Dia 4/3 - Pela graça divina, estamos no alvorecer de um novo ano. Este ano, que só Deus sabe se veremos chegar ao fim, deve ser todo empregado em reparar as faltas do passado e fazer bons propósitos para o futuro. E junto com os bons propósitos devem estar as boas obras!
4 de março de 2024
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus
OPÚSCULO II
SETAS DE FOGO OU PROVAS QUE JESUS CRISTO NOS DEU DE SEU AMOR NA OBRA DA REDENÇÃO
13. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). O amor dos amigos cresce na ocasião da morte, pois que estão para separar-se das pessoas amadas e por isso procuram mais do que nunca testemunhar-lhes o seu afeto e demonstrar-lhes o amor que lhes consagram. Jesus durante sua vida inteira testemunhou-nos o seu afeto, mas nas vésperas de sua morte quer dar-nos as mais convincentes provas de seu amor. E que prova mais evidente nos poderia dar este amante Senhor, que dando-nos o seu sangue e a sua vida em prol de cada um de nós? e ainda não satisfeito com sacrificar-nos seu próprio corpo na cruz, no-lo quis deixar em alimento, a fim de que cada um, que o recebesse, se unisse inteiramente com ele e assim de sua parte crescesse no amor. Ó bondade infinita, ó amor infinito, ó meu amado Jesus, enchei meu coração de vosso santo amor, para que eu me esqueça do mundo e de mim mesmo, para não pensar senão em vos amar e agradar. Eu vos consagro o meu corpo, a minha alma, a minha vontade e a minha liberdade. No passado procurei minhas satisfações com desgosto vosso; arrependendo-me sumamente, meu amor crucificado, e de agora em diante não quero buscar outra coisa senão vós: Meu Deus e meu tudo. Quero só a vós e nada mais. Ah, se eu pudesse consumir-me todo por vós como vós vos consumistes todo por mim, meu único bem, meu único amor. Eu vos amo e me entrego inteiramente à vossa santa vontade. Fazei que eu vos ame e depois fazei de mim o que vos aprouver.
14. “Minha alma está triste até à morte” (Mt 26,38). Eis as palavras que saíram do coração magoado de Jesus Cristo no jardim de Getsêmani, antes de ele morrer. Mas onde nascia essa tristeza tão grande que bastava para dar-lhe a morte? Talvez na visão dos tormentos que devia sofrer? Não, porque esses tormentos já os viu desde a sua encarnação, viu-os e aceitou-os de livre e própria vontade: “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). A sua tristeza foi motivada pela vista dos pecados que os homens iriam cometer depois de sua morte. E nessa hora viu todas as culpas particulares de cada um de nós, diz S. Bernardino de Sena. Não foi, ó meu Jesus, a vista dos açoites, dos espinhos e da cruz que tanto vos afligiu no jardim das Oliveiras; foi a vista de meus pecados, cada um dos quais vos oprimiu de tal modo o coração com dor e tristeza, que vos fez suar sangue e entrar em agonia. Eis aí a recompensa com que paguei o amor que me mostrastes morrendo por mim. Oh! fazei-me sentir parte dessa dor que sofrestes no horto pelas minhas culpas, para que essa dor me conserve na tristeza durante minha vida inteira. Ah, meu doce Redentor, pudesse eu consolar-vos tanto com minha dor e com o meu amor quanto eu vos afligi. Arrependo-me, meu amor, de todo o meu coração, de vos haver posposto a todas as minhas miseráveis satisfações. Arrependo-me e vos amo sobre todas as coisas. Percebo que vós, apesar de ofendido por mim, ainda me pedis o meu amor e quereis que eu vos ame de todo o coração. “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Mt 22,37). Sim, meu Deus, eu vos amo de todo o coração, eu vos amo com toda a minha alma, dai-me o amor que desejais de mim. Se pelo passado busquei a mim mesmo, agora não quero buscar senão a vós. E vendo que me amastes mais do que aos outros, quero também amar-vos mais do que os outros. Atraí-me sempre mais, ó meu Jesus, ao vosso amor com o odor de vossos perfumes, que são os amorosos atrativos de vossa graça. Dai-me, em suma, força para corresponder a um afeto tão grande de um Deus, demonstrado a um verme ingrato e traidor. Maria, Mãe de misericórdia, ajudai-me com as vossas súplicas.
