25 de agosto de 2013

DÉCIMO QUARTO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES.

O que é infalibilidade

O Evangelho de hoje nos faz a mais tocante exposição da Providência de Deus, mostrando-nos com quanta bondade Deus se ocupa da sorte das suas criaturas.

É Ele que dá ao passarinho o alimento de cada dia, como Ele dá aos lírios dos campos o seu perfume e o seu esplendor. É Ele que veste a erva dos campos, como Ele veste os panoramas da terra e do firmamento.

Com quanto mais cuidado, ajunta o divino Mestre, Deus se ocupa de cada um de seus filhos.

Os homens precisam, além do vestimento e do alimento do corpo, do alimento do espírito: e este alimento é a verdade.

Ora, esta verdade certa, luminosa, nunca vacilante, que deve iluminar nosso espírito e orientá-lo para o bem, nos é dada pela voz infalível do Papa.

Eis porque vamos meditar hoje em que consiste a infalibilidade, considerando:

1º. O lado material, ou quase infalibilidade.
2º. O lado espiritual ou infalibilidade perfeita.

Iremos, deste modo, do conhecido ao desconhecido, do fato experimental ao fato divino, que nos fará compreender em que consiste o dogma da infalibilidade muitas vezes mal entendido.

I. O lado material

Nós precisamos da verdade: e esta verdade é a doutrina de Jesus Cristo.

Mas como distingui-la entre tantos erros que hoje correm mundo e penetram em todos os recantos da terra e dos espíritos?

Pela voz de alguém que nos ensina a verdade, sem receio de errar, sem possibilidade de desviar-se do caminho reto.

E este alguém, este homem privilegiado é aquele a quem o Cristo disse:

Eis que estou convosco até o fim dos séculos. (Math. XXVIII. 20)

Eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça. (Luc. XXII. 32)

Quem vos escuta, escuta a mim. (Luc. X. 16)

Eis o que chamamos a verdade certa, reta, completa, sem receio de erro, e que tem o nome de infalibilidade.

Aqueles que se revoltam contra este dogma sagrado, absolutamente necessário para dar-nos a certeza da veracidade da nossa fé, mostram que nem sequer compreendem o que é a infalibilidade... confundem-na com a inspiração ou com a impecabilidade, e não acreditando nem em uma nem na outra destas duas graças, não acreditam na infalibilidade.

Em que consiste, pois, a tal infalibilidade?

Consiste no privilégio outorgado por Jesus Cristo a Pedro e a seus sucessores de gozarem da assistência divina, para conservarem e explicarem a doutrina divina, de modo a não poderem errar, quando ensinam publicamente, em nome da Igreja, com a autoridade suprema de chefe da Igreja.

Que coisa mais simples pode haver?

Chamo um professor para ensinar-me uma ciência...

Tenho as minhas dúvidas.

Sou homem como ele, e o que ele compreende, eu posso compreendê-lo também... mas não o compreendendo, porque sou talvez de inteligência inferior, vivo na dúvida.

Ora, a dúvida é um tormento!

Para sair deste tormento, procuro um outro professor mais claro ou mais profundo em sua exposição... um terceiro se necessário for, até encontrar quem me explique o que quero saber.

Continuo a duvidar ... consulto mais, até inclinar-me diante de um homem de conhecida capacidade... diante dele inclino a fronte porque sinto que este não que enganar-me e tem o preparo necessário para ele mesmo não ser enganado.

Praticamente atribuo a este homem o dom de uma quase infalibilidade.

O mundo faz isso diariamente.

Um homem vai visitar New York, Ottawa, Bogotá, Quito, e depois conta-me as maravilhas de tudo o que viu e admirou; creio sem hesitar, embora nunca tenha visto uma destas cidades.

Dou a este viajante o dom da quase infalibilidade. Eu não vi, mas ele viu, e creio.

Pobres incrédulos! Não querem aceitar a infalibilidade do Papa, por ser Papa, e aceitam a infalibilidade de qualquer viajante, andarilho, professor ou escritor.

Estes merecem fé; só o Papa não o merece porque é Papa?

Mas isto é insensato!

Então o Papa, homem escolhido entre milhares, homem de idade, de virtude, de ciência, de experiência e de sinceridade, desde que senta-se na cadeira suprema de S. Pedro, não teria mais um privilégio que os homens concedem a qualquer outro, desde que nele notam sinceridade e capacidade?

