17 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

V I
PREPARAÇÕES  DIVINAS
(Tempo do Advento)

A FONTE  de todas as bênçãos de Deus sobre nós está  na  escolha que Ele fez das nossas almas,
desde a eternidade, para as tornar <
Diz S. Paulo «que esta adoção nos foi dada pela graça de Jesus Cristo, enviado por Deus na plenitude dos tempos» :  At ubi venit plenitudo temporis misit  Deus Filium suum factum  ex muliere  . . .  ut adoptionem  fíliorum reciperemus.
Este desígnio eterno de Deus <
Como sabeis, foi durante quatro mil anos que Deus quis preparar a humanidade para a revelação deste mistério. Por que razão demorou Deus tantos séculos a vinda do Seu Filho ao meio de nós? Nós, simples criaturas, não podemos penetrar o último porquê das condições em que Deus realiza as Suas obras ; Ele é o Ser infinitamente soberano «que não precisa de conselhei­ro». Mas é também «a Sabedoria personificada, que tudo regula com medida e equilíbrio, com força e doçura», Podemos, no entanto, examinar humildemente algumas das conveniências que Ele manifesta em Seus mistérios. Era preciso que os homens, que haviam pecado por orgulho  - Eritis sicut dii - fossem por uma prolongada experiência da sua fraqueza e da amplitude da misericórdia de Deus obrigados a reconhecer a necessidade absoluta que tinham dum Redentor em aspirar ardentemente pela sua vinda.
Com efeito, toda a religião do Antigo Testamento se resume neste brado que saía sem cessar do coração dos patriarcas e dos justos fiéis : «Céus, mandai-nos o vosso orvalho!  Abra-se a terra e dê-nos o Salvador» ! A ideia deste Redentor futuro abrange toda a Antiga Lei ; todos os símbolos, todos os ritos e sacrifícios o representam:  Haec omnia in figura contingebant illis: para Ele convergem todos os votos e todos os desejos. Segundo  a  bela expressão dum autor dos primeiros séculos, o Antigo Testamento trazia Jesus Cristo em suas entranhas :  Lex  Christo gravida erat. A religião de Israel era a espectativa do Messias libertador.
Além disso, a grandeza do mistério da Incarnação e a majestade do Redentor exigiam que a Sua revelação só aos poucos fosse feita. O homem, logo depois do pecado, não era digno de receber nem capaz de acolher  a manifestação plena do Homem-Deus. Por isso, Deus, com uma economia cheia de sapiência e, ao mesmo tempo, de misericórdia, só pouco a pouco, pela voz dos profetas, revelou este inefável mistério. Quando a humanidade estivesse suficientemente preparada, o Verbo,
tantas vezes anunciado, tantas vezes prometido, há tanto tempo esperado, surgiria em pessoa neste mundo para nos instruir:  Multifariam multisque modis olim Deus loquens patribus in prophetis ... novissime locutus est  nobis  ín  Fílio.
Indicar-vos-ei, pois, alguns traços dessas divinas preparações para a Incarnação. Veremos com que prudência Deus dispôs o gênero humano para receber a salvação; teremos então ensejo de agradecer ao «Pai das misericórdias» ter-nos feito viver «na plenitude dos tempos» - que ainda dura - em que concede aos homens o dom inestimável do Seu Filho.

16 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - 205

SEDE VELHACOS

S. Filipe Néri, que vivia rodeado de rapazes; disse-lhes um dia:
— Meus caros, se estiverdes bem atentos tenho uma bela coisa para dizer-vos.
— Diga, diga, padre Filipe — repetiram-lhe os rapazes cheios de curiosidade.
— Pois bem; eu vos digo que há neste mundo muitos loucos e muitos velhacos.
— Que quer o sr. dizer com isso, padre Filipe?
— É muito simples: os velhacos são os que, vivendo no meio do mundo, trabalham sempre para o céu; loucos, porém, são aqueles que se afadigam pelas coisas da terra e caminham para a perdido eterna.

