28 de maio de 2010

Sexta-feira da Têmpora de Pentecostes: Vendo-lhes a fé, disse: "Homem, teus pecados estão perdoados".

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas 5, 17-26, sobre o auxílio espiritual que se deve dar aos doentes.

Lib 5 in cap 5 Lucae post initium

Não foi sem razão nem desproposita essa cura que o Senhor operou com o paralítico, pelo fato de ter orado: isso Ele mandou não por que precisasse, mas por causa do exemplo. Fez isso para dar-nos um modelo a ser imitado, e não porque necessitasse da oração para curá-lo. E aos que ali vieram de toda a Galileia e Judeia, e os doutores da lei de Jerusalém, entre os demais remédios dos débeis, é demonstrada a medicina que ele usou com esse paralítico. Primeiro de tudo, segundo o que dissemos antes, que todo doente convide os seus amigos a rezar pela sua salvação, para que reformem-se, pelo remédio do verbo celestial, os defeitos da estrutura da nossa vida e as pegadas coxas dos nossos atos.

Deve haver, também, admoestadores das almas dos doentes, para que, a despeito da debilidade do corpo exterior, elevem o ânimo dos homens às coisas mais altas. Nas costas desses, ele é facilmente erguido e colocado diante de Jesus, digno de ser olhado pelo Senhor. Porque o Senhor volta sua atenção à humildade: "Porque olhou para a humildade da sua serva" (Lucas 2, 48). "Vendo a fé deles, disse: Homem, teus pecados estão perdoados". Grande é o Senhor, Que, pelo mérito de uns perdoa outros; Que, enquanto prova uns, releva os erros de outros. Por que não valorizas o teu igual, ó homem, se, junto de Deus, o servo tem o mérito da intercessão e o direito de impetrar o que pede?

27 de maio de 2010

Quinta-feira na Oitava de Pentecostes: Deu-lhes virtude e poder sobre todos os demônios e para curar enfermidades.

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas, 9, 1-6.

Lib. 6. in cap. 9. Lucae.

Pelos preceitos do Evangelho é definido como deve ser aquele que anuncia o Reino de Deus: que, sem vara, sem bolsa, sem calçado, sem pão, sem dinheiro, isto é, que, sem requerer nenhum subsídio secular, e, só pela fé, considere-se como quem de menos precisa, e que mais se satisfaz com o que tem. Se quisermos, podemos dar uma interpretação espiritual para essa questão: que se dispa da carne como de uma roupa, não apenas rejeitando o poder das riquezas desprezadas, mas abdicando também dos prazeres da carne. A esses apóstolos, foi dado, por primeiro, o mandamento geral da paz e concordância [constantia], para que tragam a paz*, conservem a constância, observando as obrigações e normas da casa do hospedeiro: é estranho a um pregador do reino dos céus mudar de casa em casa, e mudar as leis invioláveis da hospedaria.

Por outro lado, de modo a recomendar às pessoas o favor de dar-lhes hospedagem, Ele manda também: se não fordes recebidos, batei o pó e saí da cidade. Ensina ainda Ele que não são pequenos os bens com os quais são remunerados os hospedeiros, pois nós não apenas damos paz à hospedagem, como também, se houver aí alguém ofuscado pela leviandade dos delitos terrenos, será libertado recebendo as pegadas do pregador apostólico. Segundo Mateus, a escolha da casa na qual o apóstolo entrará não deve ser descurada**, para que não seja necessário violar os costumes da hospedagem. Mas tanta precaução não é recomendada àquele que oferece abrigo, para que a sua hospitalidade não seja diminuída, se se puser a escolher o hóspede.

* Mateus, 10, 13: Ao entrardes numa casa, dizei: Paz a esta casa!
** Mateus, 10, 11.

26 de maio de 2010

Missa Tridentina em Curitiba: Sermão do Pe. Paulo Iubel no Domingo de Pentecostes (22/05/2010)

Pe. Paulo Iubel
Paróquia Imaculada Conceição
Curitiba/PR



Quarta-feira da Têmpora de Pentecostes: Ninguém pode vir a mim se o Pai não o atrair.

Homilia de Santo Agostinho Bispo sobre o Evangelho de hoje: João 6, 44-52

Tratado 26 sobre João, após o início

Não penses que podes ser atraído à revelia: a alma é atraída pelo amor. Nem devemos temer que os homens, que medem as palavras mas estão maximamente distantes de entender as coisas divinas, nos repreendam com a palavra evangélica destas Escrituras santas, dizendo-nos: Como creio por minha vontade, se sou atraído? Eu digo: Pouco o és pela vontade [voluntate]: mais és atraído pelo prazer [voluptate]. O que é ser atraído pelo prazer? Deleita-te no Senhor, e Ele te dará as petições do teu coração. É um prazer para coração daquele para o qual Ele é um doce pão celeste. Além do mais, se o Poeta [Virgílio] pôde dizer "O prazer de cada um o atrai; não a necessidade, mas o prazer; não a obrigação senão o deleite", com quanto mais razão devemos nós dizer que o homem é atraído para Cristo, aquele que se deleita na verdade, na bem-aventurança, na justiça, na vida sempiterna, em tudo isso que é Cristo? Ou será que os sentidos do corpo têm os seus prazeres, e a alma é desprovida dos seus? Se a alma não tem os seus prazeres, por que se diz: Os filhos dos homens esperarão sob a proteção das tuas asas: inebriar-se-ão com a exuberância da tua casa, e lhes darás de beber da torrente do teu prazer. Porque junto de ti está a fonte da vida, e na tua luz veremos a luz.

