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25 de maio de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard


QUARTA PARTE

FECUNDIDADE DAS OBRAS PELA VIDA INTERIOR


Parte 1/31

1 - A vida interior é condição para a fecundidade das obras
Abstraímos aqui da razão de fecundidade que os teólogos denominam ex opere operato. Considerando apenas a que resulta ex opere operantis, convêm lembrar que, se o apóstolo realiza o Qui manet in me et ego in eo, assegurada está a fecundidade da sua obra, querida por Deus: Hic fert fructum multum. É a lógica evidente deste texto. Em face desta autoridade, supérfluo será provar a tese. Limitemo-nos a confirmá-la com fatos.
Durante mais de trinta anos, pudemos seguir o andamento de dois orfanatos de maninas, dirigidos por duas congregações diferentes. Ambos atravessaram um período de manifesta decadência. Por que não dizê-lo? De dezesseis órfãs recolhidas em condições idênticas e que, chegadas à maioridade, tinham saído desses asilos, três do primeiro e duas do segundo, no espaço de oito a quinze meses passaram da comunhão frequente ao estado mais aviltante da escala social. Das outras onze, só uma se conservou profundamente cristã; todas, entretanto, tinham sido colocadas, por ocasião da saída, em casas de famílias honestas.
Num destes orfanatos, há cerca de onze anos apenas, houve mudança de superiora. Seis meses depois, já se comprovava radical transformação no espirito da casa.
A mesma transformação se observava, passados três anos, no outro orfanato, porque, continuando as mesmas superioras e as mesmas religiosas, apenas houvera mudança de capelão.
Ora, desde essa época, nem uma só dessas pobres meninas, que saíram por ter atingido a maioridade, foi atirada por Satanás para a lama das sarjetas. Todas, absolutamente todas se conservaram boas cristãs.
Simplicíssima é a razão destes resultados. Nesses orfanatos não havia à testa da casa ou no confessionário uma direção interior profundamente sobrenatural: isso bastava para paralisar, ou ao menos para atenuar, a ação da graça. Num dos casos a antiga superiora e no outro o antigo capelão, ambos sinceramente piedosos, mas sem verdadeira vida interior, nenhuma ação profunda e duradoura portanto, exerciam. Piedade de sentimento, de meio, comunicativa exclusivamente feita de práticas e de hábitos, produzindo apenas crenças vagas, amor sem calor e virtudes sem raízes. Piedade frouxa, melíflua, toda de exterioridades, de afetação ou de rotina, piedade tal que somente servia para formar boas criaturas incapazes de fazer mal a ninguém, afetadas, que só sabiam fazer mesuras, mas sem força de caráter, a reboque da sensibilidade e da imaginação. Piedade impotente para rasgar largos horizontes à vida cristã e para criar mulheres fortes, preparadas para a luta; piedade que, quando muito, só lograva conter aquelas desditosas crianças que enlanguesciam nas gaiolas e suspiravam pelo dia em que de lá poderiam sair. Eis a única vida cristã que haviam conseguido fazer germinar na alma das crianças esses obreiros evangélicos para quem era quase desconhecida a vida interior. Mudam essas duas comunidades, uma de superiora e outra de capelão. Tudo imediatamente muda de aspecto. Que maneira tão diferente de compreender então a oração! Como os sacramentos são mais fecundos! Como é diversa a compostura na capela e até no trabalho e na recreação! Mudanças radicais demonstradas pela análise e que manifestam alegria tranquila, grande entusiasmo, aquisição de virtudes e, em algumas almas, desejo intenso de vocação religiosa. A que atribuir tal transformação? A nova superiora, o novo capelão, eram almas interiores.
Em grande número de colégios, externatos, hospitais, patronatos, paróquias, comunidades e seminários, o observador atento, sem dúvida nenhuma, terá também atribuído idênticos efeitos às mesmas causas.
Ouçamos São João da Cruz: Reflitam aqui durante alguns instantes, diz ele, esses homens devorados pela atividade que pensam revolver o mundo com suas pregações e demais obras exteriores, e sem custo algum chegarão a compreender que muito mais úteis seriam à Igreja e muito mais agradariam ao Senhor ( não falando do bom exemplo que dariam em torno deles), se consagrassem mais tempo à oração e aos exercícios da vida interior.
Certo é que, procedendo assim, com uma só obra e com muito menos trabalho fariam Maior Bem do que fazem com milhares de outras a que dedicam a vida. A oração lhes mereceria essa graça, e lhes alcançaria as forças espirituais, de que hão mister para produzir frutos. Sem  ela, tudo se reduz a grande estrondo; é o malho que, ao cair sobre a bigorna, mais não faz do que acordar todos os ecos das circunvizinhanças. Sem ela, apenas se faz um pouco mais que nada, muitas vezes até absolutamente nada, ou mesmo dano. Livre-nos Deus de tal alma, se ela começa a envaidecer. Debalde militariam a seu favor as aparências; a verdade é que ela nada fará, pois é absolutamente certo que nenhuma boa obra pode realizar-se sem a virtude de Deus. OH! quanto se poderia escrever aqui a tal respeito, tendo em mira aqueles que abandonam o exercício da vida interior e que aspiram a obras retumbantes, capazes de pô-los em destaque e de agradar a todas as vistas. Essas pessoas nada entendem do veio da água viva, e da fonte misteriosa que tudo faz frutificar. 
Certas palavras do santo são tão enérgicas como a frase de São Bernardo - ocupações malditas, mais acima citada. É impossível taxá-las de exagero, se nos recordarmos que as qualidades que Bossuet mais admirava em São João da Cruz são o perfeito bom senso, o zelo em acautelar contra o desejo de vias extraordinárias para chegar à santidade, e a rigorosa precisão no exprimir pensamentos de notável profundidade.

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