Isto é apenas o lado exterior, material, da infalibilidade. Vejamos agora o seu lado interior, espiritual, e veremos maiores e mais altas necessidades da infalibilidade completa.

II. O lado espiritual

As dúvidas a respeito das ciências humanas não são as únicas a penetrarem em nosso espírito; há também as dúvidas religiosas, que procuram às vezes perturbar a nossa alma.

A dúvida é uma fraqueza... nós somos fraquíssimos. Eis porque nós precisamos de alguém que diga clara e categoricamente: A verdade certa é esta: crê!

O grande escritor francês conde de Maistre, disse alhures que a infalibilidade não é outra coisa senão a soberania e ajuntava que reclamando para a Igreja a infalibilidade, não reclamava nenhum privilégio, senão o de que gozavam todos os soberanos, pois todos agem necessariamente como infalíveis.

É uma grande verdade!

Não haveria soberania, nem tribunal supremo, nem juiz em última apelação, cujas sentenças seriam capazes de deter os espíritos perturbados e resistir a paz à sociedade, se não gozassem de uma espécie de infalibilidade.

Em toda jurisdição é preciso chegar-se a um juiz que julgue e não possa ser julgado por ninguém.

Ali o espírito para, inclina-se, sujeitando-se pelo menos exteriormente.

É somente uma quase infalibilidade, porque exige apenas a submissão exterior, porém já tem feição de verdadeira infalibilidade.

Se a lei pudesse exigir dos súditos a obediência interior e a submissão do espírito, seria uma infalibilidade completa.

É o caso da Igreja.

A Igreja não se contenta com a obediência exterior; ela quer uma adesão completa.

A fé não se corta pela metade: É preciso crer tudo, ou rejeitar tudo.

A razão desta intransigência é que na fé se trata da palavra de Deus e esta palavra é necessariamente infalível.

Ora, uma palavra infalível em si mesma, para conservar a sua integridade, deve necessariamente passar por um canal transmissor igualmente infalível: e este canal é a voz do Pontífice de Roma.

Como poderíamos nós dizer: creio firmemente, se houvesse qualquer possibilidade de errar?

Deus devia dar à Igreja a infalibilidade, para que a nossa fé fosse isenta de dúvida.

A fé e a dúvida não podem dar as mãos.

A fé, mesmo divina, é sempre racional.

Deus é o autor da verdade, como Ele é o criador da nossa razão.

A fé, sem a razão, não se adaptaria ao nosso espírito.

A razão, sem a fé, está exposta a todos os erros.

Por isso não basta ter, possuir a palavra infalível de Deus; é necessário possuir também um espírito humano infalível que nos transmita esta palavra de Deus; deste modo a fé divina e a razão humana encontram-se num amplexo único, perfeito, que satisfaz a Deus e satisfaz ao homem.

A fé é a adesão às verdades reveladas por Deus, por causa da autoridade d’Aquele que revela.

Mas como ter a certeza de bem compreender o que Deus revela?

Aqui intervém a infalibilidade da Igreja:

Ela nos interpreta a verdade revelada e nos dá a certeza absoluta pela assistência divina, de ser tal o sentido e a extensão da verdade revelada.

A infalibilidade é, pois, o complemento necessário da revelação divina.

III. Conclusão

Eis como a infalibilidade da Igreja se impõe inexoravelmente ao espírito de quem sabe refletir.

Na sua parte material, tal infalibilidade é atribuída à magistratura, aos governos, até aos Professores.

Em sua parte espiritual, ela é uma necessidade para a religião e para o nosso espírito.

Sentimos instintivamente que uma religião divina deve descer do Sinai, com a fronte luminosa, tendo nas mãos as tábuas da lei; ou então sair do Cenáculo tendo sobre a cabeça línguas de fogo e sobre os lábios palavras de convite para a humanidade, dizendo-lhe:

Tu precisas de verdade: Ei-la aqui!
Tu precisas de amor: Ei-lo aqui!
Tu precisas ir a Deus: dá-me a mão eu te conduzirei a Ele.

