2 de dezembro de 2013

O pecado de Adão e o amor de Deus para com os homens.

Et nunc quid mihi est hic, dicit Dominus, quoniam ablatus est populus meus gratis? — “E agora, que tenho Eu que fazer aqui, diz o Senhor, visto ter sido levado sem nenhuma razão o meu povo?” (Isa. 52, 5.)

Sumário. Peca Adão, nosso primeiro pai, e em castigo de seu pecado é expulso do paraíso terrestre com toda a sua descendência condenado a uma vida de misérias e excluído para sempre do céu. O Senhor, porém, teve compaixão dele, e como se a sua beatitude dependesse da dos homens, e Ele não pudesse ser feliz sem estes, resolveu a todo o custo salvá-los. Ó incompreensível amor de Deus! Mas, como é que nós Lhe temos correspondido?

I. Adão, nosso primeiro pai, peca; desagradecido por tantos benefícios recebidos, revolta-se contra Deus, transgredindo o preceito de não comer da árvore proibida. Por esse motivo vê-se Deus constrangido a expulsá-lo agora do paraíso terrestre e a privar no futuro, tanto Adão como todos os descendentes deste revoltoso, do paraíso celeste e eterno, que lhes havia preparado para depois desta vida temporal. Eis, pois, todos os homens condenados a uma vida de trabalhos e misérias, e para sempre excluídos do céu. O demônio tem poder sobre eles, e incalculáveis são os estragos que o inferno continuamente faz.

Vendo, porém, o Senhor os homens reduzidos a tão mísero estado, compadeceu-se deles. Mas, como nos dá a entender o profeta Isaías, parece que Deus, por assim dizer, se lamenta e se aflige, dizendo: Et nunc quid mihi est hic, quoniam ablatus est populus meus gratis? — “E agora, que tenho Eu que fazer aqui, visto ter sido levado sem nenhuma razão o meu povo?” Como se quisesse dizer: que me restou de delícia no paraíso, uma vez que perdi os homens que eram as minhas delícias? Mas, não; quero a todo o custo salvá-los; venha, por isso, um redentor, que em lugar do homem satisfaça à minha justiça e assim o redima da morte eterna.

Mas, meu Senhor, tendes no céu tantos serafins e tantos anjos, e de tal modo Vos aflige o terdes perdido os homens? Que precisão tendes Vós, tanto dos anjos como dos homens, para a perfeição de vossa beatitude? Sempre tendes sido e sempre sois felicíssimo em Vós mesmo: que poderá jamais faltar à vossa felicidade que é infinita? — Tudo isso é verdade (assim o faz responder o cardeal Hugo), mas, perdido o homem, afigura-se-me ter perdido tudo, porquanto as minhas delícias eram estar com os homens; agora perdi os homens, e os infelizes estão condenados a viver para sempre longe de mim. — Ó amor imenso de Deus! Ó amor incompreensível! Ó amor infinito!

II. Ó meu Senhor, como é possível que, depois de terdes reparado, com a morte do vosso divino Filho, os danos causados pelo pecado, tenha eu tornado tantas vezes a renová-los voluntariamente, com as ofensas que Vos tenho feito? Vós me salvastes à custa de tamanhos sacrifícios, e eu tão repetidas vezes tenho querido perder-me, perdendo-Vos, a Vós, Bem infinito. Inspirai-me, porém, confiança à vossa palavra, que, se o pecador se converter a Vós, não Vos recusareis a abraçá-lo: Convertimini ad me et convertar ad vos (1) — “Convertei-vos a mim e eu me converterei a vós.” Vede, Senhor, que sou um daqueles rebeldes, um ingrato e traidor que por mais de uma vez Vos voltei as costas e Vos expulsei da minha alma. Pesa-me de todo o coração de Vos haver assim ofendido e desprezado a vossa graça. Pesa-me, e amo-Vos acima de todas as coisas. A porta do meu coração já está aberta para Vós: entrai nele, mas entrai para nunca mais Vos retirardes. Sei que nunca Vos retirareis, se eu não tornar a expulsar-Vos. Eis ai o que me faz medo, eis aí também a graça que espero pedir-Vos sempre; deixai-me morrer antes que venha a cometer para convosco semelhante nova e maior ingratidão.

