16 de janeiro de 2018

Tesouro de Exemplos - Parte 437

SEGUIRÁS A CRISTO OU AO DEMÔNIO?

Certa vez o demônio apareceu a um jovem penitente que vivia no deserto e disse-lhe:
— Meu amigo, que fazes aqui? Desperdiçar neste deserto a tua mocidade!... Vem comigo, e eu te mostrarei as belezas da terra, os sorrisos encantadores, os espetáculos deslumbrantes e as alegrias da vida. Vem, eu te darei prazeres, amores, sonhos, delicias...
O jovem, indeciso, hesitante, pergunta:
— Dar-me-ás tudo isso?
— Tudo.
— Por quanto tempo?
— Vinte anos.
— Apenas o tempo que eu vivi até agora?...
— Bem; eu redobrarei os anos.
— É pouco! Não aceito!
— Sabes o que são quarenta anos de felicidade?
— Sei, sim! Um minuto que passou, deixando a mais amarga das ilusões.
Tão pronta e acertada resposta obrigou o demônio a retirar.-se. Estava vencido.
Ao mesmo jovem aparece outra visão: é Jesus que lhe diz:
— Meu filho, queres seguir-me?
— Jesus, que me dareis?
— Tribulações e dores, perseguições e lutas, sacrifícios e sangue.
— Por quanto tempo?
— Por todo o tempo da tua vida.
— E depois?
— Depois, se perseverares, serás para sempre feliz no meu reino.
O jovem abaixa a cabeça... Quando ergue os olhos, não hesita mais, e diz resolutamente:
. — Sim, Jesus, eu vos seguirei; porque, na verdade, os sacrifícios desta vida efêmera não se podem comparar com a recompensa eterna que me espera no céu.

15 de janeiro de 2018

Tesouro de Exemplos - Parte 436

NOS SOFRIMENTOS PENSEMOS NO CÉU

O sr. Miguel de Marillac, avó de S. Luisa de Marillac e ilustre homem de Estado, por sua fidelidade a rainha Maria de Médicis, caíra no desagrado do poderoso ministro Richelieu. Preso em 1630 por ordem desse ministro, Miguel foi metido no cárcere, perdendo todo o conforto, glória e estima de que gozara antes.
Na sua prisão, em vez de lastimar-se, consolava-se com o pensamento, com a lembrança do céu. Dizia: “Um só raio de luz sobre os bens da vida futura é mais que suficiente não só para tornar suportáveis as aflições da terra, como também para no-las fazer esquecer completamente”.
Quando o médico lhe comunicou que seu fim estava próximo, exclamou: “Louvado seja Deus! Noticia melhor não podia eu receber... Vou logo para a casa de meu Pai”.
Oh! se em nossas dores e infortúnios pensássemos um pouco mais no céu, até as nossas tristezas se converteriam em verdadeira e sincera alegria.

14 de janeiro de 2018

Tesouro de Exemplos - Parte 435

O DIA MAIS FELIZ
Numa cidadezinha da Áustria, que foi sempre um país católico, o professor mandou que os alunos respondessem por escrito a esta pergunta: “Qual foi o dia mais feliz de minha vida?” Um orfãozinho respondeu: “Enquanto minha mãe era viva, todos os meus dias eram os mais felizes”. ,
Outro aluno, que pensava mais na Mãe do céu, escreveu: “O dia mais feliz" foi quando visitei Nossa Senhora, no seu santuário de Mariazell”.
Ainda outro, que queria muito bem a Jesus, deu esta resposta: “O dia mais feliz de minha vida foi o da minha Primeira Comunhão: nesse dia Jesus visitou-me e cumulou-me de graças”.
Belo tema escolar! ótimas respostas!