Mas como isso se poderia dar se a religião pudesse enganar-se? Se ela pudesse dar-me erro em vez da verdade? Se ela pudesse dar-me um amor falso, em vez de amor de Deus? Se ela pudesse lançar-me no abismo, em vez de conduzir-me a Deus?

Para ter a certeza de seguir o caminho reto – e Deus não pode permitir a dúvida em assunto tão grave - é preciso que a Igreja seja infalível.

Infalível porque vem de Deus!

Infalível, porque deve conduzir-nos a Deus. São verdades que não se discutem... impõem-se pelo bom senso.

EXEMPLO

Napoleão I e o Papa Pio VII

Achando-se na ilha de Santa Helena, o imperador francês Napoleão recordava freqüentemente a cena de Fontainebleau, em que ele se mostrará tão arrogante para com o Sumo Pontífice. Um dia disse ao Conde Rathel, um de seus companheiros no exílio:

- José, não te achavas em Fontaineblau quando Pio VII predisse o meu futuro?
- Sim, Majestade.
- Tens presente aquela entrevista?
- Sim, jamais esquecerei o que então ouvi.
- Então, estás ainda lembrado das palavras do Papa?
- Perfeitamente, majestade. O Santo Padre disse: “O Deus de outrora vive ainda; esse Deus tem sempre punido os perseguidores da Igreja”, e começou a hesitar.
- O que, José? Insistiu Napoleão, quando notou a hesitação do Conde.
- Disse que esse Deus destruiria a vossa majestade, se continuasse a oprimir a Igreja.
- Foi isso mesmo. De fato, meu caro amigo, o Deus de outrora vive ainda e castiga os opressores de seu representante na terra. Ó! Sinto não poder gritar a todos os que receberam algum poder na terra: Respeitai ao Vigário de Jesus Cristo! Não ataqueis o Papa, porque sereis aniquilados pela mão justiceira de Deus, que protege a Cátedra de São Pedro.

Napoleão reconheceu o castigo merecido... Jesus Cristo castiga os opressores de seu Vigário na terra, toma a defesa de seu representante... Com quanto maior desvelo Jesus Cristo devia assistir ao Papa, para que não errasse, ensinando aos cristãos a verdade divina!

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 339 - 346)

Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent - 5

O Livro da Confiança

Pe. Thomas de Saint Laurent


Capítulo I - Confiança!

 

V - Fim e divisão deste trabalho

Este trabalho não tem outro fim senão o de vos iniciar no conhecimento e na prática dessa virtude, Dela, aqui, se exporá, muito simplesmente, a natureza, o objeto, os fundamentos e os efeitos.

Leitor piedoso, se alguma vez este modesto livrinho te cair nas mãos, não o ponhas de parte com desdém. Não pretende ele nem encanto literário nem originalidade. Contém, apenas, verdades consoladoras que colhi nos livros inspirados e nos escritos dos Santos. É esse o seu único mérito.
 
Tenta lê-lo devagar, com atenção, em espírito de oração. Quase diria: medita-o! Deixa-te penetrar docemente pela sua doutrina. A seiva do Evangelho palpita nestas páginas; haverá para as almas melhor alimento do que as palavras do Salvador?
 
Que, ao acabar esta leitura, te possas confiar totalmente ao Mestre adorável que tudo nos deu: os seus tesouros, o seu amor, a sua vida, até à última gota do seu Sangue!...