Jesus, meu caro Redentor, pelas ofensas que Vos tenho feito mereceria não mais poder amar-Vos; mas pelos vossos méritos, peço-Vos o dom do vosso santo amor. Por isso fazei com que eu conheça o grande bem que sois, o amor que me tendes dedicado e quanto tendes feito para me obrigar a Vos amar. Ah! Meu Deus e Salvador meu, que eu não viva doravante tão ingrato à vossa tão grande bondade. Não quero separar-me mais de Vós, meu Jesus, basta de pecados. É justo que eu empregue os anos de vida que me restam inteiramente em Vos amar e dar-Vos gosto. Jesus meu, Jesus meu, ajudai-me; ajudai um pecador que Vos quer amar. — Ó Maria, minha Mãe, vós podeis tudo para com Jesus, visto que sois sua Mãe, dizei-lhe que me perdoe; dizei-lhe que me prenda com os laços do seu santo amor. Vós sois a minha esperança; confio em vós. (*III 667.)

----------
1. Zach. 1, 3.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 10-12.)

Pensamentos escolhidos do Cura d'Ars.

XXXI - Avisos e máximas sobre diversos assuntos.

15/20 -   Falsa alegria dos mundanos.
               Não acho ninguém tão para lastimar quanto essa pobre gente do mundo. Têm nos ombros um manto forrado de espinhos: não podem fazer um movimento sem se espetarem; ao passo que os bons cristãos têm um manto forrado de peles.

1 de dezembro de 2013

Mês de Dezembro - Santo Afonso, modelo de paciência e de amor à cruz.

Melior est patiens viro forti, et qui dominatur animo suo expugnatore urbium — “O homem paciente é melhor do que o valoroso; e o que domina o seu ânimo, melhor do que o expugnador de cidades” (Prov. 16, 32).

Sumário. Foram numerosos os espinhos semeados no caminho que nosso Santo percorreu, e ele, por ter a compleição biliosa, devia sentir sobremaneira as picaduras. Mas, querendo imitar a Jesus Cristo, manso e humilde de coração, Afonso, por meio de esforços heróicos, chegou não só a sofrer com paciência, senão a desejar sempre sofrimentos maiores. Ah! Se nós também estudássemos o grande livro do Crucifixo, quão leves se nos afigurariam as cruzes que Deus nos envia!

I. Exorta-nos São Tiago “a termos por um motivo de maior alegria, as diversas tribulações que nos sucedem, sabendo que a provação da nossa fé produz a paciência; a paciência a faz obra perfeita” (1). Eis porque nosso Santo, que, não contente com aplicar-se à perfeição de um modo qualquer, fizera o propósito de escolher sempre o que fosse mais perfeito, empregou todos os meios para progredir na virtude da paciência. — Por outro lado, o Senhor, que o destinara a ser um modelo perfeito de resignação, não lhe diminuiu as ocasiões de sofrimentos, semeando-lhe o caminho da vida de vários espinhos.

O corpo de Afonso sofreu contínuas e dolorosas enfermidades; especialmente durante os últimos dezessete anos da vida, tolhido em todos os seus membros por aguda artrite, tornou-se como que outro Jó, ou antes uma imagem viva de Jesus crucificado. — Às enfermidades juntaram-se as perseguições, não somente da sua própria pessoa, senão também da sua Congregação, à qual amava mais que a si mesmo. — Com as perseguições vieram-lhe os desprezos. Afonso foi tratado como injusto, orgulhoso, iludido, hipócrita, corruptor da moral cristã, e afinal como ignorante. Assim foi tratado aquele cuja sabedoria foi e será sempre admirada pelo mundo inteiro.

Finalmente, para não falar de outros sofrimentos, aos desprezos se ajuntaram, particularmente nos últimos anos da sua vida, os escrúpulos, as tentações, a aridez e a desolação espiritual. No meio, porém, de todas as tribulações, o Santo ficou sempre contente e resignado à vontade divina. “O mercado”, dizia ele, “onde as almas espirituais fazem mais lucro, são as tribulações. Vale mais uma hora de sofrimentos, padecidos com inteira resignação, do que todos os tesouros da terra. — Senhor, graças Vos rendo por me dardes uma amostra das dores que padecestes. Basta que não me envieis ao inferno, e com vosso auxílio estou pronto a sofrer tudo.” Assim dizia o santo Doutor, e com sua paciência te ensina, a ti, que te glorias de ser seu filho e devoto, e não sabes sofrer uma leve injúria, uma pequena mortificação, uma palavra picante.