15. “Aprisionaram a Jesus e o ligaram” (Jo 18,12). Um Deus preso e ligado. Que deveriam dizer os anjos, vendo seu Rei passar pelas ruas de Jerusalém com as mãos ligadas e ao meio de soldados! E que deveríamos dizer nós, vendo nosso Deus que se deixa, por nosso amor, prender como malfeitor, para ser apresentado aos juízes que o condenarão à morte? “Que tendes vós com as cadeias?” pergunta S. Bernardo. Que relação pode haver entre vós e as cadeias dos malfeitores, ó meu Jesus, majestade e bondade infinita? Elas nos pertencem a nós, pecadores e réus do inferno, não a vós, que sois inocente e santo dos santos. E S. Bernardo, contemplando Jesus declarado réu de morte, continua: Que fizestes, inocentíssimo Jesus, para que assim vos condenem? Ó meu caro Salvador, sois a inocência mesma; por que delito sereis condenado? Ah, eu vo-lo direi: o delito que cometestes foi o amor excessivo que consagrastes aos homens: O vosso pecado é o vosso amor. Beijo essas cordas que vos prendem, ó meu amado Jesus: elas me livram das cadeias que eu mereci. Mísero que sou, quantas vezes renunciei à vossa amizade e me fiz escravo de Lúcifer, desonrando-vos, ó majestade infinita. Arrependo-me sobre todas as coisas de vos haver injuriado assim tão gravemente. Ah, meu Deus, prendei aos vossos pés esta
minha vontade com os dóceis laços de vosso amor, para que ela nada mais queira senão o que vos agrada. Fazei que eu tome o vosso querer pelo guia único de minha vida inteira. Fazei que eu não tenha outro cuidado senão o de vos agradar, pois que vos empenhastes tanto por meu bem. Eu vos amo, meu sumo bem, eu vos amo, único objeto de meus afetos. Reconheço que só vós me amastes em verdade e só a vós quero amar. Renuncio a tudo, vós só me bastais. 16. “Ele foi ferido por causa das nossas iniqüidades e quebrantado por causa dos nossos crimes” (Is 53,5). Bastaria uma só bofetada suportada por este Homem-Deus, para satisfazer pelos pecados de todo o mundo. Com isso, porém, não se contentou Jesus Cristo: ele quis ser ferido e quebrantado por nossas perversidades, isto é, ferido e dilacerado da cabeça aos pés, de modo que não ficou uma parte sã no seu corpo sacratíssimo. E assim o mesmo profeta o vi todo chagado como um leproso: “E nós o julgamos como um leproso e ferido por Deus e humilhado” (Is 53,4). Ó chagas do meu atormentado Jesus, vós sois os penhores do amor que este meu Redentor me consagra. Vós, com mui delicados convites, me obrigais a amá-lo por tantos tormentos que ele quis sofrer por meu amor. Ó meu querido Jesus, quando me entregarei todo a vós, que vos destes todo a mim? Eu vos amo, meu sumo bem. Amo-vos, ó Deus amante de minha alma. Ó Deus de amor, dai-me amor. Fazei que com o amor compense as amarguras que vos causei no passado. Fazei que eu arranque de meu coração tudo o que não tende ao vosso amor. compense as amarguras que vos causei no passado. Fazei que eu arranque de meu coração tudo o que não tende ao vosso amor. Pai eterno, olhai para a face de vosso Cristo, olhai para as chagas de vosso Filho, que vos imploram misericórdia para mim e, por elas, perdoai-me os ultrajes que vos fiz: apossai-vos por completo de meu coração, para que eu não ame, não busque, não suspire senão por vós. Digo-vos com S. Inácio: “Dai-me unicamente o vosso amor com a vossa graça e serei bastante rico”. Eis tudo o que vos peço, ó Deus de minha alma, dai-me o vosso amor juntamente com a vossa graça e nada mais desejo. Ó Mãe de Deus, Maria, intercedei por mim.
17. “Salve, rei dos judeus!” Assim saudavam por escárnio ao nosso Redentor os soldados romanos. Depois de o terem tratado como rei impostor e coroado de espinho, ajoelhavam-se diante dele, saudando-o como rei dos judeus e em seguida, levantando-se com gritos e risos, davam-lhe bofetadas e escarravam-lhe no rosto. É o que nos contam S. Mateus (27,29) e S. João (19,3). Ó Jesus meu, essa cruel coroa que vos cinge a cabeça, esse vil caniço que tendes na mão, essa veste de púrpura dilacerada que vos serve de ludíbrio, declaram suficientemente que sois rei, mas rei de amor. Os judeus não vos querem reconhecer por seu rei e dizem a Pilatos: “Não temos outro rei além de César” (Jo 19,15). Meu amado Redentor, se os outros não vos querem por seu rei, eu vos aceito e quero que sejais o único rei de minha alma. Consagro-me a vós por completo, disponde de mim como vos aprouver. Para conseguir isto, sofrestes tantos desprezos, dores e até a morte, para conquistar os nossos corações e neles reinar com vosso amor. “Por isso Cristo morreu... para dominar sobre os vivos e os mortos” (Rm 14,9). Apossai-vos, pois, de todo o meu coração, ó meu rei querido, e aí reinai e dominai para sempre. No passado, rejeitei-vos como meu senhor, para servir às minhas paixões; agora eu quero ser todo vosso e a vós só servir. Ah, prendei-me a vós com vosso amor e fazei-me lembrar sempre da morte cruel que por mim sofrestes. Ah, meu rei, meu Deus, meu amor, meu tudo, que mais desejo senão vós, Deus de meu coração e minha herança por toda a eternidade? Ó Deus de meu coração, eu vos amo, vós sois a minha herança, vós meu único bem.
18. “E levando a cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Eis o Salvador do mundo já em caminho com a cruz às costas para morrer condenado por amor dos homens. O cordeiro divino, sem se queixar, deixa-se conduzir ao sacrifício da cruz pela nossa salvação. Levanta-te, minha alma, acompanha e segue o teu Jesus, que vai sofrer a morte por teu amor, para pagar por teus pecados. Dizei-me, ó meu Jesus e meu Deus, que pretendeis dos homens, dando vossa vida por amor deles? S. Bernardo responde: “Quando Deus ama, nada mais quer do que ser amado”. Quisestes, pois, ó meu Redentor, por esse preço conquistar o nosso amor. E haverá homens que creiam em vós e não vos amem? Consola-me o pensamento de que vós sois o amor de todos os santos, o amor de Maria, o amor de vosso Pai. Mas, ó meu Deus, quantos há que não querem vos conhecer e quantos que vos conhecem não querem vos amar. Ó amor infinito, fazei-vos conhecer e fazei-vos amar. Oh! pudesse eu com meu sangue e coma minha morte fazer-vos amar de todos. Mas, ai de mim que passei tantos anos no mundo e apesar de vos conhecer não vos amei. Vós, porém, com tanta delicadeza me atraístes para vosso amor. Infeliz do tempo em que perdi a vossa graça: a dor que agora sinto, o desejo que experimento de ser todo vosso e em especial a morte que sofrestes por mim dão-me uma firme confiança, ó meu amor, de que já me haveis perdoado e de que presentemente me amais. Ó meu Jesus, pudesse eu morrer por vós como morrestes por mim. Ainda que não houvesse castigo para quem não vos ama, não quereria deixar de amar-vos e fazer todo o possível para vos contentar. Vós, que me inspirastes este bom desejo, dai-me
a força de o pôr em prática. Meu amor, minha esperança, não me abandoneis; fazei que eu corresponda na vida que me resta ao amor particular que me consagrais. Vós quereis que eu seja vosso e eu quero ser todo vosso. Eu vos amo, meu Deus, meu tesouro, meu tudo. Eu quero viver e morrer, repetindo sempre: eu vos amo, eu vos amo, eu vos amo.
