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1 de dezembro de 2019

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 2/2

Numa carta dirigida a importante Instituto exclusivamente dedicado ao ensino, Pio X abertamente manifestou o seu pensamento pelas palavras seguintes:
"Chega a nosso conhecimento que começa difundir-se uma opinião, segundo a qual, vós deveríeis considerar como coisa primária a educação das crianças e apenas como secundária a vossa profissão religiosa: que assim o exigiram o espírito e as necessidades dos tempos. De forma alguma queremos que tal opinião encontre o mínimo crédito, seja de vossa parte, seja da parte dos demais Institutos religiosos, que, como o vosso, tem por fim a educação. Fique, portanto, bem assente, na parte que vos toca, que a vida religiosa é muitíssimo superior à vida comum e que, se sois gravemente obrigados ao respeito do próximo pelo dever de ensinar, sobremodo mais graves são ainda as obrigações que vos vinculam a Deus. Mas não é porventura a aquisição da vida interior a razão de ser da vida religiosa, o seu fim principal?"
Vita contemplativa, diz o Angélico Doutor, simplíciter mélior est . . . et pótior quam activa.
S. Boaventura acumula os comparativos de superioridade para mostrar a excelência desta vida interior: Vita sublímior, secúrior, opuléntior, suávior, stabílior.
- Vita sublímior:
A vida ativa ocupa-se dos homens, a vida contemplativa faz-nos entrar no domínio das mais elevadas verdades, sem desfitar os olhares do próprio princípio de toda vida. Princípium quod Deus est quaeritur. Mais sublime, tem um horizonte e um campo de ação sobremaneira mais amplos: Martha in uno loco córpore laborabat circa áliqua, Maria in multis locis caritate circa multa. In Dei enim contemplatione et amore videt ómnia; dilatatur ad óminia, comprehendit et compléctitur ómnia, ita ut ejus comparatione, Martha sollícita dici possit circa pauca.
- Vita secúrior:
Menos perigo nela. Na vida exclusivamente ativa, a alma agita-se, torna-se febril, dispersa suas energias, e portanto, debilita-se. Há nela um tríplice defeito: Sollícita es: são as inquietações do pensamento, sollicitúdines in cogitatu; turbaris: eis as perturbações que originam as afeições, turbationes in affectu; enfim, erga plúrima: multiplicação de ocupações, de onde, divisão no esforço, nos atos, divisiones in actu. ao invés, uma só coisa se impõe para constituir a vida interior: a união a Deus: Porro unum est necessárium. O resto não é, não pode ser senão secundário, unicamente praticado em virtude dessa união e para a fortificar ainda mais.
- Vita opuléntior;
com a contemplação, todos os bens; Venerunt mihi ómnia bona páriter cum illa. É a parte sobre todas excelente: Óptimam partem elegit. A ela, afluem mais méritos. Por que? Porque aumenta ao mesmo tempo o esforço da vontade e o grau de graça santificante e faz que a alma opere por um princípio de caridade.
- Vita suávitor:
A alma verdadeiramente interior abandona-se à vontade de Deus, aceita com inalterável paciência assim as coisas agradáveis como as penosas, e há de até chegar a mostrar-se alegre no meio das aflições, feliz por carregar a sua cruz.
Vita stabílior:
Por mais intensa que seja, a vida ativa tem o seu termo neste mundo: pregações, ensinamentos, trabalhos de todo gênero, tudo isso cessa no limiar da eternidade. A vida interior, essa não conhece ocasao: Quae non auferetur ab ea. Por meio dela, a estância neste mundo não é mais que uma contínua ascensão para a luz, ascensão que a morte tornará incomparavelmente mais rutilante e mais rápida.
Para resumir as excelências da vida interior, podem-se-lhe aplicar estas palavras de São Bernardo; "Nela o homem vive com mais pureza, cai mais raramente, levanta-se com mais rapidez, anda com mais cautela, é consolado do céu com mais frequência, descansa mais seguro, morre mais confiado, purga-se mais depressa, e é premiado com mais vantagem."

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