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31 de março de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 4/4

b - Perigo para a salvação.
Ah! quantas vezes, nos retiros particulares que temos dirigido, chegamos a verificar que as obras, que deveriam ser para os seus organizadores meios de progresso, se tornavam instrumentos de ruína do edifício espiritual.
Um homem de obras, convidado logo no início de seu retiro, a examinar sua consciência e a procurar a causa dominante do seu estado lastimoso, fazia um juízo exato de si, dando-nos esta resposta à primeira vista incompreensível: "Foi a dedicação que me perdeu! Minhas disposições naturais causavam-me sentimentos de alegria quando me devotava, de felicidade quando prestava algum serviço. Auxiliado pelo bom êxito aparente dos meus empreendimentos, Satanás envidou todos os esforços, durante largos anos, para me criar ilusões, para excitar em mim o delírio da ação, tornar-me aborrecido qualquer trabalho interior, e finalmente atrair-me ao precipício.
Este estado de alma, anormal, para não dizer monstruoso, explica-se em poucas palavras. O operário de Deus, inteiramente absorvido na satisfação de dar livre curso à sua atividade natural, deixara desvanecer em si a vida divina, esse calórico divino que, nele acumulado, tornava o apostolado fecundo e protegia a sua alma contra o gélido frio do espírito natural. Trabalhara, mas longe do sol vivificante. Magnae vires et cursus celérrimus, sed praeter viam. Pelo mesmo motivo, as obras, santas em si mesmas, tinham-se voltado contra o apóstolo, como arma perigosa no manejo, espada de dois gumes, que fere aquele que não sabe servir-se dela.
Foi contra igual perigo que São Bernardo quis acautelar o Papa Eugênio III, quando lhe escreveu: Temo que no meio da vossas  ocupações, que são inumeráveis, desesperando de jamais lhes ver o fim, deixeis endurecer vossa alma. Andareis com muito mais prudência subtraindo-vos a essas ocupações, por alguns instantes que seja, do que permitindo que elas vos dominem e que pouco a pouco infalivelmente vos arrastem para onde não quereis de forma alguma ir. Então para onde? direis talvez. Para o endurecimento do coração.
Eis até onde vos podem levar essas malditas  ocupações, hae occupationes maledctae, se ainda continuais, como já ao princípio fizestes, a consagrar-vos inteiramente a elas, nada reservando de vós para vós mesmo.
Que há aí de mais augusto, de mais santo que o governo da Igreja? Haverá nada mais útil para a glória de Deus e para o bem das almas? E contudo, malditas ocupações, exclama São Bernardo, se hão de servir para impedir a vida interior daquele que a elas se dedica.
"Ocupações malditas", que expressão! Vale por um livro inteiro, tanto ela amedronta e tanto obriga a refletir. E estaria exigindo um protesto, se não caísse da pena tão precisa de um doutor da Igreja, de um São Bernardo. 

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