13 de janeiro de 2018

Sermão para a Festa da Sagrada Família – Padre Daniel Pinheiro, IBP




[Sermão] Precisamos de famílias católicas, crucificadas com Cristo



Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Prezados católicos, a Festa da Sagrada Família é de instituição recente, e bem recente quando se trata da Igreja. Foi instituída pelo Papa Leão XIII no final do século XIX. Depois, com as pequenas mudanças litúrgicas feitas por São Pio X essa festa desapareceu, voltando logo em seguida durante o período da Primeira Guerra e no pós-guerra com o Papa Bento XV. Como podemos ver, então, dada a instituição dessa festa, os ataques à família já existem há um certo tempo. E muito se fala, desde aquela época e sobretudo hoje, do fracasso da família. Todavia, a instituição familiar é, enquanto tal, divina. Por isso, nunca poderá propriamente fracassar, nem deixar de existir ou ser completamente destruída na constituição que lhe foi dada pelo criador e, consequentemente, na nossa natureza. Em meio às ameaças à estabilidade da família e à sua santidade, resplandece a Sagrada Família de Nazaré e essa festa que nós comemoramos hoje.
A principal ameaça à família, porém, caros católicos, não é uma ameaça externa. A principal ameaça é uma ameaça interna, que está, infelizmente, na má formação dos cônjuges. Quando falamos de má formação, não nos referimos nem mesmo à uma formação intelectual. Não há muita dificuldade em compreender que aqueles que casam se colocam em uma união entre um só homem e uma só mulher por toda a vida e para a geração dos filhos. Isso todo mundo consegue compreender. O que falta é formação espiritual. Falta espírito de sacrifício, espírito de negação do amor próprio, de negação de si mesmo. Enfim, falta o amor à cruz que Cristo nos dá. Falta o espírito de união à Cristo crucificado. O problema no fundo, no matrimônio é no mais das vezes, de ordem espiritual. Não se trata dessa ou daquela virtude que falta, dessa ou daquela prática que deveria ser feita, mas de união e conformidade com Cristo crucificado. Não existe outro caminho a não ser o do sacrifício e o da negação de si mesmo, para que o casamento dê certo. É esse o único caminho para o bom matrimônio. E o que dizemos? Na verdade, não há outro caminho para ser cristão a não ser o caminho do sacrifício e da negação de si mesmo. Não há outro caminho para a salvação eterna.
Sem esse espírito de sacrifício e de renúncia, tudo se torna insuportável dentro do matrimônio. Fugindo da cruz, ela se tornará ainda mais pesada. No fundo, o que ocorre, é que ninguém quer ter esse espírito de sacrifício e de negação de si mesmo. Ou se o quer, o quer somente de maneira superficial. Na primeira contrariedade que lhe faz o cônjuge, ou que lhe oferece a circunstância do matrimônio, nessa primeira contrariedade já se irrita, se desespera, ou simplesmente perde o controle pela ira. No matrimônio – em que há evidentemente muitas alegrias – é preciso ter esse espírito de sacrifício sempre, constantemente. A cada dia e instante. Sem ele, já se pode renunciar a viver um bom matrimônio e, na verdade, a viver uma boa vida cristã. Sem esse espírito de sacrifício, já podemos renunciar ao Céu.
Em meio às dificuldades no matrimônio, muitos já pensam em separação. Essa praga que destrói as famílias e a sociedade. No mais das vezes, o que leva a isso são pequenas coisas, pequenos desentendimentos mal resolvidos, que se acumulam e vão ganhando em proporção. Na verdade, as pessoas não fazem ideia de quanto uma separação traz outros sofrimentos e tormentos imensamente maiores, sobretudo, se é feita sem causa grave. Sofrimentos para os cônjuges em primeiro lugar, e para os filhos, de maneira particular. É preciso dizer, caros católicos, que muitos de nós não temos ideia do que é realmente sofrer. Somos como crianças que berram porque ralaram um pouco o joelho quando caíram no chão. Fazemos das contrariedades corriqueiras um grande sofrimento que não existe. Somos nós, muitas vezes, que fazemos da nossa vida já aqui na terra um inferno, por fugir das cruzes.
Vejamos, então, as virtudes de que fala São Paulo na epístola de hoje, e virtudes tão necessárias para o matrimônio. A primeira delas a que fazemos menção é a benignidade para com o outro, a bondade para com o outro, querer efetivamente o bem do outro. Em seguida, fala também São Paulo da humildade. Não querer impor sempre a própria opinião, não querer ter sempre razão, ainda que às vezes nossa opinião possa parecer melhor que do outro. Ter paciência com os defeitos do próximo. Essa paciência que é a quintessência da caridade, da caridade fraterna. Paciência, como já dissemos em outras ocasiões, que não se confunde com a aprovação dos defeitos alheios, mas que é simplesmente esperar ou encontrar o melhor meio para fazer avançar as coisas. Finalmente, São Paulo nos diz também que devemos sofrer uns aos outros, suportar uns aos outros. Isso é preciso fazer de modo particular dentro do matrimônio. Suportar, como já dissemos, os defeitos uns dos outros, para apoiar uns aos outros, tendo em vista sempre essa finalidade última do matrimônio que é a santificação dos cônjuges e da prole. Finalmente, perdoar um ao outro, como pedimos no Pai Nosso, para que Deus nos perdoe, como perdoamos aqueles que são os nossos devedores. Devemos então, procurar perdoar aos outros, como Nosso Senhor Jesus Cristo nos perdoa se estamos verdadeiramente arrependidos, sem alimentar ressentimentos, sem alimentar espírito de vingança. O que são todas essas virtudes, senão o espírito de sacrifício e renúncia de si mesmo?
Faço aqui minha exortação de coração de pai e de pastor. Sacrifiquem-se pelas suas famílias. Não deixem o demônio vencer. Não deixem o amor próprio vencer. Vejam a Família de Nazaré. É uma luta e uma cruz constantes e cotidianas. Vale mais lutar, e vencer e abraçar a cruz do que fugir dela e sofrer, assim, bem mais fugindo da cruz que Deus nos deu. Quem foge da cruz sempre sofre mais do que aquele que a abraça. Precisamos efetivamente de famílias católicas. Famílias católicas com esse espírito de sacrifício. Famílias crucificadas com Cristo em seus sofrimentos cotidianos.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.













12 de janeiro de 2018

Tesouro de Exemplos - Parte 434

ONDE ESTAVA JESUS CRISTO ANTES DE LUTERO?