15 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

v

Expondo segundo  S. Paulo a obra de Jesus Cristo Pontífice no céu não esgotamos as maravilhas do sacerdócio de Jesus.
O  céu tem a sua oblação eminente inefável mas contínua e gloriosa. O Verbo Incarnado não quis deixar o mundo sem lhe legar igualmente um sacrifício. É  a santa Missa, que recorda e reproduz ao mesmo tempo dum modo místico, a imolação do Gólgota.
O  sacrifício da cruz é o único sacrifício, como já disse ; é inteiramente suficiente ; mas Nosso Senhor quis que ele se renovasse para aplicar os seus frutos às almas.
Esta verdade será exposta mais pormenorizadamente quando contemplarmos o mistério da Eucaristia. Por agora, só quero dizer-vos como o nosso Pontífice per­petua o Seu sacrifício na terra.
Jesus Cristo escolhe certos homens a quem dá uma participação real do Seu sacerdócio. São os padres que o Bispo consagra no dia da ordenação. Com as mãos estendidas sobre a cabeça daquele que vai consagrar o Bispo invoca o Espirito Santo, pedindo-lhe para que desça à sua alma. Naquele momento poder-se-iam repetir ao sacerdote as palavras do Anjo a Maria: Spiritus Sanctus  superveníet  in  te.  O  Espírito Santo envolve-o para assim dizer e opera nele uma semelhança
e uma união tão estreita com Jesus que como Jesus Cristo se torna sacerdote para a eternidade. A tradição cristã denominou o sacerdote «outro Cristo» : é escolhido para ser em nome de Jesus Cristo, mediador entre o céu e a terra. a esta uma realidade sobrenatural Vede: quando o sacerdote oferece o sacrifício da Missa que reproduz o sacrifício do Calvário identifica-se com Jesus Cristo. Não diz: «isto é o corpo de Cristo, isto é o sangue de Cristo». Se assim o fizesse, não haveria sacrifício. Mas diz : «isto é o meu corpo, isto é o meu sangue».
Desde aquele momento, o sacerdote, consagrado a Deus pelo Espírito Santo, torna-se, como Jesus Cristo, Pontífice e Mediador entre os homens e Deus, ou antes, é a mediação única de Jesus Cristo que se prolonga na terra, através dos tempos, pelo ministério dos sacerdotes. O padre oferece a Deus, em nome dos fiéis, sobre o altar, o sacrifício eucarístico ; do altar distribui ao povo
a Vítima sagrada, o pão da vida, e, com ele, todos os dons e todas as graças.
O altar é, na terra, o centro da religião de Jesus, como o Calvário é o remate e a culminação da Sua
vida. Todos os mistérios da existência terrestre de Jesus convergem, como já disse, para a imolação da cruz ; todos os estados da Sua vida gloriosa aí vão haurir o seu esplendor.
É por isso que a Igreja não comemora nem celebra mistério algum de Jesus sem oferecer o santo sacrifício da Missa. Todo o culto público organizado pela Igreja gravita em torno do altar ; o conjunto de leituras, orações, louvores e homenagens, que se denomina Ofício divino, em que a Igreja descreve  e  exalta os mistérios do Seu celeste Esposo, foi por ela regulado para enquadrar o sacrifício eucarístico.
