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6 de maio de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 2/7

Vejamos agora como a vida interior, mediante seis características principais, se infiltra numa alma para a dotar de verdadeiras virtudes:
a - Acautela-a contra os perigos do ministério exterior.
 Difficilius est bene conversari cum cura animarum propter exteriora pericula. Já falamos deste perigo no capítulo precedente.
Ao passo que o obreiro evangélico desprovido de espírito interior ignora os perigos a que as obras dão origem e assim se assemelha ao viajante que atravessa desarmado uma floresta infestada de bandidos, o verdadeiro apóstolo teme esses perigos e todos os dias contra eles se acautela, mediante sério exame de consciência, que lhe serve para descobrir os pontos fracos.
Ter consciência de um perigo incessante: outra vantagem não trouxesse a vida interior e já esta  contribuíra eficazmente para nos preservar das surpresas da jornada: perigo previsto já é perigo meio afastado. Mas muito diferente é sua utilidade. A vida interior torna-se, para o homem de obras, uma armadura completa: Induite armaturam Dei, ut possitis stare adversus insídias diáboli, armadura divina que lhe permitirá não só resistir às tenteções e evitar as ciladas do demônio: Ut possitis resistere in die malo, senão também santificar todos os seus próprios atos: Et in ómnibus perfegti stare.
A vida interior cinge-o da pureza de intenção que em Deus concentra pensamentos, desejos e afeições e não permite que o homem de obras se tresmalhe à procura de comodidades, prazeres e distrações: Succincti lumbos vestros in veritate.
Reveste-o da couraça da caridade que lhe dá um coração varonil e o defende das seduções da criatura e do espírito do século e outrossim dos assaltos do demônio: Induti loricam justitiae.
Calça-o com a discrição e com o recato, a fim de que em todos os seus passos logre aliar a simplicidade da pomba à prudência da serpente: Calceati pedes in praeparatione Evangélii.
Satanás e o mundo hão de procurar ilaquear-lhe o entendimento com os sofismas da falsa doutrina, enervar-lhe a energia com o engôdo das máximas relaxadas. A essas mentiras, a vida interior oporá o escudo da fé que faz brilhar aos olhos da alma o esplendor do ideal divino: In omnibus sumentes scutum fidei in quo possitis omnia tela nequíssimi ígnea extínguere.
Conhecimento do seu nada, solicitude pela sua própria salvação, convicção de que nada absolutamente pode sem o socorro da graça e, portanto, oração instante, suplicante e fervorosa, tanto mais eficaz quanto mais cheia de confiança, eis para a alma um como capacete de bronze, que há de, por certo, amortecer os golpes do orgulho: Gáleam salutis assúmite.
Assim armado dos pés à cabeça, poderá o apóstolo entregar-se sem temor às obras, e o seu zelo, inflamado pela meditação do Evangelho, fortificado pelo Pão eucarístico, há de tornar-se uma espada que a um tempo lhe servirá assim para combater os inimigos da sua própria alma como para conquistar grande número de almas para Jesus Cristo: Gládium spíritus quod est verbum Dei.

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