Por fim, e sobretudo, é necessário que peçamos a Deus a santa perseverança, especialmente no tempo das tentações, invocando então freqüentemente os santíssimos nomes de Jesus e Maria enquanto a tentação persistir.
Se assim o fizeres, serás salvo; contrariamente a condenação será certa.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, agradeço-vos as luzes com que me iluminais e os meios que me ofereceis para salvar-me. Prometo empregá-los com diligência. Dai-me vosso auxílio para vos ser fiel. Desejais que me salve e eu também o desejo principalmente para agradar ao vosso Coração amantíssimo, que tanto deseja a minha felicidade. Não quero, meu Deus, resistir por mais tempo ao amor que me manifestais, e pelo qual me suportastes com tanta paciência quando eu vos ofendia.
Convidais-me a que vos ame e amar-vos, Senhor, é o meu único desejo...
Amo-vos, bondade infinita... Amo-vos, infinito bem. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, rogo-vos que não permitais que me torne ingrato novamente. Ou acabai com minha ingratidão ou acabai com minha vida... Concluí, meu Deus, a obra que começastes (Sl 67,26). Dai-me luzes, força e amor...
Maria Santíssima, que sois a dispensadora das graças, socorrei-me! Admiti-me, como o desejo, por vosso servo, e rogai a Jesus por mim. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, e depois pelos vossos, espero salvar-me.

2 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Vejamos agora como se deve vencer o mundo. O demônio é um inimigo terrível, mas o mundo é pior ainda. Se o demônio não se servisse dele, isto é, dos homens maus, que compõem o que vulgarmente se entende por mundo, não conseguirá as vitórias que obtém. O próprio Redentor nos admoesta que nos acautelemos mais dos homens que do demônio (Mt 10,17). Aqueles são freqüentemente piores do que estes, porque os demônios fogem diante da oração e da invocação dos nomes de Jesus e de Maria, mas os maus amigos, quando tentam arrastar alguém ao pecado e se lhes responde com palavras edificantes e cristãs, longe de fugirem e de se recolherem, cada vez mais perseguem o coitado que lhes cai nas mãos, ridicularizando-o, chamando-o de néscio, covarde e destituído de caráter; e, quando outra coisa não conseguem, tratam-no de hipócrita, que quer fingir santidade. Certas almas tímidas ou fracas, para escapar a tais ataques e zombarias, cedem àqueles ministros de Lúcifer e pecam miseravelmente. Fica persuadido, portanto, meu irmão, de que serás menosprezado e exposto à zombaria dos maus e dos ímpios, se quiseres viver piedosamente (Pr 21,27). O que vive mal não pode tolerar os que vivem bem, porque a vida destes é para eles uma contínua repreensão e, por isso, desejam que todos lhes sigam o exemplo, a fim de atenuar o espicaçar do remorso causado pelo procedimento cristão dos demais. O que serve a Deus, diz o Apóstolo, tem que ser perseguido pelo mundo (2Tm 3,12). Todos os Santos sofreram rudes perseguições. Quem foi mais santo que Jesus Cristo? E, no entanto, o mundo o perseguiu até dar-lhe afrontosa morte de cruz.
Isto não é surpresa, porque as máximas do mundo são inteiramente contrárias às de Jesus Cristo. Ao que o mundo estima, chama Jesus Cristo loucura (1Cor 3,19). Por sua parte, o mundo trata de demência ao que é estimado por Nosso Senhor, como as cruzes, os sofrimentos e os desprezos (1Cor 1,18).
Consolemo-nos, todavia, que, se os maus nos censuram e amaldiçoam, Deus nos louva e exalta (Sl 28).
Já não nos basta sermos louvados por Deus, por Maria Santíssima, pelos anjos, pelos santos e por todas as pessoas de bem? Deixemos, pois, que os pecadores digam o que quiserem e continuemos a servir a Deus que é tão fiel e amoroso para aqueles que o amam. Quanto maiores forem os obstáculos e as contradições que encontrarmos na prática do bem, tanto mais acendrada será a complacência do Senhor e tanto maior o nosso mérito. Imaginemos que neste mundo só Deus e nós existíssemos e, quando os mundanos nos perseguirem, encomendemo-nos ao Senhor, agradecendo-lhe a luz com que nos favorece e que nega a eles e prossigamos em nosso caminho. Nunca nos cause rubor o sermos e parecermos cristãos, porque, se corássemos diante de Cristo, ele se envergonharia de nós, segundo afirmou, e não nos receberia à sua direita no dia do juízo (Lc 9,23).
Se nos quisermos salvar, é mister que estejamos firmemente resolvidos a sofrer e a empregar constantemente violência sobre nós mesmos. “O caminho que conduz à vida é estreito”.
O reino dos céus se alcança à viva força e só os que a empregam é que o arrebatam (Mt 7,14; 11,12). Quem não fizer violência a si mesmo, não se salvará. Isto é imprescindível, porque, se quisermos praticar o bem, teremos que lutar contra a nossa natureza rebelde. É particularmente necessário violentarmo-nos no princípio para extirpar os maus hábitos e adquirir os bons. Formado o bom costume, torna-se fácil e até doce a observância da lei divina.
O Senhor disse a Santa Brígida que, na prática das virtudes, os espinhos se mudam em rosas, quando, com valor e paciência, sofremos as primeiras dores desses espinhos. Atende, pois, meu irmão, a Jesus cristo, que te diz como ao paralítico: “Vê que já estás curado, não peques doravante, para que não te suceda pior mal” (Jo 5,14). Pondera ainda São Bernardo que, se por desgraça recaíres, tua ruína será pior que todas as tuas quedas precedentes. Ai daqueles, diz o Senhor, que seguem o caminho do céu e depois o abandonam! (Is 30,1) Serão punidos como rebeldes à luz (Jo 3,20). O castigo desses infelizes, que Deus favoreceu e iluminou com suas luzes e que, depois, lhe foram infiéis, é serem feridos de cegueira e morrerem assim nos seus pecados. “Mas, se o justo se desviar de sua justiça... porventura viverá? Não se fará memória de nenhuma de suas obras justas... morrerá por seu pecado” (Sl 88,2).

AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Deus! Quantas vezes mereci tal castigo, porque tantas vezes deixei o pecado, graças às luzes que me destes, e a seguir recaí miseravelmente em minhas culpas! Dou-vos infinitas graças por me não ter deixado vossa bondade entregue à minha cegueira, privando-me das vossas luzes como o merecia. Obrigadíssimo vos fico e muito ingrato seria se tornasse a separar-me de vós. Não será assim, meu Redentor! Antes espero que no restante de minha vida e em toda a eternidade hei de louvar e cantar as vossas misericórdias (Ez 18,24), amando-vos sempre sem perder vossa divina graça. A ingratidão de que me tornei culpado, e que maldigo e aborreço sobre todo o mal, servir-me-á de estímulo para chorar as ofensas que vos fiz e para inflamar-me no vosso amor, que me acolheu apesar de meus pecados e que me concedeu tantas graças. Amo-vos, meu Deus, digno de infinito amor. Desde hoje sereis meu único amor, meu único bem. Pai Eterno, pelos merecimentos de Jesus Cristo vos peço a graça da perseverança final no vosso amor. Sei que me concedereis, uma vez que continuo a vo-la pedir.
Mas quem me afiança de que assim o farei? Peço-vos, por isso, a graça de que sempre vos implore esse dom precioso...
Ó Maria, minha advogada, minha esperança e meu refúgio! Alcançai-me, por vossa intercessão, constância para pedir a Deus a perseverança final. Rogo-vos pelo amor que tendes a Jesus Cristo.

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

24/26  -  Quais são as melhores cruzes.