II. Não imaginemos que a paciência heróica de Afonso fosse talvez efeito de frieza ou insensibilidade natural. Ao contrário, por causa da sua compleição biliosa, era extremamente arrebatado e levado à ira. Mas, no dizer dos seus biógrafos, como, desde o dia em que virara as costas ao mundo, se propusera a imitação de Jesus Cristo, manso e humilde de coração, com violência contínua e abnegação de si mesmo chegou não somente a sofrer com paciência, mas a desejar os sofrimentos, as humilhações e os desprezos. — Ele mesmo o deu a entender a um seu íntimo. Querendo este que o Santo rebatesse um insulto, a fim de não aviltar o caráter episcopal, Afonso respondeu: Trabalhei quarenta anos para adquirir um pouco de paciência, e quereríeis que o perdesse num instante?

Portanto, meu irmão, seja qual for o teu gênio, o teu estado, a tribulação que te aflige, também tu podes imitar os exemplos do teu grande protetor. Abraça, pois, de boa vontade a cruz, considerando-a como vinda das mãos de um Deus que é todo amor para contigo, e lembra-te de que de um modo ou de outro sempre a terás de levar. Mas, como observa o nosso santo Doutor, há esta diferença: Se padeceres com paciência, padecerás menos e te salvarás; se padeceres com impaciência, padecerás mais e te condenarás. — Se não te achares com força suficiente, pede-a ao Senhor pelos merecimentos do Santo.

Ó meu Jesus, pelos merecimentos de Santo Afonso, ajudai-me a sofrer com paciência as tribulações deste vida, e perdoai-me todas as ofensas que Vos fiz pelas minhas impaciências e pela minha pouca resignação nos sofrimentos que me enviastes para o meu bem. — E vós, Virgem Santíssima e minha Mãe Maria, alcançai-me do vosso divino Filho a graça de O amar, pois que o amor me dará também força para sofrer tudo por amor dele.

----------
1. Iac. 1, 2.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 479 - 482.)


PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO.

A existência de Deus

O Evangelho de hoje, início do ano eclesiástico, nos coloca, de relance, diante da cena terrificante do fim do mundo e do Juízo universal.

Olhai e levantai as vossas cabeças, diz o Salvador,... passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.

Eis pois, no meio dos seres, coisas que passam e um Ser que não passa, mas que é eterno, o princípio de tudo.

O que passa é este mundo, o que não passa é Deus.

E há gente que ousa afirmar, de boca e pela sua vida que Deus não existe. O Espírito Santo nos avisa que tais idéias vêm da boca e não da inteligência: O insensato diz em seu coração: não há Deus! (Sal. 13)

Seria triste ser obrigado a convencer um filho de que teve pai; mais triste é ver um homem negar que é filho de Deus.

Em frente da cena tremenda do fim do mundo e do Salvador vindo sobre uma nuvem com grande poder e majestade, demonstremos claramente:

1. Que Deus existe verdadeiramente;
2. Que Deus é um Ser pessoal.

Refutaremos, deste modo, as teorias dos ateístas que negam Deus, e as dos panteístas que afirmam que Deus é o universo.

I. Deus existe

Chamamos Deus o Ser supremo, a causa primeira de tudo o que existe; Aquele que existe por si mesmo, de quem tudo depende e que não depende de ninguém.

Os que negam a existência de Deus chamam-se: ateus.

Há bastante ateus de vida, vivendo como se não houvera Deus, porém, não há ateus de convicção, porque toda convicção exige motivos de convicção, estes não podem ser encontrados.

Entre as numerosas provas da existência de Deus, limitemo-nos às três seguintes:

a) A fé do gênero humano

Todos os povos, de todos os tempos, acreditaram na existência de um Ser Supremo, ou Deus. É a convicção fundamental do gênero humano.

É tão natural ao homem crer em Deus quão natural é às crianças crerem em seus pais.

