4 de setembro de 2013

Imitação de Cristo - Livro 3 Capítulo 8

CAPÍTULO 8

Da vil estima de si próprio ante os olhos de Deus

1. A alma: Ao meu Senhor falarei, ainda que seja pó e cinza (Gn 18,27). Se eu me tiver em maior conta, eis que vos ergueis contra mim, e ao testemunho verdadeiro que dão meus pecados, não posso contradizer. Mas se me tiver por vil e me aniquilar, deixando toda a vã estima de mim mesmo, e me reduzir a pó, que sou na verdade, ser-me-à propícia a vossa graça, e a vossa luz há de vir em meu coração, e todo sentimento de amor-próprio, por mínimo que seja, perder-se-á no abismo do meu nada e perecerá para sempre. Ali me dais a conhecer o que sou, o que fui, a que ponto cheguei; porque sou nada - e não o sabia. Abandonado a mim mesmo, sou um puro nada e a mesma fraqueza; tanto, porém, que lançais um olhar sobre mim, logo me sinto forte e cheio de nova alegria. E é grande maravilha que tão sabiamente me levantais e tão benigno me abraçais, a mim, que pelo próprio peso pendo sempre para a terra.
2. Isto é obra do vosso amor, que me previne gratuitamente, socorrendo-me em mil necessidades, guardando-me de males, para bem dizer, infindos. Perdi-me, amando-me desordenadamente; mas, buscando a vós unicamente, e amando com puro amor, a mim me achei e a vós também, e este amor me fez ainda mais aprofundar-me em meu nada. Porque vós, ó dulcíssimo Senhor, me tratais além do meu merecimento, e mais do que ouso esperar ou pedir.
3. Bendito sejais, meu Deus, pois conquanto eu seja indigno de todo bem, ainda assim não cessa vossa liberalidade e bondade infinita de fazer bem até aos ingratos e aos que de vós andam apartados. Convertei-nos a vós, para que sejamos gratos, humildes e devotos, pois vós sois nossa salvação, nossa virtude e fortaleza.

Tesouro de Exemplos - Parte 383

PENSAVA NA MORTE

S. Adelaide, viúva de Lotário, rei da Itália, e depois do imperador Otão, o Grande, passou seus últimos anos de vida no mosteiro de sely. Três dias antes de falecer terminou a confecção de sua veste mortuária e disse ao seu confessor: "Eu a fiz tôda com as minhas mãos, cada dia um pouco. Convinha que eu aparecesse em público com tôda a magnificência imperial, com um longo manto de sêda cintilante de ouro e prata; mas, regressando aos meus aposentos, trabalhava nesta veste para lembrar-me do meu fim último e não me deixar cegar pelo mundo. Vendo-a, tocando-a, dizia: "Adelaide, pensa no caixão, na sepultura, nos vermes do cemitério!"
Pensa, também tu, meu irmão, na morte! pensa que os prazeres terminarão depressa, ao passo que as penas do inferno não terão fim.

Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent - 15

O Livro da Confiança

Pe. Thomas de Saint Laurent


Capítulo III - A Confiança em Deus e as necessidades temporais

V - Rezar pelas nossas necessidades temporais

A confiança, como acabamos de descrevê-la, não nos desobriga da prece. Nas necessidades temporais, não basta esperar os socorros de Deus; faz-se mister ainda pedir-Lhos.

Jesus Cristo deixou-nos no Pai-Nosso o modelo perfeito de oração; ora, aí Ele faz-nos pedir o “pão de cada dia”: “Panem nostrum quotidianum da nobis hodie”.
 
Não descuidamos com freqüência deste grande dever? Que imprudência e que loucura!.. Privamo-nos assim, por leviandade, da proteção celeste, a única soberanamente eficaz. Os capuchinhos, diz a tradição, nunca morrem de fome, porque recitam sempre piedosamente o Pai-Nosso. Imitemo-los, e o Altíssimo não nos deixará à míngua do necessário.
 
Peçamos, pois, o pão quotidiano. É uma obrigação a nós imposta pela fé e pela caridade para com nós mesmos.
 
Poderemos, porém, elevar as nossas pretensões e pedir também a riqueza? Nada a isso se opõe, contanto que essa prece se inspire em motivos sobrenaturais e fiquemos bem submissos à vontade de Deus. O Senhor não proíbe a expressão dos nossos desejos; pelo contrário, quer que procedamos filialmente para com Ele. Não esperemos, no entanto, que Ele se curve às nossas fantasias; a sua própria bondade a isso se opõe. Deus sabe o que nos convém. Só nos concederá os bens da terra se eles puderem servir à nossa santificação.
 