Seja, pois, qual for o mistério de Jesus que cele­bremos, não podemos, depois de o termos contemplado e.  meditado com a Igreja, participar nele de modo mais perfeito nem prepara- nos melhor para dele colhermos os frutos, do que assistindo com fé e amor ao sacrifício da Missa e unindo-nos, pela Comunhão, à  Vítima divina por nós imolada sobre o altar.
Conta-se na vida de Maria d'Oignies que Nosso Senhor costumava, nas diferentes festas, aparecer-Ihe no Santíssimo Sacramento  vestido de harmonia  com  o mistério que se celebrava.
Nada temos a invejar-lhe. Pela Comunhão, Jesus Cristo não se mostra somente à alma vem a ela comuni­ca-lhe todo com a Sua Humanidade de Pontífice mise­ricordioso que conhece as nossas fraquezas, com a virtude da Sua Divindade que nos pode elevar até Ele, à direita do Pai. Vem a nós, não para se nos manifestar, mas para rogar ao Pai em nós e conosco : para Lhe oferecer homenagens divinas e unir a essas homenagens as nossas súplicas: vem principalmente para realizar no íntimo das nossas almas, por Seu Espírito, o fruto de cada  um  dos Seus mistérios.
Já deveis  ter  notado como a ação de graças que segue a santa oblação e á Comunhão (postcommunio) toma uma expressão diversa segundo os diferentes mistérios. Que significa isto, senão que Jesus Cristo, pela Comunhã, quer despertar em nós os pensamentos e sentimentos que experimentou vivendo o mistério celebrado nesse dia e aplicar-nos, consequentemente, os frutos particulares e as graças próprias desse mistério?  É o que a Igreja pede na  postcommunio  da festa do Rosário, em que soleniza a união da Mãe do Verbo Incarnado com todos os mistérios do Seu Filho Jesus. Que pede ela na oração da Missa? Lembra a Deus que «Seu Filho único nos mereceu as recompensas da salvação eterna pela Sua vida, morte e Ressurreição» ; depois roga-lhe «que, ao
honrar estes mistérios, imitemos o que eles contêm e obtenhamos o que prometem ».  Concede . . . ut haec mysteria recolentes, et imitemur quod continent et quod promíttunt assequamur. Pensamento idêntico inspira a  postcommunio  da festa : «Fazei, Senhor, que alcancemos as graças inerentes aos mistérios cuja memória celebramos»:  Ut mgsteriorum quae recolimus virtus percipiatur.
É assim que, pouco a pouco, se realiza a nossa identificação com Jesus : Hoc enim  sentite  in vobis quod et in Christo Jesus .  Não é esta a própria fórmula da nossa eterna predestinação :  Conformes fieri imaginis Filii ?
Tais sãos  os  traços essenciais da pessoa e da obra de Jesus Cristo .
O Verbo eterno, por nós feito carne, torna-se. pelos Seus mistérios e pelo Seu sacrifício, nosso Pontífice e nosso Mediador. Mediador que conhece as nossas necessidades, porque foi homem como nós ; Mediador omnipotente, porque é Deus com o Pai e o Espírito Santo; Mediador cuja meditação é incessante, no céu, pela Sua oblação eterna, na terra pelo sacrifício eucarístico.
Jesus Cristo realiza esta obra por nós : pro nobis. Jesus, pelo Seu sacrifício, não nos salva senão para nos associar à Sua glória.
Ó Senhor, quem descobrirá quão inefáveis são os desígnios da Vossa sabedoria? Quem celebrará a grandeza do dom que nos fazeis? Quem Vo-lo agradecerá dignamente?