O Dr. B. M. B., que de modo especial se dedicava aos convertidos, conta o seguinte: Eu estava no meu escritório. De repente batem à porta. Apenas disse “entre!” e uma jovem desconhecida estava em pé diante de mim. Sem apresentação alguma foi dizendo:
— O Senhor teria a bondade de responder-me a uma pergunta?
— Mas posso saber, primeiro, com quem tenho a honra de falar?
— Isso lhe direi depois. Primeiro peço-lhe o obséquio de responder a minha pergunta.
Embora admirado daquela insistência, respondi:
— Se estiver em mim...
— Pois bem, a pergunta é esta: Onde estava Cristo antes de Lutero? Eu sou protestante e li na Bíblia a palavra de Cristo: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo”. Portanto, antes de Lutero onde estava Cristo?
— Sua pergunta está logo respondida: Ele estava ai, onde está até hoje, isto é, na Igreja Católica, pois outra Igreja não houve antes de Lutero.
— Muito agradecida. Foi isso mesmo que eu pensei. — Eu sou Margarida K., e o sr. ainda ouvirá falar de mim.
Passaram-se duas semanas. Batem a minha porta. Era Margarida. Depois de cumprimentar-me, disse:
— Falei a minha mãe da visita, que, há poucos dias, fiz ao senhor. Então ela me disse que mandaria convidar ao pastor protestante para responder a minha pergunta. E ele veio à nossa casa. Quando me perguntou o que queria, dirigi-lhe a mesma pergunta que fizera ao sr. A principio ficou estupefato; depois, furioso, disse que eu estava possessa do demônio e na iminência de perder a fé; que eu não era digna de pertencer à Igreja de Lutero, o homem de Deus, e portanto devia tornar-me logo católica.
Respondi-lhe com toda a calma que apenas fizera uma pergunta, que, ao 1er a Bíblia, fizera a mim mesma e queria saber se ele podia responder-me. Levantou-se, então, inopinadamente e exclamou:
— De gente possessa do demônio não quero saber nada!
E saiu apressadamente.
— Ah! foi assim que ele a tratou?
— Sim; e agora estou aqui e quero, se for possível, fazer-me católica. Quero estar na Igreja, onde está Cristo.
Seis meses mais tarde — no Natal — tive a felicidade de ver à mesa da comunhão uma grande neo-comungante, que, com lágrimas nos olhos, oferecia seu coração para servir de berço ao Salvador. Agora ela sabia e experimentava onde está Jesus Cristo.
Oxalá tenha muitos imitadores!

11 de janeiro de 2018

Tesouro de Exemplos - Parte 433

POR QUE REZAVA ELA TANTOS TERÇOS?

Narra “A Sentinela”, de Basiléia, que bem poucas senhoras nobres terão sido tão profundamente católicas e tão sinceramente piedosas, como a condessa S. Acaba de falecer aos 85 anos de idade após uma vida toda consagrada ao trabalho e à oração, tendo dado à Pátria e à Igreja quinze filhos.
Até o fim da vida rezava diariamente todo o rosário, isto é, três terços. Certa vez disse-lhe um dos filhos, o general S.: “Mãe, a senhora não precisaria rezar tantos rosários. Eu acho que um pouco menos bastaria”. A resposta foi pronta. “Meu filho, — disse ela — a gente precisa rezar muito pelos filhos, a fim de resguardá-los para Deus. Por isso, eu rezo, diariamente, os mistérios gloriosos por meus cinco filhos .que já partiram deste mundo; os mistérios gozosos pelos cinco que abraçaram o estado eclesiástico e, finalmente, os mistérios dolorosos pelos cinco que vivem neste mundo”.
Oh! se todas as mães pensassem e fizessem assim!

10 de janeiro de 2018

Sermão para o Domingo dentro da Oitava de Natal – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Retrospectiva 2017


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Estamos no último dia do ano de 2017. Foi mais um ano de provações, como sempre. Estamos aqui nessa terra, que é um vale de lágrimas. Claro, repleto também de verdadeiras alegrias. A situação na Santa Igreja Católica, infelizmente, continua preocupante. Colhemos, cada vez mais, os frutos do modernismo, que se baseia nos princípios da filosofia moderna subjetivista. O modernismo tem a intenção de adaptar a Igreja à mentalidade dos homens da época, como se o homem fosse o centro de tudo. Nós vivemos a época do culto do homem, da divinização do homem. Tudo deve ser feito para agradar à sensibilidade do homem e à sua mentalidade atual. Assim, alguns dizem que também a Igreja deve ter esse culto do homem e se adaptar a ao homem, para não ficar ultrapassada. Deve adaptar sua doutrina, sua moral, sua liturgia, de forma que que o homem seja o centro em tudo. Infelizmente, podemos perceber claramente em muitas coisas essa reviravolta, mesmo dentro da Igreja nas mentalidades dos homens da Igreja.
Deve ser, porém, o contrário. São a inteligência e a vontade dos homens que devem se submeter à verdade imutável ensinada sempre pela Igreja. Nem sempre a verdade agrada a sensibilidade. E daí? Não somos animais que buscam sempre o que agrada sensivelmente. Somos seres dotados de inteligência e de vontade que devem buscar a verdade e o bem, ainda que desagradem em certas circunstâncias. Encontraremos na verdade, no bem e no belo espiritual não algo que agrada momentaneamente a sensibilidade, mas encontraremos algo que nos traz a verdadeira felicidade. Deus é a Verdade e causa de toda verdade. Deus é o Bem e causa de todo bem. Deus é o Belo e causa de todo belo. Deus não muda. Sua Revelação não muda. A doutrina católica não muda. A moral católica não muda. A liturgia católica não pode mudar, a não ser de modo orgânico e para melhor exprimir a doutrina católica. Deus é o centro. Não é o homem. A Igreja guardará a sua juventude e vigor na medida em que permanece como uma rocha na doutrina e na moral de Cristo. Na medida em que utiliza meios semelhantes aos meios que tanto funcionaram ao longo dos séculos para converter as almas. Hoje se buscam tantos e tantos meios de evangelização e se esquece do principal: se esquece de pregar a doutrina de Cristo tal como Ele a ensinou para os apóstolos e tal como a Igreja sempre nos transmitiu. A fórmula para reenvagelizar os povos é simples: pregar o Evangelho. Sem mutilações. Sem adaptações. Sem acréscimos. Sem atenuações. Sem querer conciliar Cristo e o mundo. Pregar o Evangelho, isto é, a doutrina da Igreja.
Lembremos também que jamais devemos confundir misericórdia com o relaxamento da lei de Cristo e da Igreja. Isso seria afastar-se inteiramente do Evangelho. Contrapor justiça e misericórdia é igualmente um grande erro. Em Deus, as duas coisas estão perfeitamente harmonizadas. Deus é Misericórdia e é Justiça. O pecado continua, sim, a existir. A moral da Igreja, que é a moral de Cristo, continua a mesma de sempre. O casamento continua indissolúvel, e entre um só homem e uma só mulher. A comunhão não pode ser dada a quem se encontra em estado de pecado mortal (como os divorciados recasados) e os atos contrários à natureza humana (no campo da castidade) continuam sendo gravemente desordenados.
Devemos, em meio a essa crise que atinge todos os níveis hierárquicos da Igreja, guardar bem todos os princípios católicos. Esse ano de 2017 foi o quinto centenário da Revolução Protestante. Aproveitamos isso para mostrar como Lutero é uma das principais causas da mentalidade moderna, que gera a decadência de nossa sociedade e que tanto se opõe à doutrina de Cristo. Aproveitamos para começar uma série de sermões sobre as heresias, para mostrar como elas se repetem ao longo dos séculos, sobretudo a heresia da gnose, que serpenteia ao longo da história e que pretende fazer do homem Deus. Vemos isso, infelizmente, em filosofia e filósofos que se pretendem católicos. Vimos como não há conciliação possível entre a Igreja e os princípios filosóficos da modernidade. Claro, falamos da busca pela perfeição. Assim, falamos do papel da graça em nossas vidas, falamos da meditação, da caridade para com o próximo, do combate ao respeito humano. Falamos da paciência para com os defeitos do próximo, falamos da constância na prática do bem, tratamos da pureza no falar e da paz da alma contra a inquietação. Continuamos a falar ainda do sentido das cerimônias da Missa no Rito Romano Tradicional.
Foi o ano em que continuamos a apontar três erros muito em voga entre os católicos mais sérios: (1) O primeiro erro é a redução dos problemas somente ao problema político ou colocar a solução dos problemas na esfera política. Tem o messianismo do conservadorismo ou do monarquismo, por exemplo. Soluções eivadas de erros, quando as vemos tão como se apresentam a nós. Lembremo-nos sempre do que dizia o Cardeal Pie, grande defensor, no século XIX, da realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele afirmava que a “questão social será resolvida pela questão religiosa, e a questão religiosa diz respeito sobretudo à questão do culto.” Podemos acrescentar: a questão do culto diz respeito sobretudo à questão da Missa. Dentro disso, muitos reduzem o problema ao comunismo e socialismo ou à teologia da libertação, como se fossem os únicos males do mundo, como se o esquerdismo não encontrasse a sua causa no liberalismo ou como se não tivesse como causa os princípios da filosofia moderna. Dentro dessa questão toda, apontamos os graves erros do conservadorismo que se desenvolve no Brasil e no mundo, às vezes, com uma capa de catolicismo. Uma direita eivada de liberalismo, já condenado pela Igreja, mesmo o liberalismo econômico. Um conservadorismo, muitas vezes, com fundo esotérico. Um conservadorismo próximo da maçonaria e elogioso da maçonaria, inimiga jurada da Igreja. E os católicos seguindo esses conservadores filósofos, historiadores, educadores. Um conservadorismo que dissemina sutilmente seus erros com fachada de catolicismo e que muitos católicos, com os olhos embaçados, não percebem. Um conservadorismo que, sob pretexto de alta cultura e política, destrói uma verdadeira restauração de todas as coisas em Cristo. São Pio X (Editae Saepe)  diz que os inimigos da Igreja têm sobre os lábios o grito de cultura e de civilização, porque com esse nomes grandiosos podem mais facilmente esconder a malícia de seus intentos. Leão XIII (Humanum Genus) menciona também o pretexto da cultura como desculpa para que os inimigos da Igreja disseminem seus erros. Hoje, vemos com frequência o grito da alta cultura se propagar em detrimento da doutrina de Cristo. Espalha-se nesse meios conservadores também o gravíssimo erro do perenialismo, que afirma que todas as religiões são a expressão de uma única religião, que chamam de religião perene, sabedoria perene ou filosofia perene (esse último termo às vezes usado também para designar a filosofia aristotélico-tomista), como se a religião católica não fosse a única verdadeira, e como se não estivesse em contradição com as outras. Um conservadorismo que se baseia em autores que se fundamentam em filosofias modernas revolucionárias e que propagam a revolução de modo light como fizeram na revolução inglesa. Esse conservadorismo que surge tem, nas suas variadas vertentes, algum ou alguns desses erros. Direita, esquerda e centro sempre se uniram contra a Igreja na política moderna. Monsenhor Jouin, elogiado por São Pio X, dizia que as coisas iriam melhorar quando os católicos não mais recuassem de suas convicções, quando os católicos retomassem a coragem mediante a prática das virtudes, quando retomassem a via do sacrifício para seguir o Messias pobre e sofredor, quando parassem de mendigar a salvação à direita e à esquerda e quando formassem o partido de Deus de que falava o Papa (São Pio X, na Encíclica E Supremi Apostolatus). Partido de Deus que não é, em primeiro lugar, um partido político.
(2) O segundo erro é o erro do aparicionismo, que é o apego a aparições que não são devidamente aprovadas pela Igreja ou o apego desordenado mesmo àquelas aprovadas pela Igreja, baseando toda a vida espiritual em aparições, muitas vezes com interpretações puramente pessoais delas. Chamamos a atenção também para grupos que sob a aparência de promoção à devoção a Nossa Senhora, em particular a Nossa Senhora de Fátima, tiram proveito da boa-fé e da boa vontade das pessoas para conseguir dinheiro. É preciso, claro, levar a sério as aparições aprovadas pela Igreja, mas sem fazer delas o fundamento de tudo.
(3) O terceiro erro é o do culto de personalidade, que consiste em tornar uma pessoa a referência única para a solução de todos os problemas, em substituição à Igreja, à hierarquia, e ter uma reverência desordenada a essa pessoa. Muitas vezes, isso vem aliado ao fato de impedir as vocações sacerdotais e religiosas de florescerem e famílias católicas de se formarem por enfurnar rapazes em uma casa para defender uma causa sem qualquer tutela da Igreja.
Continuamos as provações em nosso país com a crise moral, com a crise na sociedade, de modo geral. Cada vez maiores dificuldades para a prática de nossa santa religião. Uma oposição cada vez mais ferrenha à lei natural e também à lei divina, com consequências cada vez piores em virtude da difusão da ideologia de gênero, por exemplo. Uma sociedade em que a vida do próximo não tem praticamente valor, em que se mata por um nada ou por algum punhado de dinheiro. Uma sociedade em que querem matar os mais indefesos, as crianças não nascidas. O Supremo Tribunal Federal continua, infelizmente, caminhando no sentido de aprovar e promover todas as ideologias absurdas anticristãs, contrárias à lei natural e mesmo ao simples bom-senso. Não conseguem aprovar no Congresso essas medidas, dado que a maioria da população é contra, passam, então, a legislar maliciosamente pelos tribunais. Os inimigos de Cristo encontram e desenvolvem meios sutis para tirar Cristo da sociedade. Os países, tendo abandonado a fé católica e tendo aderido ao laicismo, já não podem resistir à própria decadência moral e social advinda do liberalismo de todo os matizes. Muitos já não podem também resistir ao islã. Precisamos rezar pelo nosso país e pelo mundo. Precisamos fazer a nossa parte, começando por santificar a nós mesmos e as nossas famílias e buscando que a lei de Cristo seja observada em toda a sociedade. As dificuldades, as provações são também meios que Deus nos dá para exercer a virtude, para suportar os males com paciência, para vencê-los com a virtude contrária e, sobretudo, com o amor a Deus.
Essas provações, permitidas por Deus, devemos aproveitá-las para a nossa santificação. Tudo cooperará, efetivamente para o bem do justo (Rom. VIII, 28), que, nos bens e nos males, sabe encontrar meios para sua santificação e para estender o reino de Cristo na sua alma e na sociedade.
Reafirmemos, caros católicos: devemos começar pelo cuidado das nossas famílias, combater o bom combate e guardar a fé e a caridade. De pouco adianta ser um paladino da Missa no Rito Romano Tradicional e da moral católica, se, com os nossos pecados mortais não combatidos seriamente, cooperamos para o reino do demônio. Não é suficiente louvar a Cristo com a boca, se o crucificamos com nossos pecados. É preciso amar, defender e propagar a liturgia tradicional, bem como defender e propagar, na sociedade, a doutrina e a moral católicas, sobretudo guardando a fé e observando os mandamentos de Cristo. Devemos nutrir a nossa fé e a nossa alma não com redes sociais, nem com grupos de whatsapp, nem com fotos de internet com uma frase atribuída a alguém ou com mera informação, mas com os tesouros da espiritualidade e da fé católicas: os bons livros, que são nossos melhores amigos.
Procuraremos continuar combatendo o bom combate e pregando o Evangelho de modo oportuno ou importuno, como diz São Paulo. Não devemos ser, porém, pessimistas desesperados. Nem otimistas ingênuos. Devemos ser realistas com esperança sobrenatural.