Entreguemo-nos completamente à direção da Providência, e digamos a prece do Sábio: “Não me dês nem a pobreza, nem as riquezas; dá-me somente o que for necessário para viver; para que não suceda que, eu te renegue e diga: Quem é o Senhor? Ou que, constrangido pela pobreza me veja forçado a roubar, ou a blasfemar contra o nome do meu Deus” (40).

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40 ) Provérbios, 30, 8-9.

3 de setembro de 2013

Deus é misericordioso, mas também justo.

Misericordia enim et ira ab illo cito proximant, et in peccatores respicit ira illius — “A sua misericórdia e a usa ira chegam rapidamente, e em sua ira olha para os pecadores” (Ecclus. 5, 7).

Sumário. De dois modos o demônio engana os homens e arrasta muitos consigo ao inferno. Depois do pecado arrasta-os ao desespero, por meio da justiça divina; e antes do pecado excita-os a cometê-lo pela esperança da divina misericórdia. Se quisermos desfazer a arte do inimigo, façamos o contrário: depois do pecado, confiemos na misericórdia divina, mas, antes do pecado, temamos a sua justiça inexorável. Como poderia confiar na misericórdia de Deus quem abusa da mesma misericórdia para o ofender?

I. Diz Santo Agostinho que o demônio engana os homens de dois modos: pelo desespero e pela esperança. Quando o pecador caiu, arrasta-o ao desespero, representando-lhe o rigor da divina justiça; mas antes do pecado, excita-o a cometê-lo pela confiança na divina misericórdia. — Com efeito, será difícil encontrar um pecador tão desesperado que se queira condenar por si próprio. Os pecadores querem pecar, mas sem perderem a esperança de se salvar. Pecam e dizem: Deus é misericordioso; cometerei este pecado e depois irei confessar-me dele. Mas, ó Deus! É assim que falaram tantos que agora estão condenados!

Avisa-nos o Senhor: “Não digas: são grandes as misericórdias de Deus; por muitos pecados que eu cometa, obterei o perdão por um só ato de contrição” (1). Não digas assim, avisa-nos Deus; e por quê? Porque a sua misericórdia e a sua justiça vão sempre juntas; e a sua indignação se inflama contra os pecadores impenitentes, que amontoam pecados sobre pecados e abusam da misericórdia para mais pecares: A sua misericórdia e a sua ira chegam rapidamente, e a sua indignação vira-se contra os pecadores. — A misericórdia de Deus é infinita, mas os atos dessa misericórdia são finitos. Deus é misericordioso, mas também é justo. “Eu sou justo e misericordioso”, disse um dia o Senhor a Santa Brígida; “mas os pecadores julgam-me somente misericordioso”.

Não queiramos, escreve São Basílio, considerar só uma das faces de Deus. E o Bem-aventurado João Ávila acrescenta que tolerar os que abusam da misericórdia de Deus, para mais o ofenderem, não seria mais ato de misericórdia, mas falta de justiça. A misericórdia é prometida ao que teme a Deus, não ao que dela abusa: Et misericordia eius timentibus eum (2). A justiça ameaça os pecadores obstinados; e assim como Deus, observa Santo Agostinho, não falta às suas promessas, tão pouco faltará a suas ameaças.

II. Meu irmão, escuta o belo conselho que te dá Santo Agostinho: Post peccatum spera misericordiam. Depois do pecado, confia na misericórdia de Deus; mas antes do pecado, receia a sua terrível justiça: Ante peccatum pertimesce iustitiam. Sim, porque é indigno da misericórdia de Deus quem dela abusa para o ofender. Aquele que ofende a justiça, diz Afonso Tostato, pode recorrer à misericórdia; mas a quem poderá recorrer o que ofende a própria misericórdia? Seria zombar de Deus querer continuar a ofendê-lo e desejar depois o paraíso. Avisa-nos, porém, São Paulo, que Deus não consente que zombemos dele: Deus non irridetur (3).

Ah, meu Jesus, eu sou um daqueles que Vos ofenderam, porque Vós éreis tão bom. Esperai, Senhor, não me abandoneis ainda, já que pela vossa graça espero nunca mais dar-Vos motivo para que me abandoneis. Pesa-me, ó bondade infinita, de Vos ter ofendido e abusado tanto da vossa paciência. Graças Vos dou por me terdes esperado até agora. No futuro, não mais Vos quero trair como no passado.