14 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 204

COMO MORRE UM IMPERADOR

Na madrugada de 2 de setembro de 1558, sentiu o imperador Carlos V que suas forças estavam esgotadas e que ia morrer. Tomando a si mesmo o pulso, moveu a cabeça como se dissesse: Tudo está acabado. Pediu então aos frades presentes que rezassem as ladainhas e orações dos agonizantes, e a seu mordomo que acendesse os círios bentos. Pediu ao arcebispo Carranza que lhe desse o crucifixo, que servira à Imperatriz na passagem suprema da vida à morte, levou-o aos lábios e apertou-o duas vezes contra o peito. Em seguida, tendo na mão direita o círio bento, e estendendo a esquerda para o Crucifixo, que lhe apresentava o arcebispo, disse: “Este é o momento!” Pouco depois, pronunciou ainda o nome de Jesus e expirou, exalando dois ou três suspiros. Assim acabou — escreve Quijada, em sua dor e admiração — o mais notável dos homens que tem havido e haverá.

13 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

A  oração de Jesus foi atendida ;  a imolação  que se lhe  seguiu alcançou, para todo o gênero  humano,  graças abundantes de perdão, de justificação, de união, de vida, de alegria  e  de glória.
Depois  de ter dito que Jesus Cristo fora constituído Pontífice  supremo  da Humanidade desde a Sua Incarnação, S. Paulo  acrescenta imediatamente; «Com grandes gritos e lágrimas, Jesus Cristo, durante  a Sua vida terrestre, ofereceu orações e súplicas  Aquele  que  podia salvá - lo da morte ; foi atendido por causa da Sua piedade  para com o Pai : porque, embora fosse  Filho, aprendeu, por seu sacrifício, o que é obedecer. E agora que  chegou ao termo, salva para sempre os que seguem
Seus passos».
S. Paulo atribui ainda a nossa santificação  à oblação oferecida por Jesus, no momento em que entrava neste mundo ; porque esse oferecimento, encerrava em germe a satisfação final, que é a imolação do Calvário ;É em virtude desta vontade que somos santificados pela oblação que Jesus Cristo fez, uma vez por todas, do Seu próprio corpo».
Por isso, toda a graça, qualquer que seja, nos vem da cruz ; não há uma só que não seja paga com o amor e com o sangue de Jesus ; o sacerdócio de Jesus Cristo torna-o o nosso único Mediador, sempre atendido. Por isso, o Apóstolo, na sua viva convicção, exclama: «Deus, ao dar--nos Seu Filho, não nos deu tudo»? Quomodo non etiam cum  illo omnia nobís donavít. «Eis que nos tornamos ricos, diz ainda, tão abundantemente ricos, que, de ora em diante, nenhuma graça nos falta» :  Ita ut NIHIL,  vobis desit in  ULLA  gratia !
Ó que absoluta e inabalável confiança desperta em nós esta revelação ! Em Jesus Cristo achamos tudo, possuímos tudo, e, se o quisermos, nele nada nos faltará: é a nossa salvação, a fonte de toda a nossa perfeição e de toda a nossa santificação !
É  tão grande o nosso Pontífice, tão extenso o Seu sacerdócio, que atualmente ainda Jesus Cristo desempenha o papel de Mediador e continua o Seu sacrifício para a nossa santificação. Como assim?
É  aqui sobretudo que o mistério se torna inefável. O sacerdócio eterno de Jesus Cristo encerra profundezas ocultas, que S. Paulo e S. João nos deixam entrever, um na Epístola aos hebreus, outro no Apocalipse.
O Apóstolo, emprega expressões magníficas para exaltar o sacerdócio eterno de Jesus.. <entado à direita da majestade divina, no mais alto dos 
céus. Temos em Jesus. o Filho de Deus, um Pontífice excelente que penetrou nos céus. Jesus Cristo entrou por nós no santuário dos céus, como precursor, na qualidade de Pontífice supremo. Porque Ele vive e permanece eternamente, possui um sacerdócio que não tem fim . . . sempre vivo para interceder por nós ; está
elevado acima de todos. os céus. Temos. pois, um Pontífice supremo, sentado à direita do trono da majestade divina. como ministro único do verdadeiro santuário que mão do homem não construiu».
Todas estas notáveis expressões nos mostram que Jesus Cristo continua a ser no céu, eternamente, nosso Pontífice, e prolonga a Sua oblação por nós.
Sem dúvida, S. Paulo não esquece que há um só sacrifício. o da cruz: UNA  enim oblatione, consummavit in sempiternum sancrificatos. Não é possível existir outro ; este sacrifício é único e definitivo.
Mas. diz ele, do mesmo modo que no Antigo Testamento, todos os anos o Sumo Sacerdote, depois de ter oferecido o sacrifício no primeiro tabernáculo do Templo, penetrava sozinho. com o sangue da vítima. no segundo tabernáculo, no Santo dos Santos e, apresentando-se assim diante do Senhor, terminava a sua obra de Pontífice, - assim também, continua S. Paulo. Jesus Cristo, depois de ter oferecido o seu sacrifício na terra, entrou, uma vez por todas. por Seu próprio sangue, não
num tabernáculo edificado pela mão dos homens, mas no santuário da Divindade:  Per proprium  sanguinem introivit  semel in sancta ... Assim, consuma na glória o Seu divino papel de mediador:  Nunc autem semel in consummatíone saeculorum, per hostiam  suam  apparuit.
Que faz Jesus Cristo neste santuário?  Qual é a Sua obra?