A crença em Deus não vem da ciência, nem dos homens, vem da natureza e da razão, como expressão de uma verdade inelutável.

b) A ordem e a beleza do universo

Examinando o mundo, encontramos nele uma ordem admirável em sua organização e funcionamento. Tudo se sucede no tempo marcado, sem vacilação, sem alteração. O mundo é um verdadeiro relógio. Ora, disse Voltaire:

Quanto mais nisto cogito
Mais longe estou de pensar,
Que, sem ter relojoeiro,
Possa este relógio andar.

Na união e na variedade das suas partes, o mundo constitui uma obra-prima, inimitável de poesia, de pintura, de audácia e de harmonia.

Se a existência de um relógio prova a existência de um relojoeiro; se a beleza de um quadro prova a existência de um artista; um quadro inimitável indica necessariamente um Artista Supremo.

c) A existência do gênero humano

Ninguém pode criar a si mesmo, pois se se pudesse criar, este novo ser criado já não seria o que criou, visto este último já existir.

Ora, o homem existe.
Logo teve um Criador.

Cada um de nós é obrigado a confessar que recebeu a vida de outrem e este outro de mais outro, até chegar a existência do primeiro, que a recebeu de Deus.

O primeiro deu a vida, mas não a recebeu de ninguém: é único. É Deus. Logo existe.

Ninguém dá o que não possui. Deus dá a vida. Logo Ele a possui.

II. Deus é um Ser pessoal

Deus é uma personalidade. Não somente Ele existe, mas existe completamente distinto da obra que criou, como o artista é distinto da produção de suas mãos.

A categoria dos insensatos que admitem a existência de Deus, mas que dizem não ter personalidade distinta das coisas criadas, chama-se a dos panteístas.

O ateísmo e o panteísmo são os dois extremos afastados da verdade: os primeiros não admitem a existência de Deus; os segundos pretendem loucamente que tudo seja Deus, de modo que na opinião deles há identidade substancial entre Deus e o mundo. É como se alguém dissesse que o pedreiro e a casa que ele constrói são uma só e mesma coisa.

O homem sente a necessidade de Deus, a impiedade, não podendo arrancar este sentimento inato, fabrica um deus que tem este nome, mas não tem o poder que tal título supõe.

Deus não é mais alguém, é uma coisa.
Deus não é mais uma pessoa que governa; é o universo que se governa por si!

Tal deus não incomoda a ninguém, porque não é ninguém.

O panteísmo, para sustentar tal hipótese, é obrigado a afirmar que a mesma substância (o universo) é ao mesmo tempo: finito e infinito, mutável e imutável, passageiro e eterno, ou simplesmente: preto e branco, grande e pequeno, pois reúnem num termo único dois elementos radicalmente opostos.

As conseqüências de tal hipótese são imorais, pois se tudo é Deus: Deus é composto do que há neste mundo: erro e verdade, crime e virtude, ignorância e ciência.

De duas uma: é preciso negar a existência de Deus – o que é impossível – ou admitir um Deus – ignorante, mentiroso, vicioso.

Em outros termos: é preciso negar a evidência ou afirmar o absurdo: pois divinizar tudo é tudo justificar.

III. Conclusão

Como acabamos de ver, o ateísmo e o panteísmo: nenhum Deus, ou: tudo Deus, são dois irmãos gêmeos, duas formas da incredulidade, do vício.

Deus existe: Para prová-lo, basta seguir o conselho do divino Mestre: Levantai as vossas cabeças e examinai o mundo. Em cada uma das suas peças constitutivas está escrito, em letras flamejantes, o nome do Criador, do ser Supremo.

Ora, o ser supremo é necessariamente único; sendo único, é também necessariamente um ser pessoal, uma personalidade distinta de tudo o que existe neste e no outro mundo.

Tão pessoal é Ele que o Evangelho no-Lo apresenta como vindo numa nuvem com grande poder e majestade, para, no fim dos tempos, julgar o universo.

EXEMPLOS

1. Uma resposta de Newton

Uma noite, Newton passeava com um de seus amigos, indiferente em questões religiosas.

No meio da conversa, este disse ao sábio que lhe desse uma prova da existência de Deus, curta e sem réplica.

Newton estendeu a mão para o firmamento e respondeu simplesmente:

- Olhe!...

