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6 de outubro de 2019

A ALMA DE TODO APOSTOLADO
J. B. Chautard

Quão desconhecida é esta vida interior

Parte 1/2

São Gregório Magno, tão hábil administrador e zeloso apóstolo como grande contemplativo, com uma só palavra: secum vivebat (Vivia consigo mesmo), caracteriza o estado de alma de São Bento, que, em Subíaco, lançava os fundamentos da sua regra, tornada uma das mais poderosas alavancas de apostolado de que Deus se tem servido na terra.
É precisamente o contrário que se deve afirmar da grande maioria dos nossos contemporâneos; Viver consigo mesmo, em si mesmo, querer-se governar e não se deixar governar pelas coisas exteriores, reduzir a imaginação, a sensibilidade e até a inteligência e a memória ao papel de servas da vontade e conformar constantemente esta vontade com a vontade de Deus, é programa que dia a dia se vai aceitando cada vez menos, neste século de agitação que viu nascer um ideal novo: o amor da ação pela ação.
Para frustar esta disciplina das faculdades, bons se julgam todos os pretextos: negócios, cuidados de família, higiene, boa fama, amor da pátria, prestígio da corporação, pretensa glória de Deus, procuram à porfia impedir-nos de viver em nós mesmos. Esta espécie de delírio da vida fora de si chega até a exercer sobre nós uma fascinação irresistível.
Devemos admirar-nos então de que a vida interior seja desconhecida?
Desconhecida, é ainda dizer pouco; essa vida é amiúde desprezada e ridicularizada, até por aqueles mesmos que mais deveriam apreciar as suas vantagens e a sua necessidade. Houve-se mister da memorável carta dirigida por Leão XIII ao Cardeal Gibbons, arcebispo de Baltimore, para protestar contra as consequências perigosas de uma admiração exclusiva pelas obras.
A fim de evitar o trabalho da vida interior, o homem da igreja chega a desconhecer a excelência da vida com Jesus, em Jesus, por Jesus; chega a esquecer que, no plano da Redenção, tudo, ainda que construído sobre a rocha de Pedro, nem por isso deixa de ter fundamento na vida eucarística. Relegar para o segundo plano o essencial, eis no que inconscientemente trabalham os partidários dessa espiritualidade moderna, designada pela palavra: americanismo. Para eles, a igreja não é ainda um templo protestante. O sacrário não esta ainda vazio. Mas a vida eucarística, em sua opinião, quase não pode adaptar-se, nem sobretudo bastar às exigências da civilização moderna; e a vida interior que necessariamente promana da vida eucarística, já passou da moda.
Para as pessoas, e são legião, imbuídas dessas teorias, a comunhão perdeu o verdadeiro sentido que nela encontravam os primeiros cristãos. acreditam na Eucaristia, mas não a consideram já como um elemento de vida tão necessário para elas como para as suas obras. Visto que os colóquios íntimos com Jesus-Hóstia quase não existem já para essas pessoas, nenhuma admiração nos deve causar o fato de se considerar a vida apenas como uma lembrança da Idade Média.
Realmente, ao ouvir a maneira como esses homens de obras falam das suas empresas, seríamos levados a pensar que o Onipotente, o qual criou os mundos sem esforço algum e perante quem o universo mais não é do que poeira e nada, não pode prescindir do seu concurso! Sutilmente, grande número de fiéis, e até de sacerdotes e religiosos, ao prestarem tanto culto à ação, chegam a fazer dela uma espécie de dogma, que inspira sua atitude, os seus atos e os leva a entregarem-se desenfreadamente a uma vida fora de si mesmos. A Igreja, a diocese, a paróquia, a congregação, a obra carecem dos meus serviços, como eles se julgariam felizes em poder dizer isto. . . 
Eu sou mais útil a Deus. E se não ousam manifestar tal enfatuação, existe, entretanto, latente no fundo de sua alma, assim a presunção que lhe serve de base, como a atenuação de fé que lhe deu origem.

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