Já não pode merecer, é verdade ; a hora de  merecer cessou para Ele no momento em que exalou o derradeiro suspiro na cruz ; mas o tempo de nos aplicar os Seus méritos dura sempre. E é o que faz  Nosso Senhor. Está sempre diante do Pai para interceder por nós: Ut  appareat  NUNC  vultui Dei pro nobis. Aí, «sempre vivo»,  semper vivens,  porque «a morte já não tem império sobre Ele, oferece incessantemente por nós ao Pai o Seu sacrifício já consumado, mas que subsiste na Sua pessoa ; mostra-Lhe as cinco chagas, cujas cicatrizes quis conservar, chagas que são o penhor e o atestado solene da Sua imolação na cruz ; em nome da Igreja, de que é Chefe, une à Sua oblação ás nossas adorações, as nossas homenagens, as nossas orações, as nossas súplicas e ações de graças. Estamos constantemente presentes no pensamento do nosso compassivo Pontífice; constantemente  põe em ação, para a nossa santificação, os Seus merecimentos, as Suas satisfações
e o Seu sacrifício.
Por isso, há no céu, e haverá até ao fim dos séculos, um sacrifício celebrado em nosso favor por Jesus Cristo, dum modo eminente e sublime, mas em perpétua continuidade com a imolação da cruz:  Per hostiam suam apparuit.
Compreenderemos assim como, depois de ter entrevisto as grandezas e o poder deste sacrifício, S. Paulo nos dirige esta insistente exortação: «Já que temos em Jesus, o Filho de Deus, um excelente Pontífice que subiu aos céus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé». Que fé? A fé em Jesus Cristo, Mediador supremo, a fé no valor infinito do Seu sacrifício e dos Seus merecimentos,  a fé na ilimitada extensão do Seu divino crédito. Aproximemo-nos, pois, continua o Apóstolo, aproxime-mo-nos com segurança  - Adeamus  ergo cum fiducia - do trono da graça para alcançarmos misericórdia e sermos socorridos em tempo oportuno.
Com efeito, que graça pode-rá recusar-nos este Pontífice que sabe compadecer-se das nossas fraquezas, das nossas enfermidades e dos nossos sofrimentos, pois que, para assemelhar-se a nós, os experimentou todos : este Pontífice tão poderoso que, sendo Filho de Deus, trata com o Pai de igual para igual: VOLO  Pater; este Pontífice que se quer unir connosco como, num corpo, a cabeça com os membros? Que graças de perdão, de perfeição e de santidade não pode esperar uma
alma que procura sinceramente essa união pela fé, pela confiança e pelo amor? Não é Jesus «o Pontífice dos bens futuros»? Não tem o poder de operar infinitamente para além de tudo o que pedimos e concebemos»?
É por isso que, em todo o seu culto a Igreja, que melhor do que ninguém conhece o seu Esposo, não dirige oração alguma ao Pai celeste, não Lhe pede uma só graça sem marcar a sua súplica com o sinal da cruz, sem ter por intermediário Jesus Cristo, nosso Salvador e nosso Pontífice:  Per Dom:inum Nostrum Jesum  Christum.  Na Igreja,  esta  fórmula é de todos os dias, de todas as horas. É a proclamação incessante da mediação universal de Cristo ; mas é também a mais explícita e a mais solene confissão da Sua Divindade, porque a Igreja acrescenta imediatamente: «Que vive e reina convosco, ó Pai, e com o Vosso comum Espírito, por todos
os séculos dos séculos».

12 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 203

A COMUNHÃO DOS UNIVERSITÁRIOS

Entre as Universidades católicas dos Estados Unidos, a de “Nossa Senhora” de Indiana é sem dúvida uma das mais prósperas e mais bem organizadas.
O fato seguinte põe em relevo o espirito que reina entre os seus 1.200 alunos: mais de 500 comunhões são distribuídas diariamente na igreja da Universidade. E não se trata de formalismo. Para comungar os estudantes devem levantar-se bem mais cedo que os outros que não comungam. Além disso, mormente aos domingos, até há pouco, tinham de ficar em jejum até 10 horas.
Isto numa grande Universidade norte-americana! Poderia servir de exemplo a alunos e professores do nosso Brasil católico.