Continua...
3 de março de 2024
365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus
SETAS DE FOGO OU PROVAS QUE JESUS CRISTO NOS DEU DE SEU AMOR NA OBRA DA REDENÇÃO
7. “E o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). Deus envia o Arcanjo Gabriel a requerer o consentimento de Maria se quer aceitá-lo por filho. Maria dá o seu consentimento e o Verbo divino se faz homem. Ó prodígio que assombra o céu e a natureza: o Verbo feito carne, um Deus feito homem. Que diríamos se víssemos um rei feito verme para salvar com sua morte a vida de um vermezinho da terra? ora, vós, meu Jesus, sois o meu Deus e, não podendo morrer como Deus, vos fizestes homem para poderdes morrer e dar a vida por mim. Meu doce Redentor, como é possível que eu não morra de dor à vista de tantas misericórdias que usastes comigo e de tão grande amor que me haveis demonstrado? Vós descestes do céu para procurar-me, ovelha perdida, e eu tantas vezes vos tenho repelido, preferindo as minhas indignas satisfações. Visto porém, que vós me quereis, eu abandono tudo, quero ser vosso e não quero outra coisa além de vós. Elejo-vos por único objeto de meus afetos: Meu dileto é meu eu sou dele. Vós pensais em mim e eu não quero pensar senão em vós. Fazei sempre que vos ame, e não deixe de vos amar. Porque eu vos amo, contento-me com ficar privado de todas as consolações sensíveis e sofrer todas as penas. Vejo que me quereis todo para vós e eu quero também ser todo vosso. Conheço que tudo o que existe no mundo é mentira, engano, fumaça, futilidade e vaidade. Vós sois o verdadeiro e único bem e por isso vós só me bastais. “Meu Deus, quero a vós somente e nada mais”. Senhor, ouvi-me, quero só a vós e nada mais.
8. “Aniquilou-se a si mesmo” (Fl 2,7). Eis o Unigênito de Deus onipotente, verdadeiro Deus como o Padre, nascido como uma pequena criança em uma gruta. “Ele se aniquilou a si mesmo, tomando a forma de servo e feito semelhante aos homens”. Quem quiser ver um Deus aniquilado, entre na gruta de Belém e aí encontrará como um menino ligado com faixas, sem se poder mover, chorando e tremendo de frio. Ah, santa fé, dizei-me de quem é filho este pobre menino? Ela responde: Ele é Filho de Deus e verdadeiro Deus. E quem o reduziu a esse mísero estado? Foi o amor que ele tem aos homens. E encontrar-se-ão homens que não amem este Deus? Vós, meu Jesus, consumistes vossa vida inteira entre as penas, para fazer-me compreender o amor que me tendes, e eu desperdicei a minha vida, desprezando-vos e desgostando-vos com os meus pecados. Ah, fazei-me conhecer o mal que eu vos fiz e o amor que mereceis. Mas, desde que me haveis suportado até agora, não permitais que eu ainda vos ofenda. Inflamai-me inteiramente de vosso santo amor e recordai-me sempre quanto padecestes por mim, para que eu de hoje em diante me esqueça de tudo e não pense noutra coisa senão em vos amar e dar-vos gosto. Vós viestes à terra para reinar em nossos corações: pois bem, tirai do meu coração tudo o que vos impeça de possuí-lo inteirinho. Fazei que a minha vontade seja toda conforme à vossa e a vossa seja a minha e que ela seja a regra de todas as minhas ações e meus desejos.
9. “Um menino nos foi dado e um filho nos nasceu” (Is 9,6). O fim que teve em vista o Filho de Deus, querendo nascer como uma criança, foi o de dar-se a nós desde sua infância e assim ganhar o nosso amor: Para que fim toma Jesus esta doce e amável condição de menino, pergunta S. Francisco de Sales, senão para excitar-nos e amá-lo e a confiar nele? E já S. Pedro Crisólogo o havia dito: “Quis nascer desta maneira, porque quis ser amado”. Meu caro menino, e meu Salvador, eu vos amo e em vós confio. Vós sois minha esperança e todo o meu amor. E que seria de mim, se não viésseis do céu para me salvar? O inferno seria minha partilha pelas ofensas que vos fiz. Seja bendita a vossa misericórdia, pois estais sempre pronto a perdoar-me se eu me arrepender de meus pecados. Sim, eu me arrependo de todo o meu coração, ó meu Jesus, de vos haver desprezado. Recebei-me na vossa graça e fazei que eu morra a mim mesmo para viver só para vós, meu único bem. Queimai, ó fogo consumidor, em mim, tudo o que desagrada aos vossos olhos e atraí para vós todos os meus afetos. eu vos amo, ó Deus de minha alma, eu vos amo, meu tesouro, minha vida, meu tudo. Eu vos amo e quero expirar dizendo: Meu Deus, eu vos amo, para começar então a amar-vos com amor perfeito que não terá mais fim.