Vós me suportastes tanto tempo, afim de me verdes um dia cativo amorosamente da vossa bondade. Esse dia já chegou, como espero. Amo-Vos, ó bondade infinita. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas; estimo a vossa graça mais que todos os reinos do mundo; antes perder mil vezes a vida que perder a vossa afeição. — Meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo, dai-me, com o vosso amor, a santa perseverança até à morte. Não consintais que eu torne a trair-Vos, e deixe jamais de Vos amar. — Ó Maria, sois a minha esperança; obtende-me a perseverança e nada mais vos peço. (*II 76.)

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1. Ecclus. 5, 6.
2. Luc. 1, 50.
3. Gal. 6, 7.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 81-83.)

Imitação de Cristo - Livro 3 Capítulo 7

CAPÍTULO 7

Como se há de ocultar a graça sob a guarda da humildade

1. Jesus: Filho, muito útil e seguro te é encobrir a graça da devoção, sem te desvanceceres ou te preocupares muito com ela; convindo antes desprezar-te a ti mesmo e temer que não sejas digno da graça recebida. Importa não estares muito apegado a tais sentimentos, que bem depressa podem mudar-se nos contrários. Com a graça presente, pondera quão miserável e pobre és sem ela. O progresso na vida espiritual não consiste tanto em teres a graça da consolação, mas em suporta-lhe com humildade, abnegação e paciência a privação, de sorte que então não afrouxes no exercício da oração, nem deixes de todo as demais boas obras que costumas praticar. Antes faze tudo de boa vontade, como melhor puderes e entenderes, nem te descuides totalmente de ti por causa das securas e ansiedades espirituais.
2. Muitos há que se deixam levar pela impaciência e pelo desalento, logo que as coisas não correm como desejam. Pois nem sempre está nas mãos do homem o seu caminho (Jer 10,23), mas a Deus pertence consolar e dar a graça quando quiser, e quanto quiser, a quem quiser, tudo como lhe apraz, nem mais nem menos. Perderam-se alguns imprudentes por causa da graça da devoção, porque quiseram fazer mais do que podiam, não ponderando a fraqueza das suas forças e seguindo mais o impulso do coração que os ditames da razão. E porque presumiram de si coisas bem depressa perderam a graça. Caíram maiores do que Deus havia determinado, na pobreza e no abatimento os que pretendiam pôr seu ninho no céu, para assim, humilhados e empobrecidos, aprenderem a não voar com suas próprias asas, mas a esperar à sombra das minhas. Os novos e principiantes no caminho do Senhor facilmente se podem enganar e perder, se não se aconselharem com homens experientes.
3. Estes, se quiserem antes seguir seu próprio parecer, que confiar no conselho de pessoas experimentadas, põem em grande risco sua salvação, se continuarem aferrados à sua opinião. Os que se têm por sábios raro se deixam dirigir pelosoutros. É melhor saber e entender pouco, humildemente, que possuir tesouros de ciência e presumir de si. Melhor te é ter menos do que muito, se com o muito te vem o orgulho. Não é bastante prudente quem se entrega todo à alegria, esquecido da antiga pobreza e do casto temor de Deus que sempre receia perder a graça concedida. Nem tampouco muita virtude denota entregar-se a nímio desânimo em tempo de adversidade e por qualquer contratempo, sem pôr em mim a confiança devida.
4. Quem se dá por muito seguro no tempo de paz, muitas vezes se revela tímido e covarde em tempo de guerra. Se te souberes conservar sempre humilde e pequeno no teu conceito, e governar com moderação teu espírito, não cairás tão depressa na tentação e no pecado. É de aconselhar, quando sentes fervor de espírito, meditar no que será de ti, retirando-se esta graça. E quando isto de fato acontecer, pensa que a luz pode voltar, que ta tirei por algum tempo, para tua cautela e minha glória.
5. Tal provação, muitas vezes, te é mais proveitosa do que se tudo te saísse à medida de teu desejo. Pois não se devem avaliar os merecimentos do homem pelas muitas visões e consolações, nem pela perícia nas Escrituras, nem pela elevação do cargo. Mas, para conhecer o valor de cada um, considera: se está fundamentado na verdadeira humildade e vive cheio de amor de Deus; se sempre busca a honra de Deus com pura e reta intenção; se se despreza a si mesmo, nem faz caso algum de si, e se gosta mais de ser desprezado e humilhado do que estimado pelos homens.

Tesouro de Exemplos - Parte 382

O GRANDE LIVRO

S. Filipe Benício estava pregado em seu leito de morte e exclamava: "Dai-me o meu livro, dai-me o meu livro!"
Os assistentes apresentaram um após outro todos os livros encontrados no quarto do enfêrmo, mas nenhum o satisfez. Finalmente, tendo alguém notado que o Santo tinha os olhos voltados para o Crucifixe suspenso à parede, deram-lho e êle, abraçando-o afetuosamente, exclamou: "Êste, sim, é o meu livro predileto, e será o meu testamento: eu o li e reli muitas vêzes e com êle quero acabar a minha vida".

Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent - 14

O Livro da Confiança

Pe. Thomas de Saint Laurent


Capítulo III - A Confiança em Deus e as necessidades temporais

IV - Procurar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça

“Procurai pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

Foi assim que o Salvador concluiu o discurso sobre a Providência. Conclusão consoladora, que encerra uma promessa condicional; de nós depende o sermos por ela beneficiados.
 
O Senhor se ocupará tanto mais dos nossos interesses quanto nós com os dEle nos preocuparmos.
 
Convém parar para meditarmos as palavras do Mestre.
 
Uma questão logo se nos depara: onde se acha esse Reino de Deus que devemos procurar antes de tudo o mais?
 
“Dentro de vós” (37), responde o Evangelho.
 
“Regnum Dei intra vos est”. 

Procurar o Reino de Deus é, pois, levantar-Lhe um trono na nossa alma; é submetermo-nos inteiramente ao seu domínio soberano. Sujeitemos todas as nossas faculdades ao cetro misericordioso do Altíssimo. Que a nossa inteligência se lembre constantemente da sua presença; conforme-se a nossa vontade em tudo com a sua vontade adorável; voe o nosso coração para Ele com freqüência, em atos de caridade ardente e sincera. Praticaremos, assim, essa justiça que, na linguagem da Escritura, significa a perfeição da vida interior. Seguiremos, então, à risca, o conselho do Salvador: procurar o Reino de Deus.
 
“E tudo o mais vos será dado por acréscimo”.
 
Há aí uma espécie de contrato bilateral; do nosso lado trabalhamos para a glória do Pai celeste; do seu lado o Pai se compromete a prover às nossas necessidades.
 
Lançai, pois, todas as vossas preocupações no Coração Divino; cumpri o contrato que Ele vos propõe; Ele cumprirá a palavra dada: velará sobre vós e “vos sustentará” (38).
 
“Pensa em mim, diz o Salvador a Santa Catarina de Siena, e Eu pensarei em ti...” E, séculos mais tarde, no mosteiro de Paray-le-Monial, prometia a Santa Margarida Maria, para aqueles que fossem particularmente devotos do Sagrado Coração, o êxito das suas empresas.
 
Feliz o cristão que se conforma bem com essa máxima do Evangelho! Ele procura Deus e Deus lhe zela os interesses com a sua omnipotência: “que lhe poderá faltar?” (39).
 
Pratica as sólidas virtudes interiores, e evita assim toda a desordem: as faltas, os vícios que são as causas mais comuns dos fracassos e das ruínas.

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37 ) Lc. 17, 21.
38 ) “Descarrega sobre o Senhor os teus cuidados, e ele te sustentará” (Salmos, 54, 23).
39 ) “O Senhor é meu pastor, e nada me falta” (Salmos, 22, 1).

2 de setembro de 2013

Do amor que Deus nos mostrou.

Nos ergo diligamus Deum, quoniam Deus prior dilexit nos – “Amemos portanto a Deus, porque Deus nos amou primeiro” (1 Io. 4, 19).

Sumário. São inúmeras as provas de amor que o Senhor nos deu. Amou-nos desde a eternidade, tirou-nos do nada com preferência a tantos outros, e, o que mais é, fez-nos nascer num país católico e no seio da Igreja verdadeira. Quantos milhões de homens vivem privados dos sacramentos, da pregação, dos bons exemplos e de tantos outros meios de salvação! A nós Deus quis dar todos estes meios de perfeição, sem mérito algum da nossa parte; prevendo mesmo todos os nossos deméritos. Porque então correspondemos tão mal ao amor de Deus? Porque não o amamos de todo o coração?

I. Considera primeiro que Deus merece teu amor, porque te amou antes de ser amado por ti e de todos os seres: In caritate perpetua dilexi te (1) – “Com amor eterno te amei”. Os primeiros que te amaram na terra, foram teus pais; mas só te amaram depois de te terem conhecido. Deus já te amava, antes de existires. Ainda não existiam no mundo nem teu pai, nem tua mãe e já Deus te amava. Não era ainda criado o mundo, e já Deus te amava.

E quanto tempo antes da criação já te amava Deus? Talvez mil anos, mil séculos antes? Escusado é contar anos e séculos: In caritate perpetua dilexi te; ideo attraxi te, miserans tui – “Com amor eterno te amei; por isso, compadecido de ti, te atraí a mim”. Numa palavra, Deus te amou desde que é Deus e desde que se amou a si mesmo, amou-te também. Foi, portanto, com muita razão que a santa virgenzinha Inês respondeu às criaturas que a requestavam: Ab alio amatore praeventa sum – “Outro amante vos precedeu”.

Assim, meu irmão, teu Deus te amou desde a eternidade; e é só por amor de ti que tirou do nada tantas outras criaturas formosas, afim de que te servissem e te recordassem sem cessar o amor que te tem, e o que Lhe deves. O céu e a terra, exclamava Santo Agostinho, tudo me prega, ó meu Deus, quanto sou obrigado a amar-Vos. Quando o Santo olhava o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os rios, parecia-lhe que todas estas criaturas lhe diziam: Agostinho, ama a teu Deus, criou-nos para ti, para ganhar o teu amor.

O abade de Rancé, fundador da Trappa, à vista das colinas, das fontes, das flores, dizia que todas estas criaturas lhe recordavam o amor que Deus lhe tinha. Santa Teresa dizia igualmente que as criaturas lhe repreendiam a sua ingratidão para com Deus. Quando Santa Maria Magdalena de Pazzi tinha na mão uma bela flor ou qualquer fruto, sentia o coração ferido por uma seta do amor divino, dizendo consigo: “O meu Deus pensou desde a eternidade em criar esta flor, este fruto, afim de que eu o amasse!”

II. Considera o amor particular de Deus para contigo, fazendo-te nascer num país cristão e no seio da verdadeira Igreja. Quantos não há que nascem no meio de idólatras, de judeus, de maometanos, os quais se perdem todos! Mas Deus te pôs no número dos que nascem em lugares onde reina a verdadeira fé.

Ó dom inapreciável o da fé! Quantos milhões de pessoas se vêem privadas dos sacramentos, das instruções, dos bons exemplos e de todos os outros meios de salvação que nos oferece a nossa verdadeira Igreja! E Deus quis prodigalizar-te todas estas grandes vantagens sem nenhum merecimento de tua parte, ou, para melhor dizer, prevendo os teus desmerecimentos; porque, quando pensava em criar-te e fazer-te estas graças, já previa as injúrias que lhe havias de fazer.

Ó soberano Senhor do céu e da terra, como é que, tendo amado tanto os homens, sois tão desprezado por eles? Entre esses homens, ó meu Deus, amastes-me com amor particular, favorecendo-me com graças especiais, que recusastes a muitos outros, e eu Vos desprezei mais que os outros. Prostro-me a vossos pés, ó Jesus, meu Salvador: Ne proicias me a facie tua (2) – “Não me repilais de vossa presença”. Mereceria ser repelido por Vós por causa de minhas ingratidões; mas dissestes que não sabeis repelir um coração arrependido que volta para Vós: Eum quivenit ad me, non eiciam foras (3) – “Não rejeitarei àquele que vem a mim”.

Meu Jesus, misericórdia! Outrora não Vos conhecia; mas agora reconheço-Vos por meu Salvador, que morreu para me salvar e ser amado por mim. Agora Vos conheço, Vos adoro e Vos amo por todos aqueles infelizes que Vos ofendem, e nada desejo senão crescer sempre em vosso amor. – Meu Senhor, dai-me o vosso amor; mas um amor ardente, que me faça esquecer todas as criaturas; um amor forte, que me faça vencer todas as dificuldades para Vos agradar; um amor constante, que nunca mais se resfrie entre mim e Vós. Tudo espero dos vossos merecimentos, ó meu Jesus; e tudo espero também da vossa intercessão, ó minha Mãe Maria. (II 154)

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1. Ier. 31, 3.
2. Ps. 50, 13.
3. Io. 6, 37.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 78-81.)