30 de setembro de 2010

AMARÁS AO SENHOR TEU DEUS

Quatro condições necessárias para cumprir o preceito do amor de Deus

Havendo-se perguntado a Cristo, antes da Paixão, qual era o maior e primeiro mandamento, respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo seu coração e de toda a sua alma, e de todo o seu entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. (Mat, XXII, 37).

Verdadeiramente este é o maior mandamento, o mais notável e o mais útil. Nele se cumprem todos os demais; porém para cumpri-lo perfeitamente se requerem quatro condições:

1a) A recordação dos benefícios divinos: pois quanto temos, o corpo, os bens exteriores, tudo o temos de Deus; e portanto é mister que lhe sirvamos com tudo isto e que o amemos com coração perfeito. Com efeito, é muito ingrato recordar os benefícios de alguém e não amá-lo. Recordando Davi os benefícios de Deus, manifestava. Tuas são todas as coisas; temos-te dado as coisas que recebemos de tua mão. Por isso no louvor de Davi diz o Eclesiástico: De todo seu coração louvou ao Senhor, e amou ao Deus que lhe fez (XLVII, 10).

2a) Consideração da excelência divina. Porque maior é Deus que nosso coração. (I Jo. III, 20). Pelo qual, se Lhe servimos de todo o coração e com todas as forças, ainda permanecemos pequenos. Glorificai ao Senhor quanto mais puderes, que ainda sobrepujará... Bendizei ao Senhor, exaltai quanto podeis; porque maior é que todo louvor. (Ecle. XLIII, 32.)

3a) A renúncia às coisas do mundo e da terra. Pois faz grande injúria a Deus o que equipara alguma coisa a Ele. A quem pois, haveis assemelhado a Deus? (Is. XL, 18) Equiparamos as coisas com Deus quando amamos as coisas temporais e corruptíveis juntamente com Deus; porém isto é absolutamente impossível. Portanto se diz: Estreita é a cama, de modo que um dos dois há de cair; e uma manta curta não pode cobrir a um e a outro. (Is. XXVIII, 20.)

4a) É mister evitar todo pecado; porque ninguém pode amar a Deus estando em pecado. Por conseguinte, se vives em pecado, não ama a Deus. Amáva-Lhe o que dizia: Recorda-te, te suplico, de como tenho andado diante de ti com verdade e com coração perfeito. (Is. XXXVIII, 3). E o profeta Elías: Até quando cambaleará por ambos os lados? (III Reg. XVIII, 21.) Assim como o coxo se inclina a um lado e outro, assim também o pecador que umas vezes peca, e outras trata de buscar a Deus. Por isso diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração. (Joel., II, 12) – (In Decalog., c. V.)

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(Tradução do Espanhol - AQUINO, Tomás de - Meditaciones: Entresacadas de sus obras. EMECÉ editores, S.A – Buenos Aires, 1948 - p. 611-612.)

XV DE AGOSTO

Festa da Assunção de Maria Santíssima

Astitit regina a dextris tuis, in vestitu deaurato, circumdata varietate – “Apresentou-se a rainha à tua direita com manto de ouro, cercada de variedade” (Sal. 44, 10).

Sumário. Maria morre, e acompanhada de inúmeros espíritos celestiais de seu próprio Filho, entra no céu em alma e corpo, Deus abraça-a, abençoa-a e fá-la Rainha do universo, elevando-a acima de todos os anjos e santos. Regozijemo-nos com a divina Mãe, que é também a nossa e avivemos a nossa confiança nela, invocando-a em todas as nossas necessidades. Roguemos-lhe sobretudo que, assim como ela morreu de puro amor a Deus, possamos nós morrer ao menos com contrição dos nossos pecados,

I. Maria morre, mas como? Morre toda desapegada do afeto às criaturas, e morre consumida pelo divino amor, de que o seu santíssimo coração estava sempre todo abrasado. - Ó santa Mãe, ides deixar a terra: não vos esqueçais de nós, pobres peregrinos, que ainda ficamos neste vale de lágrimas, combatidos por tantos inimigos, que desejam a nossa perdição eterna. Pelos merecimentos da vossa preciosa morte, vos suplicamos que nos obtenhais o desapego das coisas terrestres, o perdão dos pecados, o amor de Deus e a santa perseverança. E, quando chegar a hora da nossa morte, assistimos lá do alto do céu, com a vossa intercessão, e alcançai-nos a graça de irmos ao paraíso beijar os vossos pés.