Dá-me um amante, e ele sentirá a verdade do que eu digo: dá-me um desejoso, um faminto, um peregrino nesta solidão, e um sedento, e um suspirante pela fonte da pátria eterna: dá-me tal, e ele saberá do que eu falo. Mas se falo a um frio, ignorará o que eu falo. Tais eram aqueles que murmuravam entre si. Aquele que o Pai atrair, disse Ele, vem a Mim. Mas por que "Aquele que o Pai atrair", se o próprio Cristo atrai [a Ele]? Por que Ele quis dizer "Aquele que o Pai atrair". Se somos atraídos, somos atraídos por aquele de quem dizem os que amam: Após o odor dos teus unguentos corremos. Mas quem quiser entender, advirtamos os irmãos, e, o quanto pudermos, entendamos. Atrai o Pai ao Filho aqueles que por isso mesmo creem no Filho, porque creem que o Seu Pai é Deus. Porque Deus Pai gerou o Filho igual a Si; e o Pai atrai ao Filho aquele que, na sua fé, pensa, sente e medita que é igual ao Pai Aquele em Quem crê.

Ario creu na criatura, não o atraiu o Pai, porque não vê o Pai aquele que não crê que o Filho Lhe é igual. Que dizes, ó Ario? Que dizes, herege? Que falarás? O que é Cristo? "Não é, diz ele, verdadeiro Deus, mas Aquele a Quem o verdadeiro Deus fez." Não te atraiu o Pai, porque não entendeste o Pai, Cujo Filho negas. Outra coisa pensas, que não é o Filho, pois não és atraído pelo Pai se não és atraído para o Filho. Uma coisa, pois, é o Filho, e outra coisa é aquilo de que falas. Fotino diz: Cristo é apenas homem, não é também Deus. Quem crê assim, não é o Pai que o atrai. Quem o Pai atrai? Aquele que diz: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo. Mostra um ramo verde a uma ovelha, e a atrairás. Mostra uma noz a um menino, e o atrairás, e todo homem que corre é atraído, amando é atraído, sem injúria do corpo é atraído, pelo laço do coração é arrastado. Se, portanto, essas que estão entre as delícias e prazeres terrenos, quanto mostrados aos amantes, os atraem (já que é verdade que "O prazer de cada um o atrai"), não atrai o Cristo, revelado pelo Pai? O que a alma deseja mais fortemente do que a verdade?

25 de maio de 2010

Terça-feira na Oitava de Pentecostes: Eu sou a porta das ovelhas.

Homilia de Santo Agostinho Bispo sobre o Evangelho de hoje: João, 10, 1-10.

Tratado 45 sobre João, após o início

Na leitura de hoje, o Senhor propôs uma comparação do Seu próprio rebanho, e da porta pela qual se entra ao aprisco. Digam, então, os pagãos: Bem vivemos! Se não entram pela porta, de que lhes serve aquilo de que se gloriam? Para uma só coisa aproveita viver bem: para que se lhe dê viver para sempre - de que adianta, pois, viver bem, àquele a quem não é dado viver para sempre? Porque não são dignos de se dizer que vivam bem os que, pela cegueira, ignoram, ou, pela soberba, desprezam qual seja o fim de um viver bem. Mas ninguém tem por verdadeira e certa a esperança de viver para sempre, senão quem conhece a vida, que é Cristo, e, pela porta, entre no aprisco.

Muitos desses homens procuram até persuadir os homens a viver bem, e não são cristãos. Por outra parte querem entrar, roubar e matar; não querem, como o bom pastor, conservar e salvar. Houveram certos filósofos que, muito detalhadamente, das virtudes e vícios trataram, dividiram, definiram, com agudíssimos raciocínios concluíram, livros encheram, sua sabedoria com estrondo espalharam pelos ventos, que chegaram a dizer aos homens: Segui-nos, guardai a nossa seita, se quereis viver bem-aventuradamente. Mas não entravam pela porta: queriam perder, sacrificar e assassinar.

Que direi desses? Eis que os próprios fariseus liam, e, no que liam, de Cristo diziam, esperavam-n'O por vir, mas, presente, não O reconheceram. Jactavam-se de estar entre os Videntes, ou seja, entre os sábios, e negavam Cristo, e não entravam pela porta. Também esses, se acaso seduzirem alguns, o será para sacrificá-los e assassiná-los, e não para livrá-los. Deixemo-los, e vejamos se talvez entram pela porta os que se gloriam do próprio nome de Cristo. Mesmo entre esses, são inumeráveis os que não apenas se jactam de ser Videntes, mas querem ser vistos como iluminados por Cristo; no entanto, são hereges.