10. Os santos profetas suspiraram durante tantos anos pela vinda de nosso Salvador: “Destilai, ó céus, o vosso orvalho e as nuvens chovam o justo” (Is 45,8). “Enviai o cordeiro que há de dominar a terra” (Is 16,1). “Dai-nos o vosso Salvador” (Sl 84,6). O profeta Isaías dizia: “Oxalá romperas tu os céus e desceras de lá, os montes se derreteriam diante de tua face.... e as águas arderiam em fogo” (Is 64,1-2). Senhor, dizia, quando os homens vos virem descido à terra por seu amor, e derreterão os montes, isto é, os homens vencerão todas as dificuldades para servir-vos, que lhes pareciam ao princípio montes insuperáveis. As águas arderão em fogo, isto é, as almas mais frias, à vista de vós feito homem, se abrasarão no vosso santo amor. E isso se deu de fato com muitas almas felizes, coo S. Teresa, um S. Filipe Néri, um S. Francisco Xavier, que ainda nesta terra se abrasaram neste fogo. Ma quantas são elas? Em verdade, muito poucas. Ah, meu Jesus, eu quero ser do número dessas poucas. Eu deveria já há tantos anos arder no inferno, separado de vós, odiando-vos maldizendo-vos para sempre. Mas vós me suportastes com tanta paciência, para ver-me abrasado, não neste fogo desgraçado, mas no bem-aventurado fogo de vosso amor. Para esse fim me destes tantas luzes e tantos toques do coração, enquanto eu estava longe de vós, enfim tanto fizestes que com vossos doces atrativos me obrigastes a amar-vos. Eis que eu já sou vosso. Eu quero ser sempre vosso e todo vosso. A vós pertence tornar-me fiel e eu o espero com segurança de vossa bondade. Ah, meu Deus, quem terá ainda ânimo de vos abandonar e de viver ainda que seja por um momento sem vosso amor? Eu vos amo, ó meu Jesus, sobre todas as coisas, mas isto é pouco. Amo-vos mais do que a mim mesmo e é ainda pouco. Amo-vos com todo o meu coração, com toda a minha alma e também isso é ainda pouco. Ó meu Jesus, ouvi-me, dai-me mais amor, mais amor. Ó Maria, rogai a Deus por mim.
11. “O desprezado e o último dos homens” (Is 53,3). Eis o que foi a vida do Filho de Deus feito homem: “o último dos homens”; foi tratado como o mais vil e desprezível deles. E a que maior baixeza
poderia reduzir-se a vida de Jesus Cristo do que nascer numa gruta? viver como artífice numa oficina, desconhecido e desprezado? ser preso como réu? flagelado como escravo? esbofeteado, tratado como rei de burla, escarrado na face? e finalmente morrer justiçado como malfeitor num patíbulo infame? S. Bernardo exclama: “O último e altíssimo”. Ó Deus, sois o senhor de todos e como vos contentais de ser o mais desprezado de todos? E eu, ó meu Jesus, vendo-vos assim humilhado por mim, como pretendo ser estimado e honrado de todos, pecador e soberbo? Ah, meu Redentor desprezado, fazei que pelo vosso exemplo eu ame os desprezos e a vida obscura. De agora em diante, espero com vosso auxílio abraçar todos os opróbrios que me forem feitos, por amor de vós que suportastes tantos por amor de mim. Perdoai-me o orgulho de minha vida passada e dai-me vosso amor. Eu vos amo, meu Jesus desprezado. Ide adiante com vossa cruz, que eu quero acompanhar-vos com a minha e não vos abandonar mais até morrer crucificado por vós, como vós morrestes crucificado por mim. Meu Jesus, meu Jesus desprezado, eu vos abraço e abraçado convosco quero viver e morrer.
12. “Varão das dores” (Is 53,3). Qual foi a vida de Jesus Cristo? vida de dores. Vida cheia de dores internas e externas, desde o começo até ao fim. Mas o que mais afligiu a Jesus Cristo em toda a sua vida foi a vista dos pecados e das ingratidões com que lhe haviam os homens de pagar as penas que ele com tão grande amor sofreu por nós: tal vista fez dele o homem mais aflito que jamais existiu nesta terra. Ó meu Jesus, também eu concorri para vos afligir com os meus pecados, durante toda a vossa vida. E por que não digo com S. Margarida de Cortona que, exortada por seu confessor a tranqüilizar-se e não chorar mais porque Deus já lhe havia perdoado os pecados, respondeu com mais copioso pranto: Ah, meu padre, e como poderei deixar de chorar, se os meus pecados afligiram meu Jesus durante toda a sua vida? Oh! pudesse eu morrer de dor, ó meu Jesus, todas as vezes que me recordo de vos haver causado tantas amarguras nos dias de minha vida! Ai de mim, quantas noites eu dormi privado da vossa graça. Quantas vezes me perdoastes e eu tornei a voltar-vos as costas? Meu caro Senhor, arrependo-me sobre todas as coisas de vos ter ofendido e vos amo de todo o meu coração, amo-vos com toda a minha alma. Ah, não permitais que eu ainda viva separado de vós. Meu dulcíssimo Jesus, não permitais que eu me separe de vós. Meu Jesus, ouvistes-me: não permitais que eu me separe de vós. Fazei que eu antes morra que trair-vos novamente. Ó Mãe da perseverança, Maria, impetrai-me a santa perseverança.