Maria morre; seu preciosíssimo corpo é levado pelos apóstolos á sepultura, guardado pelos anjos durante três dias, e em seguida transportado ao paraíso. Mas a sua alma formosa, apenas saiu do corpo, entra na beatitude eterna, acompanhada de inúmeros anjos e do seu próprio Filho. - Já no céu, a humilde Virgem apresenta-se a Deus, adora-o e com afeto imenso lhe agradece todas as graças que lhe foram dispensadas. Deus abraça-a, abençoa-a e fá-la Rainha do universo, exaltando-a acima de todos os anjos e santos: Exaltata est sancta Dei Genitrix super choros angelorum ad coelestia regna.

Se, no dizer do Apóstolo, a inteligência humana não pode compreender a glória imensa que Deus preparou no céu para os seus servos que o amaram na terra; quão grande não será a glória que ele concedeu à sua santíssima Mãe, que em terra o amou mais do que todos os santos e anjos, e o amou com todas as suas forças? De modo que, chegando ao céu, pôde dizer a Deus: Senhor, se não Vos amei tanto como mereceis, ao menos Vos amei quanto pude.

II. Alegremo-nos com Maria pela glória a que Deus a sublimou; mas alegremo-nos também por nossa causa, porquanto, ao mesmo tempo que Maria foi elevada à dignidade de Rainha do mundo, foi também feita nossa advogada. Advogada tão piedosa, que se encarrega da defesa de todos os pecadores que a ela se recomendam; e tão poderosa junto do nosso Juiz, que ganha todas as causas.

Ó grande, excelsa e gloriosíssima Senhora, prostrados aos pés do vosso trono, nós vos veneramos deste vale de lágrimas, e nos alegramos pela glória imensa com que vos enriqueceu o Senhor. Agora, que já reinais como Rainha do céu e da terra, ah! não vos esqueçais de nós, vossos pobres servos. Do alto do solio excelso em que reinais, não vos dedigneis de volver os vossos olhos piedosos a nós, miseráveis. Quanto mais vizinha estais da fonte das graças, tanto mais nô-las podeis comunicar. No céu descobris melhor as nossas misérias, portanto é preciso que tenhais compaixão de nós e mais nos socorrais.

Ah, Mãe dulcíssima, Mãe amabilíssima! os vossos altares estão cercados de muita gente, que vos pede, este para ser curado de alguma enfermidade, aquele para ser provido nas suas necessidades; um vos pede uma boa colheita, outro, a vitória de uma demanda. Nós vos pedimos graças mais agradáveis ao vosso coração: alcançai-nos a humildade, o desapego da terra, a resignação com a vontade divina. Impetrai-nos o santo temor de Deus, uma boa morte, o céu. Numa palavra, mudai-nos de pecadores em santos e fazei que, depois de termos sido cá na terra os vossos fiéis servos, possamos um dia ir gozar da vossa presença no céu.

“E Vós, ó Senhor, perdoai os crimes dos vossos servos: para que, já que não podemos agradar-Vos com as nossas obras, sejamos salvos pela intercessão da Mãe de vosso Filho e Senhor nosso”. (1) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo.

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1. Or. festi.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 347-350.)

31 de julho de 2010

O PERIGO DE CONVIVER COM HEREGES - S. TOMÁS DE AQUINO

O perigo de conviver com hereges

São Tomás de Aquino
Quaestiones quodlibetales, quodlibeto 10, q. 7, a. 1 (15), c.