24 de maio de 2010

Segunda-feira na Oitava de Pentecostes: Quem faz a verdade vem à luz.

Homilia de Santo Agostinho Bispo, sobre o Evangelho de hoje: João 3, 16-21.

Tratado 12 sobre João, perto do fim

Tudo o que há num médico, vem no sentido de sarar o doente. E mata-se aquele que não quer observar os preceitos do médico. Da mesma forma, por que Aquele é chamado Salvador do mundo, senão para que salve o mundo, e não o julgue? Não queres ser salvo por ele? Por teus [feitos] serás julgado. E por que eu digo "Serás julagdo"? Vê o que disse [São João]: "Quem crê n'Ele não será julgado. Aquele, porém, que não crer..." Que esperavas que dissesse, senão: "Será julgado"? Porém, ele diz: "Já está julgado". Não aparece o juízo, e no entanto já está feito.

O Senhor conehce os que são d'Ele: conhece os que continuarão até a coroa, e os que continuarão até a chama. Ele conhece, no seu campo, o trigo assim como conhece o abrolho; conhece o cereal, conhece também a cizânia. Já está julgado o que não crê. Por que julgado? Porque não creu no nome do Filho unigênito de Deus. Esse é o juízo: a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas que a luz, porque as suas obras eram más. Meus irmãos, obras de quem o Senhor achará boas? De ninguém. Acha todas obras más. Como, pois, alguns fizeram a verdade e vieram à luz? Porque está escrito: Quem faz a verdade, vem à luz.

"Mas amaram, disse, mais as trevas que a luz." Aí puseram a vontade. Pois muitos amaram os seus pecados, outros muitos, porém, confessaram os seus pecados. E os que confessam e acusam os seus pecados já obram com Deus. Deus acusa os teus pecados: se tu também os acusardes, juntas-te a Deus. Como que duas coisas diferentes são o homem e o pecador. Deus fez o homem, mas o pecador foi feito pelo homem. Destrói o que fizeste tu, para que Deus salve o que Ele fez. Convém que odeies em ti a tua obra, e ames em ti a obra de Deus. Quando começarem a desagradar-te os teus feitos, então começarão as tuas boas obras, porque estarás acusando as tuas obras más. O início das obras boas é a confissão das obras más.

22 de maio de 2010

Domingo de Pentecostes: Nele faremos morada.

Homilia de São Gregório Papa
Homilia 30 sobre os Evangelhos

Convém, caríssimos irmãos, tratar com brevidade das palavras da leitura evangélica, para que, depois, possamos permanecer mais tempo na contemplação de tamanha solenidade. Eis que hoje o Espírito Santo vem sobre os discípulos com um estrondo repentino, mudando as suas idéias das coisas carnais para o seu amor, e, por fora aparentando como línguas de fogo, por dentro se fizeram labaredas no coração, porque, enquanto recebiam Deus na visão de fogo, ardiam suavemente por amor. Este Espírito Santo, pois, é o amor: por isso mesmo diz João: "Deus é amor". Portanto, aquele que deseja a Deus com reta intenção, já possui Aquele Que ama, visto que ninguém poderia amar a Deus se não tivesse Aquele Que ama.

Mas vede: se qualquer um de vós for perguntado se ama a Deus, com toda confiança e segurança responda: Amo. No começo dessa leitura ouvistes o que a Verdade diz: Se alguém Me ama, guardará Minha palavra. A prova do amor, portanto, é a manifestação das obras. Sobre isso, em sua epístola, o mesmo João diz: Quem diz "Amo a Deus" e não guarda os Seus mandamentos é mentiroso. Verdadeiramente amamos a Deus e guardamos os Seus mandamentos se refreamos os nossos apetites. Quem se dissipa pelos desejos ilícitos, por isso mesmo não ama a Deus: porque Lhe diz "Não" com a sua vontade.

"E o Meu Pai o amará, e a ele viremos, e nele faremos morada." Pensai, irmãos caríssimos, quão grande seja esta dignidade: ter à habitação do coração a vinda de Deus. Certamente que se em nossa casa fosse entrar um amigo rico e poderoso, toda a casa seria depressa limpa, para que não ocorresse que houvesse algo que ofendesse os olhos do amigo que entra. Lave, pois, as sujeiras das obras más, aquele que prepara a casa da alma para Deus. Mas vede o que diz a Verdade: Venhamos, e façamos nele morada. Porém, com alguns, vem-lhes ao coração, mas não faz aí morada, porque, ainda que, pela compunção, recebem a atenção de Deus, no tempo da tentação esquecem-se daquilo mesmo de que se tinham arrependido, e voltam a fazer os pecados como se nunca se houvessem arrependido.