2 de setembro de 2013

Imitação de Cristo - Livro 3 Capítulo 6

CAPÍTULO 6

Da prova do verdadeiro amor

1. Jesus: Filho, não és ainda forte nem prudente no amor. - A alma: Por que, Senhor? - Jesus: Porque por qualquer contrariedade deixas o começado e com ânsia excessiva procuras a consolação. O homem forte no amor permanece firme nas tentações e não dá crédito às astuciosas sugestões do inimigo. Assim como lhe agrado na prosperidade, não lhe desagrado nas tribulações. Quem ama discretamente não considera tanto a dádiva de quem ama, como o amor de quem dá. Atende mais à intenção que ao valor do dom, e a todas as dádivas estima menos que o Amado. Quem ama nobremente não repousa no dom, mas em mim acima de todos os dons. Nem tudo está perdido, se sentires, às vezes, menos devoção, a mim ou meus santos, do que desejaras. Aquele sentimento terno e doce que experimentas, às vezes, é efeito da graça presente, um como que antegosto da pátria celestial; nele não te deves firmar muito, porquanto vai e vem. Mas pelejar contra os maus movimentos do coração e desprezar as sugestões do demônio é sinal de virtude e grande merecimento.
2. Não te perturbem, pois, estranhas imaginações, oriundas de matéria qualquer. Guarda firme teu propósito, e tua reta intenção fixa em Deus. Não é ilusão o seres, alguma vez, subitamente arrebatado em êxtase, e logo depois caíres de novo nos costumados desvarios do coração. Porque mais os padeces contra a vontade do que és causa deles, e enquanto te desagradarem e os repelires, serão para ti ocasião de merecimento e não de perdição.
3. Fica sabendo que o antigo inimigo de todos os modos se esforça por impedir-te os bons desejos e apartar-te de todos os exercícios devotos, nomeadamente da veneração dos santos, da devota memória de minha paixão, da salutar lembrança dos pecados, da vigilância sobre o próprio coração e do firme propósito de aproveitar na virtude. Sugere-te muitos maus pensamentos para te causar tédio e horror e arredar-te da oração e leitura espiritual. Desagrada-lhe muito a confissão humilde e, se pudesse, far-te-ia abandonar a comunhão. Não lhes dês crédito, nem faças caso dele, posto que muitas vezes de arme laços e enganos. Leva à sua conta os pensamentos maus e desonestos que te sugere. Dize-lhe: Retira-te, espírito imundo, desgraçado, sem-vergonha; muito perverso deves ser para me insinuares tais coisas! Vai-te daqui, malvado sedutor, não terás em mim parte alguma, que Jesus estará comigo, qual guerreiro invencível, e tu ficarás confundido. Antes quero morrer e sofrer todos os tormentos, que te fazer a vontade; cala-te e emudece; não te escutarei, por mais que me molestes. O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei. Levante-se embora contra mim um exército, não temerá meu coração. O Senhor é meu socorro e meu Salvador (Sl 26, 1.6; 18,17).
4. Peleja como bom soldado e, se alguma vez caíres por fraqueza, torna a cobrar maiores forças que as anteriores, tendo certeza que receberás mais copiosa graça; acautela-te, porém, muito contra a vã complacência e a soberba. Por falta desta vigilância andam muitos enganados e caem, às vezes, em cegueira incurável. A ruína destes soberbos, que loucamente presumem de si próprios, sirva-te de cautela e te conserve na virtude da humildade.

Tesouro de Exemplos - Parte 381

NA IGREJA ESTÁ A SALVAÇÃO

Terrível foi o dia em que Deus abandonou a terra às vinganças das águas do dilúvio. Tôda a ordem do universo foi transtornada. Condensaram-se as nuvens umas sôbre as outras com trovões espantosos e o mundo foi sacudido por grande convulsão. Os mares transbordaram; as cataratas do céu abriram-se e todos os sêres viventes pereceram afogados. Incólume sôbre a universal ruína, flutuava a arca de Noé.
Todos os que nela se haviam refugiado cantavam os louvores de Deus. Esta é a mais bela imagem da Igreja Católica, a Igreja de Jesus Cristo, que, no meio do dilúvio universal dos erros e da fúria das perseguições, flutua incólume sôbre os séculos, levando à eterna salvação os que nela se refugiam.
Quem por sua culpa estiver fora da Igreja Católica não espere salvação, como, fora da arca de Noé, ninguém se salvou, porque é a única verdadeira Igreja fundada por Jesus Cristo.

Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent - 13

O Livro da Confiança

Pe. Thomas de Saint Laurent


Capítulo III - A Confiança em Deus e as necessidades temporais

III - Não nos devemos inquietar com o futuro

Deus provê às nossas necessidades.

“Não vos inquieteis”, diz o Senhor.
 
Qual será o sentido exato desse conselho?...
 
Deveremos, para obedecer à direção do Mestre, negligenciar completamente os negócios temporais?
 
É certo que a graça pede a certas almas o sacrifício de uma pobreza estrita e de um total abandono à Providência. Entretanto, é notória a raridade dessas vocações. As outras pessoas - comunidades religiosas ou indivíduos - possuem bens: devem geri-los prudentemente.
 
O Espírito Santo louva a mulher forte que soube governar bem a sua casa. Ele no-la mostra, no Livro dos Provérbios, a acordar bem cedo para distribuir aos criados a tarefa quotidiana e a trabalhar também com as suas próprias mãos. Nada escapa à sua vigilância. Os seus nada têm a temer: acharão todos, graças à sua previdência, o necessário, o agradável e, até, certo luxo moderado. Os seus filhos proclamam-na bem-aventurada, e o seu marido exalta-lhe as virtudes (34).
 
A própria Verdade não teria louvado tão calorosamente essa mulher, se ela não tivesse cumprido o seu dever.

Cumpre, pois, não se afligir; ocupando-se embora razoavelmente dos seus afazeres, não se deixar dominar pela angústia de sombrias perspectivas de futuro, e contar, sem hesitações, com o socorro da Providência.
 
Nada de ilusões!... uma confiança assim pede grande força de alma. Temos que evitar um duplo escolho: a falta e a demasia. Aquele que, por negligência, se desinteressa das suas obrigações e dos seus negócios, não pode, sem tentar a Deus, esperar um auxílio excepcional. Aquele que dá às suas preocupações materiais o primeiro lugar das suas cogitações, aquele que conta mais consigo do que com Deus, engana-se ainda mais crassamente; rouba assim ao Altíssimo o lugar que Lhe compete na nossa vida. “In medio stat virtus”: entre esses extremos encontra-se a virtude.
 
Quando se cumpriu o dever com diligência, afligir-se com o futuro, é desconhecer o poder e a bondade de Deus.
 
Nos longos anos em que São Paulo, o Eremita, viveu no deserto, um corvo trazia-lhe, cada dia, meio pão. Ora, aconteceu que Santo Antão viesse visitar o ilustre solitário. Conversaram longamente os dois Santos, esquecidos nas suas piedosas meditações da necessidade do alimento. Pensava neles, porém, a Providência: o corvo veio; como de costume, trazendo, porém, desta vez, um pão inteiro!
 
O Pai celeste criou todo o universo com uma só palavra; poderia ser-lhe difícil socorrer os seus filhos no momento da necessidade?
 
São Camilo de Lellis havia-se endividado para tratar dos doentes pobres. Os religiosos alarmavam-se. “Para que duvidar da Providência?” - tranqüilizava-os o Santo. “Será difícil a Nosso Senhor dar-nos um pouco desses bens de que cumulou os judeus e os turcos, inimigos uns e outros da nossa Fé?” (35). A confiança de Camilo não foi iludida; um mês depois, um dos seus protetores legava-lhe, ao morrer, uma soma considerável.
 
Afligir-se com o futuro é desconfiança que ofende a Deus e provoca a sua cólera.
 
Quando os hebreus, fugindo do Egito, se viram perdidos nas areias do deserto, esqueceram-se dos milagres que o Senhor tinha feito em seu favor. Tiveram medo, murmuraram. “Deus poderá sustentar-nos no deserto?... Poderá dar pão ao seu povo?” Estas palavras irritaram o Senhor. Contra eles lançou o fogo do céu; a sua cólera caiu sobre Israel, “porque não creram em Deus, nem confiaram no seu socorro” (36).
 
Nada de aflições inúteis: o Pai vela por nós.

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34 ) Provérbios, 9, 10-28.
35 ) Pequenos Bolandistas, t. VIII, 18 de julho.
36 ) Salmos, 77, 19-22.

1 de setembro de 2013

DÉCIMO QUINTO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES.

O moço de Naim e a lembrança da morte.

Defunctus efferebatur, filius unicus matris suae – “Levavam à sepultura um defunto, filho único de sua mãe”. (Luc. 7, 12)

Sumário. Que verdade tão importante nos é lembrada pelo Evangelho de hoje! O filho da viúva de Naim era novo, herdeiro único de seu pai, consolação única de sua mãe, amado de seus concidadãos, que por isso acompanhavam o cortejo fúnebre. Provavelmente não pensara que a morte viria surpreendê-lo em tais circunstâncias; mas, assim mesmo colheu-o. Nada, pois, mais certo do que a morte, mas nada mais incerto do que a hora da morte. Ah! Se pensássemos muitas vezes nesta grande máxima, não pecaríamos nunca, e estaríamos sempre preparados para morrer.

I. Refere São Lucas que “Jesus ia para uma cidade chamada Naim; e iam com ele os seus discípulos e uma grande multidão de povo. E quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que já era viúva, e vinha com ela muita gente da cidade.” Antes de prosseguirmos, meu irmão, reflitamos nesta primeira parte da narração evangélica, e lembremo-nos da morte.

É fora de dúvida que devemos morrer. Cremos nesta verdade, não porque é um ponto da fé, mas porque a vemos também com nossos olhos, pois que cada dia se repete o fato do Evangelho: Ecce defunctus efferebatur – “Um defunto é levado à sepultura”. Se alguém se quisesse iludir pensando que não há de morrer, não seria tido por herege, mas sim por louco, que nega a evidência. – É, pois, certo que havemos de morrer; contra cada um de nós já foi lançada a sentença inapelável: Statutum est hominibus semel mori (1) – “Esta decretado que os homens morram uma só vez.” Mas onde é que morreremos?... Como?... Quando? Ninguém o sabe. “Nada mais certo do que a morte”, diz o Idiota, “e ao mesmo tempo, nada mais incerto do que a hora da morte.”

O filho da viúva de Naim era novo, na flor dos anos, herdeiro único de seu pai; única consolação de sua mãe; amado de seus concidadãos que por isso acompanhavam o cortejo fúnebre. Provavelmente não pensara que a morte o havia de surpreender em tais circunstâncias; mas apesar disso colheu-o. Tal será também a nossa sorte; quem no-lo diz é Jesus Cristo, a verdade mesma: Estote parati; quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet (2) – “Estai preparados; porque à hora que não cuidais, o Filho do homem virá.

II. O Evangelho continua a narração dizendo que “o Senhor, vendo a viúva, e movido de compaixão para com ela, lhe disse. Não chores. E, chegando ao esquife, acrescentou: Moço, eu te ordeno, levanta-te. E sentou-se o que havia estado morto, e começou a falar.” Deste modo Jesus Cristo aproveitou-se da morte daquele moço para fazer um grande milagre, que consolou uma mãe extremamente aflita e confirmou no bem os assistentes, que glorificavam a Deus e diziam: “Um grande profeta levantou-se entre nós; e Deus visitou o seu povo.”

É o que o Senhor continua ainda sempre a fazer nas almas por Ele remidas pela meditação sobre a morte. Serve-se desta lembrança para consolar a Igreja, nossa mãe, pela ressurreição espiritual de tantos pecadores, seus filhos; e, depois de os ressuscitar, serve-se ainda da mesma consideração para os fazer perseverar no bem, enchendo-os de um temor salutar. – Procura, tu também, ter sempre diante dos olhos o pensamento da morte. Fazendo isto, se és pecador, ressuscitarás depressa à vida da graça; se, como espero, és justo, o Espírito Santo te assegura que nunca mais tornarás a cair no pecado: Memorare novíssima tua, et in aeternum non peccabis (3) – “Lembra-te de teus novíssimos, e jamais pecarás.

Ó meu Deus! Graças Vos dou pela luz que agora me comunicais. Já basta de anos perdidos! Quero empregar todo o resto de minha vida em me preparar para a morte, chorando as ofensas que Vos fiz, e reparando o tempo passado por uma dedicação mais fiel a vosso serviço. Ajudai-me com a vossa santa graça. “Purificai-me, ó Senhor, fortalecei-me com a vossa continua piedade; e, porque sem Vós nada pode subsistir, sustentai-me sempre com os vossos dons.” (4) – Doce Coração de Maria, sêde minha salvação. (*III 490.)

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1. Hebr. 9, 27.
2. Luc. 12, 40.
3. Ecclus. 7, 40.
4. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 76-78.)

DÉCIMO QUINTO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES.

Necessidade da infalibilidade

Tocante página a do Evangelho de hoje! Através de cada linha ouve-se como ressoar a voz suave do bom Mestre: Não chores... Moço, eu te ordeno, levanta-te... e Jesus o restitui à sua mãe.

Cena de tristeza e cena de alegria sucedem-se no intervalo de umas palavras.

O tom da voz de Jesus possui aqui um caráter especial; além da ternura que vem de seu coração, nota-se a firmeza, a convicção com que se dirige ao jovem falecido: Moço eu te ordeno, e a conseqüência desta convicção, que é a ressurreição do morto.

A Igreja Católica, continuação viva e eterna do poder de Jesus Cristo, possui esta mesma convicção de seu poder e as conseqüências são sempre as mesmas: consolar e consolidar as almas no bem.

Vejamos hoje este duplo aspecto na prerrogativa da infalibilidade que estamos meditando.

1. A convicção da Igreja ser infalível.
2. As conseqüências para cada fiel.

Eis dois pontos que vão fornecer-nos uma prova apologética da necessidade de a Igreja ser infalível, mostrando em plena luz: o fato e as conseqüências.

I. A convicção de ser infalível

A Igreja é infalível: ela sempre o acreditou, sempre o afirmou, teve sempre a plena convicção desta prerrogativa.

Esta convicção é uma prova de sua divindade.

Percorrei a lista das seitas religiosas: são muitas, de diversos credos, diversas concepções, desde o grosseiro fetichismo até o orgulhoso positivismo.

Examinai as suas doutrinas, em todas elas encontrareis pontos de contato, concordâncias parciais, pois todas elas tem por fim aproximar o homem de Deus.

Há, porém, um ponto, em que nenhuma seita concorda com a religião católica: é a infalibilidade de seu chefe.

Entre todas as religiões, só a Católica teve a ousadia, a simplicidade, ou então a sublimidade de acreditar na infalibilidade de seu chefe supremo.

É, de fato, muita ousadia... ousadia tão grande que só pode vir do céu ou do inferno, mas nunca dos homens.

O homem pode ser orgulhoso como quiser, mas nunca teve, nem terá a coragem de outorgar-se a infalibilidade. Porque isso?

Porque ele sente que está se enganando a cada instante... todos acreditam em seus erros, porque são palpáveis.

Tal palavra: infalibilidade, nem sequer foi conhecida pelos antigos.

Os velhos poetas, filósofos, como Platão, Sócrates, Cícero, Horácio, tinham fé na ciência em geral, mas desconfiavam da sua ciência em particular, sentindo-a fraca, falha, incompleta.

Jesus Cristo veio a este mundo e proclamou a infalibilidade da sua Igreja, e esta proclamação, através dos séculos, das nações, permanece sempre patrimônio exclusivo desta Igreja.

As heresias nascem, separam-se da Igreja de Cristo, formam seitas religiosas, conservam certas práticas e até sacramentos da mesma Igreja. Nenhuma seita, porém, teve a ousadia de pretender para o seu chefe o dom da infalibilidade.

Nem Lutero, nem Calvino, nem Henrique VIII, nem o Czar da Rússia, nem o rei da Inglaterra tiveram a coragem de se arrogar a infalibilidade.

Eles mesmos sentiam que se o fizessem, o mundo zombaria por demais de suas pretensões... todos ririam de tanta audácia.

A Igreja Católica acredita em sua infalibilidade e professa esta doutrina como dogma de fé... e ninguém zomba dela.

O protestante empalidece de raiva, faz mil objeções, mas sente-se vencido diante da autoridade do Papa!

E curioso é o fato de a Igreja ter tido a coragem de proclamar tal verdade.

É mais curioso ainda que nenhuma seita religiosa vendo a autoridade predominante que a Igreja adquire com esta prerrogativa, não tenha tido a coragem de imitá-la.

A ousadia da Igreja Católica neste particular é prova da sua divindade.

O medo que as seitas têm de recorrer a este poder é prova de seus erros.

A toda seita falta qualquer coisa de essencial: é a infalibilidade.

E não tem a coragem de reivindicá-la, porque sente que sendo da terra, não tem direito a um privilégio que vem do Céu.

A infalibilidade na constituição de uma religião divina é absolutamente necessária; senão o divino estaria sujeito ao humano, e tal religião não seria mais divina.

Tal privilégio só existe na Igreja Católica.

Só ela, pois, é divina e, por conseguinte: verdadeira.

II. Conseqüência para cada fiel

Eis um ponto pouco estudado e, entretanto, de imensa extensão.

Se dissesse que a ação católica, tão espalhada hoje e tão querida pelos Pontífices Romanos, é uma conseqüência direta da infalibilidade, diria uma grande verdade que muitos não compreenderiam à primeira vista.

Entretanto o fato é certo: e não será difícil compreender o fundo desta asserção.

Deus não semeou as verdades em sua Igreja como se depositam pedras inertes na construção de um monumento, mas sim, como germens vivos que devem desabrochar, como sementes de uma fecundidade inexaurível.

Estas verdades latentes devem ser cultivadas para que possam dar o seu fruto; e é o espírito humano que deve fazer esta cultura e fazê-la produzir frutos sazonados.

E como esta obra é de uma delicadeza infinita, Deus dá a um espírito humano o dom da infalibilidade, para que este homem possa guiar, sustentar a cultura das verdades divinas, como o jardineiro orienta os operários para que cada planta seja cultivada conforme as exigências da sua espécie.

Todos nós somos operários na vinha do Senhor; porém deve haver um mestre que dirija estes operários e indique a cada um a tarefa própria para alcançar o resultado comum do conjunto.

O homem, de fato, não entrou na Igreja de um modo passivo, inerte, mas sim ativo, porque fica encarregado de estudar os dogmas, de desenvolvê-los, de tirar deles conseqüências, de fazer aplicações na ordem da sua esfera. É a base e a razão de ser da ação católica.

Não é somente o Papa que pode e deve tirar conclusões novas dos princípios estabelecidos pelo Evangelho: ele é o orientador, o Mestre, mas cada fiel pode agir, meditar, estudar e tirar conclusões teológicas, que serão boas, desde que recebam a aprovação do orientador geral: o Papa.

É o que explica a origem de muitas devoções.

Santa Juliana é a fundadora da adoração das 40 horas. . .

Santa Margarida Maria é a operária do desenvolvimento do culto do Coração de Jesus.

O santo Padre Eudes é o promotor do culto do Coração de Maria, o Bem-aventurado de Montfort, da devoção da santa escravidão - Santa Terezinha, da prática da santa infância, etc, etc.

Eis a atividade dos simples fiéis. O orientador geral rejeita ou aprova estas práticas: e a sua palavra infalível é o tutor que os sustenta como é a sentença que lhes dá vida.

Sem esta palavra infalível a Igreja Católica tão una e unida, seria o que é o protestantismo: uma balbúrdia, um corpo sem cabeça ou uma cabeça sem mioleira.

Com esta palavra infalível, toda a cristandade, todo católico pode trabalhar, estudar, interpretar, mas deve submeter a sua obra ao guia supremo, ao Papa, e eis que na imensa variedade das ações aparece a unidade perfeita da doutrina.

É a grande maravilha da Igreja de Cristo: é um dos sinais característicos que a distinguem das demais seitas religiosas erradas.

III. Conclusão

Eis dois argumentos irrefutáveis, apologéticos que provam a existência e o exercício da infalibilidade da Igreja Católica.

A Igreja sempre acreditou nesta prerrogativa e sempre agiu nesta convicção.

A ação católica que permite a cada católico agir sob a orientação dos superiores eclesiásticos, sem que desta variedade de ação surja a ruptura da unidade perfeita da Igreja

É uma prerrogativa divina e esta prerrogativa pertence exclusivamente à Igreja Católica.

Logo, ela é a única Igreja de Jesus Cristo e todas as demais seitas são errôneas.

Sentimos a necessidade da infalibilidade como sentimos os imensos benefícios que nos traz da firmeza da nossa fé e da nossa ação.

EXEMPLO

Pesquisas de um protestante

A canonização dos Santos é um ato da infalibilidade do Papa, de modo que o Papa, declarando solenemente a heroicidade das virtudes de um Santo, tal declaração torna-se exercício da sua infalibilidade, devendo ser admitida pela Igreja inteira.

Há anos, um sábio professor protestante inglês da Universidade de Oxford quis examinar de perto e de visu o proceder das canonizações, para encontrar falhas nos exames e decisões.

Partiu para Roma com carta de recomendação, pedindo para examinar por si mesmo documentos das canonizações.

O cordial prefeito, encarregado das causas, entregou-lhe o processo completo, pró e contra de umas oitenta CAUSAS em julgamento.

O professor levou os documentos para o hotel, onde, durante um mês, examinou-os detidamente, confrontando as razões a favor, citadas pelo defensor e as razões contra, dadas pelo contraditor.

Examinou, confrontou, tirou as suas conclusões favoráveis e convenceu-se de que todos os fatos, a doutrina, as virtudes e os milagres eram incontestáveis, e que estes nomes mereciam toda a auréola dos santos.

Assim disposto, foi então ter com o cardeal para entregar-lhe os documentos e agradecer-lhe a nímia gentileza, manifestando o resultado positivo de seu inquérito e dizendo-se convencido da rigorosa exatidão dos processos e da certeza dos resultados.

- Ah, se todos os processos fossem deste modo, seguros e provados, exclamou o professor protestante, ninguém mais podia duvidar dos santos existentes na Igreja Romana.

Mas, qual não foi o seu espanto, quando o cardeal lhe respondeu:

- Pois bem, todas estas causas que o senhor julgou irrefutáveis e certas, foram rejeitadas pela Igreja como insuficientes; nenhum destes milagres foi aprovado pela comissão.

O professor caiu das nuvens... ou melhor, saiu do erro protestante, e hoje venera e invoca os santos com tanto mais fervor quanto mais os desprezara antes, enquanto protestante.

Convenceu-se o homem que as declarações do Papa tem base sólida e obedecem a todas regras da prudência e sabedoria, e são, mesmo humanamente falando, documentos de primeiro valor, sem falar da assistência divina que assiste o Papa, quando se dirige à Igreja inteira, proclamando que tal verdade deve ser admitida como dogma de fé.

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 347 - 354)

Imitação de Cristo - Livro 3 Capítulo 5

CAPÍTULO 5

Dos admiráveis efeitos do amor divino

1. A alma: Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, por vos terdes dignado lembrar-vos de mim, pobre criatura. Ó Pai de misericórdia e Deus de toda consolação! (2Cor 1,3), graças vos dou porque, apesar de minha indignidade, me recreais às vezes com vossa consolação. Sede para sempre bendito e glorificado, com vosso Filho unigênito e o Espírito Santo consolador, por todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo amigo de minha alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de alegria o meu interior. Vós sois a minha glória e o júbilo de meu coração; vós sois a minha esperança e meu refúgio no dia da tribulação.
2. Mas, como ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, necessito ser consolado e confortado por vós; por isso visitai-me mais vezes e instruí-me com santas doutrinas. Livrai-me das más paixões e curai meu coração de todos os afetos desordenados, para que eu, sanado e purificado interiormente, seja apto para amar, forte para sofrer e constante para perseverar.
3. Jesus: Grande coisa é o amor! E um bem verdadeiramente inestimável que por si só torna suave o que é difícil e suporta sereno toda a adversidade. Porque leva a carga sem lhe sentir o peso e torna o amargo doce e saboroso. O amor de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos excita sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. O amor deseja ser livre e isento de todo apego mundano, para não ser impedido no seu afeto íntimo nem se embaraçar com algum incômodo. Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só pode descansar, acima de todas as criaturas.
4. Quem ama, voa, corre, vive alegre, é livre e sem embaraço. Dá tudo por tudo e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens. Não olha para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até Àquele que os concede. O amor muitas vezes não conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender mais do que pode; não se escusa com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e possível. Por isso de tudo é capaz e realiza obras, enquanto o que não ama desfalece e cai.
5. O amor vigia sempre, e até no sono não dorme. Nenhuma fadiga o cansam nenhuma angústia o aflige, nenhum temor o assusta, mas qual viva chama a ardente labareda irrompe para o alto e passa avante. Só quem ama compreende o que é amar. Bem alto soa aos ouvidos de Deus o afeto da alma que diz: Meu Deus, meu amor! Vós sois todo meu, e eu todo vosso!
6. A alma: Dilatai-me o amor, para que possa, no âmago do coração, saborear quão doce é amar, no amor desmanchar me e nadar. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num transporte de fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor, siga-vos ao alto, ó meu Amado, desfaleça minha alma no nosso louvor, no júbilo do amor. Amar-vos quero mais que a mim, e a mim só por amor de vós, e em vós a todos que deveras vos amam, conforme ordena a lei do amor que de vós dimana.
7. O amor é pronto, sincero, piedoso, alegre e amável; forte, sofredor, fiel, prudente, longânime, viril e nunca busca a si mesmo. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o amor. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é frouxo, não é leviano, nem cuida de coisas vãs; é sóbrio, casto, constante, quieto, recatado em todos os seus sentidos. O amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos próprios olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com Deus, confia e espera sempre nele, ainda quando está desconsolado, porque no amor não se vive sem dor.
8. Quem não está disposto a sofrer tudo e fazer a vontade do Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que ama cumpre abraçar por seu Amado, de boa vontade, tudo o que for duro e amargo e dele não se apartar por nenhuma contrariedade.

Tesouro de Exemplos - Parte 380

RESPEITO HUMANO CASTIGADO

O respeito humano é uma vileza e uma escravidão. Eusébio, pai de Constantino Magno, passava em revista os seus soldados. Parado no meio do campo, exclamou:
- Os que forem cristãos venham para a minha direita.
Alguns tremeram, pois sabiam que Eusébio era idólatra. Eusébio por sua vez sabia que muitos dos seus soldados eram cristãos. Alguns valentes, com passo resoluto, puseram-se à sua direita, exclamando:
- Nós somos cristãos.
O imperador olhou para êles com fereza e disse:
- Sois vós sòmente?
Nenhum dos outros se moveu do lugar. Então dirigindo-se aos que estavam à sua direita, disse Eusébio:
- Vós formareis a minha legião de honra e todos os outros serão expulsos de minhas fileiras, porque da mesma maneira com que hoje se envergonharam de seu Deus diante do imperador, amanhã, terão vergonha do imperador diante do inimigo.

Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent - 12

O Livro da Confiança

Pe. Thomas de Saint Laurent


Capítulo III - A Confiança em Deus e as necessidades temporais

II - Ele o faz segundo a situação de cada um

Deveremos tomar essas palavras ao pé da letra, e compreendê-las no seu sentido mais restrito? Dar-nos-á Deus somente o estrito necessário: o pedaço de pão seco, e o copo d'água, a nesga de tecido de que a nossa miséria precisa urgentemente? Não, o Pai celeste não trata os filhos com avarenta parcimônia. Pensar assim, seria blasfemar contra a Divina Bondade; seria, se assim posso dizer, desconhecer os seus hábitos. No exercício da sua Providência, como na sua obra criadora, Deus usa, com efeito, de grande prodigalidade.
 
Quando lança os mundos através dos espaços, tira do nada milhares de astros. Na Via Láctea, essa praia imensa das noites luminosas, cada grão de areia não é um mundo?
 
Quando alimenta os pássaros, convida-os à mesa opulentíssima da natureza. Oferece-lhes o trigo que enche as espigas, os grãos de todas as espécies que nas plantas amadurecem, as bagas que o Outono enrubesce nos bosques, as sementes que o lavrador deita nos sulcos do arado. Que ementa variada ao infinito para esses humildes bichinhos!
 
Quando cria os vegetais, com que graça enfeita as suas flores! Ele cinzela as suas corolas como jóias preciosas; nos seus cálices lança deliciosos perfumes; tece-lhes as pétalas com uma seda tão brilhante e delicada, que os artifícios da indústria nunca lhes igualarão a beleza.
 
E, então, tratando-se do homem, a sua obra-prima, o irmão adotivo do seu Verbo encarnado, não haveria Deus de se mostrar de uma generosidade ainda maior? Tornar-se-ia Ele avarento só para connosco? Evidentemente tal não é possível.
 
Consideremos, pois, como verdade indiscutível que a Providência provê largamente às necessidades temporais do homem.
 
Sem dúvida, haverá sempre na terra ricos e pobres. Enquanto uns vivem na abundância, outros devem trabalhar e observar uma sábia economia. Porém, o Pai celeste fornece, a todos, meios de viver com certo bem-estar, segundo a condição em que os colocou.
 
Voltemos à comparação que Jesus emprega. Deus vestiu o lírio esplendidamente, mas esta veste branca e perfumada era reclamada pela natureza do lírio. Mais modestamente foi trajada a violeta; Deus deu-lhe, porém, o que convinha à sua natureza particular. E essas duas flores desabrocham docemente ao sol, sem que nada lhes falte.

Assim Deus faz com os homens. Colocou a uns nas classes mais altas da sociedade; pôs outros em condições menos brilhantes: a uns e a outros dá, no entanto, o necessário para dignamente manterem a sua posição.
 
Levanta-se aí uma objeção, a respeito da instabilidade das condições sociais. Na crise presente, não será mais fácil decair do que elevar-se ou mesmo manter-se em igual nível social?
 
Sem dúvida. Mas a Providência proporciona exatamente o auxílio às necessidades de cada um: para os grandes males manda os grandes remédios. O que as catástrofes econômicas nos tiram, podemos readquirir com a nossa indústria ou trabalho. Nos casos muito raros em que a atividade própria se vê de todo reduzida à impossibilidade, temos, então, o direito de esperar de Deus uma intervenção excepcional.
 
Geralmente, pelo menos assim penso eu, Deus não faz decaídos. Ele quer, pelo contrário, que nos desenvolvamos, que subamos, que cresçamos com prudência. Se, às vezes, permite uma decadência de nível social, não a quer senão por uma vontade posterior à ação do nosso livre arbítrio. O mais freqüente é provir tal decadência de faltas nossas, pessoais ou hereditárias. São conseqüências naturais da preguiça, da prodigalidade, das paixões.
 
E, ainda assim, pode o homem, mesmo decaído, levantar-se e, com o auxílio da Providência, reconquistar, pelos seus esforços, a situação perdida.