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18 de maio de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

Livre de Pecado Pessoal


Parte 3/5

Mas ainda mais; a Santíssima Virgem não só não pecou; não podia pecar; Deus fê-la impecável. 
Assim o pedia a sua dignidade de Mãe de Deus. Ao ouvir esta afirmação, alguém pode dizer: isso é um grande privilégio; porém, que mérito teve então a Santíssima Virgem?
Compreendereis o mérito, se compreenderdes bem a razão da impecabilidade. Porque foi impecável a Santíssima Virgem? 
A natureza divina repugna essencialmente o pecado. A Santíssima Virgem nem teve natureza divina, porque não era Deus; nem esteve unida com a natureza divina, porque não era como seu Filho; por tanto não é aí que devemos procurar a causa da impecabilidade.
Os anjos e os santos que estão no céu possuem o "lumem gloriae", a luz da glória, e em virtude dela vêem a Deus intuitivamente, face a face, e não podem pecar. Ver a Deus face a face e pecar é impossível. Trocar um bem infinito e imutável por um bem limitado e caduco é impossível.
A Santíssima Virgem pode ter e talvez tivesse a visão da divindade, porém mesmo que assim fosse, essa visão foi transitória, não foi continua; portanto, a razão que os santos do céu têm para não pecar, tão pouco a teve ela.
Então, porque foi impecável? Seria porque não teve atrativos exteriores que a induzissem a pecar?
É verdade que a divina providência velou por ela para afastá-la de todos esses atrativos para o pecado; porém os anjos na antecâmara do céu, estiveram também livres de todos os estímulos externos e pecaram. Ainda que uma pessoa não tenha a concupiscência, ainda quando não seja impelida ao mal por nenhuma sugestão exterior, essa pessoa pode pecar por amar-se desordenadamente a si mesma. Esse amor a si mesmo excitou a soberba dos anjos e dos primeiros homens e pôs a sua vontade em frente da de Deus.
Seria porque esteve livre da concupiscência? Não é razão suficiente. Livres da concupiscência estiveram Adão e Eva no paraíso e pecaram. Alguma coisa mais teve que haver na Santíssima Virgem para que fosse impecável.
É verdade que Maria não teve continuamente a luz da glória para contemplar face a face a divindade; porém teve a luz viva da fé e teve uma ciência infusa incomparável; e com essa ciência e com essa fé pensava em Deus, meditava continuamente em Deus, e conhecia perfeitamente a Deus embora não o visse face a face; e tal era o seu conhecimento de Deus que tanto ela, como os anjos do céu, não podiam trocar a Deus, bem infinito e eterno, por um bem caduco e rasteiro que podia levar ao pecado.
Conhecia profundamente a Deus e amava-o incomparavelmente mais que a todos os bens da terra; porque a medida do conhecimento era o seu amor e não podia, mercê das abundâncias de graças eficazes, pospôr Deus a esses bens terrenos.
Amava também a Deus na medida da graça que tinha na alma; e essa graça, é verdade, que em parte tinha-a recebido gratuitamente de Deus, porém em parte tinha-a multiplicado com os atos da sua virtude. Aí tendes a raiz da impecabilidade da Santíssima Virgem: além da imunidade da concupiscência, além da providência especial que Deus teve sobre ela, para que não a assaltasse nenhum pensamento pecaminoso, a Santíssima Virgem conheceu intimamente a Deus; e isto foi mérito seu.
A boca cheia devemos dizer com a Igreja: "És formosa, minha amiga, e graciosa como Jerusalém".
A Jerusalém celestial é o céu, e dela diz São João: É ouro limpo, semelhante ao límpido cristal e ali não entra nada manchado. Ouro limpo foi a Santíssima Virgem sem nenhuma mancha de pecado original, mortal ou venial. Ouro semelhante ao cristal, pois não teve uma natureza de querubim ou de serafim, mas humana, frágil como o cristal, e viveu na terra; grande mérito o da Santíssima Virgem.
Aquele que vive numa casa limpa coberta de alfombras e tapeçarias não é nada estranho que não se manche. O que admira é que não apanhe nem um bocadinho de lama aquele que anda num caminho cheio de lodo. Os anjos viveram na antecâmara do céu, limpa do lodo da terra. A Virgem Santíssima caminhou pelo mundo, lodaçal de pecados.
Como é admirável que em tantos anos de vida, em tantas ações, em tantas palavras, em tantos desejos, em tantos pensamentos não se possa descobrir nada imperfeito, nada que não seja conforme com a vontade divina!

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