2 de março de 2024
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus
OPÚSCULO II
SETAS DE FOGO OU PROVAS QUE JESUS CRISTO NOS DEU DE SEU AMOR NA OBRA DA REDENÇÃO
Quem considera o amor imenso que Jesus Cristo nos demonstrou na sua vida e particularmente na sua morte, sofrendo tantos tormentos por nossa salvação, não poderá deixar de sentir-se ferido e obrigado a amar um Deus tão apaixonado por nossas almas. S. Boaventura diz que as chagas de nosso Redentor comovem os corações mais duros e inflamam em amor as almas mais frias. Consideremos por isso, nesta breve resenha do amor de Jesus Cristo, segundo o testemunho das sagradas escrituras, o quanto fez nosso amoroso Redentor para dar-nos a entender o amor que nos tem e obrigar-nos
a amá-lo.
1. “Amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós” (Ef 5,2). Tinha Deus feito tantos favores aos homens para ganhar-lhes o amor, mas os ingratos não somente não o amavam, mas nem mesmo queriam conhecê-lo por seu Senhor. Apenas num recanto da Judéia era ele reconhecido como Deus pelo povo eleito: este, porém, mais o temia do que o amava. Ora, querendo ele ser mais amado do que temido por nós, fez-se homem e escolheu uma vida pobre, atribulada e obscura e uma morte penosa e ignominiosa. E por quê? Para atrair-nos os corações. Se Jesus Cristo não nos tivesse remido, não seria menos feliz e poderoso do que sempre o foi: quis, porém, procurar-nos a salvação com tantos suores e penas como se a sua felicidade dependesse da nossa. Poderia remir-nos sem sofrer, mas quis livrar-nos da morte eterna com sua própria morte, e podendo salvar-nos de mil modos, quis escolher a maneira mais humilde e penosa, morrendo na cruz de pura dor, para conquistar o afeto de nós, vermes ingratos. Pois não foi o amor que nos tem a única causa de seu nascimento tão atribulado e de uma morte tão desolada? Ah, meu Jesus, que o amor que nos fez morrer por mim no Calvário me faça morrer a todos os afetos mundanos e me consuma naquele santo fogo que viestes acender na terra. Maldigo mil vezes os indignos prazeres que vos custaram tantas dores. Arrependo-me, meu caro Redentor, de toda a minha alma, de todas as ofensas que vos fiz. Para o futuro prefiro morrer a dar-vos desgosto e quero fazer quanto puder para agradar-vos. Vós em nada vos poupastes por meu amor e eu também em nada quero poupar-me por vosso amor. Vós me amastes sem reserva e eu quero amar-vos também sem reserva. Amo-vos, meu único bem, meu amor, meu tudo.
2. “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,16). Oh! quanto significa essa partícula — assim! Significa que nós não podemos compreender o impulso do amor que levou Deus a enviar seu Filho a morrer para salvar o homem que estava perdido. E quem poderia fazer-nos esse dom de valor infinito, senão um Deus de amor infinito? Agradeço-vos, ó Padre eterno, o haverdes me dado vosso Filho por meu Redentor. E agradeço-vos, ó grande Filho de Deus, o me haverdes remido com tantas penas e tão grande amor. Que seria de mim, depois de tantas injúrias, que vos fiz, se vós não tivésseis morrido por mim, ó meu Jesus? Ah, tivesse eu morrido antes de vos ofender, meu Salvador. Eu vos suplico que me façais participar do horror que durante vossa vida tivestes dos meus pecados e perdoai-me. Não me basta, porém, o perdão: vós mereceis muito ser amado, vós me amastes até à morte e eu também quero amar-vos até à morte. Amo-vos, bondade infinita, de toda a minha alma, amo-vos mais do que a mim mesmo e quero que sejais o único objeto de todos os meus afetos. Ajudai-me, pois; não permitais que eu continue a viver tão ingrato como tenho sido até agora. Dizei-me o que queres de mim, que eu com vossa graça quero fazer tudo, tudo. Sim, meu Jesus, eu vos amo e quero amar-vos sempre, meu tesouro, minha vida, meu amor, meu tudo.
3. “Nem com o sangue dos bodes ou de novilhos, mas com o próprio sangue entrou no santuário uma vez, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12). E de fato o que poderia valer o sangue de todos os novilhos e mesmo de todos os homens para nos alcançar a graça divina? só o sangue deste homem Deus podia merecer-nos o perdão e a salvação eterna. Mas se o próprio Deus não tivesse inventado este modo de remir-nos, isto é, morrendo por nossa salvação, quem jamais poderia pensar nisso? Só o amor o sonhou e o executou. Tinha, pois, razão Jó quando perguntava a este Deus tão amante dos homens: “Que é o homem, para que assim o exaltes? e por que pões sobre ele o teu coração?” (Jó 7,17). Ah, meu Jesus, é pouco um coração para amar-vos, ainda que vos amasse com o coração de todos os homens, seria ainda pouco. Que ingratidão, pois, seria a minha se eu dividisse meu coração entre vós e as criaturas? Não, meu amor, vós o quereis todo e o mereceis todo, quero dar-vo-lo todo. E se não sei dar-vo-lo como é meu dever, tomai-o vós e fazei que eu possa dizer-vos com verdade: Deus de meu coração. Ah, meu Redentor, pelos merecimentos da vida desprezada e atribulada que quisestes levar para me ensinar a verdadeira humildade, fazei-me amar os desprezos e a vida oculta. Fazei que eu abrace com amor as enfermidades, as afrontas, as perseguições, as penas internas e todas as cruzes que me vierem de vossas mãos. Fazei que eu vos ame e depois disponde de mim como vos aprouver. Ó coração amante de Jesus, prendei-me a vós, fazendo-me conhecer o imenso bem que vós sois. Fazei-me todo vosso antes de morrer. Amo-vos meu Jesus, que tanto mereceis ser amado e tanto desejais o meu amor: amo-vos com todo o meu coração, amo-vos com toda a minha alma.