Descubramos um pouco, eu vô-lo peço um abuso que se encontra no espírito de bastante pessoas; não estimam e nem querem levar as cruzes, que se lhes entregam, se forem grandes e pesadas. Por exemplo: um religioso submeter-se-á voluntariamente a grandes austeridades, como jejuar, trazer cilício, usar rudes disciplinas, e repugnar-lhe-á obedecer quando lhe mandarem que não jejue, que descanse e outras coisas, nas quais há mais satisfação do que trabalho. Ora, ficai sabendo que vos enganais se pensais que há menos virtude em vos vencerdes nisto do que nas coisas mais difíceis; porque o mérito da cruz não consiste no seu peso; mas na maneira de o levar. Ainda direi mais; há algumas vezes mais virtudes em levar uma cruz de palha do que uma pesada de madeira, porque quanto mais leves são as cruzes, tanto mais abjetos são, e portanto menos conformes à nossa inclinação, que sempre procura as aparências. É certo que há mais virtude em não proferir uma palavra proibida pelos nossos superiores, ou não levantar a vista para contemplar um objeto que desejamos ver do que trazer o cilício, porque depois de o colocarmos não temos necessidade de pensar mais nisso, e nas coisas pequenas é preciso ter uma continua atenção sobre nós mesmos para não cairmos na imperfeição.
Compreendei agora que por estas palavras Jesus Cristo: "toma a tua cruz", se entende que devemos receber com agrado e indiferentemente as contrariedades e mortificações, que venham, embora sejam leves e de pouca importância, estando certa dos que o mérito da cruz não consiste no seu peso mas na perfeição com que é levada.
É muito bom mortificar a carne; porém mais do que tudo é necessário purificar os nossos afetos e aliviar os nossos corações. Deus diz-nos: "Rasgai e dilacerai os vossos corações, porque contra eles é que se levanta a minha indignação". É o que praticamos nas pequenas mortificações repetidas muitas vezes e cumpridas fielmente. Sofrer um pequeno desdém com doçura, praticar uma coisa por obediência quando sentimos repugnância, não se queixar quando há motivo para isso, sofrer os defeitos das pessoas com que vivemos; é em ocasiões idênticas que convém dilacerar o coração, sacrificar a vontade própria, o gênio, as inclinações naturais; e dar a Deus provas do nosso amor e felicidades.
Oh! Deus! direi vós, é um grande sacrifício; convém atender muito a nós mesmos para renunciar à nossa vontade e rejeitar o que pede o amor próprio; porque ele tem artifícios para nos enganar e distrair a nossa atenção de nós mesmos. É verdade; mas eis aqui o remédio: Os que navegam, e se aproximam das sereias correm perigo, porque elas cantam tão bem, que extasiam e adormecem os que remam; de sorte que alguns, para evitar o perigo fazem-se amarrar a um dos mastros. É preciso que também assim façamos quando as sereias do amor próprio, das repugnâncias, nos vierem cantar aos ouvidos, para nos atrair e fazer que lhes obedeçamos; importa que nos amarremos ao mastro do navio, que é a cruz de Nosso Senhor, o qual nos ordena, se queremos ser seus discípulos, que tomemos a cruz e o sigamos. Mas notai que Deus diz a nossa própria cruz, e isto serve para contrariar a extravagância de muitos, que quando os mortificam, se impacientam e confundem dizendo que se lhes fizessem o mesmo que fazem a outros, o receberiam de boa vontade: e o mesmo dizem das doenças, estimando as que Deus dá aos outros e não às que a eles envia para o seu bem. Ora isto não é levar a cruz como Nosso Senhor quer que a levemos e nos ensinou com seu exemplo. Se pois queremos levar a nossa cruz e segui-lo devemos, à sua imitação, receber com indiferença todas as que nos vierem, sem escolha ou exceção.
Beijai muitas vezes amorosamente as cruzes que Nosso Senhor vos põe às costas. Não vejais senão de madeira preciosa o odorífera; merecem mais o nome de cruzes quando são de madeira vil e nojenta.
Confesso-vos que este pensamento vem-me muitas vezes ao espírito e só sei este ditado. Sem dúvida é do Cântico dos Cânticos; é um pouco triste, mas é harmonioso e belo: "Meu pai: faça-se a vossa vontade e não a minha".
Madalena vê a Nosso Senhor e procura-o; não o vê na forma que deseja; é por isso que não fica contente de o ver assim e o procura para contemplar doutra forma; quer vê-lo revestido de glória e não como um jardineiro; mas afinal conhece que é Ele quando lhe diz: "Maria".
Olhai; é Nosso Senhor vestido de jardineiro que encontrais todos os dias nas ocorrências das mortificações ordinárias da vida. Quereríeis que vos oferecesse outras mortificações mais belas? Oh! Deus meu as mais belas não são as melhores. Não tendes fé que Ele vos diga: "Maria, Maria?" Não, antes que o contempleis vestido de glória. Ele quer plantar no vosso jardim flores pequeninas, mas à sua vontade; por isso, Ele esta assim vestido. Estejam dora avante os nossos corações unidos ao seu e as nossas vontades ao seu agrado.

1 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXI

Da perseverança
Qui perseveraverit usque in finem, hic salvus erit. Aquele que perseverar até ao fim, este será salvo (Mt 24,13).

