8 de fevereiro de 2019

A .Alma de Todo Apostolado, J. B. Chautard,

A Alma De Todo Apostolado



  1. J. B. Chautard


  2. 3 - Que é a vida interior

    Se algumas vezes empregarmos as palavras vida de oração, contemplação, vida contemplativa, - termos que se encontram nos santos padres e nos escolásticos, - nossa intenção é sempre designar a vida interior normal acessível a todos e não os estados pouco ordinários de oração que a teologia mistica estuda, e a fortiori êxtases, visões, arroubamentos, etc.
    Sairíamos do nosso plano se nos demorássemos num estudo de ascetismo. Limitamo-nos a recordar, em poucas palavras, o que cada qual para o governo íntimo da sua alma é obrigado a aceitar como absolutamente certo.

    1ª Verdade
    A vida sobrenatural é a vida do próprio Jesus Cristo em mim, pela fé, pela esperança e pela caridade. A presença de Nosso Senhor por meio desta vida sobrenatural não é a presença real própria da sagrada comunhão, senão uma presença de Ação Vital, como a ação da cabeça ou do coração nos membros; ação íntima que Deus quase sempre oculta à minha alma para aumentar o mérito da minha fé; ação, portanto, habitualmente insensível as minhas faculdades naturais e que unicamente a fé me obriga formalmente a crer; ação divina que deixa subsistir o meu livre arbítrio e utiliza todas as causas segundas, acontecimentos, pessoas e coisas, para me fazer conhecer a vontade de Deus e deparar-me ocasiões de adquirir ou aumentar a minha participação na vida divina.
    Esta vida, inaugurada no batismo pelo estado de graça, aperfeiçoada pela confirmação, conservada e enriquecida pela Eucaristia, é a minha vida cristã.

    6 de fevereiro de 2019

    Tesouro de Exemplos - Parte 592 a 595

    HISTÓRIA DOS PRIMEIROS CAPUCHINHOS

    1. Uma noite de carnaval, os religiosos convidaram a Bernardino d’Asti, ex-superior geral, a tomar com eles a refeição daquele dia. Bernardino respondeu: — Aceito o convite, não para cear, mas para dar-vos um pouco de consôlo; estarei à mesa e vos direi algumas palavras espirituais, a fim de que, recreando-se o corpo, faça também o espírito um pouco de carnaval. E, vindo à mesa, começou a falar da glória do paraíso de modo tão elevado que ficamos todos admirados. Tendo terminado essas elevações, disse: Quero que vos alegreis também corporalmente com um bom riso. E contou-nos o episódio de um burgomestre e de um bispo alemão, que falava latim. Foi assim. O bispo, numa visita, disse ao burgomestre: Volo comédere módicum (quero comer, moderadamente). Aquele senhor, não entendendo bem o latim e tendo um jumentinho novo, que atendia pelo nome de Módico, embora com muito pesar mandou assar o pobre burrinho para o jantar do bispo. Os frades riram-se bastante e com isso terminou a ceia...
     
    2. Boaventura de Monreale nunca se esquecia de rezar cada dia o Oficio dos Defuntos e não raro também os sete Salmos. E, quando encontrava alguns clérigos a cavaquear, ia logo dizendo-lhes: — Filhos, não temos tempo a perder; já destes de comer aos mortos? Se lhes respondiam que não, acrescentava logo: — Ah! sim, e vós tendes comido e muito bem!... E sem mais entoava o De profundis ou o Oficio pelos defuntos.

    3. Um humilde frade habituara-se à dar aos pobres todos os pedaços de pão que restavam da mesa do convento. Ora, parecendo ao P. Guardião que nisso o frade exagerava, disse-lhe que fosse mais moderado em fazer esmolas. Entretanto, o servo de Deus era tão compassivo que, vendo aumentar o número de pobres, não podia deixar de dar-lhes esmola. Aconteceu certa vez que, levando no avental com que estava cingido uma quantidade de pedaços e também de meios pães, encontrou-se com o P. Guardião, que lhe disse:
    — Fazeis esmolas demais! Que é que levais no avental?
    — São rosas frescas, P. Guardião — respondeu.
    — Rosas, não; são pães.
    Ao que o servo de Deus respondeu:
    — São rosas que no coração do inverno o Supremo Criador criou para corrigir em parte a nossa avareza, uma vez que tão pouco confiamos em sua bondade.
    E, abrindo o avental, aquilo que antes eram realmente pães o Senhor Deus convertera em fresquíssimas rosas.
    Vendo aquilo, o Guardião, cheio de respeito e admiração, ajoelhou-se aos pés do servo de Deus, confessou sua culpa e disse:
    — Daqui em diante, meu Padre, tendes licença para dar aos pobres quanto quiserdes!