4. “Apareceu a benignidade e a humanidade de nosso Deus Salvador” (Tt, 3,4). Deus amou o homem desde toda a eternidade: “Ameite com um amor eterno” (Jr 31,3). Mas, segundo S. Bernardo, antes da encarnação do Verbo manifestava-se o poder divino na criação do mundo e a sabedoria de Deus em governá-lo; quando, porém, se fez homem o Filho de Deus, manifestou-se então claramente o amor que Deus tinha aos homens. Realmente, depois que vimos Jesus Cristo levar uma vida tão atribulada e uma morte tão penosa, far-lhe-íamos uma injúria se duvidássemos do afeto que ele tem por nós. Sim, muito ele nos amou porque nos ama quer ser amado por nós. Morreu por nós para que nós vivamos para ele. “Por todos morreu o Cristo, para que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15). Ah, meu Salvador, quando será que eu começarei a reconhecer o amor que me tendes? No passado, em vez de vos amar, paguei-vos com injúrias e desprezos. Mas, visto que sois a bondade infinita, não quero desesperar. Vós prometestes perdoar os que se arrependem; por piedade, cumpri o que prometestes. Eu vos desonrei, pospondo-vos às minhas satisfações; uma agora eu me arrependo de toda a minha alma e nada me aflige tanto como o recordar-me de vos haver ofendido a vós, meu soberano bem. Perdoai-me e uni-me inteiramente a vós com laços de um amor eterno, para que eu não vos deixe mais e viva somente para vos amar e obedecer. Sim, meu Jesus, só para vós quero viver, só a vós quero amar. Tempo houve em que eu vos abandonei pelas criaturas; mas agora abandono tudo e todo a vós me dou. Amo-vos, ó Deus de minha alma, amo-vos mais do que a mim mesmo. Ó Mãe de Deus, Maria, impetrai-me a graça de ser fiel a Deus até à morte.
5. “A caridade de Deus para conosco mostrou-se em que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo para que vivamos por ele” (Jo 4,9). Pelo pecado, todos os homens estavam mortos e teriam permanecido mortos se o eterno Pai não tivesse enviado seu Filho a restituir-lhes a vida por meio de sua morte. Mas como? um Deus morrer pelo homem! Um Deus! E que é esse homem? “Quem sou eu? pergunta S. Boaventura. Por que, Senhor, por que me amastes tanto assim?” Mas é aqui que resplandece o amor infinito desse Deus. A Igreja canta no Sábado Santo: “Ó admirável condescendência de vosso amor para conosco. Ó inestimável predileção de vossa caridade: para remirdes o servo, entregastes o Filho!” Vós, pois, meu Deus, assim procedestes para que vivêssemos por Jesus Cristo. Sim, é muito justo que vivamos por aquele que por nós deu todo o seu sangue e a sua vida. Meu caro Redentor, à vista de vossas chagas e da cruz em que vos vejo morto por mim, eu vos consagro minha vida e toda a minha vontade. Ah, tornai-me todo vosso, de maneira que de hoje em diante não bosque e não suspire senão por vós. Amo-vos, bondade infinita, amo-vos, amor infinito, fazei que eu viva dizendo sempre: meu Deus, eu vos amo, eu vos amo e fazei que sejam também estas minhas últimas palavras na morte: meu Deus, eu vos amo, eu vos amo.
6. “Pelas entranhas de misericórdia de nosso Deus, como que o sol nascente nos visitou do alto” (Lc 1,78). Eis que vem à terra o Filho de Deus e remir-nos e e vem unicamente movido pelas entranhas de sua misericórdia. Mas, Senhor, se tendes compaixão do homem que se perdeu, não será suficiente enviar um anjo para remi-lo? Não, responde o Verbo eterno, quero fazê-lo pessoalmente, para que o homem compreenda quanto eu o amo. Escreve S. Agostinho: “O motivo principal por que Cristo veio foi para que o homem conhecesse quanto Deus o ama”. Mas, ó meu Jesus, já que viestes para vos fazer amar, quantos são os homens que vos amam verdadeiramente? Ah, pobre de mim. Vós sabeis como vos amei no passado, sabeis com que desprezo tratei o vosso amor. Ah, se eu pudesse morrer de dor. Arrependo-me, meu caro Redentor, de ter-vos assim desprezado. Ah, perdoai-me e junto com o perdão dai-me a graça de vos amar. Não permitais que eu viva ainda esquecido do amor que me tendes. Agora eu vos amo, mas vos amo pouco; vós mereceis um amor infinito. Fazei que eu ao menos vos ame com todas as minhas forças. Ah, meu Salvador, minha alegria, minha vida, meu tudo, e que mais quero eu senão vos amar a vós, bem infinito? Eu consagro todos os meus desejos à vossa vontade e, à vista dos padecimentos que quisestes sofrer por mim, ofereço-me a sofrer tudo o que vos aprouver. Afastai de mim todas as ocasiões de vos ofender. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Livrai-me do pecado e depois disponde de mim como vos aprouver. Eu vos amo, bondade infinita, e estou pronto a sofrer todas as penas, mesmo a de ser aniquilado, a viver sem vos amar.
Continua...