2. Resposta de um menino

Um sapateiro disse um dia a seu aprendiz, menino muito religioso:

- Olhe, pequeno, este negócio de crer em Deus é beatice... Deus não existe, o mundo se fez por si.

O menino respondeu com calma:

- Mas, neste caso, é mais fácil fazer um mundo do que um sapato.

3. Diálogo no trem

- O mundo funciona sozinho; não há precisão de Deus para explicar o seu movimento.
- Olhe, a porta do carro se fecha também sozinha, basta uma mola. Não há pois precisão de operário para explicar este movimento.
- Ao contrário; e o senhor o sabe tão bem quanto eu: uma porta que se fecha automaticamente por si mesma supõe mais inteligência da parte do artista que a fez do que uma porta comum.

----------
(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 18-23)

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO.

A temeridade do pecador e o dia do Juízo.

Videbunt Filium hominis venientem in nube cum potestate magna et maiestate — “Verão o Filho do homem que virá sobre uma nuvem com grande poder e majestade” (Luc. 21, 27).

Sumário. Uma consideração séria nos ensina que não há atualmente no mundo pessoa mais desprezada de que Jesus Cristo; pois é injuriado tão continuamente e com tão desenfreada liberdade, como não o seria o mais vil dos homens. Eis porque o Senhor destinou um dia, no qual virá, com grande poder e majestade, a reivindicar a sua honra. Recorramos agora ao trono da divina misericórdia, para que naquele dia não sejamos condenados pela justiça de Deus.

I. Considerando bem, não há no mundo atualmente quem seja mais desprezado que Jesus Cristo. Trata-se com mais consideração um aldeão ao ver-se por demais ofendido incessantemente e de caso pensado, como se não pudesse vingar-se quando quisesse. Por isso o Senhor marcou um dia (chamado com razão, na Escritura Sagrada, o dia do Senhor, Dies Domini), quando vai dar-se a conhecer tal como é: Cognoscetur Dominus iudicia faciens (1). Diz São Bernardo, explicando este texto: O Senhor será conhecido quando vier a fazer justiça, ao passo que agora, porque quer usar de misericórdia, é desconhecido. Então esse dia não mais se chama de misericórdia e de perdão, senão dia de ira, dia de tribulação e de angústia, dia de calamidade e de miséria (2).

Conforme nos ensina o Evangelho de hoje, esse dia será precedido de sinais pavorosos. “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; na terra os povos estarão angustiados sob o rugido surdo e confuso do mar e das ondas; os homens morrerão com medo dos males que hão de vir sobre o mundo. Por fim, as virtudes dos céus (isto é, na interpretação dos Padres, os nove coros dos Anjos) se comoverão, e então se verá aparecer sobre as nuvens o Filho do homem, com grande poder e majestade”, a reivindicar a glória que os pecadores nesta terra lhe quiseram tirar.

Diz Santo Tomás: “Se, no horto de Getsêmani, com as palavras de Jesus Cristo: Ego sum, caíram por terra todos os soldados que O tinham vindo prender, que será, quando Jesus, sentado para julgar, disser aos condenados: “Aqui estou, sou eu aquele a quem tanto haveis desprezado”...; que será quando pronunciar contra eles a sentença eterna: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno! — Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum! (3)”

II. O dia do Juízo, assim como será para os réprobos um dia de pena e de terror, será, ao contrário, para os escolhidos um dia de regozijo e triunfo; porque, então, à vista de todos os homens, as suas beatas almas serão proclamadas rainhas do paraíso e feitas esposas do Cordeiro imaculado. Oh! Que ventura experimentarão os bem-aventurados, quando Jesus, voltando-se para a direita, lhes disser: “Vinde, meus benditos filhos, vinde possuir o reino dos céus que vos foi preparado: possidete paratum vobis regnum!” (4)

Irmão meu, o que será de ti naquele dia? São Jerônimo, quando passava os dias na Gruta de Belém, em continuas orações e mortificações, tremia só em pensar no Juízo universal. O venerável P. Juvenal Ancina, lembrando-se do Juízo ao ouvir cantar a seqüência da Missa de defuntos, Dies irae, dies illa, deixou o mundo e fez-se religioso. E tu, o que fazes para mereceres no dia do Juízo as bênçãos divinas, em companhia dos escolhidos?