11 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

O  oferecimento que Jesus Cristo fez de Si mesmo foi pleno, total, contínuo ; compreendeu, porém. diferentes atos.
Em primeiro lugar, a  adoração.
Na Santíssima Trindade, o Filho é todo de Seu Pai, atribuindo-Lhe, para assim dizer, tudo o que é. Desde que o Verbo se fez carne, a Humanidade que a Ele se uniu, foi arrastada por essa inefável corrente que leva o Filho ao Pai. Mas como a Humanidade é criada, inferior à Divindade, este movimento traduz-se nela pela adoração. E esta adoração é intensa e perfeita ; desde o instante em que a Humanidade, em Jesus Cristo, se uniu ao Verbo, abismou-se em profunda adoração, num aniquilamento de si mesma, diante da majestade divina do Verbo eterno, cujas infinitas perfeições contemplava pela visão beatífica.
Havia a  ação de graças.
É certo que de todas as graças e de todas as misericórdias que Deus pode fazer, a maior, a mais eminente, foi concedida à Humanidade de Jesus : «Deus esco-­lheu-a, predestinou-a entre todas,  prae consortibus tuis, para ser a Humanidade do Seu Filho, para a unir, numa incompreensível união, ao Seu Verbo ; é uma graça única, que ultrapassa tudo o que o espírito humano pode conceber em matéria de comunicação da Divindade com a criatura.
Por isso, a alma de Jesus, saturada, por esta união, das delícias da própria Divindade, transbordava de ações de graças. Se nós mesmos, às vezes, não sabemos como exprimir ao Pai celeste a abundância da nossa gratidão, qual não deve ter sido o reconhecimento da alma de Jesus pela graça inefável que lhe era feita,  por todos os incomparáveis privilégios que deviam  resultar da sua união com o Verbo, não somente a título pessoal, mas como chefe do corpo místico?
Há  em seguida a  expiação.
A raça da qual o Verbo toma uma humanidade para a unir a Si é uma raça pecadora e decaída ; o Verbo desposou um corpo de pecado,  in similítudinem camis peccati .
Por certo que o pecado nunca o atingiu pessoalmente:  Tentatum autem per omnia pro similitudine,
absque peccato. Ele é o Cristo, isto é, o Pontífice por excelência, o Pontífice, diz S. Paulo, «tal qual nos era necessário, para que o Seu oferecimento fosse agradável a Deus : santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus. Mas o Pai carregou sobre Ele com os pecados de todos os homens: Posuit in eo iniquitatem omnium nostrum; segundo a enérgica expressão do Apóstolo, «Jesus tornou-se pecador por nós; e, por este motivo, o oferecimento
que fez de Si mesmo ao Pai, no momento da Incarnação, comprendia a pobreza do presépio, os aniquilamentos da vida oculta, as fadigas e as lutas de vida pública, os terrores da agonia, as ignomínias da Paixão e os tormentos duma morte sanguinolenta:  Semetipsum exinanivit
formam servi accipiens ... humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crur:is. «Apesar de ser Deus, Jesus Cristo não quis valer-se da Sua igualdade com Deus ; mas humilhou-se a Si mesmo, tomando pela Incarnação a condição duma natureza criada, tornado-se semelhante aos homens : e, mostrando-se sob o aspecto dum homem, humilhou-se ainda, fazendo-se obediente até à morte da cruz».
Esta morte no Calvário era uma expiação de valor infinito, não só porque Jesus Cristo era Deus, mas também porque os Seus aniquilamentos atingiam o !imite da humilhação. «Jesus Cristo. morrendo na cruz, aceitou rornar-se para nós um como que refugo,  um  maldito»: Opprobium hominum et abjectio plebis :  e este aniquilamento extraordinário a que devia descer para  expiar o pecado desejou-o a alma de Jesus desde a sua entrada neste mundo, com tudo quanto encerrava de
humilhação, de sofrimento e de ignomínia.
Enfim. há neste oferecimento a  impetração,  isto é, a  súplica.
Nada nos diz o Evangelho acerca da oração de Jesus Cristo por nós na Incarnação, nem mesmo durante a  Sua vida pública, embora nos diga que Jesus «passava a noite  em  oração»: Erat pernoctans in oratione Dei .
S . João conservou-nos, porém,  o  texto da prece de Jesus por Seus discípulos e por nós, feita no momento de dar início à Paixão e consumar  o sacrifício ; é  a oração sacerdotal de Jesus. O Evangelho não encerra página mais bela do que esta. E como duvidar de que esta oração é o resumo e o eco final de todas as que Jesus Cristo fizera ao Pai durante a Sua vida?
«Pai. é chegada a hora : glorifica o teu Filho a fim de que o teu Filho te glorifique a ti ; porque lhe deste poder sobre , todo o homem para que comunique a todos os que lhe deste a vida eterna. Manifestei o teu nome aos homens que me confiaste... Sabem agora que tudo o que me deste vem de ti. . .  É por eles que rogo  .. .porque são teus. Pai santo, guarda-os em teu nome para que sejam um como nós ... Faço esta oração, enquanto estou no mundo. para que eles tenham em si  a  plenitude da minha alegria ... Não te peço que os  tires  do mundo, mas que os livres do mal. .. Vou oferecer-me em sacrifício por eles para que sejam verdadeiramente santificados ... Não peço somente por eles, mas  também  por todos os que, por meio da sua palavra, hão de crer em mim, para  que  todos  sejam  um assim, como tu, Pai, o és em mim  e eu em ti... Pai, quero que aqueles que me deste, aonde estou, também eles estejam comigo. para que vejam a  minha  glória ,  a glória que me deste, pois fui amado por ti antes da criação do mundo».
Que prece ! E  de que coração ela  brotou : Do coração de  Jesus. supremo Pontífice de toda a Humanidade, nosso Pontífice, no  momento  em  que se vai tornar a nossa  hóstia : Oh !  por que havemos tantas vezes de duvidar do poder de Jesus Cristo? Para quê desanimar, quando  Jesus,  verdadeiro Deus e verdadeiro homem, dirigiu tal  oração ao Pai, no  momento de O glorificar
infinitamente, imolando-se pelos  nossos pecados?
Jesus  Cristo  repetiu ainda por nós esta oração: «Pai, livra do mal  aqueles que  me  deste . . . para que tenham a  minha  alegria . . .   e  a tenham plenamente  . .  .para  gozarem da minha glória . . . e serem  um  em nós».