365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano
1 de março de 2024
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus
Do amor do Filho de Deus em querer morrer por nós
1. “Eis aí o teu tempo, o tempo dos que amam... e te tornaste extremamente bela” (Ez 16, 8, 13). Quanto nós, os cristãos, somos devedores ao Senhor, por nos fazer nascer depois da vinda de Jesus Cristo! Nosso tempo não é mais o tempo do temor, como era o dos Hebreus, mas é o tempo do amor, havendo um Deus morrido por nossa salvação e para ser amado por nós. É artigo de fé que Jesus nos amou e por nosso amor se entregou à morte: “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5,2). E quem poderia fazer morrer um Deus onipotente se ele não quisesse de livre vontade dar a vida por nós? “Eu entrego a minha vida... Ninguém a tira de mim, mas eu a entrego por mim mesmo” (Jo 10,17-18). Por isso diz S. João que Jesus na sua morte deu-nos a última prova que podia dar-nos do seu amor: “Tendo-os amado, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). Afirma um autor devoto que Jesus na sua morte nos deu a maior prova de seu amor, nada mais lhe restando depois disso a fazer para nos demonstrar quanto nos amava (Contens. 1. 10, d. 4, c. 1). Meu amado Redentor, vós vos destes todo a mim por amor e eu por amor me dou todo a vós. Destes a vida por minha salvação, eu por vossa glória quero morrer quando e como vos aprouver. Vós não podíeis fazer mais para conquistar o meu amor e eu, ingrato, entreguei-vos por nada. Meu Jesus, arrependo-me disso de todo o coração: perdoai-me por vossa paixão e em prova do perdão concedei-me a graça de amar-vos. Sinto em mim um grande desejo de vos amar e tomo a resolução de ser todo vosso: vejo, porém, minha fraqueza, e vejo as traições que vos fiz: só vós podeis socorrer-me e tornar-me fiel. Ajudai-me, meu amor, fazei que vos ame e nada mais vos peço.
2. Diz o Beato Dionísio Cartusiano que a paixão de Jesus Cristo foi denominada um excesso: “E falavam do excesso que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31), porque foi excesso de piedade e de amor. Ó Deus, qual é o fiel que poderia viver sem amar Jesus Cristo, se meditasse a miúdo na sua paixão? As chagas de Jesus, diz S. Boaventura, são todas chagas de amor, são dardos e chamas que ferem até os corações mais duros e abrasam as almas mais frias. O beato Henrique Suso, para melhor imprimir em seu coração o amor a Jesus crucificado, tomou uma vez um ferro cortante e gravou em seu peito o nome
de seu amado Senhor, e estando assim banhado em sangue dirigiu-se à igreja e prostrando-se diante do crucifixo, disse-lhe: Ó Senhor, único amor de minha alma, vede o meu desejo, quereria escrever vosso nome dentro de meu coração, mas não posso.. Vós, que tudo podeis, supri o que falta às minhas forças e imprimi no mais fundo do meu coração o vosso nome adorável, de tal maneira que não possa ser mais dela apagado nem o vosso nome, nem o vosso amor. “O meu bem amado é cândido e rosado, eleito entre mil” (Ct 5,10). Ó meu Jesus, vós sois todo cândido por vossa ilibada inocência, mas, sobre essa cruz, estais todo vermelho pelas chagas sofridas por mim. Eu vos escolho pelo único objeto de meu amor. E a quem amarei senão a vós? Que objeto entre todos posso eu encontrar mais amável do que vós, meu Redentor, meu Deus, meu tudo? Eu vos amo, Senhor amabilíssimo, eu vos amo sobre todas as coisas. Fazei que eu vos ame com todos os meus afetos e sem reserva.
3. “Oh! se conhecesses o mistério da cruz”, disse S. André ao tirano. Ó tirano, queria ele dizer, se conhecesses o amor que Jesus Cristo te mostrou, querendo morrer sobre uma cruz para salvar-te, deixarias todos os teus bens e esperanças terrenas para te entregares inteiramente ao amor deste teu Salvador. O mesmo deve dizer-se aos fiéis que crêem na paixão de Jesus Cristo, mas nela não meditam. Ah, se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo lhes testemunhou na sua morte, quem poderia deixar de amá-lo? Diz o Apóstolo que nosso amado Redentor morreu por nós, para que com o amor que nos demonstrou na sua morte se fizesse senhor de nossos corações. “Para isso Cristo morreu e ressuscitou, para ser senhor tanto dos mortos como dos vivos. Quer, pois, morramos, quer vivamos, somos do Senhor” (Rm 14,9). Portanto, quer morramos, quer vivamos, é justo que sejamos todos de Jesus que a tanto custo nos salvou. Oh! que eu pudesse dizer, como o abrasado S. Inácio, mártir, que teve a sorte de dar a vida por Jesus Cristo: “Que venham sobre mim o fogo, a cruz, as feras, e toda a espécie de tormentos, contanto que goze de ti, ó Cristo” (Ep. ad Rom. c. V). Ó meu caro senhor, morrestes para conquistar minha alma, e eu que fiz para vos adquirir, bem infinito? Ah, meu Jesus, quantas vezes eu vos perdi por um nada! Miserável! eu já sabia que com o meu pecado perdia a vossa graça, sabia que vos causava um grande desgosto e contudo eu o fiz. Consolo-me que tenho de tratar com uma bondade infinita, que se esquece das ofensas, mal um pecador delas se arrepende e a ama. Sim, meu Deus, eu me arrependo e vos amo. Perdoai-me e de hoje em diante dominai sobre este coração rebelde. Eu vo-lo entrego e a vós me dou inteiramente: dizei-me o que quereis, que eu quero fazer tudo. Sim, meu Senhor, quero amar-vos, quero contentar-vos em tudo: dai-me força e espero executá-lo.