Com o intuito de nos preparar para o Santo Natal, a Igreja propõe hoje o Juízo à nossa meditação. Sabendo que Nosso Senhor, na sua primeira vinda, apareceu num trono de graça e que na segunda aparecerá num trono de justiça rigorosíssima, quer que procuremos agora recorrer a Jesus afim de experimentarmos os efeitos de sua infinita misericórdia. Aproximemo-nos com confiança do trono de graça: Adeamus ergo cum fidúcia ad thronum gratiae (5).

Ah! Jesus meu e meu Redentor, Vós que um dia haveis de ser o meu juiz: perdoa-me antes que chegue esse dia. Agora, sois meu Pai, e como tal recebeis na vossa graça um filho que, arrependido, se prostra a vossos pés. Meu Pai, eu Vos amo de todo o meu coração e no futuro não me quero mais afastar de Vós, não quero mais ter a temeridade de voltar a ofender-Vos.

Mas já que conheceis a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa graça. “Excitai, Senhor, o vosso poder e vinde em meu auxílio, a fim de que, mediante a vossa proteção, livrado dos perigos iminentes por causa de meus pecados, mereça ser salvo por Vós.” (6) Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima. (*II 113.)

---------------
1. Sal. 9, 17.
2. Soph 1, 15.
3. Matth. 25, 41.
4. Matth. 25, 34.
5. Hebr. 4, 16.
6. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 7- 9.)

Modo de Fazer Oração Mental Segundo Santo Afonso.

A meditação ou oração mental contém três partes: a preparação, a meditação e a conclusão.

I. PREPARAÇÃO.

Na Preparação, fazem-se três atos:

1º. Ato de na presença de Deus, dizendo: “Meu Deus, eu creio que estais aqui presente e Vos adoro com todo o meu afeto”.

2º. Ato de Humildade, por um breve ato de contrição: “Senhor, nesta hora deveria eu estar no inferno por causa dos meus pecados; de todo o coração me arrependo de Vos ter ofendido, ó Bondade infinita.”

3º. Ato de Petição de luzes: “Meu Deus, pelo amor de Jesus e Maria, esclarecei-me nesta meditação, para que tire proveito dela”.

Depois uma Ave-Maria à Santíssima Virgem, a fim de que nos obtenha esta luz; e na mesma intenção um Gloria-Patri a São José, ao Anjo Custódio e ao nosso Santo Protetor.

Estes atos devem ser feitos com atenção, mas brevemente, depois do que se fará a Meditação.

II. MEDITAÇÃO.

Para a Meditação, sirvamo-nos sempre de um livro, ao menos no começo, parando nas passagens que mais impressão nos fazem. São Francisco de Sales diz que devemos imitar as abelhas, que se demoram numa flor enquanto acham mel e voam depois para outra.

Note-se, além disto, que são três os frutos da meditação: afetos, súplicas e resoluções; nisto é que consiste o proveito da oração mental. Assim, depois de haverdes meditado numa verdade eterna e Deus ter falado ao vosso coração, é mister que faleis a Deus:

1º. Pelos afetos, isto é, pelos atos de fé, agradecimento, adoração, louvor, humildade e, sobretudo, de amor e de contrição, que é também ato de amor. O amor é como que uma corrente de ouro que une a alma a Deus. Conforme Santo Tomás, todo o ato de amor nos merece mais um grau de glória eterna. Eis aqui exemplos de atos de amor: “Meu Deus, eu Vos amo sobre todas as coisas. — Eu Vos amo de todo o meu coração. — Fazei-me saber o que é de vosso agrado; quero fazer em tudo a vossa vontade. — Regozijo-me por serdes infinitamente feliz.”

Para o ato de contrição, basta dizer: “Bondade infinita, pesa-me de Vos ter ofendido”.

2º. Pelas súplicas, pedindo a Deus luzes, a humildade ou qualquer outra virtude, uma boa morte, a salvação eterna; mas principalmente o dom do seu santo amor e a santa perseverança, porque, no dizer de São Francisco de Sales, com o amor se alcançam todas as graças.