Assim, tivemos nesse ano grandes alegrias, é evidente. Começando pelo nosso singelo apostolado. Muitas crianças nasceram no apostolado, e 19 batizados foram realizados. 19 pessoas nasceram para a vida da graça! Fizemos a devoção das 40 horas em reparação pelos pecados do carnaval. Tivemos uma belíssima Semana Santa na Capela, digna do céu, enquanto isso é possível. 6 crianças receberam a primeira comunhão. Uma magnífica cerimônia de Crisma com o Bispo Auxiliar de Brasília, Dom José Aparecido, com 18 crismados entre crianças e adultos. O Catecismo de Adultos esteve cheio como nunca. Duas Missas públicas diárias. Três Missas no domingo, o que foi possível pela chegada dos Padres Marcos e Luiz Fernando Pasquotto. A Providência tem ajudado muito. Nosso Cardeal Arcebispo também sempre nos ajudou e ajuda bastante. Continuamos a favorecer a devoção das primeiras sextas-feiras e dos primeiros sábados em reparação ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, respectivamente. Entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares de muitas famílias, aguardando aquelas que ainda não a fizeram. Nossa Senhora honrada no dia da Festa de suas Dores com bela Missa Solene. Terço com formação doutrinária e espiritual para pais e mães de família. Grupo para as meninas e para os meninos, a fim de se nutrirem, desde a mais tenra idade, com doutrina e ambiente católicos e de formarem o caráter e as virtudes. No total, mais ou menos 60 crianças presentes regularmente nesses grupos, o Grupo de Moças da Capela N. Sra. das Dores e a Sociedade da Alegria de Dom Bosco, Maior e Minor. Aulas de história da Igreja, que muito ajudam a responder aos ataques contra a Igreja. E, como disse, o Cardeal Newmann, conhecer profundamente a história é deixar de ser protestante, ou seja, é tornar-se católico. Tivemos formações sobre a Liturgia, importantes para compreender bem o Rito Romano Tradicional. Tivemos a continuação das Conferências sobre a vida dos Santos, que nos mostra concretamente a prática da virtude. Tivemos as excelentes Conferências de Quaresma sobre Nossa Senhora de Fátima, as Conferências de Advento e as conferências de férias em julho. Nesse ano, continuamos com os retiros para homens e para mulheres. Dois para cada. Tivemos também duas jornadas para casais, passeios para as jovens e para os jovens. Continuamos as importantíssimas formações para as jovens mulheres e para os jovens homens. Insistimos, em particular, sobre a necessária maturidade espiritual e humana, sobre esperar o momento certo (em todos os aspectos) para começar um namoro, sobre a prudência necessária em um namoro para guardar a pureza. Tivemos também os bons momentos com nossas tradicionais confraternizações após festas importantes. Tivemos a Festa de São João, a Festa dos Santos. Tivemos ainda a excelente jornada de Nossa Senhora de Fátima no dia 13/05 em honra dos 100 anos das aparições. Tivemos a extraordinária Jornada de Nossa Senhora Aparecida em honra dos 300 anos do encontro da imagem. Essa Jornada será institucionalizada para os próximos anos. Tivemos duas peregrinações imensamente frutuosas: a peregrinação nacional do IBP a Aparecida em julho e a peregrinação de nossa Capela a Trindade, para honrar Nossa Senhora e a Santíssima Trindade. Foram momentos de inúmeras graças em virtudes das caminhadas e de um excelente convívio, com orações e as já tradicionais cantorias. Quanta alegria! Em Aparecida, tivemos a imensa satisfação da presença de Dom Fernando Guimarães para a Missa Pontifical. Tivemos a alegria de sua presença também na Festa de São Pio V, para comemorar os 10 anos do Motu Proprio Summorum Pontificum. Tivemos a visita do Cardeal Raymond Burke, na mais bela Missa que eu já vi. E já vi um certo número na vida. Foi um ano em que Deus e Nossa Senhora das Dores nos permitiram manter e incrementar muitas coisas úteis para o progresso de cada um e das famílias. Se estamos ainda aquém do ideal, já demos, com a graça divina, alguns passos. É preciso que aproveitem tudo isso, caros fiéis, o máximo que puderem. Minha viva exortação para que participem das atividades aqui da Capela e se deixem formar pela doutrina e pela espiritualidade católicas.
O mundo precisa de famílias católicas. Precisa, ainda mais, de bons padres. E, como insistimos algumas vezes, as duas coisas caminham conjuntamente: a família católica e o sacerdócio católico. Não pode haver restauração de tudo em Cristo sem as duas coisas trabalhando em união.
A expansão, ainda que pouco a pouco e com obstáculos, da Missa Tradicional é inegável. E com a propagação da Missa Tradicional, propaga-se também a fé católica com todo seu vigor, com toda a sua clareza. E com a fé católica vêm todos os bens, naturais e sobrenaturais. A Missa é o centro de tudo, já que é a renovação nos altares do sacrifício de Cristo no calvário.
Nesse último dia do ano, é bom pararmos e refletirmos, caros católicos. Como anda a minha alma? O que fiz nesse ano para santificá-la? Aproveitei essa liturgia imemorial, esse tesouro da fé e da piedade para aproximar-me de Deus? Aproveitei os meios que tenho à disposição para me santificar e santificar a minha família? Procurei formar-me bom católico? Procurei cumprir bem os meus deveres de estado? Como jovem homem ou mulher, procuro me preparar espiritualmente, humanamente e profissionalmente para o matrimônio ou para a vocação religiosa? Procuro atingir a maturidade espiritual e humana? Tenho cumprido meus deveres de estudante? De filho? Como pai de família, tenho assumido a responsabilidade pelo bem espiritual de minha família, tenho buscado agir para o bem da família e não o meu próprio? Tenho feito o que devo para a educação dos filhos? Estou consciente de que a santificação da família depende em grande parte de minha santificação? Tenho me esforçado para garantir também o sustento material de minha família? Como mãe de família, tenho sido generosa diante dos necessários sacrifícios quotidianos e muitas vezes escondidos ou tenho murmurado? Tenho me preocupado com a educação dos filhos? Tenho me preocupado com a saúde do lar? E como cristão, tenho me acomodado? Aproveitei os sacramentos e sacramentais? Comunguei com boas disposições, com fervor? Procurei a confissão com boa disposição e com frequência? Rezei o Santo Terço diariamente? Tive uma devoção real e não meramente sentimental a Nossa Senhora? Procurei pensar nas coisas do alto? Fiz as orações diárias? Da manhã? Da noite? A meditação? A leitura espiritual?
Aproveitemos esse próximo ano que se inicia e peçamos a Deus a fidelidade à sua graça. Peçamos a Deus a docilidade diante dos ensinamentos de sempre da Santa Igreja. Peçamos a Deus a graça de receber bem e com frequência os sacramentos. Peçamos a graça de fortalecer a nossa fé diante das tormentas. Peçamos a perseverança nos bons propósitos. Peçamos a Ele a santificação de nossas famílias, dos cônjuges e das crianças. Peçamos a Ele, com toda a força da nossa alma, a graça de sermos verdadeiramente santos.
Agradeçamos a Deus pelo ano que passou, também pelas cruzes. A todos, um santo ano de 2018.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