PONTO I

Disse São Jerônimo que muitos começam bem, mas poucos são os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano, começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveraram como deviam. “Nos cristãos não se procura o princípio, mas o fim”. O Senhor — prossegue o mesmo Santo — não exige somente o começo da boa vida, quer também seu bom termo; o fim é que alcançará a recompensa. É por isso que São Lourenço Justiniano chama a perseverança de porta do céu. Quem não der com essa porta, não poderá entrar na glória.
Tu, meu irmão, que abandonaste o pecado e esperas, com razão, que tenham sido perdoadas as tuas culpas, gozas da amizade de Deus; todavia ainda não estás salvo, nem o estarás enquanto não tiveres perseverado até ao fim (Mt 10,22). Começaste bem e santamente a vida.
Agradece mil vezes a Deus; mas adverte que, segundo disse São Bernardo, não é ao que começa que se oferece o prêmio, mas sim, unicamente, ao que persevera. Não basta correr no estádio; mas impende prosseguir até alcançar a coroa, conforme a expressão do apóstolo (1Cor 9,24).
Lançaste mão do arado: principiaste a viver bem; portanto, agora mais do que nunca, deves recear e tremer... (Fp 2,12) Por quê?... Porque, se retrocederes (o que Deus não permita) e tornares a trilhar o mau caminho, Deus te excluirá do prêmio da glória (Lc 9,62). Por conseguinte, evita, fortalecido pela graça de Deus, as ocasiões más e perigosas, freqüenta os sacramentos, faze cada dia meditação. Serás feliz se assim continuares até que Nosso Senhor Jesus Cristo venha julgar-te (Mt 24,46). Não esperes, no entanto, que, por teres resolvido servir a Deus, cessem as tentações e não voltem a combater-te. Considera o que diz o Espírito Santo: “Filho, quando chegas ao serviço de Deus, prepara a tua alma para a tentação” (Ecl 2,1). Atende que, então, mais que nunca, deves estar prevenido para o combate, porque nossos inimigos, o mundo, o demônio e a carne, agora mais que nunca, se armarão para te atacar e fazer-te perder tudo o que tiveres conquistado. São Dionísio Cartusiano afirma que, quanto mais uma alma se entrega a Deus, com tanto maior empenho e inferno procura arrebatá-la. Esta verdade se exprime claramente no evangelho de São Lucas, onde diz: “Quando o espírito imundo foi expulso duma alma, anda por lugares áridos procurando repouso e, não o encontrando, diz: “Tornarei à minha casa donde saí... Então vai e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram na alma e moram ali. E as últimas coisas deste homem serão piores que as primeiras” (Lc 11,24-26); ou seja: quando o demônio se vê expulso de uma alma, não encontra descanso e emprega todas as suas forças para dominá-la novamente. Pede auxílio a outros espíritos maus, e, se consegue reentrar naquela alma, provocará uma segunda ruína, mais grave que a primeira.
Considera, pois, quais as armas que vais empregar para defender-te desses inimigos e conservar a graça de Deus. Para não seres vencido pelo demônio, não há arma mais eficiente do que a oração. Dis-se São Paulo que não temos que combater contra os homens de carne e osso como nós, mas contra príncipes e potestades do inferno (Ef 6,12), querendo assim advertir-nos que carecemos de forças especiais para resistir a tamanho poder, e que, por conseguinte, necessitamos do socorro de Deus. Com a assistência divina, podemos tudo (Fp 4,13), dizia o Apóstolo, e todos devemos repetir o mesmo. Esse auxílio, porém, só se alcança pedindo-o por meio da oração. Pedi e recebereis. Não nos fiemos em nossos propósitos, que estaremos perdidos. Toda a nossa confiança, quando o demônio nos tentar, temos que depositar no auxílio divino, recomendando-nos a Jesus e a Maria Santíssima. Mui especialmente, devemos fazer isto nas tentações contra a castidade, porque são as mais temíveis e as que oferecem ao demônio mais freqüentes vitórias. Por nós mesmos, não dispomos de forças para conservar a castidade. É preciso que Deus no-las dê. “Cheguei à conclusão — exclama Salomão — que doutra maneira não podia guardar continência, se Deus não me desse... recorri ao Senhor e lhe roguei” (Sb 8,21).
Impende, pois, em tais tentações, recorrer logo a Jesus Cristo e à sua santa Mãe, invocando freqüentemente os santíssimos nomes de Jesus e Maria. Quem assim fizer, vencerá; o que fizer o contrário, será vencido.

AFETOS E SÚPLICAS

Ne projicias me a facie tua. Meu Senhor, não me afasteis da vossa face! (Sl 50,13) Bem sei que me não abandonareis, salvo se for o primeiro a abandonar-vos. Entretanto, a experiência de minha fraqueza me inspira temor. Dai-me, meu Deus, a força necessária contra o poder do inferno, que deseja novamente reduzir-me à sua odiosa escravidão.
Por amor de Jesus Cristo vo-la peço. Estabelecei, Senhor, entre mim e vós uma paz perpétua, que jamais se altere. Para este efeito, dai-me vosso santo amor. Morto está aquele que não vos ama (1Jo 3,14). Livrai-me dessa morte desgraçada, ó Deus da minha alma. Sabeis que estava perdido e que, por efeito de vossa bondade, cheguei ao estado em que me acho, nutrindo a esperança de que possuo a vossa graça... Em virtude da morte amaríssima que por mim padecestes, não permitais, meu Jesus, que voluntariamente perca prerrogativa de tão alto valor. Amo-vos sobre todas as coisas, e espero ficar sempre preso nos laços desse divino amor, com ele morrer e nele viver eternamente.
Ó Maria, a quem chamamos Mãe da perseverança, por vossa intercessão é que se alcança essa grande mercê. A vós a peço e de vós a espero.