    4. Bernardo de Assis não queria levar nada para as viagens com o propósito de observar a Regra ao pé da letra, como foi sempre o seu maior. empenho. E uma vez, achando-se em Montemalbe e devendo ir às ordenações com outros clérigos, como era tempo de jejum e iam partir muito cedo, todos se proveram de pão para comerem na viagem, quando fosse hora, menos ele. Voltando-se para Frei Bernardo, disseram-lhe:
    — Leve também um pouco de pão, que do nosso não lhe daremos.
    Respondeu Frei Bernardo que nao era assim que mandava o Evangelho, mas o contrário disse Nosso Senhor aos seus Apóstolos: Nihil tuléritis in via... e nós o prometemos.
    Rindo-se daquela resposta, disseram-lhe os companheiros:
    — Já veremos, quando chegar a hora de comer... Nosso Senhor diz que não o tentemos; podendo prover-nos humanamente, não devemos esperar milagres. Se lhe faltar o pão, o prejuízo é seu...
    Respondeu Frei Bernardo:
    — Oh! isso é que eu quero ver, que Nosso Senhor me deixe sem pão... — E, partindo, nao quis levar nada. Mas na viagem, sobrevindo a todos a fome, cada um foi se assentando, e um dizia ao outro:
    — Que comerá Frei Bernardo?
    Ele respondeu:
    — Logo vereis o que eu vou comer.
    E lançando um olhar, viu não longe do caminho um rancho, que ninguém diria que fosse habitado. Lá foi Frei Bernardo, bateu palmas e logo apareceu um homem que lhe deu quatro pães dos quais se afirmou que, em toda a cidade de Perúgia, jamais se viram tão lindos e saborosos. Frei Bernardo, voltando para junto dos companheiros, com grande alegria assentou-se também e pôs-se a comer o pão que o Senhor Deus tão misericordiosamente lhe havia mandado.
    E todos viram naquilo um milagre, pois Nosso Senhor não permitiu ficasse defraudada a fé daquele que com tamanha simplicidade o servia.

    5 de fevereiro de 2019

    A .Alma de Todo Apostolado, J. B. Chautard,

    A Alma De Todo Apostolado

    J. B. Chautard


    2 - Deus quer que Jesus seja a vida das obras

    Parte 3/3

    A vista de uma alma pagã, recusando-se a atribuir ao Autor de todo o bem e de todos os dons as maravilhas dos seus talentos naturais, já seria motivo de indignação para um espírito esclarecido, quanto mais não seja pela filosofia.
    Que sentimento experimentará então um católico instruído na sua religião, perante o espetáculo de um apóstolo que ostentasse, pelo menos implicitamente, a pretensão de não querer saber de Deus para comunicar às almas, quanto mais não fosse, o mínimo grau de vida divina?
    "Que insensato!" diríamos nós ao ouvir um operário evangélico usar da seguinte linguagem: "Meu Deus, não me levanteis obstáculos à minha empresa, não lhes traveis o funcionamento e eu me encarrego de a levar a bom termo."
    Este sentimento nosso seria um reflexo da aversão que em Deus provoca a vista de tal desordem, a vista de um presunçoso levando o orgulho a ponto de querer dar a vida sobrenatural, produzir a fé, fazer cessar o pecado, conduzir à virtude, gerar almas para o fervor, unicamente com as suas forças e sem atribuir esses efeitos à ação direta, constante, universal e efusiva do Sangue divino, preço, razão de ser e meio de toda a graça e de toda a vida espiritual,
    A humanidade de seu Filho exige, pois, que Deus confunda esses falsos cristos, já paralisando as suas obras de orgulho, já permitindo que elas apenas provoquem uma miragem efêmera.
    Salvo em tudo o que opera sobre as almas ex ópere operato, Deus deve ao Redentor o subtrair ao apóstolo, cheio de arrogância, as suas melhores bênçãos para reservá-las ao ramo que humildemente reconhece que somente pode haurir a sua seiva no tronco divino. De outra sorte, se abençoasse com resultados profundos e duradouros uma atividade envenenada por esse vírus a que chamamos heresia das obras, Deus dava mostras de animar essa desordem e permitir seu contágio.