9 de janeiro de 2018

O Inferno Existe - Parte 12

CAPÍTULO XII

O inferno é invenção dos padres
Nada mais falso. O inferno já existia antes que existissem os padres e mesmo antes do primeiro homem, tendo sido criado pela eterna justiça para os anjos rebeldes. Os sacerdotes outra coisa não fazem senão pregar uma verdade terrível, ensinada por Deus na Sagrada Escritura e que se acha em todas as religiões dos vários povos que passaram pela terra.
Precustrai o mundo, do álgido polo ao ardente equador, do oceano Atlântico ao Pacífico; entrai nas florestas dos selvagens, interrogai as tribos bárbaras e haveis de ver que todos admitem depois da morte um lugar de castigo. Não estão de acordo sobre a natureza dos sofrimentos; mas todos concordam em acreditar na existência do inferno.
Os gregos tinham o seu tártaro, no qual punham penas horríveis para os maus. Os romanos chamavam inferno ou arco e Virgílio na Eneida descreve com cores bem vivas os tormentos dos condenados, dizendo-os eternos. Os egípcios criam firmemente na vida futura e no prêmio ou castigo eterno, e dos mortos faziam um julgamento para ver se eram dignos da sepultura e das honras fúnebres. Os hidús chamam o lugar dos réprobos Palatán e nos livros sagrados dos Vedas se encontra uma longa descrição dos atrozes tormentos a que serão submetidos os condenados. Os escandinavos e outros povos setentrionais leem no Edda a existência do cárcere infernal. Os hebreus o denominavam sheol ou geena, e o santo profeta Daniel, tomado de espanto ao meditar naquelas chamas terríveis, rogava a Deus que o livrasse do profundo abismo e não permitisse fechar-se sobre sua cabeça aquele poço de fogo.
Os Missionários Salesianos encontraram esta crença nas pampas da Patagônia e nas florestas da Terra do Fogo; e aqueles selvagens falavam com pavor do castigo que receberão os maus. Maomé, o mais solene impostor da História, gastou muitas laudas do Corão para descrever o lugar dos tormentos acumulando todas as penas que uma fantasia oriental pode imaginar. Zoroastro imprimiu também nos persas uma ideia terrível da punição além tumba.
Deixo de citar outros povos, porque, do contrário, não acabaria mais.
Os padres, portanto, não inventaram esta crença, mas acharam-na bem impressa em todos os povos e a encontraram ainda agora esculpida no fundo da consciência humana, a qual brada que o pecado não passará sem castigo, como a virtude não ficará sem prêmio.
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Outra extravagância que os “espíritos fortes” vão assoalhando é esta: “o inferno é coisa da Idade Média”.
Só mesmo quem perdeu o juízo fala desse modo. O que era verdade na Idade Média o é também hoje e o será sempre, porque o tempo não pode destruir a verdade. Os séculos não conseguem apagar aquelas chamas vorazes, alimentadas, pela divina justiça e nas portas tenebrosas daquele cárcere continuarão as terríveis palavras: sempre, nunca.
Deus tratará os homens do século XIX como os da Idade Média, premiando os bons com o paraíso e castigando os maus com o fogo. A justiça eterna é invariável e incorruptível e não muda com o correr dos tempos e das opiniões do mundo.
Ouvindo falar a certas pessoas, parece que hoje em dia foram abolidos os mandamentos de Deus e da Igreja, foram suprimidos os deveres religiosos, soltou-se o freio às paixões e ao homem foi dada plena liberdade de viver segundo os seus caprichos. Ilusões estultas, que se pagam depois com uma eternidade infeliz! As leis de Deus e da Igreja estão sempre em vigor, e todo cristão é obrigado a observá-las se quiser ter uma sentença favorável no grande dia do juízo.
Os heróis dos bares e clubes, quando se veem apertados de toda a parte por argumentos fortes e não podem mais negar a existência do inferno, saem-se com um dislate sem igual: “O acostuma com tudo. Eu me acostumarei no inferno.”
Falam assim para não se darem por vencidos e não abandonar a vida dissoluta. Propriamente não têm dificuldade em admitir o cárcere eterno, porque a razão prega a existência dele; o difícil e o repugnante para eles é corrigirem os costumes, praticarem o bem, abandonarem os maus hábitos e viverem como bons cristãos. E em vez de fazerem violência sobre si mesmos, preferem perder-se para sempre.