24 de agosto de 2013

Imitação de Cristo - Livro 2 Capítulo 9

CAPÍTULO 9

Da privação de toda consolação

1. Não é dificultoso desprezar as consolações humanas, quando gozamos das divinas. Grande coisa, porém, e mui meritória, é poder estar sem consolação, tanto divina como humana, sofrendo de boa mente o desamparo do coração, sem em nada buscar-se a si mesmo, nem atender ao seu próprio merecimento. Que maravilha será estares alegre e devoto, quando te assiste a graça! De todos é almejada esta hora. E mui suave andar, levado pela graça de Deus. E que maravilha não sentir a carga aquele que é sustentado pelo Onipotente e acompanhado do guia supremo!
2. Gostamos de ter qualquer consolação, e é penoso ao homem despojar-se de si mesmo. O glorioso mártir São Lourenço venceu o mundo em união com seu pai espiritual, porque desprezou todos os atrativos do século e sofreu com paciência, por amor de Cristo, que o separassem do Supremo Pontífice São Xisto a quem ele muito amava! Assim, com a amor de Deus, ele subjugou o amor da criatura, e ao alívio humano preferiu o beneplácito divino. Daí aprende tu a deixar, às vezes, por amor de Deus, um parente ou amigo querido. Nem tanto te aflijas se te abandonar algum amigo, sabendo que todos, finalmente, nos havemos de separar uns dos outros.
3. Só com renhido e longo combate interior aprende o homem a dominar-se plenamente e pôr em Deus todo o seu afeto. Quando o homem confia em si, facilmente desliza nas consolações humanas. Mas o verdadeiro amigo de Cristo e fervoroso imitador de suas virtudes não se inclina às consolações nem busca tais doçuras sensíveis; antes, procura exercícios austeros e sofre por Cristo trabalhos penosos.
4. Quando, pois, Deus te mandar consolação espiritual, recebe-a com ações de graças, mas lembra-te sempre que é mercê de Deus, e não merecimento teu. Com isto, porém, não te desvaneças, nem te entregues a excessiva alegria ou a vã presunção; sê antes mais humilde pelo dom recebido, mais prudente e timorato em tuas ações, pois passará aquela hora e voltará a tentação. Quando te for tirada a consolação, não desesperes logo, aguarda, pelo contrário, com humildade e paciência, a visita celestial; pois Deus é bastante poderoso para restituir-te maior graça e consolação. Isto não é novo nem estranho aos que são experientes nos caminhos de Deus; porque nos grandes santos e antigos profetas houve muitas vezes esta mudança.
5. Por isso um deles, sentindo a presença da graça, exclamava: Eu disse em minha abundância: não serei abalado jamais (Sl 29,7). Sentindo, porém, retirar-se a graça, acrescenta: Desviastes de mim, Senhor, o vosso rosto, e fiquei perturbado (v.8). Entretanto não desespera, mas com mais instância roga ao Senhor, e diz: A vós, Senhor, clamarei, e ao meu Deus rogarei (v.9). Alcança, afinal, o fruto de sua oração e atesta ter sido atendido, dizendo: Ouviu-me o Senhor, e compadeceu-se de mim, o Senhor se fez meu protetor (v.11). Mas em quê? Convertestes, diz ele, meu pranto em gozo, e me cercastes de alegria (v.12). Se isto sucedeu aos grandes santos, não devemos desesperar nós outros, fracos e pobres, por nos sentirmos umas vezes com fervor, outras vezes com frieza porque vai e vem o espírito de Deus, segundo lhe apraz. Por isso diz o santo Jó: Senhor, visitais o homem na madrugada, e logo o provais (7,18).
6. Em que posso, pois, esperar ou em que devo confiar, senão na grande misericórdia de Deus e na esperança da graça celestial? Porque, ou me assistem homens justos, irmãos devotos e amigos fiéis, ou livros santos e formosos tratados, ou cânticos e hinos suaves, tudo isso de pouco me serve e pouco me agrada, quando estou desamparado da graça e entregue à minha própria pobreza. Não há então melhor remédio que Deus.
7. Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o arrefecimento do fervor. Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse tentado. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação. Costuma vir primeiro a tentação, como sinal precursor da próxima consolação; porque aos provados pela tentação é prometido o celeste consolo. A quem tiver vencido, diz o Senhor, darei a comer o fruto da árvore da vida (Apc 2,7).
8. Dá Deus a consolação, para fortalecer o homem contra as adversidades. Segue-se então a tentação, para que não se desvaneça a felicidade. O demônio não dorme, nem a carne já está morta; por isso, não cesses nunca de aparelhar-te para a peleja, porque à direita e à esquerda estão teus inimigos que nunca descansam.

Maria Santíssima alcança a perseverança para seus devotos.

Qui operantur in me non peccabunt — “Os que trabalham por mim não pecarão” (Ecclus. 24, 30)

Sumário. Se é verdade que todas as graças passam pelas mãos de Maria, também será certo que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a graça suprema da perseverança final. Se nos quisermos salvar, sejamos devotos desta querida Mãe; recorramos a ela em todas as nossas necessidades; e quando os demônios nos vierem tentar, como os pintainhos ao ver no ar o milhafre, vamo-nos meter debaixo do seu manto. Mas ai de nós, se resfriarmos nesta devoção! Porquanto, assim como é impossível que se condene um verdadeiro devoto da Virgem, assim é igualmente impossível que se salve o que não for protegido por ela.

I. A perseverança é um dom todo gratuito de Deus, que nós não podemos merecer. Todavia, como ensinam Santo Agostinho e outros, podemos obtê-la pela oração, e pela oração quotidiana, porque ela não é dada toda de uma vez, mas dia a dia. Ora, se é verdade que todas as graças que Deus nos concede passam pelas mãos de Maria, segundo a palavra de São Bernardo: Totum nos habere voluit per Mariam — “Deus quis que tivéssemos tudo por meio de Maria”; também será certo que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a graça suprema da perseverança.

Certamente a conseguiremos, se com confiança a pedirmos sempre a Maria, mas especialmente no tempo das tentações. Ela mesma, como lhe faz dizer a santa Igreja, promete-a a todos os que fielmente a servem: Os que obram por mim, não pecarão. E em outro lugar: Mea est fortitudo, per me reges regnant (1) — “Minha é a fortaleza, por mim reinam os reis”. Minha é a fortaleza, diz Maria; Deus depositou na minha mão este dom, tão indispensável para vencer os inimigos espirituais, para que eu o conceda aos meus devotos. É por minha mediação que os meus servos reinam e dominam sobre todos os seus sentidos e paixões, e assim se fazem dignos de reinarem eternamente no céu.

Ao contrário, pobres das almas que deixam de ser devotas de Maria e de se recomendar a ela em todas as ocasiões. Diz Santo Anselmo, que assim como aquele que se recomenda a Maria e por ela é olhado com amor, não se pode perder, tampouco é possível que se salve o que não é devoto de Maria e por ela protegido. — São Francisco de Borja perguntou certa vez a uns noviços, de que Santo eram mais devotos, e achando que alguns não tinham devoção especial a Maria, avisou ao Mestre dos noviços que olhasse com mais atenção para aqueles desgraçados; e sucedeu que todos perderam miseravelmente a vocação, e quiçá com esta também a alma.

II. É com razão que São Filipe Neri dizia sempre a seus confessados: “Meus filhos, se desejais a perseverança, sede devotos da Virgem Maria”. Quem dera todos os homens amassem esta begníssima e amantíssima Senhora e a ela recorressem sempre e imediatamente no momento da tentação! Quem jamais havia de cair? Cai e perde-se quem não recorre a Maria.

Assim como os pintainhos, vendo no ar o milhafre, correm logo a recolher-se debaixo das asas da mãe; também nós, diz Santo Tomás de Villanova, quando os demônios nos vierem tentar, devemos logo, sem discorrer sobre as tentações, meter-nos debaixo do manto de Maria e dizer com confiança: Sub tuum praesidium confugimus — “Refugiamo-nos sob a vossa proteção”.

Ó Deus Eterno, graças Vos dou porque me esperastes quando estava em pecado, me perdoastes tantas vezes e me preservastes de tantas faltas, nas quais teria caído sem o socorro da vossa graça e a proteção da minha Mãe, Maria. Ai! Meus inimigos não cessarão de me tentar até à morte; se não me sustentais, Vos ofenderei ainda mais do que d’antes. — Pelo amor de Jesus Cristo e da Virgem Maria, dai-me a santa perseverança. Peço-Vos, pelos merecimentos do vosso Filho amadíssimo e pela intercessão de Maria, a graça de não me separar mais de Vós. Certo estou, ó meu Deus, de que, se contínuo a pedir-Vos a perseverança e a recomendar-me à Rainha do céu, obtê-la-ei, pois prometestes ouvir àquele que Vô-la pede. A graça, pois, que Vos peço, em nome de Jesus e Maria, é não deixar a oração. Fazei que, nas tentações, jamais deixe de recorrer a Vós, invocando os santos nomes de Jesus e Maria. Por este meio, ó meu Deus, tenho a firme esperança de morrer na vossa graça e ir amar-Vos no paraíso, onde viverei seguro de não me separar mais de Vós e de Vos amar por séculos eternos. — Ó Maria, Mãe da perseverança, rogai por mim.