    3 de fevereiro de 2019

    Tesouro de Exemplos - Parte 591

    SANTA EULALIA, VIRGEM

    Mérida, cidade ilustre, capital então da Lusitânia, foi o berço da claríssima virgem e mártir. Santa Eulália. Seu nascimento deu-se pelos fins do século terceiro, e contava cerca de doze anos, quando se desencadeou mais furiosa a perseguição de Diocleciano e Maximiano pelo ano de 304.
    Os pais de Eulália eram cristãos fervorosos, e nada omitiam para dar-lhe uma educação correspondente ao seu nascimento e a sua fé. Tiveram a consolação de ver sua filha, desde os mais tenros anos, aplicada à prática das virtudes e ao amor de Jesus Cristo, ao qual bem cedo consagrou a sua virgindade. Tão vivo era o amor de Jesus Cristo, que ardia em seu peito, que os seus mais ardentes desejos eram derramar por ele o sangue e dar a vida, e suas maiores delicias ouvir 1er e contar os triunfos e vitórias dos mártires.
    Tendo ouvido dizer que se publicara em Mérjda um edito imperial ordenando que todos sacrificassem aos ídolos, a querida santinha começou logo a dispor-se e preparar-se para o martírio. Percebeu isso sua mãe e, para moderar, os ardores talvez inconsiderados da menina, pintou-lhe ao vivo os horríveis tormentos que sofriam os confessores da fé; isso, porém, longe de intimidá-la, não serviu mais que para acrescentar estímulos novos às suas ânsias de sofrê-los pelo amor e glória do Redentor. Em vista disso, quando chegou a Mérida o executor das ordens imperiais, que se chamava Calpurniano, a boa mãe levou a menina para uma casa de campo, a fim de afastá-la do perigo. Tudo foi em vão, porque a santa menina, aguilhoada pelo amor de Deus, falou com outra menina, companheira sua, chamada Julia, e as duas combinaram fugir juntas e ir à cidade em busca do martírio. Saíram, pois, ocultamente, e de noite, sem luz e sem guia, dirigiram-se à cidade; e como Eulália queria chegar logo, ia muito depressa e era sempre a primeira. Júlia disse-lhe então:
    — Apressa-te quanto quiseres, mas eu tenho o pressentimento que hei de morrer antes de ti.
    E assim foi realmente. Caminharam toda a noite, por veredas ásperas, ferindo os pés nas pedras e espinhos, mas, finalmente, chegaram a cidade, onde imediatamente se apresentaram a Calpurniano.
    Eulália, com santo zelo, censurou diante dele a impiedade do culto que os idólatras rendiam a estátuas de pedra ou de madeira. Surpreendido o juiz de ouvir tal linguagem dos lábios de uma menina, perguntou-lhe quem era e donde procedia a sua audácia.
    — Sou cristã — respondeu a Santa; — adoro o verdadeiro Deus e é ele que me inspira o horror que tenho à vossa impiedade.
    — Mas, menina, dize-me: sabes com quem falas?
    — Sim, sei que falo ao governador, e digo que é uma impiedade obrigar os cristãos a sacrificar, aos deuses.
    Tentou Calpurniano vencê-la primeiro com promessas e depois com ameaças, até que se convenceu que perdia tempo, porque a valorosa menina, a tudo respondia que era cristã e não desejava mais que dar a vida por Jesus Cristo. Em Vista disso entregou-a aos verdugos para que a atormentassem, e eles a açoitaram com látegos armados de chumbo, de sorte que bem depressa o seu delicado corpo não era mais que uma chaga; depois de despejarem azeite fervente nas feridas feitas pelos açoites; além disso, aplicaram tições acesos ao peito e às costas da mártir, a qual durante todo esse tempo não fez mais que bendizer a Deus e dar-lhe graças." O juiz, irritado com a constância sem exemplo de uma menina de doze anos, mandou dilacerá-la com unhas de ferro até descobrir-lhe os ossos. Eulália, vendo-se toda coberta de feridas e banhada no próprio sangue, ergueu os olhos ao céu e disse:
    — Senhor meu Jesus Cristo, estas feridas dão-me a conhecer por vossa esposa; fazei-me digna de vós por vossa misericórdia.
    Os verdugos, convencidos de que nada seria capaz de postar a sua constância, resolveram queimá-la viva; atearam, pois, uma fogueira ao redor dela; mas tão grande era o seu desejo de morrer por Cristo que, na fogueira, conservava a boca aberta como para aspirar as chamas. No momento de expirar a Santa, viram os circunstantes sair de sua boca uma pomba alvíssima e brilhante, que voou ao alto e desapareceu. No mesmo instante de sua morte caiu uma grande nevada, que cobriu seu corpo virginal. Os cristãos sepultaram-no, depois, num sitio próximo, sepulcro esse honrado por Deus com numerosos milagres. Hoje os seus restos mortais repousam numa capela dedicada à Santa, em Oviedo.
    Enquanto sofria S. Eulália toda essa multidão de tormentos, sua companheira Júlia, presa como cristã, foi condenada e decapitada, cumprindo-se a sua predição de que morreria antes de Santa Eulália.
    Festa de Santa Eulália: 10 de dezembro.

    2 de fevereiro de 2019

    A .Alma de Todo Apostolado, J. B. Chautard,

    A Alma De Todo Apostolado

    J. B. Chautard
    2 - Deus quer que Jesus seja a vida das obras

    Parte 2/3

    Os homens chamados à honra de colaborar com o Salvador em transmitir às almas essa vida divina devem, portanto, considerar-se como modestos canais encarregados de haurir tal vida nessa fonte única.
    Grosseiro erro teológico deixaria transparecer um homem apostólico, se desconhecesse estes princípios e julgasse que podia produzir o minimo vestígio de vida sobrenatural sem ir totalmente buscá-la em Jesus.
    Desordem menor, mas também insuportável aos olhos de Deus, seria se o apóstolo, reconhecendo embora que o Redentor é a causa primordial de toda a vida divina, na sua ação olvidasse esta verdade e, obcecado por louca presunção injuriosa a Jesus Cristo, apenas contasse com as suas próprias forças.
    Tão somente falamos aqui da desordem intelectual, que teórica ou praticamente implica a negação de um princípio ao qual devemos tanto a adesão de nosso espírito como a conformidade da nossa conduta; e não da desordem moral do homem de obras, o qual, reconhecendo realmente o Salvador como fonte de toda a graça e esperando dele todo o bom êxito, tenha o próprio coração em desacordo com o dele, devido ao pecado ou à tibieza voluntária.
    Ora, o proceder praticamente, ao ocupar-se de obras, como se Jesus não fosse o único princípio da voda delas, é qualificado pelo Cardeal Mermillod de "Heresia das Obras". Com esta expressão, estigmatiza ele a aberração de um apóstolo que, esquecendo-se do seu papel secundário e subordinado, unicamente esperasse o bom êxito do seu apostolado, da sua atividade pessoal e dos seus talentos. Praticamente, não é isto a negação de grande parte do Tratado da Graça? Esta consequência à primeira vista revolta; mas por pouco que sobre ela se reflita, logo se vê que é infelizmente muito verdadeira.
    Heresia das obras! A atividade febril substituindo-se à ação de Deus, a graça desconhecida, o orgulho humano querendo destronar Jesus, a vida sobrenatural, o poder da oração, a economia da Redenção atiradas, pelo menos na prática, à categoria das abstrações, eis um caso que longe esta de ser imaginário e que a análise das almas revela como frequentíssimo, embora em graus diversos, neste século de naturalismo em que o homem julga sobretudo pelas aparências e procede como se o bom êxito de uma obra dependesse principalmente de engenhosa organização.