Se a nossa alma está em grande aridez, basta dizermos: “Meu Deus, socorrei-me. Senhor, tende compaixão de mim. Meu Jesus, misericórdia! — Ainda que nada mais fizéssemos, a oração seria excelente.

3º. Pelas resoluções. Antes de se terminar a oração, cumpre tomar alguma resolução, não geral, como,  por exemplo, evitar toda falta deliberada, de se dar todo a Deus, mas particular, como por exemplo evitar com mais cuidado tal defeito, em que se caía mais vezes, ou praticar melhor tal virtude e que a alma procurará exercer-se mais vezes: como seja, aturar o gênio de tal pessoa, obedecer mais exatamente a tal Superior ou à Regra, mortificar-se mais freqüentemente em tal ponto, etc. Nunca terminemos a nossa oração sem havermos formado uma resolução particular.

III. CONCLUSÃO.

Enfim, a Conclusão da oração compõe-se de três atos:

1º. De agradecimento pelas luzes recebidas e de pedido de perdão das faltas cometidas no tempo da oração: “Senhor, eu Vos agradeço as luzes e os afetos que me destes nesta meditação e Vos peço perdão das faltas nela cometidas”.

2º. De oferecimento das resoluções tomadas e de propósito de guardá-las fielmente: “Meu Deus, eu Vos ofereço as resoluções que com a vossa graça acabo de tomar e resolvido estou a executá-las, custe o que custar”.

3º. De súplica, pedindo ao Pai Eterno, pelo amor de Jesus e de Maria, a graça de executá-las fielmente: “Meu Deus, pelos merecimentos de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Santíssima, dai-me a força de por fielmente em prática as resoluções que tomei”.

Termina-se a oração recomendando a Deus a santa Igreja, os seus Prelados, as almas do purgatório, os pecadores e todos os nossos parentes, amigos e benfeitores, por um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, que são as orações mais úteis por nos serem ensinadas por Jesus Cristo e pela Igreja: “Senhor, eu Vos recomendo a santa Igreja com os seus prelados, as almas do purgatório, a conversão dos pecadores e todas as minhas necessidades espirituais e temporais bem como as dos meus parentes, amigos e benfeitores”.

Depois da Meditação.

Depois da meditação devemos:
1º. Conforme o conselho de São Francisco de Sales, fazer um ramalhete de flores a fim de cheirá-lo durante o dia, quer dizer, imprimir bem na memória um ou dois pensamentos que mais impressão nos fizeram, para os recordarmos e nos revigorarmos durante o dia.

2º. Por logo em prática as resoluções tomadas, tanto nas ocasiões pequenas como nas grandes, que se apresentarem: por exemplo, suportamos com paciência uma pessoa irada contra nós, mortificarmo-nos na vista, no ouvido, na conversa.

3º. Por meio do silêncio e recolhimento, conservar o mais tempo possível os afetos excitados na oração; sem isso, o fervor concebido na oração esvaecer-se-á logo pela dissipação no proceder ou pelas conversas inúteis. (*IX 840)

----------
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 1-4.)



Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Parte 2 - Meditação 4

MEDITAÇÃO IV.

Ubi venit plenitudo temporis, misit Deus Filium suum.
Quando se completaram os tempos, Deus enviou o seu Filho (Gl 4,4).

Considera como Deus deixou passar quatro mil anos de-pois do pecado de Adão, antes de mandar à terra o seu Filho para resgatar o mundo. Que trevas e que males reinaram en-tretanto sobre a terra! O verdadeiro Deus não era conhecido nem adorado, a não ser num canto do mundo: em toda a parte reinava a idolatria; adoravam-se como deuses os demônios, os animais e as pedras.
Mas admiremos aqui a sabedoria divina: difere a vinda do Redentor para torná-la mais apreciada dos homens; difere-a para melhor se conhecer a malícia do pecado, a necessidade do remédio e a graça do Salvador. Se Jesus Cristo tivesse vindo logo após o pecado de Adão, não se teria podido apreciar a grandeza desse benefício. Agradeçamos, pois, a bondade de Deus para conosco. Agradeçamos, pois, a bondade de Deus para conosco, fazendo-nos nascer depois de cumprida a grande obra da redenção.
Eis que é chegada essa época feliz chamada a plenitude dos tempos: Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho para resgatar os que estavam sob o jugo da lei. Essa expressão marca a plenitude da graça que o Filho de Deus veio comunicar aos homens pela redenção. O anjo é en-viado como embaixador na cidade de Nazaré à Virgem Maria para lhe anunciar a vinda do Verbo, que quer encarnar-se em seu seio. O anjo a saúda chamando-a Cheia de graça e Bendi-ta entre as mulheres. Ouvindo esses louvores a humilde Virgem, escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, perturba-se em sua profunda humildade; mas o anjo a anima e diz-lhe ter ela achado graça junto de Deus, isto é, aquela graça da qual resultaria a paz entre Deus e os homens, e a reparação das ruínas devidas ao pecado. Revela-lhe depois o nome de Jesus ou Salvador, que deve dar a seu Filho, e acrescenta que esse Filho é o próprio Filho de Deus, que deve resgatar o mundo e assim reinar sobre os corações dos homens. Enfim Maria consente em ser a Mãe de tão nobre filho: Faça-se em mim segundo a vossa palavra; e ao mesmo instante o Verbo eterno se faz carne e torna-se homem: E o Verbo se fez carne!
Rendamos graças a esse Filho e também a essa Mãe que, consentindo em ser a Mãe de tal Filho, consente em ser a Mãe de nossa salvação e por isso mesmo uma Mãe de dores: desde então ela se resigna a ser mergulhada num abismo de dores, que lhe devia custar a sua qualidade de Mãe dum Filho vindo ao mundo para sofrer e morrer pelos homens.
Afetos e Súplicas.
Ó Verbo divino feito homem por mim, embora vos veja tão humilhado e feito criança no seio de Maria, confesso-vos e re-conheço-vos por meu Senhor e Rei, mas Rei de amor. Meu caro Salvador, já que viestes a este mundo revestir-vos da nossa miserável carne para reinar sobre os nossos corações, ah! vinde estabelecer o vosso reino também no meu coração sujeito outrora ao domínio dos vossos inimigos, mas que agora é vosso, como espero; quero que seja ele sempre vosso e que vós sejais de hoje em diante o seu único Senhor: Reinai no meio de vossos inimigos. Os outros reis reinam pela força das armas; vós ao contrários vindes reinar pela força do amor, por isso não vindes com pompas reais, não vindes revestido de púrpura e ouro, ornado de cetro e coroa nem rodeado de exércitos de soldados. Nasceis num estábulo, pobre, abandonado e sereis colocado num presépio sobre um pouco de palha, por-que assim quereis começar a reinar sobre os corações. Ah! meu Rei Infante, como pude revoltar-me tantas vezes contra vós, e viver tanto tempo na vossa inimizade, na privação da vossa graça, quando vós para obrigar-me a amar-vos depusestes a vossa majestade divina e vos humilhastes tanto que tomastes a forma duma criança numa gruta, depois a dum operá-rio numa oficina, e, enfim, a dum condenado na cruz? Oh! feliz de mim se agora que saí, como espero, da escravidão de Lúcifer, me deixar dominar sempre por vós e por vosso amor! Ó Jesus, meu Rei, que sois tão amável e que amais tanto as al-mas, tomai posse de toda a minha alma, eu vo-la dou sem re-serva. Aceitai que ela vos sirva sempre e que vos sirva por a-mor: a vossa majestade merece ser temida, mas a vossa bondade merece ainda mais ser amada. Ó meu Rei, vós sois e sereis para sempre o meu único amor; e o único temor que terei será o de desgostar-vos. Assim o espero. Ajudai-me com a vossa graça.
Minha amada Soberana, Maria, vós haveis de obter-me a graça de ser fiel a esse Rei querido de minha alma.

Pensamentos escolhidos de Cura d'Ars.

XXXI - Avisos e máximas sobre diversos assuntos.

14/20 - As indulgências .
             Cumpre ainda agradecer a Deus todas essas indulgências que nos purificam dos nossos pecados. Mas não se presta atenção a elas. Anda-se sobre as indulgências, poder-se-ia dizer, como depois da ceifa anda-se sobre os feixes de trigo. O bom Deus multiplica-nos as suas graças; por isto, como ficaremos incomodados, no fim da vida, por não as havermos aproveitado!