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1. Prov. 8, 15.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 56-58.)

Tesouro de Exemplos - Parte 372

A MÃO COM QUE JURARA

Rodolfo da Suécia jurara fidelidade ao imperador Henrique IV. Rebelou-se violando seu juramento, e na batalha de Mersebuigo sofreu a amputação da mão direita por parte de Godofredo de Bouillon. Rodolfo, agonizando, contemplava a mão truncada e exclamou: "E' a mão com que eu tinha jurado fidelidade
a meu imperador!"

Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent - 4

O Livro da Confiança

Pe. Thomas de Saint Laurent


Capítulo I - Confiança!

 

IV - Esta desconfiança de Deus é muito prejudicial

A desconfiança, sejam quais forem as suas causas, traz-nos prejuízo, privando-nos de grandes bens.
 
Quando São Pedro saltou da sua barca e se lançou ao encontro do Salvador, caminhava com segurança sobre as ondas... O vento soprava com violência. As vagas ora levantavam-se em turbilhões furiosos ora cavavam no mar abismos profundos. A voragem abria-se diante do Apóstolo. Pedro tremeu; hesitou um segundo e, logo, começou a afundar-se. “Homem de pouca fé, disse-lhe Jesus, porque duvidaste?” (12).

Eis a nossa história. Nos momentos de fervor, ficamos tranqüilos e recolhidos ao pé do Mestre. Vindo a tempestade, o perigo absorve a nossa atenção. Desviamos então os olhares de Nosso Senhor para fitá-los ansiosamente sobre os nossos sofrimentos e perigos. Hesitamos... e afundamo-nos logo! Assalta-nos a tentação. O dever se nos torna enfadonho, a sua austeridade nos repugna, o seu peso oprime-nos. Imaginações perturbadoras perseguem-nos. A tormenta ruge na inteligência, na sensibilidade, na carne...
 
E perdemos pé; caímos no pecado, caímos no desânimo, mais pernicioso que a própria falta. Almas sem confiança, porque duvidamos?
 
A provação assalta-nos de mil maneiras. Ora os negócios temporais periclitam, o futuro material nos inquieta. Ora a maldade ataca-nos a reputação. A morte quebra os laços de afeições das mais legítimas e carinhosas... Esquecemos, então, o cuidado maternal que tem por nós a Providência. Murmuramos, revoltamo-nos, aumentamos assim as dificuldades e o travo doloroso do nosso infortúnio.
 
Almas sem confiança, porque duvidamos?
 
Se nos tivéssemos apegado ao Bom Mestre com uma confiança tanto maior quanto mais desesperada parecesse a situação, nenhum mal desta nos adviria. Teríamos caminhado calmamente sobre as ondas; teríamos chegado sem tropeços ao golfo tranqüilo e seguro, e, em breve, teríamos achado a plaga hospitaleira que a luz do Céu ilumina.
 
Os Santos lutaram com as mesmas dificuldades; muitos deles cometeram as mesmas faltas. Mas, pelo menos, não duvidaram. Ergueram-se sem tardança, mais humildes após a queda, só contando, desde então, com os socorros do Alto. Conservavam no coração a certeza absoluta de que, apoiados em Deus, tudo poderiam. Não foram iludidos nessa confiança! (13).

Tornai-vos, pois, almas confiantes. Nosso Senhor a isso vos convida; o vosso interesse assim o exige. Sereis almas luminosas, almas de paz.

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 12 ) “Homem de pouca fé, porque duvidaste?” (Mt. 14, 31).
 13 ) “A esperança não nos deixa confundidos” (Romanos, 5, 5).

23 de agosto de 2013

Imitação de Cristo - Livro 2 Capítulo 8

CAPÍTULO 8

Da familiar amizade com Jesus

1. Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo 11,28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o mundo inteiro?
2. Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se perdesse a todo o mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.
3. Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.
4. Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.

Tesouro de Exemplos - Parte 371

ENORME PERDA

Nero, antes de ser imperador, numa noite de jôgo perdeu um milhão de sestércios. Sua mãe mandou pôr sôbre uma mesa uma quantia igual em moedas e disse-lhe: "Vê o que perdeste, o que te custou uma só noite de jôgo!" Ao ver aquilo, Nero concebeu grande horror àquela espécie de jôgo.