10 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 202

TRIUNFO EUCARÍSTICO EM CHICAGO

Há anos o romancista Guilherme Stead escreveu um livro intitulado: “Se Cristo viesse a Chicago”. A conclusão era: “Fá-lo-iam parar, na estação!” É difícil o papel de profeta, mormente quando se trata de predizer catástrofes e ruína final à Igreja de Jesus Cristo. Nisso enganaram-se Herodes e Nero e Juliano Apóstata, e enganou-se também o Sr. Stead.
Com efeito, em junho de 1926, dirigiu-se Cristo em pessoa, sob as espécies eucarísticas, a Chicago e não o fizeram parar na estação, mas ali recebeu as maiores manifestações, ali o Congresso Eucarístico foi um dos grandes triunfos de Jesus Cristo.
Eis os dados estatísticos do seu triunfo: Peregrinos vindos de todas as partes do mundo 1.300.000; Cardeais 12; Delegados apostólicos 3; Arcebispos 57; Bispos 257; Prefeitos apostólicos 3; 500 Monsenhores e 6.000 sacerdotes. Entre 11 e 19 de junho chegaram a Chicago mais de 800 trens especiais e cerca de 122.000 automóveis. As despesas de viagem e alojamento dos peregrinos foram mais de 100 milhões de dólares; 5.000 foram as despesas das autoridades em cartazes e avisos; 26.000 operários trabalharam vários meses na preparação de todo o necessário.
Na primeira Missa no Stádium estiverem presentes 250.000 pessoas e 62.000 meninos cantaram a “Missa de Angelis”. No terceiro dia do Congresso as Comunhões distribuídas chegavam já a quatro milhões. Na noite do dia 22, 200.000 homens estavam alinhados no Stádium banhado por um mar de luzes e 200.000 vozes entoaram o hino americano implorando a bênção de Deus para a sua grande pátria. Cessado o canto, cada um dos fiéis acende a sua tocha e a levanta bem alto quando a Hóstia divina abençoa aquela imensa multidão. Ai está: o apóstolo de Satanás predisse que Jesus não iria além da estação de Chicago; entretanto, foi nessa cidade, e nesse país, na sua maioria protestante, que Jesus teve um dos seus maior.es triunfos. Na procissão de encerramento acompanharam Jesus-Hóstia nada menos de um milhão e duzentas mil pessoas.
Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera!