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3 de novembro de 2019

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 4/4

Arrancar constantemente aos pensamentos da terra, pela vigilância, pela renúncia e pela mortificação, este coração onerado com todo o peso da natureza corrompida, gravi corde; reformar o próprio caráter especialmente nos pontos em que ele menos se assemelha à fisionomia da alma de Nosso Senhor, dissipação, arrebatamento, complacência em si mesmo ou fora de si, manifestações de orgulho ou de naturalismo, dureza, egoísmo, falta de bondade, etc; resistir ao engôdo do prazer presente e sensível com a esperança de uma felicidade espiritual, que somente se desfrutará após longa expectativa; desapegar-se de tudo quanto é suscetível de lhe fazer amar o mundo; fazer do conjunto das criaturas, desejos, cobiças, concupiscências, bens exteriores, vontade e juízo próprios, um holocausto sem reserva . . . , que tarefa!
E, todavia, isto tudo é ainda tão somente a parte negativa da vida interior. Depois deste peito a peito que fazia gemer São Paulo e que o Pe. de Ravignan exprimia por estas palavras: "Perguntais-me o que fiz durante o noviciado? Eramos dois, atirei um pela janela fora e fiquei sozinho", depois deste combate sem tréguas contra um inimigo sempre prestes a renascer, é necessário proteger contra os mínimos regressos do espirito natural um coração que, purificado pela penitência, arde agora em desejos de reparar os ultrajes feitos a Deus, desenvolver toda a energia para o conservar sempre apegado as belezas invisíveis das virtudes a adquirir para imitar as de Jesus Cristo, esforçar-se por conservar até nas particularidades mínimas da existência a confiança absoluta na Providência: é este o lado positivo da vida interior. Quem não adivinha o campo ilimitado de trabalho que aqui se patenteia!
Trabalho íntimo, assíduo, constante. E, no entanto, precisamente por meio deste trabalho é que a alma adquire maravilhosa facilidade e surpreendente rapidez de execução para os trabalhos apostólicos. Só a vida interior possui este segredo.
As obras imensas levadas a cabo, apesar de uma saúde precária, por um Agostinho, um João Crisóstomo, um Bernardo, um Tomás de Aquino, um Vicente de Paulo causam-nos assombro. Este assombro sobe, porém, de ponto ao vermos esses homens, a despeito dos seus trabalhos quase incessantes, manterem-se na mais constante união com Deus. Mais do que outros quaisquer, apagando a sede na fonte da vida pela contemplação, esses santos iam nela haurir amplíssima capacidade de trabalho.
É isto que expressava um dos grandes bispos, sobrecarregado de afazeres, quando disse a um estadista, como ele também muito atarefado de negócios, que lhe perguntara o segredo da sua serenidade constante e dos resultados admiráveis das suas obras: " A todas as suas ocupações, meu caro amigo, ajunte ainda meia hora de meditações todas as manhãs. Desta sorte não só despachará todos os seus negócios, como há de encontrar ainda tempo para realizar outros".
Enfim, não vemos o Santo Rei Luíz IX encontrar, nas oito ou nove horas que habitualmente consagrava aos exercícios da vida interior, o segredo e a força de se dedicar aos negócios do estado e ao bem dos seus súditos com tanta solicitude que, na confissão de um orador socialista, jamais, em nossa época, se fez tanto a favor das classes operárias como sob o reinado desse príncipe.

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