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15 de julho de 2015

Cartas Sobre a Fé - Padre Emmanuel André.

DÉCIMA PRIMEIRA CARTA

A FÉ E A CIÊNCIA

Como a senhora sabe, o homem nasce ignorante. E só sai da ignorância com dificuldade. O homem custa a aprender e quanto mais elevada a ciência que queremos adquirir, mais ela nos custa. O mal é tanto que não só temos dificuldades em aprender, como muitas vezes sentimos repugnância infeliz pelo estudo, repugnância que nos faria sentir uma espécie de tranqüilidade, uma felicidade estúpida por não saber nada.
E, no entanto, não é a ignorância em si que nos agrada. O que nos agrada é o fato de não precisarmos fazer o esforço necessário para chegar à ciência.
Nós cristãos, conhecemos a causa de tão lamentável estado, pois a fé nos indica ser este um dos efeitos do pecado original.
Quando Deus, pelo batismo, apaga em nós o pecado original, Ele nos dá a fé e com a fé a necessidade de conhecer as verdades cristãs e a inclinação para recebê-las e guardá-las.
Essa necessidade das almas não é coisa para ser negligenciada. Para isso a Igreja tem o catecismo. Mas, infelizmente, as lições duram pouco e são facilmente esquecidas. A educação cristã é muito relaxada nas escolas, quando não é totalmente desprezada. Disso resulta que os cristãos, geralmente, não são suficientemente instruídos naquilo que, no entanto, teriam a maior necessidade de conhecer a fim de conservar a fé, praticá-la fielmente e guardá-la até o fim de sua vida. Este é mais ou menos o estado geral dos cristãos cujos estudos terminaram na escola primária. Mas nós temos escolas secundárias, escolas superiores, até mesmo universidades. Se a ciência está em algum lugar, é nestes lugares que deveria estar.
A propósito da ciência, gostaria de lhe chamar a atenção sobre um fenômeno que não se leva em conta, no que entretanto se comete um grande erro. A chama da fé estando acesa no mundo e tendo sido acesa pela mão de Deus, é por isso mesmo inextinguível, ela brilha apesar de tudo. Todos sabem disso e é por causa do anseio pelo conhecimento depositado em nós pela fé, no batismo, que se realiza um trabalho interior naqueles que têm amor pela ciência, que os impele a grandiosas vitórias sobre a ignorância. Eles têm necessidade de saber.
Nós diremos que isto é um efeito da fé: e é o fenômeno mais claro e mais escondido que existe. Prestem atenção: em nenhum outro lugar, senão onde há a fé, os espíritos trabalham pela ciência. Todos os batizados recebem o estímulo divino e entre os homens de ciência, o ponto de partida é a fé. Mas alguns a conservam, outros a perdem. Os espíritos, desde o princípio tomam caminhos diferentes, apesar de terem recebido, uns e outros, o dom da fé, a energia do desejo, que os leva à ciência. [Um famoso ímpio de nosso tempo reconheceu a verdade do que enunciamos: Para combater eficientemente uma religião, é preciso praticá-la. Traduzimos: Não serás nunca um verdadeiro ímpio se não tiverdes sido batizado. De fato, os judeus não conseguem sê-lo. A respeito da expressão "uma religião", notemos que nossos cientistas nunca combateram nem o islamismo, nem o budismo, nem o bramanismo, nem mesmo o fetichismo, porque não são nada. Mas combatem a religião Católica porque aí se encontra a fé, a verdade divina, à qual viraram as costas. «Ipsi fuerunt rebelles luminis – Eles se rebelaram contra a luz» Jó XXIV, 13] nota do autor.
Por uma conseqüência lógica, a ciência tenderá para um fim duplo, de acordo com o fato dos espíritos terem ou não guardado a fé. E talvez nunca se tenha sido capaz de constatar tão claramente esta bifurcação na direção seguida pela ciência como em nossos dias. Hoje existe uma ciência que quer crer. Com isto ela caminha na verdade, segundo Deus e segundo a lei imutável do desenvolvimento do espírito humano. Há uma ciência que não quer crer. Ela fará tudo para se manter numa negativa, que no entanto não é nada científica: não crer.
De cada um dos dois lados vemos espíritos muito ativos, ardentes, desejosos de chegar ao fim. De cada lado vemos escolas e trabalhos sérios e uma emulação que seria igualmente louvável se o fim visado fosse igualmente legítimo. É preciso dizer: a ciência que caminha contra a fé tem hoje a palavra mais alta. Esta ciência possui mil apoios no mundo exterior. Forte em seus alicerces, sua aspiração é apagar a chama divina da fé.
Mas nisso tudo não há nada de novo. Lemos no mais antigo livro do mundo que os homens um dia disseram uns para os outros: Metamo-nos à obra e construamos uma torre que se eleve até o Céu. E eles se puseram à obra e construíram uma torre, mas não escalaram o Céu.
Os homens de hoje dizem o mesmo: À obra! elevemos o edifício da ciência e escalaremos a fé! Eles trabalham e o edifício que constroem, como o de seus ancestrais, se chamará Babel. O homem não criou a luz; no dia em que o homem pensar que provou que a luz é treva, Deus gritar-lhe-á: infeliz! chamá-lo-á a julgamento e continuará a derramar nas almas a luz da fé.
A ciência que trabalha contra a fé não alcançará seu fim. Esta ciência não prevalecerá como ciência; ela acabará por se evaporar, diz a Escritura. A ciência será salva pelos homens de fé; estes homens têm o grande dever de avançar na ciência e na fé. Tal é o espetáculo que hoje nos oferece o mundo. Aqui a ignorância, infelizmente, é o quinhão da maioria.
Lá a fé, e onde está a fé, está a ciência, fiel em alguns, infiel em outros; de um lado estudando para lutar contra a fé, contra o próprio Deus, de outro lado trabalhando para derrubar, como São Paulo, tudo o que pretende se elevar contra Deus.
A batalha começou, a luta é renitente; e ainda que Deus deva permanecer vitorioso em toda parte e sempre, desejamos que os fiéis não estejam nunca atrasados. À obra! diremos, porque aqueles que perderam a fé trabalham por Babel; nós que cremos edifiquemos Jerusalém.
Credo.

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