De resto, se não são capazes de habituar-se a vencer as próprias paixões, como se acostumarão com aquelas penas cruciantes? Quem, jamais, pode acostumar-se com a dor que é contrária à natureza? Fomos feitos para a felicidade e o coração foge sempre da desventura e é impossível que se dê bem nos sofrimentos. E os santos respondem que os tormentos se sucedem aos tormentos; e do mesmo modo que os bem-aventurados compreensores experimentarão sempre novos gáudios, os infelizes condenados sentirão sempre novos e mais terríveis tormentos.
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Divulgou-se o provérbio que “o demo não é tão feito como o pintam”, e costumam citá-lo para demonstrar que a fama e a opinião popular muitas vezes são superiores à realidade das coisas, porque a fantasia sois exagerar as dificuldades e as penas.
Mas, se aplicamos ao inferno esse adágio andamos em errados. Por mais que procuremos calcar as cores e as tintas pintando as penas do demônio e dos réprobos, estaremos sempre aquém da realidade e não chegaremos nunca a exagerar. Um cadáver em decomposição não nos dá nem ideia de como Satanás é sórdido, é horrível; e uma santa informou que, se ele saísse da sua prisão tal mal é, faria morrer pela sua hediondes todos os homens e animais.
No opúsculo citado da possessa de Briga lê-se que muitas vezes quando invadida pelo demônio tinha o aspecto tão medonho que punha toda a povoação em polvorosa. Dado o sinal de alarme, todos corriam para a igreja para implorar misericórdia de Nosso Senhor.
Eis as palavras textuais. “A filha tornou-se furiosa e ameaçadora. Horrível à vista, cabeleira desgrenhada e hirta como um penacho, olhos de fogo, assobios nunca ouvidos e incessantes, hálito quentíssimo, contrações de nervos, engrossamento muscular de fazer medo, sem um membro que ficasse calmo. Nenhuma força era capaz de a dominar. Os mais robustos são juncos flexíveis. Acorrem outros e o quarto fica cheio de homens fortes e corajosos. Sete deles seguram-na ao mesmo tempo nos pés, no pescoço, nos braços e na cintura; mas não resistem, porque à guisa de turbilhão impetuoso vence a todos e os põe em fuga”.
Então o povo corre ao pároco para que a exorcize.
“Não há palavras suficientes para dar uma ideia do que viu e o medo que teve entrando naquela casa. Todavia, confiando em Nosso Senhor, a quem sempre tinha eficazmente invocado, entra e ordena: – „Olá! satanás, para em nome de Deus‟. A essas palavras, Teresa como fulminada cai no leito”.
Na manhã de 11 de maio 1849, desapareceu improvisadamente de casa e durante todo o dia ouviram-se pelos ares lamentos, gritos, rumores misteriosos. O povo pensando que aquilo fosse o fim do mundo se recolheu na igreja para rezar.
À tarde, durante a Bênção do Santíssimo Sacramento, ouviu-se, sob um céu sereno e estrelado, estrépito medonho como de um furacão que se aproximava. A povoação se alarma; ecoam gritos prolongados e suspiros dolorosos; e finalmente distinguem-se a voz da moça possessa no teto de uma casa. À meia-noite pede auxílio para descer; e um destemido sobe uma escada e a desce, sem a menor dificuldade, como se fosse um feixe de palha. Estava fria petrificada, descalça, e tinha um bastãozinho na mão. Homens fortes experimentaram tirar-lhe o bastão, mas não o conseguiram, como se fosse de ferro os seus braços.
“Se, além disso, observas o seu rosto, és obrigado a desviar o teu olhar; é o mesmo que ver um espectro, isto é, o demônio em forma humana. De qualquer lado que se a observes ficas horrorizado: parece mesmo satanás, horrível, ameaçador, feral. O olho, principalmente, sanguíneo e irrequieto, sob imóvel e entreaberta pupila fere de modo cruel. O inferno nela se esconde”.
Deitada no chão, ninguém mais ousava aproximar-se-lhe, quando, após incessantes pedidos dos parentes, quatro homens mais fortes a suspendem e a levam, como um tronco, para casa, onde o pároco exorcizando-a, fá-la voltar a si e largar o bastão não sem grande resistência e agitações do demônio.
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Todos esses fatos que narramos confirmam o dogma terrível revelado por Deus da existência do inferno; e eu faço os melhores votos para que os meus leitores o evitem e mereçam o Paraíso, para o qual o Senhor nos criou. A. M. D. G.
Imprimatur Por comissão especial do Exmo. e Revmo. Snr. Bispo de Niterói D. José Pereira Alves. Niterói, 1.º de janeiro de 1945. Pe. Francisco X. Lanna, SS.