“Por duas razões não se deve manter relações com os hereges. Primeiramente, por causa da excomunhão, pois, sendo excomungados, não se deve ter relações com eles, da mesma maneira que com os outros excomungados. A segunda razão é a heresia. – Em primeiro lugar, por causa do perigo, para que as relações com eles não venham a corromper os outros, segundo aquilo da primeira epístola aos Coríntios (15, 33): ‘As más conversações corrompem os costumes’. E em segundo lugar para que não pareça se prestar algum assentimento às suas doutrinas perversas. Daí dizer-se na segunda epístola canônica de S. João (v. 10): ‘Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, pois o que o saúda toma parte em suas más obras’. E aqui a Glosa comenta: ‘Já que para isso foi instituída, a palavra demonstra comunhão com esse tal: de outro modo não seria senão simulação, que não deve existir entre cristãos’. Em terceiro e último lugar, para que nossa familiaridade [com eles] não dê aos outros ocasião de errar. Por isso, outra Glosa comenta a respeito dessa passagem da Escritura: ‘E se acaso vós mesmos não vos deixais enganar, outros todavia, vendo vossa familiaridade [com os hereges], podem enganar-se, acreditando que esses tais vos são agradáveis, e assim crer neles. E uma terceira Glosa acrescenta: ‘Os Apóstolos e seus discípulos usavam de tanta cautela em matéria religiosa, que não sofriam sequer a troca de palavras com os que se haviam afastado da verdade’. Entende-se, porém: excetuado o caso de alguém que trata com outro a respeito da salvação, com intuito de salvá-lo”.

29 de julho de 2010

DO DESCANSO À OCIOSIDADE: A EVAGATIO MENTIS

Conta e Tempo

Deus pede estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta;
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo..."

(Frei Antônio das Chagas, Séc. XVII)


Tradicionalmente, a filosofia atribui duas partes à natureza humana, o corpo e a alma, unidos substancialmente, de modo que o homem não é exatamente apenas um das partes, mas a realização da união de ambas.

Pelo corpo, o homem é um ser material. A matéria é definida como “pura potência”, porque sempre pode ser mudada e moldada, não possuindo determinabilidade própria, mas a recebendo extrinsecamente, que é a sua forma.

E justamente porque a matéria é uma “indeterminação determinável”, isto é, uma pura capacidade de receber moldagem, que a alma é a “forma do corpo”, pois é o princípio subsistente da vida, que, quando unida à matéria, dá-lhe a forma de homem, porque lhe determina e ordena para formar a unidade substancial da natureza humana. Em outras palavras, a matéria é a “parte fraca”, que está aberta a uma moldagem, enquanto que a alma é a “parte forte”, porque é o princípio determinador da vida, unindo-se à matéria e tornando-a um corpo ordenado, para assim formar a unidade substancial da natureza humana.

Entretanto, se a alma é um princípio vital, e por isso mesmo essencialmente imutável e imortal, o corpo, por sua vez, é passível de mudança, porque a matéria pode receber ou perder as suas determinações de forma. Deste modo, a morte é o fim inevitável dos seres corpóreos, pois a união entre corpo e alma irá se frustrar um dia, quando, da parte do corpo, este se desconfigurar de tal maneira que já não permitirá mais a vida.

Por esta razão, a fraqueza e passividade da matéria exige que o ser humano continuamente descanse. O homem possui muitas limitações físicas e psíquicas, de modo que precisa sempre se recompor, para evitar a exaustão. A matéria não é capaz de garantir uma atividade ilimitada ou ininterrupta, pois o desgaste conduzirá imediatamente à morte.

Assim Deus fez o homem para que, até mesmo em seu cansaço, algo da eternidade pudesse ser aprendido. Com efeito, o descanso – especialmente o sono – é figura da Vida Eterna, quando o homem terá posse do fruto de todos os seus trabalhos, e estará em completo repouso em Deus, mas um repouso ativo, porque o Céu consiste na união amorosa do homem com Deus.

Neste sentido, o descanso é parte essencial da vida humana, seja na terra, seja, de forma análoga, na eternidade.

Mas como qualquer ato humano, em tudo há uma justa medida, sem falta ou excesso. Afinal, quem descansa pouco, ainda não completou o seu repouso, mas quem descansa demais, prejudica a vida ativa e deturpa o fim do repouso. Este assunto, aparentemente banal, é a raiz da esterilidade da vida espiritual de muitos, pois o descanso, fora de sua justa medida, já não é repouso, mas ociosidade. Cabe agora perguntar: no que consiste o descanso?

O descanso é um momento de passividade, quando o homem deixa as suas atividades ordinárias, seja de qual natureza forem, e se aplica a restituir suas forças perdidas. Por conseguinte, o entretenimento pode ser uma maneira de descanso. Tendo o homem cansaços físicos e psíquicos, por muitos meios ele procurará readquirir o pleno uso de suas capacidades, desde atividades feitas em vigília até o próprio sono, realizando passeios, jogos, viagens, a leitura de um agradável livro, música, conversas, banhos, exercícios físicos, etc. Por algum destes meios cada um encontra uma forma particular de exercer um tempo de passividade, livre das preocupações diárias.

Neste sentido, o descanso é como um contratempo, um fôlego tomado em direção das atividades ordinárias. Não existe um descanso sem retorno, porque a natureza do descanso é existir para a execução plena e saudável das obrigações rotineiras. O descanso é um repouso em direção ao movimento. Esta é a sua justa medida e razão de existir.

Saindo de seus limites, o descanso deturpa-se e põe tudo a perder à sua volta. Aqui há de se notar o papel do pecado original. Com efeito, a natureza humana está decaída pelo pecado de Adão, de modo que a inteligência dificultosamente chega à verdade, e a vontade tende ao mal. Por conseguinte, o pecado original contribui como causa para a distorção do descanso e da sua finalidade, impondo ao homem uma tendência ao exagero.

A partir daí, o que devia ser um momento de passividade, um repouso em direção ao movimento, torna-se evagatio mentis—evagação da mente. O homem perde o interesse pela finalidade, fadiga-se com os objetivos e quer apenas “vagar” em divertimentos e entretenimentos que só desperdiçarão o seu tempo sem conduzi-lo a meta alguma.

A evagação da mente consiste em uma abstenção da vontade e da ação. Este vício está diretamente ligado à vã curiosidade, a um simples desejo de olhar tudo sem a nada se interessar. É uma apatia completa da alma, “cansada” ou desinteressada pelas suas atividades, inerte nos entretenimentos que a conduzem a uma passividade mórbida.

Segundo o psiquiatra Enrique Rojas em O homem moderno: A luta contra o vazio, este é exatamente o perfil psicológico contemporâneo. Com efeito, esta é uma época “cansada” sem jamais ter se fadigado, porque está entregue à passividade, a tudo o que é fácil e cômodo. A gênese desta atitude está no relativismo e no subjetivismo, que corrompem no homem a busca pelo Bem, reduzindo tudo uma questão pessoal. Deste modo, o homem, sem uma meta fixada e muito menos sem os meios para tal – todos corroídos pelo relativismo –, está inevitavelmente sem rumo, sem objetivos para a vida, entregue apenas ao bem estar, ao consumismo, à permissividade e ao hedonismo. Tal atitude mental contribui em muito para legitimar a evagatio mentis, tal qual um navio sem rumo, à deriva.

Por esta razão, um católico não pode se entregar à ociosidade sob o risco de fazer ruir a sua vida espiritual. Deus é o nosso fim último, e deu a cada um um tempo fixado para alcançá-Lo através da constante santificação. Quem se deixa dominar pela ociosidade perde o tempo que Deus lhe deu, deixa de fazer a única obrigação deixada para o homem sobre a terra, e consequentemente afasta-se do seu Sumo Bem. Não se trata, contudo, de um pecado mortal, mas de um enfastio pelo bem a ser feito em virtude da passividade a que a alma está entregue. Não sem razão Santo Tomás classifica a evagatio mentis como a primeira filha da acídia, a preguiça espiritual.

A tendência ao exagero causada pelo pecado original distorce o fim do descanso, tornando-o ociosidade. Tal vício corrói no homem a vida de oração, que para muitos chega a se tornar uma indesejável obrigação, um verdadeiro fardo. E sem vida de oração e entregue a um entretenimento vazio e sem relação com a vida ativa – porque o exagero isola o descanso da sua dependência das obrigações ordinárias –, facilmente a imperfeição torna-se pecado, e para que a alma caia em pecado mortal muito pouco falta, tendo em vista a exposição irremediada ao pecado venial. Em resumo, a preguiça, a ociosidade e a evagação da mente minam a execução das atividades do homem, porque ele passa a administrar imprudentemente o seu tempo. E uma alma entregue à passividade tem dificuldade em manter a vida de oração, de modo que, caso não venha a corrigir radicalmente seu defeito, a indiferença com relação às coisas da Religião podem culminar em uma queda no pecado mortal. Pessoas que não corrigem a deficiente vida de oração que mantém facilmente caem, porque a alma está longe da fonte que a faz permanecer na graça e no amor a Deus.

Tais constatações tornam-se mais profundas quando se observa os preciosos ensinamentos do Abade Jean-Baptiste Chautard em A alma de todo o apostolado. Com efeito, D. Chautard explica que a vida ativa – a vida de apostolado – é resultado e expressão da vida contemplativa, isto é, da vida de oração. Só tem apostolado frutífero e eficaz aquele que o faz brotar de uma autêntica e profunda vida de oração. Deus é a causa primeira, e aquele que confia seu apostolado em Deus pela oração obtém toda o sucesso, porque não esperou o mero favorecimento das circunstâncias. A Sagrada Escritura ensina que Deus ouve a oração do humilde, mas abate a do orgulhoso. Deste modo, quem reconhece a sua absoluta e radical dependência de Deus, faz toda a sua vida ativa depender de uma abandonada entrega a Deus pela oração.

O católico é aquele que reconhece, tal qual a Salve Rainha, que este mundo é um desterro, porque estamos apenas conquistando a cada dia a posse da Vida Eterna, isto é, estamos de passagem. Por esta razão, um verdadeiro católico faz tudo em função de Deus e da salvação. A sua auto-disciplina, os seus sacrifícios, as suas renúncias – é porque tais práticas o levam a Deus que elas fazem sentido. Portanto, manter uma autêntica vida de oração é reconhecer que esta vida só merece ser vivida em razão da salvação eterna, e por isso mesmo não há tempo para divertimentos irresponsáveis, nem para entretenimentos vazios. Tudo fazemos por Deus, e não por nós mesmos. Mesmo quando o homem descansa ele quer recuperar forças e adquirir maior ânimo para as batalhas e lutas que tem de enfrentar. Assim como os três mancebos foram cantando para a fornalha que os iria consumir, do mesmo modo o católico vai alegremente enfrentar as provações, sofrimentos e contrariedades desta vida, que são os meios pelos quais ele se une a Jesus no Calvário, morre para a glória deste mundo, e ganha a verdadeira felicidade que não se pode encontrar na terra, mas que se acha em Deus. Que o Sagrado Coração de Jesus, de onde a lança fez jorrar Sangue e água, seja para nós um verdadeiro refúgio de todas as falsas consolações do mundo, e nos dê o repouso e o descanso que nossas almas procuram, aqui na terra em forma de graça, e na eternidade em forma de glória.


Brevíssimo exame de consciência


1. Quando desejo descansar e relaxar, qual atividade costumo empreender? Em qual entretenimento ou divertimento me ocupo usualmente? O que faço para adquirir um momento de passividade?

2. Agora que já pensastes a respeito, reflita se tens empregado tempo suficiente para descansar e readquirir as forças gastas, o ânimo perdido e a motivação necessária para continuar as atividades ordinárias. Este tempo é suficiente ou muito além do necessário?

3. Para colaborar na auto-disciplina, tem empregado um tempo determinado para os divertimentos? Escolhe um horário do dia, com começo e fim, para se aplicar em atividades de descanso, ou confia demasiadamente em seu próprio auto-controle, de modo que sempre achas que podes parar quando bem julgas?

4. Tens comprometido as suas obrigações – especialmente as orações do dia – por causa dos entretenimentos? Aplicas nele um tempo indeterminado, mas para a oração e para as outras atividades tens empregado o tempo que sobra? Tens procurado corrigir esta falha disciplinando a própria vida de oração com horários regulares para rezar, de modo que nenhuma outra atividade o prejudique?

5. Julgas que és facilmente vencido pela preguiça e pela ociosidade? Tens disciplinado as atividades, de modo que tenhas um horário para rezar e estudar e outro para descansar? Tens procurado utilizar prudentemente as diversões, ou elas se constituem como verdadeira perda de tempo, de modo que outros entretenimentos ser-te-iam mais saudáveis e produtivos?

6. Tens considerado de que Deus te dá o tempo para empregá-lo na tua santificação e salvação? Consideras que esta vida é passageira, e que aqui jamais terás um repouso permanente e completo? Consideras que este mundo é um desterro, porque estás aqui para conquistar a vida eterna? Tens administrado sábia e prudentemente o tempo, ou confias que sempre haverá tempo para corrigir os teus desperdícios?

22 de julho de 2010

Constituição Benedictus Deus - Papa Bento XII

CONSTITUIÇÃO BENEDICTUS DEUS

BENTO XII
BISPO, SERVO DOS SERVOS DE DEUS
PARA PERPÉTUA MEMÓRIA DA MATÉRIA

Por esta constituição, que permanecerá perpetuamente em vigência, Nós, com apostólica autoridade, definimos:
Que, conforme a disposição geral de Deus, as almas de todos os santos que partiram deste mundo antes da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim como as dos santos apóstolos, mártires, confessores, virgens e dos outros fiéis que morreram após o recebimento do santo batismo de Cristo – dado que não tinham necessidade de serem purificadas ao morreram, ou não há de ser quando no futuro morrerem, ou se, então, nelas tiver havido algo a purificar e tiverem sido purificadas após a morte – e as almas das crianças renascidas pelo mesmo batismo de Cristo e das que serão quando forem batizadas, e morreram antes do uso do livre-arbítrio, logo depois de sua morte e da purificação mencionada aos que precisavam de tal purificação, mesmo antes de reassumir os seus corpos e antes do juízo universal, após a ascensão ao céu de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, estiveram, estão e estarão no céu, no reino dos céus e no paraíso celeste, com Cristo, junto da companhia dos santos Anjos.
E que depois da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo viram e vêem a essência divina com uma visão intuitiva e até face a face – sem a mediação de qualquer criatura como objeto de visão, mas a essência divina se revela a eles de forma imediata, desnuda, clara e manifesta –; e que aqueles que vêem assim, gozam plenamente da mesma essência divina, e, dessa forma, por essa visão e fruição, as almas daqueles que já morreram são verdadeiramente bem-aventuradas e possuem a vida e o descanço eterno, como também as dos que mais tarde hão de morrer verão a essência divina e gozarão dela antes do juízo universal; e que esta visão da essência divina a sua fruição fazem cessar nessas almas os atos de fé e de esperança, uma vez que a fé e a esperança são propriamente virtudes teologais; e, depois que esta visão intuitiva face a face e esta fruição teve e tiver nelas início, esta visão e fruição – sem qualquer interrupção ou privação desta visão e fruição –, permanecem ininterruptos e hão de assim continuar até o juízo final e, a partir dele, por toda a eternidade.
Definimos também que, de acordo com a geral disposição de Deus, as almas daqueles que morrem em pecado mortal atual, logo depois de sua morte descem ao inferno, onde com as penas infernais são atormentadas, e que, todavia, no dia do juízo, todos os homens hão de comparecer “diante do tribunal de Cristo” com os seus corpos para prestar contas de suas ações, “para que cada um receba o que lhe toca segundo o que fez quando estava no corpo, seja de bem ou de mal” (II Cor. V, 10).

Decretado no 29º dia de janeiro, do ano de Nosso Senhor de 1336, segundo de nosso pontificado.
Bento PP. XII

[Traduzido por Marcos Vinicius Mattke]