4. Jesus com sua morte não cessou de nos amar; ama-nos ainda e procura-nos com o mesmo amor com que veio do céu à nossa procura e a morrer por nós. É célebre a fineza de amor que demonstrou o Redentor a S. Francisco Xavier, quando ele viajava. Durante uma tempestade, uma onda do mar havia-lhe roubado o crucifixo. Chegado o santo à praia, sentia-se triste e desejava recuperar a imagem de seu amado Senhor. E ei que vê um caranguejo vir ao seu encontro com o crucifixo alçado entre suas tenazes. Ele correu-lhe ao encalço e com lágrimas de ternura e amor o recebeu e estreitou ao peito. Oh! com que amor Jesus vai ao encontro da alma que busca. “Bom é o Senhor... para a alma que o busca” (Lm 3,25), isto é, para a alma que o busca com verdadeiro amor. Poder-se-á pensar que possuem este amor aquelas que recusam as cruzes que o Senhor lhes envia? “Cristo não procurou agradar a si mesmo” (Rm 15,3). Cristo não buscou sua vontade e cômodos, diz Cornélio a Lápide, mas sacrificou tudo isso e sua própria vida por nossa salvação. Jesus, por amor de nós, não procurou prazeres terrenos, mas os sofrimentos e a morte, apesar de ser inocente. E nós que procuramos por amor de Jesus Cristo? um dia se queixava S. Pedro, mártir, estando encarcerado por uma injusta acusação que lhe fizeram, e dizia: Mas, Senhor, que mal fiz eu para sofrer esta perseguição? E o crucificado lhe respondeu: e eu que mal pratiquei para estar pregado nesta cruz? Ó meu Salvador, perguntais que mal fizestes? Muito nos amastes e por isso quisestes padecer tanto por nosso amor. E nós, que por nossos pecados merecíamos o inferno, recusaremos padecer o que nos enviardes para nosso bem? Vós sois todo amor, ó meu Jesus, para quem vos procura. eu não busco vossas doçuras e consolações, busco só a vós e a vossa vontade; dai-me o vosso amor e depois tratai-me como vos aprouver. Abraço todas as cruzes que me enviardes, pobreza, perseguições, enfermidades, dores: livrai-me unicamente do mal do pecado e em seguida sobrecarregai-me de todos os males. Tudo será pouco em comparação dos males que vós sofrestes por meu amor.
5. “Para remir o servo nem o Pai poupou o Filho, nem o Filho poupou-se a si mesmo”, diz S. Bernardo (Serm. de pass.). E depois de um tão grande amor para com os homens poderá haver alguém que não ame a esse Deus tão amante? Escreve o Apóstolo que Jesus morreu por nós todos, para que nós vivamos somente para ele e seu amor: Por todos morreu Cristo, para que os que vivem, não vivam mais para si, mas para aquele que morreu por eles (2Cor 5,15). A maior parte dos homens, infelizmente, depois de um Deus haver morrido por eles, vive para os pecados, para o demônio e não para Jesus Cristo. Dizia Platão que o amor é o ímã do amor. E Sêneca afirmava: Ama, se queres ser amado. E como é que Jesus, que, morrendo pelos homens, pareceu enlouquecer de amor, na expressão de S. Cregório (Hom. 6), não conseguiu atrair a si os nossos corações depois de tantas provas de amor? Como é possível que amando-nos tanto não chegou a fazer-se amar de nós? Oh! se vos amassem todos os homens, ó Jesus meu amabilíssimo. Sois um Deus digno de um amor infinito. Mas, meu pobre Senhor, permiti que assim vos chame, sois tão amável, fizestes e padecestes tanto para que os homens vos amassem, e quanto são os que vos amam? Vejo quase todos os homens aplicados em amar ou os parentes, ou os amigos, ou as riquezas, ou as honras, ou os prazeres, e mesmo os animais: mas quantos são os que vos amam, bem infinito? Ó Deus, são muito poucos, mas eu quero estar no número destes poucos, apesar de mísero pecador, que durante tanto tempo também vos ofendi, amando o lodo, separando-me de vós. Agora, porém, eu vos amo e vos estimo sobre todos os bens e só a vós quero amar. Perdoai-me, meu Jesus, e socorrei-me.
6. Ó cristão, diz S. Cipriano, Deus está contente contigo, chegando até a morrer para conquistar teu amor, e tu não estarás contente com Deus, visto que amas outros objetos, fora de teu Senhor? (Ap. Cont.) Ah, meu amado Jesus, eu não quero ter outro amor que não seja por vós: estou satisfeito convosco: renuncio a todos os outros afetos, o vosso amor só me basta. Sinto que me dizeis: “Põe-me como selo sobre o teu coração” (Ct 8,6). Sim, meu Jesus crucificado, eu vos ponho e peço-vos que vos ponhais a vós mesmo como um selo sobre o meu coração, para que fique fechado a todo outro afeto que não tenda para vós. No passado eu vos desgostei com outros amores, mas presentemente não há pena que mais me aflija como a recordação de haver com os meus pecados perdido o vosso amor, e no futuro “quem me separará do amor de Jesus Cristo?” Não, meu amabilíssimo Senhor, depois de me haverdes feito conhecer o amor que me tivestes, não quero mais viver sem vos amar. Eu vos amo, meu amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração e vos entrego esta alma tão procurada e amada por vós. Pelos merecimentos de vossa morte, que tão atrozmente separou vossa bendita alma de vosso corpo, desprendei-me de todo o amor que possa impedir-me de ser todo vosso e de amar-vos de todo o meu coração. Maria, minha esperança, ajudai-me a amar unicamente o vosso dulcíssimo Filho, de tal maneira que eu possa repetir sempre, no decorrer de minha vida: Meu amor foi crucificado. Amém.
Oração de S. Boaventura
Ó Jesus, que por mim não perdoastes a vós mesmo, imprimi em mim a vossa paixão, a fim de que em toda parte para onde me volte veja as vossas chagas e não encontre outro repouso que em vós e em meditar os vossos sofrimentos. Amém.